quinta-feira, 11 de abril de 2019

Ser Refugiado


Ser Refugiado.

Klaus H. G. Rehfeldt

Recentemente, um membro do parlamento alemão, perguntado sobre sua opinião a respeito dos refugiados provenientes de áreas de conflito e em direção à Alemanha, respondeu de forma inusitada – na qualidade de refugiado na Segunda Guerra gostaria de abster-se de uma resposta com as palavras “uma vez refugiado, refugiado pelo resto da vida”.
            Inesperadamente, o Brasil está se tornando destino de refugiados da vizinha Venezuela onde as condições de vida tornam-se dia a dia mais precárias, onde pais não conseguem garantir o sustento de seus filhos, nem assegurar padrões mínimos de saúde, circunstâncias eventualmente agravadas por discordância política. Inesperadamente e de forma absolutamente despreparada sem a noção mínima do que significa ser refugiado.
A percepção e o entendimento de boa parte da população, mas também das autoridades, de que refugiado (não migrante econômico) é simplesmente alguém que optou por procurar melhores condições de vida, como se se tratasse de alguém que muda da cidade grande para o interior em busca de maior tranquilidade. Os recentes acontecimentos em Roraima espelham bem esta postura. Refugiar-se não é nada disso.
Na realidade envolve decisões dramáticas. No início está a protelação, a esperança que algo vai mudar na última hora – em geral uma ilusão. Em seguida: para onde ir? Com quantas dificuldades, quantos riscos? Qual rota a tomar, se é que há alternativas? Depois: o que levar? Isso significa decidir entre o racional e o emocional; as fotos da família ou um par de sapatos, um brinquedo para as crianças ou um casaco? O que posso abandonar ao longo do caminho quando as forças nos abandonam? O que posso ter esquecido? Tudo acompanhado de uma pergunta de fundo: um dia voltarei? Respostas difíceis.
Então, o momento inevitável. Você fecha as cortinas e a torneira do gás, desliga a luz, sai da porta, vira a chave que guarda no bolso – para nunca mais usar. Atrás fica o resultado de uma vida que se torna passado. À frente, o desconhecido; um futuro incerto, sem objetivos, sem perspectivas. Apenas esperanças, até aquela de um dia voltar...
Não é uma simples mudança. É o início de um novo status: o de refugiado, possivelmente para o resto da vida, cujas dimensões só compreende quem já viveu esta experiência dolorosa.



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