A Globalização em Marcha à Ré?
(“Globalization in the Reverse Gear?
- This text is written in a way to ease
comprehensive electronic translations)
Klaus H. G. Rehfeldt
Depois
do mercantilismo ter se revelado ineficaz, durante séculos, os países europeus
economicamente mais desenvolvidos lutaram em busca de um máximo de autonomia
econômica, ou seja, independência de mercados externos. Contavam extensão
territorial e recursos naturais disponíveis. A formação de colônias na África,
América e Ásia constituiu-se na solução quase ideal.
O século XX com duas guerras mundiais e o desmoronamento do
sistema colonial trouxe novos arranjos econômicos, como, p.ex., a ocupação de
espaços economicamente esvaziados pelas destruições, principalmente por
empresas norte-americanas. Paralelamente surgiu a formação de uniões de
interesse econômicos, como a União de Carvão e Aço entre vários países da
Europa.
Ao longo daquele século cristalizou-se uma nova racionalidade
econômico e geopolítico: cada sociedade concentra-se naquilo que tem melhores
condições de realizar. Tais condições incluíam disponibilidade de recursos
naturais, tecnologia, mão-de-obra e infraestrutura. A Comunidade Europeia à
frente conseguiu levar esse modelo a um bom nível de sucesso, passando a servir
de exemplo para outras uniões econômicas, como o Mercosul, ou ASEAN.
Simultaneamente, numerosos Encontros de Cúpula G-7, G-8, G-20 etc., além de
objetivos políticos, reforçaram e consolidaram a ideia da interconexão das
economias – da Globalização. O sucesso foi inegável.
Assim, o Comércio Internacional cresceu nas últimas 5 décadas
duas vezes mais rápido que o PIB mundial. A tecnologia validou a globalização
em seus aspectos práticos e operacionais, facilitando o funcionamento de
complexas cadeias de fornecimento e produções em escala, mas também
tecnológicos e culturais. Ao mesmo tempo e em formatos mais específicos, muitos
tratados bi- e multilaterais buscam cooperações econômicas convergentes e
mutuamente benéficas.
Mesmo assim, algumas uniões econômicas nunca conseguiram
colocar os interesses da respectiva união acima dos interesses dos membros,
como no caso do Mercosul. Outras, não por último em virtude de suas
heterogeneidades econômicas, políticas e sócias, vivem até hoje sérios
conflitos internos de interesse, e até evasão, como se observa no caso de
Brexit.
O que não estava nos planos de convênios, das convenções e dos
pactos foi o inesperado surgimento de uma pandemia, que repentinamente exigiu
medidas e respostas locais, regionais e nacionais, não raro em desconformidade
com o conjunto das sociedades membros de alianças. Consequência imediata foi o
fechamento de fronteiras com o decorrente colapso do tráfego internacional e a
implosão do turismo. Ao mesmo tempo, evidenciou-se a vulnerabilidade de
determinadas nações em decorrência do outsourcing total de determinados ramos
de atividade para outros países, como no exemplo da indústria farmacêutica
mundial concentrada na China e na Índia. Repentinamente, todas as fragilidades
revelaram-se concomitantemente, levando a um caos de incertezas e gargalos.
Ainda nos encontramos em meio à pandemia e qualquer previsão
para o futuro seria mera especulação. Fato é que se criaram e desenvolveram
realidades econômicas irreversíveis no curto prazo. Por um lado, uma enorme
parte dos processos industriais foram transferidos para mercados com baixo
custo infraestrutural e de mão-de-obra, de onde deverão sair somente no médio e
longo prazo com a expansão da industrialização robotizada dentro de um eventual
processo de repatriação. Por outro, por exemplo os Estado Unidos jamais
conseguem consumir sua própria produção de trigo, a Austrália não tem mercado
consumidor interno para sua extração de carvão, e o Brasil com um rebanho de
mais cabeça do que habitantes, uma produção de quase mil quilos de grãos por
habitante e imensas reservas de minérios em exploração não consegue sobreviver
economicamente sem o mercado exterior.
De fato, as nações não apresentam sinais de uma
interiorização de seus mercados, uma vez que as regras da globalização se
fundamentam em benefícios mútuos. Isso garante a continuidade do comércio
internacional, não importa sob que formato de acordos. O capital continua
existindo e fluirá pelo mundo.
Naturalmente, a pandemia e as decorrentes crises deixarão o
mundo mais pobre por algum tempo, mas é bom lembrar que essa perda será muito
inferior àquelas causadas pelas duas Guerras Mundiais, com as consequências
conhecidas. E o covid-19 não apenas poupou a tecnologia, mas proporcionou-lhe
impulsos comuns de épocas de crise e da posterior recuperação.
A globalização sofrerá, com certeza, inúmeras revisões e
reformatações, mas não vai se extinguir, por mais que algumas vozes nacionalistas insistem em afirmar. Historicamente, com mais ou menos
celeridade, benefícios mútuos sempre têm aproximado os povos.
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