quarta-feira, 28 de abril de 2021

O Censo Demográfico Brasileiro

 

O Censo Demográfico Brasileiro

 

(“ The Brazilian Demographic Census” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Uma nação compõe-se de um território e sua população. Em tempos modernos, sem guerras e conflitos de fronteiras, o território é imutável. Já a população está sujeita a continuas variações. Um crescimento natural das populações ao longo do tempo é regra geral e realidade histórica. Muda a intensidade. Quando não são mais as guerras, doenças, catástrofes e fenômenos naturais com decorrentes períodos de fome, ocasionais crises conjunturais causadoras de restrições e migrações têm sido motivo para mudanças demográficas, via de regra, negativas.

Já na antiguidade, os países promoviam de tempos em tempos censos de seus habitantes, não por curiosidade, mas para poder avaliar o poder tributário e bélico do mesmo. Com diferentes intervalos, objetivos e métodos, essa prática vem se desenvolvendo até a atualidade. Nos respectivos interregnos, estimativas orientadas por diferentes critérios costumam ser realizados para identificar possíveis mudanças e tendências.

No Brasil, o último censo decenal foi realizado e 2010. O previsto para 2020 foi adiado para 2021 devido à pandemia da covid-19, quando foi suspenso por falta de dotação orçamentária. Isso é grave. Na última década vivemos vários momentos de instabilidade política e econômica com graves efeitos socioeconômicos. Pior ainda é o fato de o Brasil, como outros países, estar experimentando nas últimas duas décadas duas mudanças inusitadas e concomitantes: a redução de nascimentos e o aumento da expectativa de vida. A tabela a seguir permite uma visualização clara.

 

Ano

População

(milhão)

Taxa Fe

cundid.

(filhos/

mulher).

Nacimentos

(milhão)

Matrículas Ensino. Fundam.

(milhão)

Expextat.

Vida (anos)

2005

184,2

2,09

3,1

33.5

71,9

2019

210,1

1,70

2,9

26,9

76,6

         Fontes: IBGE e INPE

 

Entre 2005 e 2019, a população cresceu em 14,1% no período de 14 anos (média de 1,0%/ano; em 2019 já foi apenas 0,7%). Parte do período corresponde a estimativas oficiais. Por outro lado, o número de nascimentos caiu no mesmo intervalo em 6,5% (média de 0,5%/ano). Na mesma direção, mas com valores bem mais significativos, vemos as matrículas no ensino fundamental em 19,7% (média de 1,4%/ano); este dado é concreto, pois resulta do censo escolar. A queda da taxa de fecundidade para baixo do índice de reposição populacional reforça esse quadro. O aparente contrassenso entre o aumento da população e a redução de nascimentos, ou taxa de fecundidade, explica-se pela expressiva elevação da expectativa de vida. As pessoas que pelos dados históricos deviam morrer em determinado ano sobrevivem esse prazo por mais algum tempo.

Os valores significativos revelam os graves riscos com que se revestem as estimativas quando feitas por longos períodos, especialmente quando estimativas são feitas em cima de outras, paralelas ou anteriores. As consequências podem ser sérias. A significância da exatidão de dados demográficos evidencia-se na seguinte evidenciação. O 1,4% de alunos a menos do ano de 2005 representa uma queda na mesma dimensão da população hoje economicamente ativa – como agente produtivo e como consumidor. Em outras palavras, num período de 14 anos haverá cerca de 20% menos novos produtores e consumidores de riquezas, em pequena parte compensados por consumidores (não produtores) mais longevos. Mas, com certeza, a cada ano será cerca de 1,5% a menos de pessoas a procurar uma moradia, jantar no restaurante, requerer a carteira de habilitação e a pagar imposto – com, ou sem erro de estimativa oficial. Não resta dúvida, portanto, que qualquer inexatidão poderá resultar em decisões políticas e econômicas potencialmente erradas. Torcemos que o censo nacional não seja novamente postergado, pois pandemia e estimativa demográfica não são compatíveis.

 

Nota: O livro “O Brasil de Menos Gente”: Rehfeldt, Klaus; Amazon e-book; 2020, aborda amplamente a demografia brasileira e suas projeções para o futuro.     

 

segunda-feira, 26 de abril de 2021

Startups ad Infinitum

 

Startups ad Infinitum

 

(“Startups ad Infinitum” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translations)

 

Klaus H.G. Rehfeldt

 

O processo civilizatório do homem está intimamente associado ao avanço de sua habilidade de criar, desenvolver e manusear ferramentas que reduzissem e racionalizassem seu dispêndio de energia. As mais antigas destinam-se à defesa e à caça na forma da cunha de mão, da clava, e da lança. Ao longo de centenas, milhares de anos, materiais, técnicas e habilidades melhores aperfeiçoaram continuamente os instrumentos.

A incipiente agricultura e seu consequente sedentarismo, com novas tarefas e novas formas de dispêndio energético, clamou por novas ferramentas destinados ao preparo da terra: o machado, já conhecido como arma, e o arado, inicialmente de simples pontas, depois de pá. Mas também se inventaram o disco do oleiro, serras de pedra lascada e a broca de sílex. Sempre sob a mesma premissa – melhores ferramentas, menor gasto energético, melhores resultados.      

Com a urbanização nasceram as atividades extra-agricolas na forma dos ofícios com seus artesãos. Numa evolução do conhecimento, trabalhos cada vez mais especializados de pedreiros, carpinteiros, ferreiros e outros artesãos fizeram surgir ferramentas e instrumentos especiais, apropriados para cada trabalho e material.

Então, a revolução industrial e energética com inovações de grandes efeitos dinamiza os avanços tecnológicos nos processos de extração e composição de matérias primas e de industrialização, gerando riquezas e investimentos. Apesar das ferramentas e instrumentos, cada vez mais complexos e sofisticados, são 10 mil anos limitados à fruição e aplicação das leis da física e química.

Chegou o século XX e a partir dos primeiros passos da cibernética, a era digital. Convergiram no tempo as altíssimas complexidades tecnológicas de bens de produção e processos – o hardware – com o aparecimento de recursos eletrônicos capazes de operacionalizar e controla-las – o software. Em poucas décadas, os recursos digitais invadiram todos os setores da economia, da robótica ao lazer, bem como todos as áreas da vida cotidiana, da casa digital ao pix. Até então, qualquer inovação era concebida, projetada e desenvolvida com grande dispêndio de tempo, material e financeiro. Hoje, programa digitais são desenhados num laptop, no quarto de dormir ou na garagem de alguém, quando não numa ilha do Pacífico, em questão de tempo relativamente curto e por pessoas eventualmente autodidatas e não necessariamente com apurada qualificação técnica – as cada vez mais espantosas startups. Essas figuras têm diante de si ao mesmo tempo o projeto, os esboços preliminares, a construção do protótipo, o banco de ensaios e a pesquisa de mercado para o produto. São os moldadores, fundidores e torneiros de novas ideias, novos conceitos. E se multiplicam rapidamente, acumulando sucesso e resultados expressivos em pouco tempo, muitas vezes sem qualquer capital.

No Brasil, atualmente 16 startups alcançaram o status de unicórnio, ou seja, de empreendimentos que valem mais de 1 bilhão de dólares, sendo que o primeiro surgiu em 1998. E há outros tantos a caminho do mesmo êxito, inclusive podendo partir de puro amadorismo. O conhecimento tornou-se um capital expressivo, às vezes o único – imaterial, intangível e imensurável. E para a transformação do conhecimento em produto já existirem investidores para os quais a criatividade e o pioneirismo das startups representam aplicação de baixo risco e isento de crise.

Não existe solo mais fértil que o conhecimento para a criatividade brotar e a solução se concretizar. As ferramentas de hoje são fórmulas em formato de software que dão resposta a necessidades concretas e abstratas, criando as próprias instrumentos físicas. São ferramentas invisíveis, mas com poder de causar até profundas mudanças comportamentais – até culturais.

Cada conhecimento novo traz em si novas perguntas, cujas respostas levam a novos conhecimentos. O conhecimento se reproduz em progressão geométrica. Uma projeção ad infinitum para startups e similares. 

   

terça-feira, 20 de abril de 2021

A Globalização em Marcha à Ré?

 A Globalização em Marcha à Ré?

 

(“Globalization in the Reverse Gear? - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translations)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Depois do mercantilismo ter se revelado ineficaz, durante séculos, os países europeus economicamente mais desenvolvidos lutaram em busca de um máximo de autonomia econômica, ou seja, independência de mercados externos. Contavam extensão territorial e recursos naturais disponíveis. A formação de colônias na África, América e Ásia constituiu-se na solução quase ideal.

O século XX com duas guerras mundiais e o desmoronamento do sistema colonial trouxe novos arranjos econômicos, como, p.ex., a ocupação de espaços economicamente esvaziados pelas destruições, principalmente por empresas norte-americanas. Paralelamente surgiu a formação de uniões de interesse econômicos, como a União de Carvão e Aço entre vários países da Europa.

Ao longo daquele século cristalizou-se uma nova racionalidade econômico e geopolítico: cada sociedade concentra-se naquilo que tem melhores condições de realizar. Tais condições incluíam disponibilidade de recursos naturais, tecnologia, mão-de-obra e infraestrutura. A Comunidade Europeia à frente conseguiu levar esse modelo a um bom nível de sucesso, passando a servir de exemplo para outras uniões econômicas, como o Mercosul, ou ASEAN. Simultaneamente, numerosos Encontros de Cúpula G-7, G-8, G-20 etc., além de objetivos políticos, reforçaram e consolidaram a ideia da interconexão das economias – da Globalização. O sucesso foi inegável.

Assim, o Comércio Internacional cresceu nas últimas 5 décadas duas vezes mais rápido que o PIB mundial. A tecnologia validou a globalização em seus aspectos práticos e operacionais, facilitando o funcionamento de complexas cadeias de fornecimento e produções em escala, mas também tecnológicos e culturais. Ao mesmo tempo e em formatos mais específicos, muitos tratados bi- e multilaterais buscam cooperações econômicas convergentes e mutuamente benéficas.

Mesmo assim, algumas uniões econômicas nunca conseguiram colocar os interesses da respectiva união acima dos interesses dos membros, como no caso do Mercosul. Outras, não por último em virtude de suas heterogeneidades econômicas, políticas e sócias, vivem até hoje sérios conflitos internos de interesse, e até evasão, como se observa no caso de Brexit.

O que não estava nos planos de convênios, das convenções e dos pactos foi o inesperado surgimento de uma pandemia, que repentinamente exigiu medidas e respostas locais, regionais e nacionais, não raro em desconformidade com o conjunto das sociedades membros de alianças. Consequência imediata foi o fechamento de fronteiras com o decorrente colapso do tráfego internacional e a implosão do turismo. Ao mesmo tempo, evidenciou-se a vulnerabilidade de determinadas nações em decorrência do outsourcing total de determinados ramos de atividade para outros países, como no exemplo da indústria farmacêutica mundial concentrada na China e na Índia. Repentinamente, todas as fragilidades revelaram-se concomitantemente, levando a um caos de incertezas e gargalos.

Ainda nos encontramos em meio à pandemia e qualquer previsão para o futuro seria mera especulação. Fato é que se criaram e desenvolveram realidades econômicas irreversíveis no curto prazo. Por um lado, uma enorme parte dos processos industriais foram transferidos para mercados com baixo custo infraestrutural e de mão-de-obra, de onde deverão sair somente no médio e longo prazo com a expansão da industrialização robotizada dentro de um eventual processo de repatriação. Por outro, por exemplo os Estado Unidos jamais conseguem consumir sua própria produção de trigo, a Austrália não tem mercado consumidor interno para sua extração de carvão, e o Brasil com um rebanho de mais cabeça do que habitantes, uma produção de quase mil quilos de grãos por habitante e imensas reservas de minérios em exploração não consegue sobreviver economicamente sem o mercado exterior.

De fato, as nações não apresentam sinais de uma interiorização de seus mercados, uma vez que as regras da globalização se fundamentam em benefícios mútuos. Isso garante a continuidade do comércio internacional, não importa sob que formato de acordos. O capital continua existindo e fluirá pelo mundo.

Naturalmente, a pandemia e as decorrentes crises deixarão o mundo mais pobre por algum tempo, mas é bom lembrar que essa perda será muito inferior àquelas causadas pelas duas Guerras Mundiais, com as consequências conhecidas. E o covid-19 não apenas poupou a tecnologia, mas proporcionou-lhe impulsos comuns de épocas de crise e da posterior recuperação.

A globalização sofrerá, com certeza, inúmeras revisões e reformatações, mas não vai se extinguir, por mais que algumas vozes nacionalistas insistem em afirmar. Historicamente, com mais ou menos celeridade, benefícios mútuos sempre têm aproximado os povos.    

 

quarta-feira, 14 de abril de 2021

MEIs e Desemprego

 

MEIs e Desemprego

 

(“Individual Micro-Entrepreneurs and Unemployment” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translations)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Uma das áreas mais afetadas pela pandemia do covid-19 é, sem dúvida, o mercado de trabalho. Não necessariamente pelos efeitos patológicos diretos do vírus, mas pelas medidas restritivas no intuito da prevenção e da contenção da doença. É notório que tais medidas afetaram com bastante severidade alguns setores produtivos, de distribuição e de prestação de serviços. Especialmente empreendimentos econômica e financeiramente frágeis acabaram por encolher, ou até sucumbir.

Nesse contexto conjuntural, o aumento do desemprego é uma consequência direta. Em números concretos desenvolveu-se o seguinte quadro:  os 11,2% de desempregados (10,4 milhões) de dez. 2019 evoluíram para 14.6% (13,6 milhões) em dez. 2020 – aumento de 3,2 milhões de pessoas.

Porém, ao noticiar esses dados lamentáveis, outro fenômeno, igualmente importante e correlacionado, deixa de ser levado em consideração – o Microempreendedor Individual (MEI). Este trabalhador, de maneira geral, tem sua origem ocupacional no vínculo empregatício, ou no trabalho informal. Desde quando foi criado em 2011, a pessoa jurídica do MEI vem ganhando espaço no universo econômico e com boas razões é visto como a forma de trabalho do futuro. Uma das razões principais é o gradual fortalecimento do setor de serviços, contribuindo hoje com 70% no PIB e oferendo ótimas condições para esse regime de trabalho. As inúmeras oportunidades são preenchidas a partir da migração da mão-de-obra oriunda principalmente dos setores em processo de automação e robotização, mas fica praticamente vedada ao trabalhador sem qualificação.

No fim de 2019 havia um total de 9,4 milhões de MEIs registrados. Essa força de trabalho cresceu em significativos 20% ao longo de 2020 para 11,2 milhões de empreendimentos. Apenas no espaço de março – início da pandemia no Brasil – a dezembro de 2020 registrou-se um aumento de 1,3 milhão de novos CNPJs. Como são raros os casos de alguém entrar na vida profissional com a fundação de uma MEI, é lícito concluir que esses empreendedores vieram com o necessário conhecimento profissional de um anterior regime de vínculo empregatício, ou do trabalho informal. Além dos empreendimentos oficiais, muito provavelmente, outro contingente de mão-de-obra desempregada passou a engrossar um mercado de “MEIs informais”. Fato é, que futuramente não poderá haver análises do mercado de trabalho sem consideração da existência dos MEIs.

Com a devida atenção é possível observar uma intensificação no processo do empreendedorismo individual como consequência das condições impostas pela pandemia do covid-19. Por outro lado, esta realidade esvazia tentativas de agravar a situação de fato dramática do mercado de trabalho. Momentos de necessidade têm historicamente desafiado a coragem, a criatividade e os potenciais ocultos nas pessoas e não raro produzido resultados surpreendentes.

 


domingo, 11 de abril de 2021

Prosperidade e Desigualdade

 

Prosperidade e Desigualdade

 

(“Prosperity and Inequality” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translations)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

É clássica a divisão da sociedade no aspecto socioeconômico em pobres, classe média e ricos. Existem índices oficiais, nacionais e internacionais, que estabelecem valores de renda para a delimitação de tais categorias que não necessariamente definem ou espelham a percepção dos indivíduos de seu status econômico. Um cidadão de classe média, p. ex., pode facilmente considerar-se pobre ao ver o iate de 300 pés de seu primo rico.

            O ideal de uma sociedade igualitária é antigo, mas somente em visões filosóficas. As concepções de igualdade preconizados por ideários comunistas ou socialistas mais radicais através de mecanismos estatais de controle sobre a propriedade foram abandonadas. Em seu lugar entrou a busca pela redução das desigualdades, uma maneira de enfrentar as diferenças sociais dentro de uma compreensão mais capitalista de economia de mercado.

Na base da pirâmide de renda encontra-se a população mais pobre, ou em extrema pobreza, que, no caso brasileiro, é formada por 11% da população em 2019 (13% em 2021, depois de um ano de pandemia). Sua participação na economia nacional restringe-se basicamente ao valor distribuído pelo programa bolsa-família. Ao todo, cerca de 30% da população situa-se abaixo da linha de pobreza representando as assim chamadas classes D e E. A classe C, que constitui a classe média, perfaz aproximadamente 55% da população, e as classes A e B, ou ricas, cerca de 15%.   

Segundo estudo da FGV, cobrindo o período de 21 anos entre 2008 e 2018 observa-se aumento populacional de 3% nas classes A e B juntas, 6% na C, e uma diminuição de 9% nas D e E juntas. Isso faz conta da migração socioeconômica fechar: 9% das classes D e E avançaram para a classe C, de onde 3% passaram a integrar as classes A e B. (Obviamente, a pandemia causou uma ruptura nessa evolução com as perspectivas para o futuro totalmente em aberto.)    

Tomando-se o valor médio de renda estabelecido por classe (nas classes A e B, como não existe teto, um valor hipoteticamente estimado de R$ 25 mil), resultam as seguintes participações na renda nacional: classes A e B, R$ 750 bilhões (possivelmente mais), classe C, R$ 578 bilhões, e classe D e E, R$ 60 bilhões.

Um aumento de 3% na renda gerada pelas classes A e B representa um ganho de R$ 22,5 bilhões, o de 6% na pela classe C, um aumento de quase R$ 35 bilhões, e a diminuição da renda produzida perlas classes D e E de 9% perfaz uma perda de R$ 5,4 bilhões. Saldo positivo: R$ 52,1 bilhões. Em resumo, observa-se um aumento geral de prosperidade, acompanhado de uma migração também positiva entre as classes sociais.

No aspecto da desigualdade social, aplica-se geralmente o coeficiente, ou índice, de Gini, que mede a concentração de rendimentos; quanto mais perto de 0, maior a igualdade, e 1 revela a pior a distribuição possível de renda. No Brasil, de 2010 a 2019, a média móvel do índice Gini oscila relativamente estável entre 0,78 e 0,80, sem dúvida, um coeficiente lastimável. Para caso de aumento do índice, apresentam-se duas causas possíveis: aumento da parcela de pobres (classes D e E), ou o aumento da concentração da riqueza (classes A e B). Já numa redução do índice, nota-se uma aproximação entre as rendas produzidas entre pobres e ricos.

No caso brasileiro, a quase constância do índice Gini explica-se pela simultânea migração positiva das classes A, B e C, e aumento da riqueza nas D e E, (especialmente gerada no contexto tecnológico, p. ex., o surgimento de 11 unicórnios). Considerando o período pré-pandemia, a análise acima invalida a versão do aumento da pobreza no Brasil.

Tratando-se de um fenômeno sem precedentes, as consequências da pandemia do covid-19 sobre as dinâmicas sociais e econômicas são imprevisíveis. Enquanto os efeitos produzidos pela gripe espanhola não podem servir de parâmetro pela sua coincidência com aqueles da primeira guerra mundial, a peste negra na Idade Média causou profundas mudanças nas estruturas sociais e econômicas da época, dando um impulso extra na lenta evolução da humanidade havida até então. Veremos!

segunda-feira, 5 de abril de 2021

Homeschooling

 

Homeschooling

 (This text was written in a way to ease comprehensive electronic translations)


Klaus H. G. Rehfeldt

 

Um casal alemão com dois filhos em idade escolar vendeu sua casa, comprou um motorhome preparado para longo curso e partiu para uma viagem ao redor do mundo. Perguntados numa entrevista, enquanto em viagem entre o Marrocos e o Senegal, sobre a situação escolar dos filhos explicaram: existem atualmente exames oficiais que avaliam o conhecimento do aluno, não a forma como ele foi adquirido. Resolveram adotar um programa de homeschooling, reservando três horas diárias de estudo para os filhos, quando possível em afinidade com o ambiente de cada momento.

            O homeschooling, ou estudo doméstico, no nível fundamental, já a bastante tempo encontra-se devidamente aprovado e regulamentado em diversos formatos e vários países, como a Áustria, Dinamarca e Estados Unidos. Ele consiste basicamente numa forma de educação na qual as crianças são ensinadas em casa por pais ou por professores particulares. O espectro de modalidades varia de formas altamente estruturadas orientadas para a escolaridade tradicional a formas mais abertas, atendendo os interesses específicos do aluno. Não resta a menor dúvida, que a facilidade de obtenção de informações a partir de recursos de informática contribui hoje significativamente para o sucesso do sistema.  Até aqui, porém, o número de famílias que optam por esse tipo de ensino é bastante pequeno e a prática quase desconhecida pelo grande público.

Recentemente, o distanciamento social imposto pela pandemia do coronavírus obrigou o sistema educacional desenvolver e ajustar-se a novas técnicas e estratégias do ensino, recorrendo ao ensino a distância com o suporte que os recursos digitais oferecem. Obviamente, o imprevisto, a urgência e o despreparo técnico para tal mudança resultaram em erros e desacertos que, contudo, estão sendo corrigidos e superados. E, involuntariamente, está havendo uma certa aproximação do ensino tradicional aos conceitos de homeschooling, a ponto de o governo brasileiro começar a pensar em regulamentar tal modalidade de ensino.

É claro que nem todas as famílias encontram-se estruturalmente em condições para adotar um homeschooling, seja por disponibilidade de tempo, espaço ou recursos técnicos, seja pela própria formação escolar dos pais, sem a qual uma orientação nesse modelo fica bastante prejudicada. Além disso, os pais desses alunos devem estar cientes da necessidade de proporcionar outras opções para sua socialização, coisa que a escola propicia naturalmente. Na prática, observa-se que os alunos educados por esse sistema produzem notas acima da média nos exames (p.ex., teste realizado em 2009 com 12.000 alunos nos EUA). Além disso, as práticas de formas híbridas aprendidas no ensino formal nas atuais dificuldades da pandemia também deverão encontrar eco e aplicação no homeschooling.

Não podemos esquecer que as atuais estratégias e os objetivos no ensino requerem profundas mudanças para atender as necessidades do moderno mundo do trabalho, sabendo que a obtenção do conhecimento por meio de recursos digitais dispensa o professor em muitos casos e que o ensino do futuro valoriza crescentemente a capacidade de raciocínio dedutivo e criativo a partir de sólidos conhecimentos básicos, além de habilidades de comunicação em vários idiomas. Conhecimentos específicos são adquiridos por aqueles que os necessitam.

Hoje, um dos maiores indícios práticos do sucesso da autoeducação e do autodesenvolvimento, que são fazem parte indireta do homeschooling, é o crescente número de start-ups bem-sucedidos nos mais diversos ramos.

Como benefícios indiretos, os laços de família certamente resultam mais fortes do que hoje se observam em muitas famílias e está garantida uma atualização dos conhecimentos dos pais.  

 

quinta-feira, 1 de abril de 2021

Comunismo? Até Parece.

 

Comunismo? Até Parece.

(“Communism? As if.” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translations)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

O comunismo é uma concepção – entre outras – de como as pessoas poderiam ou deveriam viver no futuro. O comunista acredita que seria mais justo se todas as coisas importantes, especialmente recursos naturais, bens de produção e distribuição, fossem bens coletivos. Então não haveria mais pobres, nem ricos e nem guerras.

Trata-se uma forma utópica de estado na qual não há propriedade privada e toda a propriedade pertence a todos sob a tutela do estado. O conceito remonta aos escritos de Karl Marx e Friedrich Engels. No entanto, os sistemas de estado e governo que emergiram de suas teorias, como a União Soviética e as numerosas nações sob sua influência – ou domínio – política e econômica revelaram-se como inviáveis e não conseguiram sobreviver. Vale lembrar que nenhum desses regimes resultou de eleições livres, suas implantações sempre resultando de movimentos revolucionários e nenhum deles jamais funcionou em moldes efetivamente democráticos. 

Atualmente, apenas cinco países autodefinidos como comunistas permanecem. O maior deles é a China, com 1,3 bilhão de habitantes, que, no entanto, desde a década de 1980 tem perseguido uma política de reformas e abertura. Sob a caracterização de ‘um país, dois sistemas’, a economia de mercado opera basicamente de acordo com os métodos capitalistas. Politicamente cultiva-se a ideologia comunista, que, porém, só serve para preservar a ditadura do Partido Comunista.

No seu vizinho, o Vietnã, com seu Partido Comunista desde 1930 (ainda na luta contra o poder colonial da França), o Norte comunista venceu o regime do Sul, apoiado pelos EUA, e desde 1975 governa o país reunificado. A partir de 1986, reformas baseadas na economia de mercado encontram-se em vigor.

O Laos, vizinho pobre do Vietnã, também ex-colônia francesa e depois refúgio das forças comunistas vietnamitas, foi invadido pelo Vietnã, sofrendo a instalação do regime comunista em 1975. Passou a viver as mesmas reformas em direção à economia de mercado do Vietnã.

A também vizinha da China, Coreis do Norte, resultou da divisão da antiga Coreia, em 1948, conforme os interesses geopolíticos dos Estados Unidos e da União Soviética. Durante décadas viveu sob o guarda-chuva político e econômico da União Soviética e da China. Em 2009, retirou todas as referências ao comunismo de sua constituição, mas continua um regime unipartidário com o Partido dos Trabalhadores, com raízes no antigo Partido Comunista. Apesar da riqueza mineral, o país enfrenta vários problemas de ordem socioeconômica, buscando soluções na adaptação à economia de mercado.

Único país comunista fora da Ásia, Cuba voltou-se para esse regime depois da revolução de 1959 e buscou proteção econômica e militar da União Soviética contra o vizinho capitalista, os Estados Unidos, que anteriormente tinham grande influência na ilha. A partir de 2006, sob o comando de Raul Castro, Cuba vem tentando reformas de liberação econômica para impulsionar a economia doente do país.

Percebe-se claramente que todos os países mencionados, originalmente de rígida estrutura política comunista, abriram mão da essência socioeconômica desse ideário, unicamente preservando o regime político unipartidário e totalitário, agora sem ideologia e travestido de democracia. Na verdade, transformaram-se em ditaduras, até dinásticas, como na Coreia do Norte, tentando competir na economia de mercado globalizada. A igualdade econômica e social encontra-se concentrada na pobreza, exatamente aquela população que o comunismo visava beneficiar.

200 anos após seu surgimento, os escritos de Karl Marx continuam fundamentando princípios ideológicos, porém, com uma leitura de cunho antirrevolucionário e, em busca de harmonização com realidades econômicas atuais, sua atemporalidade ficará sacrificada.

O comunismo sucumbiu no confronto com o capitalismo, mas deu vida ao seu filho menos radical e mais flexível: o socialismo em suas várias nuances.