terça-feira, 20 de abril de 2021

A Globalização em Marcha à Ré?

 A Globalização em Marcha à Ré?

 

(“Globalization in the Reverse Gear? - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translations)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Depois do mercantilismo ter se revelado ineficaz, durante séculos, os países europeus economicamente mais desenvolvidos lutaram em busca de um máximo de autonomia econômica, ou seja, independência de mercados externos. Contavam extensão territorial e recursos naturais disponíveis. A formação de colônias na África, América e Ásia constituiu-se na solução quase ideal.

O século XX com duas guerras mundiais e o desmoronamento do sistema colonial trouxe novos arranjos econômicos, como, p.ex., a ocupação de espaços economicamente esvaziados pelas destruições, principalmente por empresas norte-americanas. Paralelamente surgiu a formação de uniões de interesse econômicos, como a União de Carvão e Aço entre vários países da Europa.

Ao longo daquele século cristalizou-se uma nova racionalidade econômico e geopolítico: cada sociedade concentra-se naquilo que tem melhores condições de realizar. Tais condições incluíam disponibilidade de recursos naturais, tecnologia, mão-de-obra e infraestrutura. A Comunidade Europeia à frente conseguiu levar esse modelo a um bom nível de sucesso, passando a servir de exemplo para outras uniões econômicas, como o Mercosul, ou ASEAN. Simultaneamente, numerosos Encontros de Cúpula G-7, G-8, G-20 etc., além de objetivos políticos, reforçaram e consolidaram a ideia da interconexão das economias – da Globalização. O sucesso foi inegável.

Assim, o Comércio Internacional cresceu nas últimas 5 décadas duas vezes mais rápido que o PIB mundial. A tecnologia validou a globalização em seus aspectos práticos e operacionais, facilitando o funcionamento de complexas cadeias de fornecimento e produções em escala, mas também tecnológicos e culturais. Ao mesmo tempo e em formatos mais específicos, muitos tratados bi- e multilaterais buscam cooperações econômicas convergentes e mutuamente benéficas.

Mesmo assim, algumas uniões econômicas nunca conseguiram colocar os interesses da respectiva união acima dos interesses dos membros, como no caso do Mercosul. Outras, não por último em virtude de suas heterogeneidades econômicas, políticas e sócias, vivem até hoje sérios conflitos internos de interesse, e até evasão, como se observa no caso de Brexit.

O que não estava nos planos de convênios, das convenções e dos pactos foi o inesperado surgimento de uma pandemia, que repentinamente exigiu medidas e respostas locais, regionais e nacionais, não raro em desconformidade com o conjunto das sociedades membros de alianças. Consequência imediata foi o fechamento de fronteiras com o decorrente colapso do tráfego internacional e a implosão do turismo. Ao mesmo tempo, evidenciou-se a vulnerabilidade de determinadas nações em decorrência do outsourcing total de determinados ramos de atividade para outros países, como no exemplo da indústria farmacêutica mundial concentrada na China e na Índia. Repentinamente, todas as fragilidades revelaram-se concomitantemente, levando a um caos de incertezas e gargalos.

Ainda nos encontramos em meio à pandemia e qualquer previsão para o futuro seria mera especulação. Fato é que se criaram e desenvolveram realidades econômicas irreversíveis no curto prazo. Por um lado, uma enorme parte dos processos industriais foram transferidos para mercados com baixo custo infraestrutural e de mão-de-obra, de onde deverão sair somente no médio e longo prazo com a expansão da industrialização robotizada dentro de um eventual processo de repatriação. Por outro, por exemplo os Estado Unidos jamais conseguem consumir sua própria produção de trigo, a Austrália não tem mercado consumidor interno para sua extração de carvão, e o Brasil com um rebanho de mais cabeça do que habitantes, uma produção de quase mil quilos de grãos por habitante e imensas reservas de minérios em exploração não consegue sobreviver economicamente sem o mercado exterior.

De fato, as nações não apresentam sinais de uma interiorização de seus mercados, uma vez que as regras da globalização se fundamentam em benefícios mútuos. Isso garante a continuidade do comércio internacional, não importa sob que formato de acordos. O capital continua existindo e fluirá pelo mundo.

Naturalmente, a pandemia e as decorrentes crises deixarão o mundo mais pobre por algum tempo, mas é bom lembrar que essa perda será muito inferior àquelas causadas pelas duas Guerras Mundiais, com as consequências conhecidas. E o covid-19 não apenas poupou a tecnologia, mas proporcionou-lhe impulsos comuns de épocas de crise e da posterior recuperação.

A globalização sofrerá, com certeza, inúmeras revisões e reformatações, mas não vai se extinguir, por mais que algumas vozes nacionalistas insistem em afirmar. Historicamente, com mais ou menos celeridade, benefícios mútuos sempre têm aproximado os povos.    

 

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