Prosperidade e Desigualdade
(“Prosperity and Inequality” - This text is written in a way to ease comprehensive
electronic translations)
Klaus H. G. Rehfeldt
É clássica a divisão da
sociedade no aspecto socioeconômico em pobres, classe média e ricos. Existem
índices oficiais, nacionais e internacionais, que estabelecem valores de renda
para a delimitação de tais categorias que não necessariamente definem ou espelham
a percepção dos indivíduos de seu status econômico. Um cidadão de classe média,
p. ex., pode facilmente considerar-se pobre ao ver o iate de 300 pés de seu
primo rico.
O ideal de uma sociedade igualitária é antigo, mas
somente em visões filosóficas. As concepções de igualdade preconizados por
ideários comunistas ou socialistas mais radicais através de mecanismos estatais
de controle sobre a propriedade foram abandonadas. Em seu lugar entrou a busca
pela redução das desigualdades, uma maneira de enfrentar as diferenças sociais
dentro de uma compreensão mais capitalista de economia de mercado.
Na base
da pirâmide de renda encontra-se a população mais pobre, ou em extrema pobreza,
que, no caso brasileiro, é formada por 11% da população em 2019 (13% em 2021,
depois de um ano de pandemia). Sua participação na economia nacional
restringe-se basicamente ao valor distribuído pelo programa bolsa-família. Ao
todo, cerca de 30% da população situa-se abaixo da linha de pobreza
representando as assim chamadas classes D e E. A classe C, que constitui a
classe média, perfaz aproximadamente 55% da população, e as classes A e B, ou
ricas, cerca de 15%.
Segundo
estudo da FGV, cobrindo o período de 21 anos entre 2008 e 2018 observa-se
aumento populacional de 3% nas classes A e B juntas, 6% na C, e uma diminuição
de 9% nas D e E juntas. Isso faz conta da migração socioeconômica fechar: 9%
das classes D e E avançaram para a classe C, de onde 3% passaram a integrar as
classes A e B. (Obviamente, a pandemia causou uma ruptura nessa evolução com as
perspectivas para o futuro totalmente em aberto.)
Tomando-se
o valor médio de renda estabelecido por classe (nas classes A e B, como não existe
teto, um valor hipoteticamente estimado de R$ 25 mil), resultam as seguintes
participações na renda nacional: classes A e B, R$ 750 bilhões (possivelmente
mais), classe C, R$ 578 bilhões, e classe D e E, R$ 60 bilhões.
Um
aumento de 3% na renda gerada pelas classes A e B representa um ganho de R$
22,5 bilhões, o de 6% na pela classe C, um aumento de quase R$ 35 bilhões, e a
diminuição da renda produzida perlas classes D e E de 9% perfaz uma perda de R$
5,4 bilhões. Saldo positivo: R$ 52,1 bilhões. Em resumo, observa-se um aumento
geral de prosperidade, acompanhado de uma migração também positiva entre as
classes sociais.
No aspecto
da desigualdade social, aplica-se geralmente o coeficiente, ou índice, de Gini, que mede a concentração de rendimentos; quanto mais perto
de 0, maior a igualdade, e 1 revela a pior a distribuição possível de renda. No
Brasil, de 2010 a 2019, a média móvel do índice Gini oscila relativamente
estável entre 0,78 e 0,80, sem dúvida, um coeficiente lastimável. Para caso de
aumento do índice, apresentam-se duas causas possíveis: aumento da parcela de
pobres (classes D e E), ou o aumento da concentração da riqueza (classes A e B).
Já numa redução do índice, nota-se uma aproximação entre as rendas produzidas
entre pobres e ricos.
No caso brasileiro,
a quase constância do índice Gini explica-se pela simultânea migração positiva
das classes A, B e C, e aumento da riqueza nas D e E, (especialmente gerada no
contexto tecnológico, p. ex., o surgimento de 11 unicórnios). Considerando o
período pré-pandemia, a análise acima invalida a versão do aumento da pobreza
no Brasil.
Tratando-se
de um fenômeno sem precedentes, as consequências da pandemia do covid-19 sobre
as dinâmicas sociais e econômicas são imprevisíveis. Enquanto os efeitos
produzidos pela gripe espanhola não podem servir de parâmetro pela sua coincidência
com aqueles da primeira guerra mundial, a peste negra na Idade Média causou profundas
mudanças nas estruturas sociais e econômicas da época, dando um impulso extra
na lenta evolução da humanidade havida até então. Veremos!
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