quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Coisas do Mercado



Coisas do Mercado.

Klaus H. G. Rehfeldt

Três dias antes do solstício de verão do ano de 2853 antes de Cristo, Jida, sem saber que este era o ano e morador do vilarejo de Sabn, na Mesopotâmia, deixa sua casa ao nascer do sol em direção ao mercado da cidade próxima, Ur, carregando nas costas um cabrito e duas medidas de cevada. Depois de várias tentativas consegue achar um tecelão disposto a trocar o cabrito por um bom pedaço de linho, que deverá vestir sua filha Siha em seu casamento. Não é do tamanho, nem da qualidade que ele esperava, mas como o leite da cabra foi também consumido pela família, o cabrito era um pouco magro. A segunda compra foi um jarrão de argila para o preparo do vinho da festa em pagamento da cevada. Jida voltou para casa satisfeito; sua próxima visita ao mercado de Ur demoraria anos.
Quando o vulcão Tambora irrompeu na Indonésia em 1815 liberou uma nuvem de enxofre que circundou e se fixou ao redor da Terra durante dois anos. Além de mais de 10 mil mortes diretas, as consequências foram catastróficas: monções retardados, mas com inundações violentas na Índia, uma epidemia de cólera que se alastrou pelo mundo nas duas décadas seguintes, e em todo o hemisfério norte um ano sem verão – e um ano sem colheitas. Então, comerciantes espertos, percebendo a situação ainda na fase da semeadura, compraram todas as reservas de grãos dos lavradores a preços convidativos, condenando estes, obviamente menos informados, a morrer de fome nos meses seguintes.
Ano 2019: entre o primeiro clique e a conclusão da compra online passam-se menos de cinco minutos e depois de 15 dias e percorrer uma distância de mais de 20 mil quilômetros, o produto é entregue em casa. 
Desde seu papel primitivo de oferecer excedentes agrícolas à venda nas cidades emergentes até seus modernos mecanismos envolvendo e interconectando praticamente toda a população do planeta, o mercado reuniu necessidade e benefício em sua função de parte central da economia. Desde sempre, utilidade, escassez e abundância das mercadorias e seu valor objetivo e subjetivo determinaram os preços, e a história dos meios de pagamento vai do escambo à moeda eletrônico, passando por conchas, pepitas de ouro e letras de câmbio.
Um sistema simples e compreensível a todos tornou-se complexo e quase imperscrutável quando os próprios meios de pagamento sem valor intrínseco se tornaram mercadoria e atividades especulativas de elevado risco inseriram segmentos inteiros na economia moderna. Se, por uma lado, o mercado se ampliou em extensão, diversidade e especificidades, por outro, num processo de continua evolução, ganhou facetas e mecanismos cada vez mais sofisticados e requintados – sempre inclusos no preço do produto.
E novas modalidades, particularidades inéditas e estratégias surpreendentes surgirão com as previsíveis mudanças nos fatores condicionantes do seu funcionamento. Aspectos como,
- estagnação demográfica, apontando para um crescimento negativo,
- inflação baixa e decrescente,
- o crescente desinteresse pela propriedade em troca do acesso ao produto por arrendamento,
- as incertezas para o trabalho do futuro, e
- acima de tudo, uma população mais bem informada e de conhecimento aprimorado,
todos interdependentes e se retroalimentando mutuamente, tendem, por exemplo, a inibir o sistema de crédito destinado ao consumo com evidentes reflexos sobre os juros e a subtrair riscos gerais do mercado.
Falar em juros sugere lembrar o fato de o mundo árabe islâmico condenar a cobrança de juros (um preceito derivado da proibição do juro no cristianismo de primeira hora). Esconde-se atrás disso um filosofia de vida muito sábia: “Se eu disponibilizo minhas sobras àqueles que podem utilizá-los para melhorar suas vidas, sem nada cobrar por isto, contribuo para a ventura da minha sociedade, proporcionando-me novas oportunidades e mais prosperidade – mais lenta, mas mais solidamente. Você sempre viverá melhor como próspero entre iguais, do que como rico no meio da pobreza”. Um bom passo em direção à igualdade social.


Um comentário:

  1. Excelente texto. De todo este contexto fica a certeza de que Jida com sua vida em Sabn era bem mais feliz do que se pode sonhar ser hoje e que o casamento de Siha deve, certamente, ter sido bem mais festivo e feliz do que os atuais. Bons tempos aqueles. Fiquemos pois, esperando por uma erupção mais "eficaz" que faça, enfim, a raça humana aprender a viver e a ser.

    ResponderExcluir