domingo, 27 de outubro de 2019

Mudanças, Muitas Mudanças. E Depois?



Mudanças, Muitas Mudanças. E Depois?

Klaus H. G. Rehfeldt

            A própria vida é um processo contínuo de mudanças. Ela é uma sequência de mudanças inicialmente evolutivas, mais tarde para passando para involutivas e acabando com uma mudança radical – sua extinção pela morte. Na existência da espécie humana sobre a Terra podemos registrar um paralelo até o estágio atual, embora restrito à primeira fase. De mudança em mudança percorremos o caminho do homem primitivo ao atual estado civilizatório. Mudanças lentas e com episódios espaçadas, às vezes regressivas, ganham dinâmica maior na medida em que o homem desenvolve ciências, ‘tecnologias’ e habilidades da pedra lascada à estação espacial, passando pela invenção do arado, da roda, da vela e a geração de energia.    
Mas também ouve momentos de transformações realmente revolucionárias como a introdução do cultivo da terra, o surgimento da sociedade assalariada e a invenção da cibernética com as respectivamente consequentes mudanças sociais, econômicas, políticas e culturais.
Se a dimensão das mudanças surpreende, a aceleração do ritmo com que aconteceram assusta. Foram cerca de 300 mil anos para o homem descobrir as vantagens do plantio dos primeiros grãos e da domesticação de animais, meros 10 mil anos para a passagem da sociedade agrícola para a assalariada, e apenas 2 séculos para, através da tecnologia da informação, a substituição do trabalho humano pela robotização, e, na sua extensão, do trabalho mental pela inteligência artificial. Atualmente, a velocidade com que o conhecimento e a tecnologia avançam é tal que as mudanças mais significativas, que ainda no século passado se processavam ao longo de uma ou duas gerações, ocorrem em períodos inferiores a dez anos.
Os resultados disso estão se evidenciando. Por um lado, a organização social e política não consegue adaptar-se com a mesma velocidade com que as transformações ocorrem e geram consequências, desde comportamentais (ativas e reativas) a legais.
Por outro, e mais dramático, configuram-se as projeções desta realidade sobre o indivíduo. Nessa dimensão encontram-se pessoas de certa idade que, apesar de boa formação escolar e um sólido passado profissional, precisam recorrer aos netos para explorar os recursos de seu smartphone, mas também o jovem que por carência de escolaridade e conhecimento não preenche os requisitos mínimos para ter chances profissionais no moderno mundo de trabalho. O primeiro caso não tem solução enquanto esta geração estiver viva, já o segundo exige medidas radicais na área de educação, de preferência uma reforma total da educação, da concepção à aplicação, visando um preparo profissional mais eficaz.
Nada indica um alteração no ritmo com que surgem avanços científicos e tecnológicos geradores de novas mudanças e transformações até nos fundamentais parâmetros existenciais; mais provável é uma continua aceleração no progresso tecnológico. Encontramo-nos no início de uma nova revolução tecnológica – a inteligência artificial (IA), por enquanto ainda na fase da chamada IA fraca, ou seja, até o momento, por exemplo, ela seria incapaz (ainda) de programar o processo produtivo circular a partir do produto final preestabelecido. Porém, a IA desenvolver-se-á à sua perfeição e à produção de lucros fabulosos. Depois desta, a próxima provável revolução tecnológica não deve demorar a acontecer.
É preciso ter em mente a palavra ‘provável’. A razão é simples. Atualmente já existem na China, na Índia, no Brasil e em praticamente todos os países emergentes, mas também nos Estado Unidos e outros países desenvolvidos, bilhões de pessoas ainda presas na chamada old economy sem haver perspectiva de tirá-las dessa situação. Beneficiar-se das conquistas tecnológicas não significa participar delas. Mesmo uma maciça expansão do setor de serviços não promete ser uma resposta efetiva e suficiente. Por outro lado, uma introdução a médio prazo de mecanismos de amparo socioeconômico como a renda universal básica pode resolver somente parte do problema. Continuarão abertas questões como: O que será do homem desocupado? Quais efeitos psicossociais serão desencadeados nessa população socioeconomicamente descolada e marginalizada? Que possíveis atrofiamentos físicos e mentais poderão resultar de um estado permanente de inatividade? Que universo de pessoas terá participação ativa nas tecnologias da respectiva última geração? E por fim, serão os regimes democráticos capazes de acolher e enfrentar tais realidades e oferecer soluções a essas sociedades econômica, social e, com resultado, politicamente desarticuladas?
Urge pensar em respostas efetivas e com aplicação no curto e médio prazo!            


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