Os Filhos numa Perspectiva Econômica
(“Children in an Economic Perspective” - This text is written in
a way to ease a comprehensive electronic translation)
Klaus H. G. Rehfeldt
A natureza, diferentemente do mundo anorgânico, apenas existe em
decorrência de sua capacidade da reprodução. E não é uma reprodução qualquer,
mas há um ‘programa’ minuciosamente adaptado a vários fatores condicionantes: a
capacidade de sobrevida da nova geração, o equilíbrio entre as espécies e a
cadeia alimentar integrada entre flora e fauna. Tudo isso, dos musgos às
sequoias, dos protozoários às baleias.
A sujeição passiva da espécie homo a alguns determinismos
biológicos foi gradualmente rompida a partir do momento em que a humanidade
adquiriu habilidades que conseguiam dominar, corrigir ou contornar alguns mecanismos
naturais, melhorando assim suas condições existenciais. Fora desse controle
ficou o processo reprodutivo, incluindo a taxa de fertilidade da mulher. A população
dessa espécie crescia ou diminuía de acordo com a condições que a natureza
oferecia. Sendo um ser social, a vida transcorria na família ou no grupo sem
maiores objetivos ou perspectivas. Ela simplesmente era vivida e reproduzida,
gerando filhos que representavam mais ônus do que bônus.
A fixação na terra e a urbanização criaram novas condições
de vida ao homem em processo de formação de sociedades, não sem reflexos sobre
a prole. As circunstâncias mudaram, não necessariamente a realidade. As
concentrações humanas ofereciam maior cooperação entre as pessoas às custas de
condições sanitárias mais precárias. Doenças eram frequentes e a mortalidade
infantil era alta. Por outro lado, a criança ganhava desde cedo um status
econômico nas atividades da família, seja no campo, seja no ofício. Ela passou
a significar mão de obra gratuita e a contribuir para o sustento da família, até
constituir sua própria família. Nesse quadro, embora os bens e patrimônios
fossem pouco expressivos, a transmissão entre gerações seguia o padrão do
herdeiro único, o filho mais velho ou o mais novo, sempre com a obrigação do
amparo aos pais na velhice. Mesmo em tempos pós-medievais, com as taxas de crescimento
populacional oscilando em torno de 0,2% ao ano, o número de filhos não
contemplados com a herança era baixo. Em estruturas predominantemente rurais com
os bens limitados ao mínimo necessário, a desigualdade econômica e social entre
o lavrador (em geral arrendatário) e o empregado não era grande. Ao mesmo tempo
em que os bens de raiz das famílias cresciam muito lentamente, grandes
contingentes de jovens contribuíram na construção de novas prosperidades em
terras longínquas e desconhecidas, enquanto outros morriam em guerras
intermináveis diante de canhões inimigos.
A revolução industrial mexeu expressivamente nessa
situação, oferecendo incontáveis novas oportunidades, inclusive na selvagem forma
do trabalho infantil com vínculo empregatício. Foi também uma revolução social,
distanciando cada vez mais os filhos ricos dos pobres num ambiente de concentrações
urbanas como jamais visto antes. Na presença de patrimônio e recursos, os
filhos tornaram-se multiplicadores de riquezas, na sua ausência,
multiplicadores de miséria. Porém, o ensino público ganhou espaço, resultando
em filhos mais instruídos que os pais e, por conseguinte, prontos para
oportunidades melhores numa economia em expansão horizontal e vertical. No
aspecto demográfico, padrões melhores de higiene e avanços medicinais começaram
a mostrar lenta diminuição nos índices de mortandade infantil, dando início a uma
expansão demográfica inusitada. Por outro lado, bens patrimoniais pulverizaram-se
cada vez mais entre proles numerosas.
Começando em fins do século 19 e ao longo de todo o
século 20, contínuas melhorias sanitárias e progressos na medicina gradativamente
mais acessíveis a uma população em desenvolvimento econômico, fizeram com que a
população mundial mais que quadruplicasse de cerca de 1,5 para 7 bilhões de
habitantes. A paralela economia aflorante de consumo ganhou constantes impulsos
de uma população em expansão ininterrupta de 2% e mais ao ano. Mais filhos,
mais consumidores, maior desenvolvimento econômico e tecnológico. Afluxos de emergentes
de camadas de baixa renda engrossaram a classe média e cada vez mais filhos
ingressaram ativamente num mundo econômico promissor. Muitos filhos passaram a
significar muitas chances.
Dois aspectos causaram uma ruptura nessa evolução.
Um, bem conhecido, foi o surgimento da pílula anticoncepcional, dando à mulher
a chance de entrar no mercado de trabalho e abandonar seu confinamento
doméstico através do possível controle no número da prole. O segundo, menos notório,
mas beneficiado pelo mesmo recurso fármaco de controle, foi o custo de vida – também
dos filhos – em permanente elevação, decorrente de infraestruturas
crescentemente complexas e caras, das condições de vida mais sofisticadas, e
dos excessos da economia de consumo. Em apenas meio século, a taxa de
fertilidade brasileira caiu de mais de 6 para 2 filhos por mulher. No período
de julho 2020 e junho de 2021, o saldo positivo entre nascimentos e óbitos foi
de somente 0,4%, o que leva o país a uma inexorável entrada num período de
crescimento populacional negativo. Apenas
um aumento na expectativa de vida (com limite e prazo certos) está retardando essa
breve inversão demográfica.
Com que consequências econômicas? Uma população
menor tende a significar menos produção, mas não precisa significar menor
produtividade. Isso, em caso extremo, pode resultar um Produto Interno Bruto (PIB)
global negativo, mas per capita, positivo. Nada impede que, com população menor,
nosso conhecimento aumente e se amplie, o progresso tecnológico continue e a
prosperidade cresça. E, além de um crescimento por fatores econômicos,
tecnológicos e estruturais, haverá outro enriquecimento: o da concentração de
riquezas existentes em cada vez menos mãos. Um exemplo de como isso funciona,
embora aqui de forma repentina e dramática: a cidade de Florença perdeu 4/5 de
sua população durante a grande peste, concentrando os valores materiais nos
restantes 20% da população original; poucas décadas depois começaram a surgir
gigantescas e suntuosas obras e toda uma revolução cultural e artística do emergente período renascentista. – Benvindos a um
mundo menor, melhor e com filhos felizes.
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