Mudanças, Muitas Mudanças. E Depois?
Klaus H. G. Rehfeldt
A própria vida é um processo contínuo
de mudanças. Ela é uma sequência de mudanças inicialmente evolutivas, mais
tarde para passando para involutivas e acabando com uma mudança radical – sua
extinção pela morte. Na existência da espécie humana sobre a Terra podemos
registrar um paralelo até o estágio atual, embora restrito à primeira fase. De
mudança em mudança percorremos o caminho do homem primitivo ao atual estado
civilizatório. Mudanças lentas e com episódios espaçadas, às vezes regressivas,
ganham dinâmica maior na medida em que o homem desenvolve ciências, ‘tecnologias’
e habilidades da pedra lascada à estação espacial, passando pela invenção do
arado, da roda, da vela e a geração de energia.
Mas também ouve momentos de transformações
realmente revolucionárias como a introdução do cultivo da terra, o surgimento
da sociedade assalariada e a invenção da cibernética com as respectivamente
consequentes mudanças sociais, econômicas, políticas e culturais.
Se a dimensão das mudanças surpreende, a
aceleração do ritmo com que aconteceram assusta. Foram cerca de 300 mil anos
para o homem descobrir as vantagens do plantio dos primeiros grãos e da
domesticação de animais, meros 10 mil anos para a passagem da sociedade
agrícola para a assalariada, e apenas 2 séculos para, através da tecnologia da
informação, a substituição do trabalho humano pela robotização, e, na sua
extensão, do trabalho mental pela inteligência artificial. Atualmente, a
velocidade com que o conhecimento e a tecnologia avançam é tal que as mudanças mais
significativas, que ainda no século passado se processavam ao longo de uma ou
duas gerações, ocorrem em períodos inferiores a dez anos.
Os resultados disso estão se evidenciando. Por
um lado, a organização social e política não consegue adaptar-se com a mesma
velocidade com que as transformações ocorrem e geram consequências, desde
comportamentais (ativas e reativas) a legais.
Por outro, e mais dramático, configuram-se as
projeções desta realidade sobre o indivíduo. Nessa dimensão encontram-se
pessoas de certa idade que, apesar de boa formação escolar e um sólido passado
profissional, precisam recorrer aos netos para explorar os recursos de seu
smartphone, mas também o jovem que por carência de escolaridade e conhecimento
não preenche os requisitos mínimos para ter chances profissionais no moderno
mundo de trabalho. O primeiro caso não tem solução enquanto esta geração
estiver viva, já o segundo exige medidas radicais na área de educação, de
preferência uma reforma total da educação, da concepção à aplicação, visando um
preparo profissional mais eficaz.
Nada indica um alteração no ritmo com que
surgem avanços científicos e tecnológicos geradores de novas mudanças e
transformações até nos fundamentais parâmetros existenciais; mais provável é
uma continua aceleração no progresso tecnológico. Encontramo-nos no início de
uma nova revolução tecnológica – a inteligência artificial (IA), por enquanto
ainda na fase da chamada IA fraca, ou seja, até o momento, por exemplo, ela
seria incapaz (ainda) de programar o processo produtivo circular a partir do
produto final preestabelecido. Porém, a IA desenvolver-se-á à sua perfeição e à
produção de lucros fabulosos. Depois desta, a próxima provável revolução
tecnológica não deve demorar a acontecer.
É preciso ter em mente a palavra ‘provável’. A
razão é simples. Atualmente já existem na China, na Índia, no Brasil e em praticamente
todos os países emergentes, mas também nos Estado Unidos e outros países
desenvolvidos, bilhões de pessoas ainda presas na chamada old economy sem haver perspectiva de tirá-las dessa situação.
Beneficiar-se das conquistas tecnológicas não significa participar delas. Mesmo
uma maciça expansão do setor de serviços não promete ser uma resposta efetiva e
suficiente. Por outro lado, uma introdução a médio prazo de mecanismos de
amparo socioeconômico como a renda universal básica pode resolver somente parte
do problema. Continuarão abertas questões como: O que será do homem desocupado?
Quais efeitos psicossociais serão desencadeados nessa população
socioeconomicamente descolada e marginalizada? Que possíveis atrofiamentos
físicos e mentais poderão resultar de um estado permanente de inatividade? Que
universo de pessoas terá participação ativa nas tecnologias da respectiva
última geração? E por fim, serão os regimes democráticos capazes de acolher e
enfrentar tais realidades e oferecer soluções a essas sociedades econômica,
social e, com resultado, politicamente desarticuladas?
Urge pensar em respostas efetivas e com
aplicação no curto e médio prazo!
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