Ser Refugiado.
Klaus H. G. Rehfeldt
Recentemente,
um membro do parlamento alemão, perguntado sobre sua opinião a respeito dos
refugiados provenientes de áreas de conflito e em direção à Alemanha, respondeu
de forma inusitada – na qualidade de refugiado na Segunda Guerra gostaria de
abster-se de uma resposta com as palavras “uma vez refugiado, refugiado pelo
resto da vida”.
Inesperadamente, o Brasil está se
tornando destino de refugiados da vizinha Venezuela onde as condições de vida
tornam-se dia a dia mais precárias, onde pais não conseguem garantir o sustento
de seus filhos, nem assegurar padrões mínimos de saúde, circunstâncias
eventualmente agravadas por discordância política. Inesperadamente e de forma
absolutamente despreparada sem a noção mínima do que significa ser refugiado.
A percepção e o entendimento de boa
parte da população, mas também das autoridades, de que refugiado (não migrante
econômico) é simplesmente alguém que optou por procurar melhores condições de
vida, como se se tratasse de alguém que muda da cidade grande para o interior em
busca de maior tranquilidade. Os recentes acontecimentos em Roraima espelham
bem esta postura. Refugiar-se não é nada disso.
Na realidade envolve decisões
dramáticas. No início está a protelação, a esperança que algo vai mudar na
última hora – em geral uma ilusão. Em seguida: para onde ir? Com quantas
dificuldades, quantos riscos? Qual rota a tomar, se é que há alternativas? Depois:
o que levar? Isso significa decidir entre o racional e o emocional; as fotos da
família ou um par de sapatos, um brinquedo para as crianças ou um casaco? O que
posso abandonar ao longo do caminho quando as forças nos abandonam? O que posso
ter esquecido? Tudo acompanhado de uma pergunta de fundo: um dia voltarei?
Respostas difíceis.
Então, o momento inevitável. Você
fecha as cortinas e a torneira do gás, desliga a luz, sai da porta, vira a
chave que guarda no bolso – para nunca mais usar. Atrás fica o resultado de uma
vida que se torna passado. À frente, o desconhecido; um futuro incerto, sem
objetivos, sem perspectivas. Apenas esperanças, até aquela de um dia voltar...
Não é uma simples mudança. É o início
de um novo status: o de refugiado, possivelmente para o resto da vida, cujas
dimensões só compreende quem já viveu esta experiência dolorosa.
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