Coisas do Mercado.
Klaus H. G. Rehfeldt
Três
dias antes do solstício de verão do ano de 2853 antes de Cristo, Jida, sem
saber que este era o ano e morador do vilarejo de Sabn, na Mesopotâmia, deixa
sua casa ao nascer do sol em direção ao mercado da cidade próxima, Ur,
carregando nas costas um cabrito e duas medidas de cevada. Depois de várias
tentativas consegue achar um tecelão disposto a trocar o cabrito por um bom
pedaço de linho, que deverá vestir sua filha Siha em seu casamento. Não é do
tamanho, nem da qualidade que ele esperava, mas como o leite da cabra foi
também consumido pela família, o cabrito era um pouco magro. A segunda compra
foi um jarrão de argila para o preparo do vinho da festa em pagamento da cevada.
Jida voltou para casa satisfeito; sua próxima visita ao mercado de Ur demoraria
anos.
Quando o vulcão Tambora irrompeu na Indonésia
em 1815 liberou uma nuvem de enxofre que circundou e se fixou ao redor da Terra
durante dois anos. Além de mais de 10 mil mortes diretas, as consequências
foram catastróficas: monções retardados, mas com inundações violentas na Índia,
uma epidemia de cólera que se alastrou pelo mundo nas duas décadas seguintes, e
em todo o hemisfério norte um ano sem verão – e um ano sem colheitas. Então, comerciantes
espertos, percebendo a situação ainda na fase da semeadura, compraram todas as
reservas de grãos dos lavradores a preços convidativos, condenando estes, obviamente menos informados, a morrer de fome nos meses seguintes.
Ano 2019: entre o primeiro clique e a
conclusão da compra online passam-se menos de cinco minutos e depois de 15 dias
e percorrer uma distância de mais de 20 mil quilômetros, o produto é entregue
em casa.
Desde seu papel primitivo de oferecer
excedentes agrícolas à venda nas cidades emergentes até seus modernos
mecanismos envolvendo e interconectando praticamente toda a população do
planeta, o mercado reuniu necessidade e benefício em sua função de parte
central da economia. Desde sempre, utilidade, escassez e abundância das
mercadorias e seu valor objetivo e subjetivo determinaram os preços, e a
história dos meios de pagamento vai do escambo à moeda eletrônico, passando por
conchas, pepitas de ouro e letras de câmbio.
Um sistema simples e compreensível a todos
tornou-se complexo e quase imperscrutável quando os próprios meios de pagamento
sem valor intrínseco se tornaram mercadoria e atividades especulativas de
elevado risco inseriram segmentos inteiros na economia moderna. Se, por uma
lado, o mercado se ampliou em extensão, diversidade e especificidades, por outro,
num processo de continua evolução, ganhou facetas e mecanismos cada vez mais sofisticados
e requintados – sempre inclusos no preço do produto.
E novas modalidades, particularidades
inéditas e estratégias surpreendentes surgirão com as previsíveis mudanças nos
fatores condicionantes do seu funcionamento. Aspectos como,
- estagnação
demográfica, apontando para um crescimento negativo,
- inflação baixa e
decrescente,
- o crescente
desinteresse pela propriedade em troca do acesso ao produto por arrendamento,
- as incertezas para
o trabalho do futuro, e
- acima de tudo, uma
população mais bem informada e de conhecimento aprimorado,
todos
interdependentes e se retroalimentando mutuamente, tendem, por exemplo, a
inibir o sistema de crédito destinado ao consumo com evidentes reflexos sobre
os juros e a subtrair riscos gerais do mercado.
Falar em juros sugere lembrar o fato de o
mundo árabe islâmico condenar a cobrança de juros (um preceito derivado da
proibição do juro no cristianismo de primeira hora). Esconde-se atrás disso um filosofia
de vida muito sábia: “Se eu disponibilizo minhas sobras àqueles que podem
utilizá-los para melhorar suas vidas, sem nada cobrar por isto, contribuo para
a ventura da minha sociedade, proporcionando-me novas oportunidades e mais prosperidade
– mais lenta, mas mais solidamente. Você sempre viverá melhor como próspero entre
iguais, do que como rico no meio da pobreza”. Um bom passo em direção à
igualdade social.
Excelente texto. De todo este contexto fica a certeza de que Jida com sua vida em Sabn era bem mais feliz do que se pode sonhar ser hoje e que o casamento de Siha deve, certamente, ter sido bem mais festivo e feliz do que os atuais. Bons tempos aqueles. Fiquemos pois, esperando por uma erupção mais "eficaz" que faça, enfim, a raça humana aprender a viver e a ser.
ResponderExcluir