sábado, 6 de abril de 2019

Sinais Despercebidos



Sinais Despercebidos*)

Klaus H. G. Rehfeldt

Um crescimento populacional inicialmente lento, mas crescentemente vigoroso caracteriza a história demográfica do Brasil durante os últimos 5 séculos. O aumento demográfico vegetativo, foi potencializado pela sucessiva e contínua vinda de portugueses, escravos africanos e imigrantes europeus e asiáticos. Altíssimos índices de fertilidade, apesar de elevadas taxas de mortalidade infantil atuaram na mesma direção. 

A primeira mudança nessa dinâmica demográfica surgiu em meados do século 20 exatamente com relação a este último aspecto. Com o firme ingresso da mulher no mundo do trabalho e o paralelo aparecimento de anticonceptivos eficazes e baratos, entre outras razões de menor expressão, o índice de fecundidade caiu de 6,21 filhos por mulher em 1960 para atuais 1,7 filho, número insuficiente para garantir uma população estável. Os efeitos deste fenômeno passaram praticamente despercebidas devido a migrações internas de áreas econômica e estatisticamente desinteressantes em direções a regiões mais pujantes e no foco de contínua observação, preservando a imagem distorcida do habitual aumento populacional. Tais regiões situam-se principalmente no Sudeste e sul do país, incluindo o Vale do Itajaí.

            Como consequência direta registrou se no mesmo intervalo de tempo (1960 – 2017) uma constante queda no crescimento demográfico anual de 2,9% para 0,7%**), projetando uma estagnação para o início da década de 2030. Este decréscimo também foi praticamente ignorado pelas mesmas razões acima mostradas. Fator importante para tal dinâmica passar quase despercebida é a heterogeneidade com que essa involução demográfica ocorreu nas variais regiões do Brasil. Assim, na mente do brasileiro, seja ele indivíduo, empresa ou administrador pública, estava (e continua) enraizada a realidade do crescimento ininterrupto.

            Recentes dados publicados pelo IBGE revelam pela primeira vez fatos inusitados. Um deles, provando a mencionada diversidade demográfica, foi a constatação de crescimento populacional negativo em 25% dos municípios brasileiros.

             E Blumenau? Durante 16 décadas polo de absorção migratória internacional e doméstica, o município ainda não percebeu sua nova realidade demográfica. E basta observar um dado incontestável: as matrículas totais no ensino fundamental caíram continuamente desde 2007 até 2015 de 42.505 para 38.124 alunos, uma queda de 10%, que parece ainda não ter sido percebida pelos órgãos municipais de planejamento, que ainda operam com crescimento populacional de absolutamente irreais e injustificáveis 2% ao ano até 2035.

*) Publicado no Jornal de Santa Catarina, em 9/10.09.2017
**) 0,6% em 2018 

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