Sinais Despercebidos*)
Klaus H. G. Rehfeldt
Um crescimento populacional inicialmente lento, mas
crescentemente vigoroso caracteriza a história demográfica do Brasil durante os
últimos 5 séculos. O aumento demográfico vegetativo, foi potencializado pela
sucessiva e contínua vinda de portugueses, escravos africanos e imigrantes
europeus e asiáticos. Altíssimos índices de fertilidade, apesar de elevadas
taxas de mortalidade infantil atuaram na mesma direção.
A primeira mudança
nessa dinâmica demográfica surgiu em meados do século 20 exatamente com relação
a este último aspecto. Com o firme ingresso da mulher no mundo do trabalho e o paralelo
aparecimento de anticonceptivos eficazes e baratos, entre outras razões de
menor expressão, o índice de fecundidade caiu de 6,21 filhos por mulher em 1960
para atuais 1,7 filho, número insuficiente para garantir uma população estável.
Os efeitos deste fenômeno passaram praticamente despercebidas devido a
migrações internas de áreas econômica e estatisticamente desinteressantes em
direções a regiões mais pujantes e no foco de contínua observação, preservando
a imagem distorcida do habitual aumento populacional. Tais regiões situam-se
principalmente no Sudeste e sul do país, incluindo o Vale do Itajaí.
Como
consequência direta registrou se no mesmo intervalo de tempo (1960 – 2017) uma constante
queda no crescimento demográfico anual de 2,9% para 0,7%**), projetando uma
estagnação para o início da década de 2030. Este decréscimo também foi
praticamente ignorado pelas mesmas razões acima mostradas. Fator importante
para tal dinâmica passar quase despercebida é a heterogeneidade com que essa
involução demográfica ocorreu nas variais regiões do Brasil. Assim, na mente do
brasileiro, seja ele indivíduo, empresa ou administrador pública, estava (e
continua) enraizada a realidade do crescimento ininterrupto.
Recentes
dados publicados pelo IBGE revelam pela primeira vez fatos inusitados. Um deles,
provando a mencionada diversidade demográfica, foi a constatação de crescimento
populacional negativo em 25% dos municípios brasileiros.
E Blumenau? Durante 16 décadas polo de
absorção migratória internacional e doméstica, o município ainda não percebeu
sua nova realidade demográfica. E basta observar um dado incontestável: as
matrículas totais no ensino fundamental caíram continuamente desde 2007 até
2015 de 42.505 para 38.124 alunos, uma queda de 10%, que parece ainda não ter
sido percebida pelos órgãos municipais de planejamento, que ainda operam com
crescimento populacional de absolutamente irreais e injustificáveis 2% ao ano
até 2035.
*) Publicado no Jornal de Santa
Catarina, em 9/10.09.2017
**) 0,6% em 2018
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