quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Coisas do Mercado



Coisas do Mercado.

Klaus H. G. Rehfeldt

Três dias antes do solstício de verão do ano de 2853 antes de Cristo, Jida, sem saber que este era o ano e morador do vilarejo de Sabn, na Mesopotâmia, deixa sua casa ao nascer do sol em direção ao mercado da cidade próxima, Ur, carregando nas costas um cabrito e duas medidas de cevada. Depois de várias tentativas consegue achar um tecelão disposto a trocar o cabrito por um bom pedaço de linho, que deverá vestir sua filha Siha em seu casamento. Não é do tamanho, nem da qualidade que ele esperava, mas como o leite da cabra foi também consumido pela família, o cabrito era um pouco magro. A segunda compra foi um jarrão de argila para o preparo do vinho da festa em pagamento da cevada. Jida voltou para casa satisfeito; sua próxima visita ao mercado de Ur demoraria anos.
Quando o vulcão Tambora irrompeu na Indonésia em 1815 liberou uma nuvem de enxofre que circundou e se fixou ao redor da Terra durante dois anos. Além de mais de 10 mil mortes diretas, as consequências foram catastróficas: monções retardados, mas com inundações violentas na Índia, uma epidemia de cólera que se alastrou pelo mundo nas duas décadas seguintes, e em todo o hemisfério norte um ano sem verão – e um ano sem colheitas. Então, comerciantes espertos, percebendo a situação ainda na fase da semeadura, compraram todas as reservas de grãos dos lavradores a preços convidativos, condenando estes, obviamente menos informados, a morrer de fome nos meses seguintes.
Ano 2019: entre o primeiro clique e a conclusão da compra online passam-se menos de cinco minutos e depois de 15 dias e percorrer uma distância de mais de 20 mil quilômetros, o produto é entregue em casa. 
Desde seu papel primitivo de oferecer excedentes agrícolas à venda nas cidades emergentes até seus modernos mecanismos envolvendo e interconectando praticamente toda a população do planeta, o mercado reuniu necessidade e benefício em sua função de parte central da economia. Desde sempre, utilidade, escassez e abundância das mercadorias e seu valor objetivo e subjetivo determinaram os preços, e a história dos meios de pagamento vai do escambo à moeda eletrônico, passando por conchas, pepitas de ouro e letras de câmbio.
Um sistema simples e compreensível a todos tornou-se complexo e quase imperscrutável quando os próprios meios de pagamento sem valor intrínseco se tornaram mercadoria e atividades especulativas de elevado risco inseriram segmentos inteiros na economia moderna. Se, por uma lado, o mercado se ampliou em extensão, diversidade e especificidades, por outro, num processo de continua evolução, ganhou facetas e mecanismos cada vez mais sofisticados e requintados – sempre inclusos no preço do produto.
E novas modalidades, particularidades inéditas e estratégias surpreendentes surgirão com as previsíveis mudanças nos fatores condicionantes do seu funcionamento. Aspectos como,
- estagnação demográfica, apontando para um crescimento negativo,
- inflação baixa e decrescente,
- o crescente desinteresse pela propriedade em troca do acesso ao produto por arrendamento,
- as incertezas para o trabalho do futuro, e
- acima de tudo, uma população mais bem informada e de conhecimento aprimorado,
todos interdependentes e se retroalimentando mutuamente, tendem, por exemplo, a inibir o sistema de crédito destinado ao consumo com evidentes reflexos sobre os juros e a subtrair riscos gerais do mercado.
Falar em juros sugere lembrar o fato de o mundo árabe islâmico condenar a cobrança de juros (um preceito derivado da proibição do juro no cristianismo de primeira hora). Esconde-se atrás disso um filosofia de vida muito sábia: “Se eu disponibilizo minhas sobras àqueles que podem utilizá-los para melhorar suas vidas, sem nada cobrar por isto, contribuo para a ventura da minha sociedade, proporcionando-me novas oportunidades e mais prosperidade – mais lenta, mas mais solidamente. Você sempre viverá melhor como próspero entre iguais, do que como rico no meio da pobreza”. Um bom passo em direção à igualdade social.


domingo, 27 de outubro de 2019

Mudanças, Muitas Mudanças. E Depois?



Mudanças, Muitas Mudanças. E Depois?

Klaus H. G. Rehfeldt

            A própria vida é um processo contínuo de mudanças. Ela é uma sequência de mudanças inicialmente evolutivas, mais tarde para passando para involutivas e acabando com uma mudança radical – sua extinção pela morte. Na existência da espécie humana sobre a Terra podemos registrar um paralelo até o estágio atual, embora restrito à primeira fase. De mudança em mudança percorremos o caminho do homem primitivo ao atual estado civilizatório. Mudanças lentas e com episódios espaçadas, às vezes regressivas, ganham dinâmica maior na medida em que o homem desenvolve ciências, ‘tecnologias’ e habilidades da pedra lascada à estação espacial, passando pela invenção do arado, da roda, da vela e a geração de energia.    
Mas também ouve momentos de transformações realmente revolucionárias como a introdução do cultivo da terra, o surgimento da sociedade assalariada e a invenção da cibernética com as respectivamente consequentes mudanças sociais, econômicas, políticas e culturais.
Se a dimensão das mudanças surpreende, a aceleração do ritmo com que aconteceram assusta. Foram cerca de 300 mil anos para o homem descobrir as vantagens do plantio dos primeiros grãos e da domesticação de animais, meros 10 mil anos para a passagem da sociedade agrícola para a assalariada, e apenas 2 séculos para, através da tecnologia da informação, a substituição do trabalho humano pela robotização, e, na sua extensão, do trabalho mental pela inteligência artificial. Atualmente, a velocidade com que o conhecimento e a tecnologia avançam é tal que as mudanças mais significativas, que ainda no século passado se processavam ao longo de uma ou duas gerações, ocorrem em períodos inferiores a dez anos.
Os resultados disso estão se evidenciando. Por um lado, a organização social e política não consegue adaptar-se com a mesma velocidade com que as transformações ocorrem e geram consequências, desde comportamentais (ativas e reativas) a legais.
Por outro, e mais dramático, configuram-se as projeções desta realidade sobre o indivíduo. Nessa dimensão encontram-se pessoas de certa idade que, apesar de boa formação escolar e um sólido passado profissional, precisam recorrer aos netos para explorar os recursos de seu smartphone, mas também o jovem que por carência de escolaridade e conhecimento não preenche os requisitos mínimos para ter chances profissionais no moderno mundo de trabalho. O primeiro caso não tem solução enquanto esta geração estiver viva, já o segundo exige medidas radicais na área de educação, de preferência uma reforma total da educação, da concepção à aplicação, visando um preparo profissional mais eficaz.
Nada indica um alteração no ritmo com que surgem avanços científicos e tecnológicos geradores de novas mudanças e transformações até nos fundamentais parâmetros existenciais; mais provável é uma continua aceleração no progresso tecnológico. Encontramo-nos no início de uma nova revolução tecnológica – a inteligência artificial (IA), por enquanto ainda na fase da chamada IA fraca, ou seja, até o momento, por exemplo, ela seria incapaz (ainda) de programar o processo produtivo circular a partir do produto final preestabelecido. Porém, a IA desenvolver-se-á à sua perfeição e à produção de lucros fabulosos. Depois desta, a próxima provável revolução tecnológica não deve demorar a acontecer.
É preciso ter em mente a palavra ‘provável’. A razão é simples. Atualmente já existem na China, na Índia, no Brasil e em praticamente todos os países emergentes, mas também nos Estado Unidos e outros países desenvolvidos, bilhões de pessoas ainda presas na chamada old economy sem haver perspectiva de tirá-las dessa situação. Beneficiar-se das conquistas tecnológicas não significa participar delas. Mesmo uma maciça expansão do setor de serviços não promete ser uma resposta efetiva e suficiente. Por outro lado, uma introdução a médio prazo de mecanismos de amparo socioeconômico como a renda universal básica pode resolver somente parte do problema. Continuarão abertas questões como: O que será do homem desocupado? Quais efeitos psicossociais serão desencadeados nessa população socioeconomicamente descolada e marginalizada? Que possíveis atrofiamentos físicos e mentais poderão resultar de um estado permanente de inatividade? Que universo de pessoas terá participação ativa nas tecnologias da respectiva última geração? E por fim, serão os regimes democráticos capazes de acolher e enfrentar tais realidades e oferecer soluções a essas sociedades econômica, social e, com resultado, politicamente desarticuladas?
Urge pensar em respostas efetivas e com aplicação no curto e médio prazo!            


sexta-feira, 25 de outubro de 2019

Aumento Populacional sem Crescimento



Aumento Populacional sem Crescimento

Klaus H.G. Rehfeldt

O título soa estranho, incoerente, mas, vejamos:
Recentemente, o IBGE publicou que a população brasileira ultrapassou a marca dos 210 milhões de habitantes em julho deste ano. Trata-se, no caso, de uma estimativa; um censo geral deverá ocorrer somente no próximo ano. No mesmo contexto, anunciou um crescimento demográfico de 0,78% no espaço de 2018 a 2019, fato comemorado com destaque pela mídia nacional.
            Na realidade não se trata de um crescimento, mas sim, de um mero aumento de habitantes. Esses dois conceitos são aparentemente sinônimos, têm, porém, características bastante distintas. Dois outros dados do mesmo instituto esclarecem essa divergência.
            A permanente queda na taxa de fertilidade da mulher brasileira ao longo das últimas seis décadas para o atual 1,7 filho por mulher (insuficiente para a reposição da população) redundou, como não podia ser diferente, na primeira redução da base da pirâmide etária na década de 1980, até então no formato de um perfeito cone. Esta redução nas populações infantis e jovens continua e o antigo cone está se assemelhando cada vez mais a uma cebola.
            A queda nesse segmento populacional é significativa com uma queda percentual de 29,6% para 21,3% de participação na população total do ano 2000 até hoje. Isso são atualmente cerca de 300 mil pessoas por ano a menos entrando na vida economicamente ativa – como geradores de riquezas e como consumidores. Há, sim, um crescimento negativo nas faixas etárias baixas.
            Na ponta da pirâmide etária há outra particularidade, apontando na direção contrária – a elevação da expectativa de vida. Num processo que já dura todo o último século observamos um ganho de longevidade nos brasileiros com 65 e mais anos. Esta parte da população aumento desde o ano 2000 de uma participação de 5,9% para atuais 9,2% na totalidade da população – um aumento atual de cerca de 525 mil pessoas por ano. O perfil econômico desse segmento, porém, caracteriza-se por baixa atividade produtiva e um estreitamento e empobrecimento de renda e consumo.
            As mesmas tendência de mudanças há, em escala menor, nas respectivas faixas etária adjacentes. Tirando diferenças regionais, o Brasil não vive mais um crescimento populacional, mas mero ganho numérico, o que explica grande parte dos problemas econômicos atuais do Brasil – o desemprego não deslinda tudo.
           

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Desemprego ou Despreparo?



Desemprego ou Despreparo?

Klaus H. G. Rehfeldt

O desemprego, principalmente quando se apresenta em escala maior, costuma ser tratado como se fosse um fenômeno de força maior. Ocorre que desemprego não é causa, é efeito. Efeito de duas circunstâncias claramente definíveis: a falta de trabalho ou a falta de preparo para o trabalho. Dos atuais cerca de 12 milhões de desempregados no Brasil certamente um grande número de atingidos é composto de profissionais qualificados que não encontram colocação por falta de vagas, ou porque estas estão sendo preenchidas por pessoas mais jovens, devido à situação conjuntural, ou ainda, em razão da eliminação de determinadas atividades por meio de processos de digitalização, automação ou robotização em curso em quase todas as áreas econômicas. Para estes profissionais resta esperar um reaquecimento da economia ou realizar uma reciclagem em outra direção profissional.
            Maior e mais preocupante é o imensa massa de desempregados ou subempregados sem preparo escolar e profissional. Deixou de existir a função do servente de serviços gerais, muito menos a do auxiliar dele, está desaparecendo o trabalhador rural e o safrista, nem o auxiliar de escritório ou o vendedor de temporada deve esperar perspectivas satisfatórias para o futuro. O emprego industrial está em contínuo desaparecimento, enquanto a prestação de serviços se expande e se fortalece no mercado, porém, com enorme diferença de requisitos profissionais, atualmente inexistentes ou insuficientes no mercado do trabalho. O déficit de profissionais na informática é emblemático.
            Houve e continua havendo quem, em vista dessa realidade, aposta na concorrência através da mão de obra barata, não se importando com os consequentes índices baixíssimos de produtividade comuns no Brasil. Políticos de esquerda e sindicatos visam assim atender às peculiaridades – de despreparo – de grande parte da mão de obra disponível, ao mesmo tempo imaginando vantagens competitivas especialmente no mercado externo. Um absoluto paralogismo. A baixa produtividade não é garantia para mais empregos ou a manutenção dos existentes, nem beneficia a concorrência no longo prazo; a baixa produtividade compromete a permanência dos locais de trabalho porque coloca em risco a sobrevivência do empregador, enquanto alta produtividade assegura melhores condições de competição e a expansão do negócio. O estabelecimento produtivo desbanca a concorrência, se expande, abre filiais ou franquias, até fora do mercado doméstico – e cria novos empregos. É nessa direção que se desenvolvem hoje as estratégias micro- e macroeconômicas.
Segundo o IBGE-PNAD/2018, a taxa de frequência líquida no ensino médio (15 a 17 anos) foi de 69,3%, ou seja, 30,7% dos alunos estavam atrasados ou tinham deixado a escola. Num outro vetor, com relação aos jovens de 15 a 29 anos, constatou-se que 24,0% não trabalham, nem estudavam ou se qualificavam – cerca de 8% da força de trabalho do Brasil. Além desses, o número de desempregados com até 24 anos de idade é de 5,6 milhões, perfazendo outros 5% da força de trabalho. Esses dois grupos totalizam 13% do potencial de trabalho brasileira, i.e., um em cada oito jovens, e é razoável concluir que nesse contingente se concentrem os jovens sem qualquer preparo profissional. Mesmo para uma país solidamente desenvolvido isso representaria um ônus social e econômico muito significativo.
O grave da situação é que esses jovens já estão aí e, por isso, uma reversão da situação exige medidas urgentes e rápidas não apenas por parte do governo, mas também da sociedade civil – sindicatos de classe, ONGs, e as próprias empresas (onde isso já vem acontecendo). Talvez haja necessidade de sacrificar ou reformatar outros programas políticos, econômicos ou sociais, mas se há empenho com sucesso garantido, esse é na educação. A falta de educação cria sucessivamente problemas sociais, de segurança e de saúde; com reversão garantida dos mesmos na proporção geométrica em que os níveis de educação melhoram. Não existe país neste mundo que tivesse sofrido algum prejuízo em consequência de excesso de conhecimento por parte de sua população – muito pelo contrário.
Os jovens de hoje sem propósitos, sem projetos e sem oportunidades, sem a chance de tornarem-se aptos para uma vida profissional satisfatória, serão os adultos de amanhã, frustrados, desiludidos, revoltados e dependentes do sistema social do estado pelo resto da vida.       

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Deflação



Deflação

Klaus H. G. Rehfeldt

Tecnicamente falando, uma situação deflacionária caracteriza-se pela queda geral de preços com duas causas principais: a falta de meios de pagamento, ou uma redução geral de demanda – a oferta é maior que a procura. E, numa visão geral dos economistas, a deflação é fator inibidor do desenvolvimento econômico devido ao desestímulo para o consumo. Alguns países, como o Japão, estão esvaziando esta argumentação.
O aparecimento episódico de um cenário deflacionário costuma decorrer de fatores conjunturais momentâneos decorrentes, por exemplo, de equívocos de política econômica ou por uma simples retração da demanda em função de uma inseguranças econômica generalizada. Diferente é a situação quando se trata de uma processo evolutivo que se inicia com o gradual declínio das taxas de inflação, resultando finalmente num estado deflacionário.
Esta é o atual quadro conjuntural do Brasil. Depois de um longo período de índices baixos e decrescentes da inflação, apesar de continuas tentativas de aquecimento do mercado mediante inventivos ao consumo e injeção de meios financeiros, o mês de setembro de 2019 encerrou com uma deflação de 0,04%. As tentativas de explicação foram muitas, como desemprego, falta de perspectivas econômicas positiva, etc.
Não contemplaram, porém, um aspecto importante. Por representar uma grandeza de fundo permanente, historicamente um vetor ascendente e de efeito geralmente positivo, mormente numa economia de consumo, as mudanças demográficas não costumam entrar nas reflexões macroeconômicas, exceto na questão do envelhecimento da sociedade pelo simples fato de constituir um problema previdenciário. Embora a idade máxima absoluta não tenha mudado significativamente ao longo dos últimos séculos, um número rapidamente crescente de pessoas aproxima-se desse limite, aumentando de forma expressiva o contingente da população idosa.
A outra ponta da escala etária tende a não ganhar a mesma atenção. Entretanto, desde o ano de 2000, a taxa de fertilidade da mulher brasileira situa-se inicialmente no nível de mera reposição da população com 2 filhos por mulher, passando em seguida para abaixo desse índice, ou seja, caindo continuamente para o atual 1,7 filho. Isso significa que desde então diminui ano a ano o número de novos consumidores. O Brasil só não apresenta um crescimento populacional negativo, porque o atual déficit de cerca de 300 mil nascimentos é compensado (e, ainda, superado) pelo ingresso e a permanência atuais de aproximadamente 525 mil pessoas 65+ no segmento dos idosos.
Com respeito à pressão deflacionária é preciso lembrar que, enquanto o potencial consumidor do idoso tende a diminuir em amplitude de produtos e quantidade com o envelhecimento da pessoa, este potencial ganha um espectro cada vez maior de produtos combinado com índices crescentes de descarte dos mesmos, uma vez que o número reduzido de filhos elimina e reutilização de roupas e brinquedos, por exemplo, pelos irmãos mais novos inexistentes. O encolhimento da base da pirâmide etária deverá projetar-se gradativamente sobre mercados específicos, começando, por exemplo, com artigos para bebês, depois passando para os brinquedos e o material escolar e assim por diante.
Tais aspectos demográficos certamente não respondem pela totalidade do índice deflacionário, mas certamente têm um peso importante na composição dos fatores que o compõe, e este peso deverá aumentar.   

domingo, 6 de outubro de 2019

Sofisma ou Fake News



Sofisma ou Fake News?

Klaus H. G. Rehfeldt

O assunto é recorrente na mídia, mas especialmente nas redes sociais: a invasão da Europa por migrantes islâmicos e sua suposta transformação da região para um continente islâmico. Mesmos no Brasil, a 10 mil quilómetros de distância e totalmente à margem desse contexto, tais notícias são veiculadas, talvez meramente pela questão religiosa. Ou por mero sensacionalismo. Por isso cabe um análise mais aprofundada.
Primeiramente cabe notar que depois de um ápice de movimentos migratórios, entre refugiados e migrantes econômicos para a Europa em 2015, constata-se uma contínua e constante queda para cerca a metade em 2018, sem falar que muitos estão voltando a seus países de origem. Atualmente entram na Europa cerca de 4 pessoas para casa 1.000 habitantes, ou seja, aproximadamente 0,4% de uma população de quase 750 milhões de habitantes com uma momentânea taxa de crescimento de 0,1%. Isso significa que, falando globalmente da Europa que possui realidades demográficas bastante diversas, esse continente estaria hoje sem a imigração registrando uma queda populacional de 0,3% (2,25 milhões de pessoas) ao ano. (Apenas a título de comparação e curiosidade: em 2018, a população da China não aumentou mais, mas encolheu em 700 mil pessoas.)
Com relação a uma suposta perda de hegemonia do cristianismo para o islamismo na Europa devido às diferentes taxas de fertilidades entre a população residente e os migrantes circulam informações e dados alarmantes. A realidade é outra. A atual taxa de fertilidade da mulher europeia é de 1,59 filhos, com o mínimo de 1,26 filhos em Malta e o máximo de 1,90 na França. Por outro lado, os principais países de origem de migrantes para a Alemanha (principal país receptor) são em ordem de grandeza e com as respectivas taxas de fertilidade: Síria (2,8 filhos por mulher), Iraque (4,3), Nigéria (5,4), Turquia (2,0), Afeganistão (4,4) e Irã (1,6).
Referente a este aspecto é importante salientar que a queda das taxas de fertilidade nos países desenvolvidos, especialmente na Europa, não decorre de qualquer capricho da natureza, mas da clara e decisiva resolução da mulher por menos filhos em benefício de autonomia social e econômica. E esta postura é rapidamente adotada pela mulher imigrante, seja como simples assimilação do modelo feminino da mulher europeia, seja por motivo de concorrência profissional.
Concluindo, percebem-se nítidas divergências entre os dados e as ameaças amplamente divulgadas e inocentemente compartilhadas nas mídias sociais e os dados efetivos. Além disso, uma oportuna reflexão: o que dizer de uma sociedade etnicamente estável (para não dizer pura) em declínio populacional irreversível num processo de encolhimento de seu potencial humano? Certamente não é uma perspectiva muito promissora para as gerações futuras.   



quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Julgar Quem, Julgar o Quê?



Julgar Quem, Julgar o Quê?

Klaus H. G. Rehfeldt

Observemos um desfile militar de milhares de militares de ambos os sexos. É um contingente de iguais milhares de pessoas diferentes, personalidades distintas, de variadas origens étnicas, mais ou menos jovens, mais ou menos bonitas, mais ou menos simpáticas, ricas ou pobres, ambiciosas ou letárgicas, inteligentes ou tolas etc., etc., etc. Todas essas diversidades desparecem sob uniformes idênticos e no cumprimento simultâneo e sincronizado das ordens dadas. E se um dos soldados no meio desse desfile marchar fora do passo?
O indivíduo ganha notoriedade como tal apenas quando sai do passo, seja por descuido, por discordância ou por inconformidade. De resto, padrões socioculturais, a língua e outros aspectos comuns são os uniformes que escondem, às vezes mimetizam, as singularidades dos componentes de uma sociedade.
O imenso universo de desigualdades presentes, mas não percebidas pelo prisma da coletividade, é essencial para a constituição e existência da nossa sociedade. Uma coletividade composta de seres absolutamente iguais se auto-extinguiria. Portanto, a diversidade e consequente pluralidade nas sociedades é nossa garantia de sobrevida como espécie. Um aspecto importante é a improvável mutabilidade das personalidades, e mesmo que um universos de indivíduos receba as mesmas chances em seu preparo para a vida, cada membro desse universo deverá utilizá-las diferentemente de acordo com suas inclinações, seu ego, seu caráter e as impressões digitais de sua singularidade.
            Tendo isso em mente, evidencia-se a insanidade do julgamento da pessoa pelo que ela representa e pelo que ela é como resultado dos atributos que a natureza lhe conferiu, ou os moldes que a sociedade e sua condição de vida lhe impuseram. Somos todos imperfeitos. O que, então, qualifica uma pessoa detentora de seus próprios defeitos a julgar as – supostas – imperfeições, os – possíveis – senões de seu próximo?
Cada um é o que é em grande parte por razões que independem de sua vontade, porém, cada um faz o que faz a partir de deliberações ou por falta delas. Não nos compete julgar o cleptomaníaco pela sua condição, mas cabe, sim, julgá-lo pela omissão do exercício de controle sobre seus impulsos. Salvo quando inimputáveis, somos todos responsáveis pelos nossos atos, sua justeza e suas consequências, ou as omissões dos atos que a vida em sociedade nos impõe. Meus atos, minhas atitudes e meu comportamento, estes sim, devem obedecer às normas da convivência que a coletividade espera de mim. Quando a harmoniosa relação de submissão do eu ao nós for quebrada exponho-me ao juízo da sociedade, seja pela autoridade instituída, seja pela manifestação do cidadão.
Embora haja uma absoluta e inquestionável clareza sobre a diferença entre o ‘ser’ e o ‘fazer’ (ou deixar de fazer), surpreende o enorme número de pessoas que não fazem, ou não conseguem fazer, o discernimento entre estes dois conceitos. Nos tempos da vida social exclusivamente real os julgamentos, cabíveis e indevidos, difundiam-se no restrito círculos de pessoas relacionadas, hoje eles são propagados entre universos imensuráveis pelos canais virtuais das redes (anti)sociais, por ignorância, por leviandade, por necessidade de autoafirmação ou autprojeção, ou por pura má-fé. Não sabem, aparentemente, estas pessoas que se envolvem num ato deliberado e, com isto, se tornam objeto de julgamento justificado pelas suas conceituações, tanto justas, quanto descabidas, impertinentes e intoleráveis – senão criminosos, quando tais juízos deixam a intimidade de suas mentes. Nas dimensões que a mídia moderna permite.
Quem eu sou só, cabe a mim julgar, o que faço, qualquer pessoas pode aprovar ou desaprovar. Cabe refletir!