domingo, 19 de maio de 2019

Idoso, Quem?



Idoso, Quem? *)

Klaus H. G. Rehfeldt

Quando hoje observamos um número crescente de pessoas com idade acima dos 70, até 80 anos participando ativamente da vida cotidiana e em total autonomia, fica cada vez mais difícil compreender que há duas gerações atrás, o vovô com 60 anos era considerado um velho, mais ou menos dependente da generosidade de filhos e netos.
O que aconteceu? Vários fatores, como a redução na mortandade infantil, o trabalho fisicamente menos desgastante, o aprimoramento dos recursos técnicos medicinais, maior acesso a suportes sociais, entre outros de menor efeito, causaram um fenômeno novo na história da humanidade: a recente mudança de uma expectativa quase estática abaixo dos 50 anos para outra em expansão a taxas nunca vistas. No Brasil, entre 1940 e 2015, a expectativa de vida aumentou em 30 anos (66,9%), passando de 44,5 para 75,5 anos. Somente nos últimos 5 anos, este aumento anual foi de quase 6 meses.   
Mas não só a idade cronológica da expectativa de vida aumentou. Como podemos observar, este aumento é acompanhado por um prolongamento da idade de vigor físico e mental. As ruas, os shoppings, os navios de cruzeiros estão repletos de pessoas que em meados do século passado, com a mesma idade, não saiam mais de casa, seja por debilidade física, seja por acomodação ou falta de ânimo. A vitimização pela idade está sendo substituída pela celebração do balanço positivo de uma vida realizada.
Legalmente somos idosos a partir dos 60 anos, o que foi estabelecido quando a esperança de vida era de 68,5 anos, reservando assim 14% da vida total para esta fase. Hoje são 27%, quase o dobro. E cada vez mais pessoas recusam-se a fazer uso de vagas preferenciais em supermercados, não por último para não se identificar com aquele velhinho curvado, de bengala na mão, símbolo indicador de preferência ao idosos.
Engana-se quem pensa que o aumento da expectativa de vida limita-se ao período da ‘terceira idade’; na verdade, todas as fases da vida se prolongaram. Hoje, com uma expectativa de vida de 76 anos, falta, portanto, uma redefinição da idade inicial que identifique uma pessoa como idoso – de preferência de forma progressiva para acompanhar a dinâmica da expectativa de vida, inclusive servindo de modelo para a determinação da idade limite para a aposentadoria.

*) Artigo publicado no Jornal de Santa Catarina em 15.04.2017


Um comentário:

  1. Um texto irretocável, como todos os do autor. Quem é o idoso na atualidade? 60 anos? A lei, a sociedade, o mercado de trabalho precisamos rever os conceitos e os preconceitos também

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