A
Ilusão do Crescimento sem Fim
(Extraído
do meu livro "2050 d.C. /
Prosperidade sem Crescimento - e sem Propriedade", no
prelo da Chiado Editora, Lisboa.
Lançamento
no Brasil, dezembro 2016)
Klaus H.
G. Rehfeldt
Durante os últimos dois séculos, a sinergia entre
industrialização crescente e aumento populacional estabeleceu os parâmetros
básicos para o crescimento econômico como fator constante e onipresente das
projeções micro- e macroeconômicas. Assim, tradicionalmente, os economistas
formularam, e continuam formulando, suas teses e previsões como se este
crescimento fosse um ingrediente sine qua
non para o desenvolvimento, a prosperidade e a felicidade da humanidade. A
única variável a considerar é a taxa de crescimento. Obviamente há argumentos
que procuram justificar a necessidade de manter os mercados em crescimento
contínuo, entre os quais o mais sólido é a mais recente inclusão de cerca de
1,2 bilhões de novos consumidores no mercado global, oriundos de países em
desenvolvimento acelerado como China, Índia, Rússia, Brasil, África do Sul,
Nigéria etc. Neste contexto, o credo do crescimento sem fim não é
necessariamente uma ilusão, mas certamente a esperança, ou torcida, de que este
fim inexorável esteja ainda muito longe. Longe o suficiente para não ter de ser
tratado no presente.
[...]
A ilusão
para os menos informados e esperança para os mais perspicazes alimenta-se
fundamentalmente da constatação de uma realidade histórica – o aumento
populacional, especialmente aquele em ritmo exponencial observado nos últimos
dois séculos. Entretanto, alguns países da Europa Central e o Japão já estão
experimentando um crescimento negativo, e observa-se uma taxa média de
fertilidade abaixo 1,5 filho por mulher para a União Europeia. O ponto de crescimento
populacional zero é estabelecido em 2,1 filhos por mulher. [...]
Por continente /
subcontinente as taxas de fertilidade para 2015 foram: África – 4,7 filhos por
mulher, Austrália e Oceania – 2,5, Ásia – 2,2, América Latina e Caribe – 2,1,
América do Norte – 1,8, Europa – 1,6, Mundo – 2,5.
Estatisticamente,
mais da metade da população do planeta vive em países nos quais a taxa de
fertilidade é inferior à de manutenção quantitativa da população. Em alguns
países esta taxa já é preocupante; no Japão, Coreia do Sul, Alemanha, Portugal,
Itália, Ucrânia, Romênia, Sérvia, Polônia e Hungria nascem atualmente entre 1,2
e 1,4 filhos por mulher. Isso significa que cada geração subsequente é
numericamente cerca de um terço menor que a anterior. Em quase todos os países
da Europa, as famílias têm hoje um filho menos que aquelas de seus pais, e dois
menos que as de seus avós. Nos países em desenvolvimento, as mulheres têm até
de 2 a 3 filhos menos que suas mães. No Brasil, os filhos por mulher diminuíram
nos últimos 30 anos de 4,3 para 1,7, em Bangladesh, de 6,5 para 2,3, na
Turquia, de 4,2 para 2,0. Um caso extremo é o Irã com uma queda de 7,0 para 1.8
filhos por mulher.
Para o ano
de 2016 calcula-se com um crescimento populacional brasileiro de 0,80%, o que,
em termos práticos, já pode ser considerado irrelevante. Uma projeção dos dados
da tabela acima revela que entre 2028 e 2032 o crescimento da população do
Brasil atingirá o índice zero para, a partir de então, passar a ser negativo.
Segundo o IPEA, através da pesquisa do Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios
(PNAD) do mesmo ano, prevê o pico da população brasileira com 208 milhões de
pessoas para o ano 2030. A partir de então haverá um decréscimo populacional, o
mesmo instituto estimando para o ano de 2040 um Brasil com 205,6 milhões de
habitantes. Isso permite uma projeção de aproximadamente 203 milhões de
brasileiros para o ano 2050.
Este quadro está preocupando
pesquisadores sociais, especialmente com foco no futuro dos sistemas de
previdência social, porém poucos economistas e ainda menos administradores
públicos e de empreendimentos privados têm mostrado inquietação com relação a
esta projeção, pelo menos publicamente.
Excelente texto com uma visão de mestre.
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