Deflação
Klaus H. G. Rehfeldt
Tecnicamente
falando, uma situação deflacionária caracteriza-se pela queda geral de preços
com duas causas principais: a falta de meios de pagamento, ou uma redução geral
de demanda – a oferta é maior que a procura. E, numa visão geral dos
economistas, a deflação é fator inibidor do desenvolvimento econômico devido ao
desestímulo para o consumo. Alguns países, como o Japão, estão esvaziando esta argumentação.
O aparecimento episódico de um cenário
deflacionário costuma decorrer de fatores conjunturais momentâneos decorrentes,
por exemplo, de equívocos de política econômica ou por uma simples retração da
demanda em função de uma inseguranças econômica generalizada. Diferente é a
situação quando se trata de uma processo evolutivo que se inicia com o gradual
declínio das taxas de inflação, resultando finalmente num estado deflacionário.
Esta é o atual quadro conjuntural do Brasil.
Depois de um longo período de índices baixos e decrescentes da inflação, apesar
de continuas tentativas de aquecimento do mercado mediante inventivos ao
consumo e injeção de meios financeiros, o mês de setembro de 2019 encerrou com
uma deflação de 0,04%. As tentativas de explicação foram muitas, como
desemprego, falta de perspectivas econômicas positiva, etc.
Não contemplaram, porém, um aspecto importante.
Por representar uma grandeza de fundo permanente, historicamente um vetor
ascendente e de efeito geralmente positivo, mormente numa economia de consumo, as
mudanças demográficas não costumam entrar nas reflexões macroeconômicas, exceto
na questão do envelhecimento da sociedade pelo simples fato de constituir um
problema previdenciário. Embora a idade máxima absoluta não tenha mudado
significativamente ao longo dos últimos séculos, um número rapidamente
crescente de pessoas aproxima-se desse limite, aumentando de forma expressiva o
contingente da população idosa.
A outra ponta da escala etária tende a não
ganhar a mesma atenção. Entretanto, desde o ano de 2000, a taxa de fertilidade
da mulher brasileira situa-se inicialmente no nível de mera reposição da população
com 2 filhos por mulher, passando em seguida para abaixo desse índice, ou seja,
caindo continuamente para o atual 1,7 filho. Isso significa que desde então
diminui ano a ano o número de novos consumidores. O Brasil só não apresenta um
crescimento populacional negativo, porque o atual déficit de cerca de 300 mil
nascimentos é compensado (e, ainda, superado) pelo ingresso e a permanência
atuais de aproximadamente 525 mil pessoas 65+ no segmento dos idosos.
Com respeito à pressão deflacionária é
preciso lembrar que, enquanto o potencial consumidor do idoso tende a diminuir
em amplitude de produtos e quantidade com o envelhecimento da pessoa, este
potencial ganha um espectro cada vez maior de produtos combinado com índices
crescentes de descarte dos mesmos, uma vez que o número reduzido de filhos
elimina e reutilização de roupas e brinquedos, por exemplo, pelos irmãos mais
novos inexistentes. O encolhimento da base da pirâmide etária deverá
projetar-se gradativamente sobre mercados específicos, começando, por exemplo, com
artigos para bebês, depois passando para os brinquedos e o material escolar e
assim por diante.
Tais aspectos demográficos certamente não
respondem pela totalidade do índice deflacionário, mas certamente têm um peso
importante na composição dos fatores que o compõe, e este peso deverá aumentar.
De fato, uma situação a ser refletida e prevenida. Os próximos anos dirão e, principalmente, farão sentir o peso de realidades inimaginadas.
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