Reforma da
Previdência – Fatos, não Mitos*
Klaus H. G. Rehfeldt
A aposentadoria constitui uma
garantia financeira, por isso tem caráter de sustento de vida e envolve
questões existenciais e, portanto, social e economicamente sensíveis. Porém,
problemas econômico-financeiros são de ordem numérica e suas soluções situam-se
no campo frio e objetivo das cifras, por mais que abram espaço para
interpretações especulativas, emotivas e subjetivas.
Fator
central de todo sistema de aposentadoria é o conjunto de fatores econômicos e
demográficos de uma sociedade que determinam suas caraterísticas e seus
parâmetros. Partindo do fato de que exista uma base econômica sólida e de
perspectivas futuras favoráveis, o foco da viabilidade desse sistema desloca-se
para os aspectos demográficos. Como se trata de um âmbito em constante processo
de mudanças, aspectos derivados de seus dados requerem permanente análise e
adaptações.
No caso da aposentadoria, as mudanças no perfil demográfico de uma
sociedade têm um papel central. O Brasil encontra-se inserido num número
pequeno de países com expressivas mutações demográficas ao longo das últimas
décadas. Um dos dados mais expressivos é a queda de taxa de fecundidade da
mulher brasileira de 6,2 filhos na década de ’60 para o atual 1,7 filho. Daí
resultou uma redução da taxa de crescimento anual da população de 2,89% para
0,38% no mesmo período.
Nesse aspecto, é importante observar que no mesmo espaço de tempo a
expectativa de vida ao nascer cresceu de 56,3 (1964) para 76,0 anos, fato que
atuou como atenuante sobre a queda do índice de crescimento demográfico. Por
outro lado, a expectativa de vida para as pessoas com 60 anos de vida aumenta
hoje para mais 20,9 anos, passando para 80,9 anos. Nesse aspecto é preciso
apontar que o aumento de expectativa de vida não se limita à faixa da população
idosa, mas que todas as faixas etárias gozaram de um prolongamento. – São
ganhos enormes.
Estes dados em mutação provam claramente a necessidade de uma mudança
radical na configuração dos parâmetros configuradores de um sistema de
aposentadoria sadio e economicamente viável. Qualquer construção minimamente
honesta de contestação ou de perspectivas negativas não poderá furtar-se da
presença de tais realidades demográficas, impedindo assim a criação de mitos nem
sempre imbuídos de índole nobre.
*Publicado no
NSC Santa, de 03.04.2019
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