sábado, 29 de outubro de 2022

Ad Astra, com Madeira

 

‘Ad Astra‘, com Madeira

('Ad Astra', with Wood - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

A madeira, onde disponível, é um dos materiais de construção mais antigos da humanidade. Do Neolítico à Idade do Bronze, restos de casas de palafita foram preservados, documentando uma cultura de construção em madeira, p. ex., na região do Lago Constance e do leste da Suíça. O material de construção foi obtido pela derrubada das florestas para terras aráveis e, devido à sua leveza e seu formato próprio, possibilitou a construção de casas sólidas e adequadas ao clima.

 

E a madeira permaneceu o material de construção mais importante até os tempos modernos. Os edifícios foram inicialmente erguidos principalmente de troncos horizontalmente sobrepostos em camadas reforçadas com cantos de encaixe, ou como construções com esqueletos em postes fincados no chão e paredes enrançados de vime e revestidos com argila ou barro, às vezes com pedras. O enxaimel em suas muitas variedades, cujas construções podiam chegar 4 ou 5 andares nos ambientes urbanos, foi o resultado de contínuos aperfeiçoamentos dessas habitações primitivas. Mas a essência era sempre a madeira.

 

A partir do século XIX, as construções tradicionais de madeira – especialmente nas cidades – foram cada vez mais substituídas por outras de alvenaria. A princípio apenas externamente – porque a madeira ainda era o único material em forma de viga e tábua disponível em grandes quantidades, de modo que as construções de teto, telhado e escadaria eram quase exclusivamente feitas de madeira. Isso mudou quando o aço e o concreto se tornaram um produto de massa com a industrialização. Em meados do século XX, a madeira tinha desaparecido em grande parte do sortimento de materiais das estruturas modernas.

 

Desde a virada do milênio, no entanto, este antigo material de construção tem experimentado um renascimento surpreendente, à medida que as vantagens ecológicas da madeira estão se tornando cada vez mais importantes. Tecnologias desenvolvidas na produção de placas de múltiplas camadas, contraplacados, paredes e tetos prontos, incluindo pilares e apoios de compensado de tábuas, resultaram em elementos leves, mas com alta durabilidade e resistência compatível com os tradicionais materiais de construção. Ao lado disso, permitem amplas possibilidades de pré-montagem. Uma combinação de tecnologias da construção em madeira, concreto e aço foi uma evolução lógicas. Como resultado surgiram, ao lado de construções totalmente de madeira, as híbridas na forma, p. ex., de um núcleo vertical central e funcional de concreto ou aço (para elevadores, escadarias e tubulações) e todas as restantes estruturas sendo de madeira. A madeira utilizada é devidamente tratada contra fogo, de maneira que não queima, apenas carboniza.

 

E há outro aspecto. Construir com madeira tem um saldo ecológico positivo e pode ser realizado de forma CO2 neutra. Comparado ao aço ou concreto, ela é considerado um material de construção verde porque sua produção não só não causa emissões de CO2, mas também liga o carbono desse composto. Neste contexto é ter em mente que na produção de uma tonelada de cimento, um dos principais componentes do concreto, são liberados até 600 kg de CO2, e que a produção global de cimento causa quatro vezes mais emissões de dióxido de carbono do que todo o tráfego aéreo internacional e, portanto, é responsável por cerca de 8% das emissões globais de CO2.

 

Em 2007, o edifício residencial e comercial E3 no centro de Berlin, de sete andares e construído em madeira, causou sensação.  Em 2011 e 2012, seguiram edifícios de madeira de oito andares, o H8 e LifeCycle Tower, respectivamente em Bad Aibling e Dornbirn, na Áustria, e em 2015 concluiu-se um edifício de 14 andares em Bergen, Noruega. Já em 2017, uma residência estudantil de 18 andares em Vancouver foi concluída, o edifício de madeira mais alto do mundo na época. Em Viena, o HoHo, um edifício híbrido de concreto e madeira de 24 andares, foi entregue em 2020. Em todo o mundo, porém, outros edifícios de arranha-céus ainda muito mais altos com peças estruturais feitas de madeira já estão em construção – o Ascent, em Milwaukee, EUA, com 25 andares – ou sendo planejados – o Hybrid C, em Perth, Austrália com 50 andares e 183 metros de altura.

 

No Brasil temos até agora um prédio de madeira de quatro andares na Av. Faria Lima, em São Paulo. Mas, chegou nossa hora, uma vez como país de destaque na arquitetura mundial, mas inoperante nesse campo, e por outra como produtor e exportador de madeira, desde que em base de uma política de manuseio florestal racional e sustentável.

 

 

 

 

quarta-feira, 26 de outubro de 2022

Adeus, Combustíveis Fosseis, Mas...

 

Adeus, Combustíveis Fosseis, Mas...

 

“Goodbye, Fossil Fuels, But...” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Há mais de um século, desde a invenção dos motores de combustão interna, o combustível fóssil a partir do petróleo tornou-se um produto de primeira ordem em todas as áreas do cotidiano. A humanidade depende tanto dele, que, hoje, numa eventual falta desse insumo, o mundo simplesmente pararia e entraria em colapso total. O transporte é aspecto indispensável na vida moderna. Sem ele não há deslocamento, não há abastecimento, além de muitos outros ‘não há’. O mundo em paralisia.

 

No entanto, são muito bem conhecidos os efeitos secundários causados desse produto na forma de poluentes potenciais. Por mais que possamos não gostar, ou nos recusemos a aceitar, as mudanças climáticas observadas e sofridas não deixam dúvidas. Talvez não sejamos responsáveis por todas as mudanças e sua gravidade, mas certamente temos nossa parte nisso.

 

E há consciência dessa problemática a bastante tempo tanto no mundo industrial quanto nos governos. Resultado disso é a busca incansável por opções energéticas alternativas – por sinal, bem-sucedida. Motores e outros agregados energéticos estão sendo desenvolvidos a partir dos mais diversos domínios tecnológicos. Alternativas nesse campo não faltam. O motor veicular elétrico, por exemplo, é uma realidade, só lhe falta economicidade, o que é normal em todos os projetos pioneiros e, mais cedo ou mais tarde será superada - ressalva feita para onde a energia para a carga elétrica é gerada a partir de recursos fosseis como carvão ou gás.

 

Já a geração energética a partir da cédula de hidrogênio, não apenas para fins automotivos, mas de aplicação ampla, garante sustentabilidade praticamente absoluta. E ela certamente sairá de seu estágio embrionário para o economicamente viável.

 

Há, no entanto, um efeito colateral. O refino do petróleo não permite manipulação na obtenção dos produtos resultantes. Assim, entre outros derivados, resultam 24% de gasolina do tipo automotivo, 4% de combustíveis de ebulição mais altos, como o de jato (querosene) representam, e o diesel com 21%. Os componentes altamente viscosos e sólidos, como o betume, perfazem 3,5%, lubrificantes 1,5%. Essas porcentagens são praticamente imexíveis.

 

É aí, que entra o ‘Mas ...’ na forma da pergunta: com a disponibilidade de energia sustentável substituindo o consumo de gasolina e óleo diesel, ou paramos a extração de petróleo por falta de mercado, ou continuaremos, porque precisamos de óleos lubrificantes e betume (asfalto)? Para óleos lubrificantes existem soluções sintéticas que, porém, requerem energia para sua produção e têm custo mais elevado. Para o betume não existe, no momento, tal recurso – não há betume sintético, e estradas revestidas com cimento não são solução ecológica ou economicamente favorável (estamos na eminência de escassez mundial de areia – a de deserto não serve para esse fim).

 

É um empasse sério, que, tudo indica, não tem acesso a manchetes. Precisamos lubrificar nossas máquinas e precisamos manter e incrementar nossa rede rodoviária (mesmo que o futuro prometa ferroviárias eletrificadas). O consumo anual médio de asfalto no Brasil é de 2 milhões de toneladas (fonte Petrobras). Para obter esta quantidade é preciso refinar paralelamente 14 milhões de toneladas de gasolina e outras 12 de óleo diesel – sem mercado nacional ou internacional no futuro.

 

É uma realidade em caráter mundial que, com o inevitável crescimento do consumo de energias alternativas e sustentáveis, ganhará crescente importância. E chegará o momento da necessidade (eventualmente urgente) de respostas. Resta uma esperança: a humanidade sempre encontrou saídas para seus problemas. 

 

 

 

 

 

 

 

 

domingo, 23 de outubro de 2022

O Desbotar das Ideologias

 

O Desbotar das Ideologias

(“The Fading of Ideologies” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Uma abordagem do tópico é impossível sem um olhar sobre o significado da ideologia (‘idéia’ em grego equivale ao nosso termo ideia, ‘’logos’, a ciência) como visão ou concepção de mundo, e a origem do conceito na política moderna.

 

Com a revolução industrial observam-se repentinas e vultuosas acumulações de capital, fora daquelas detidas tradicionalmente pela aristocracia. São capitais, em geral, gerados em direta relação com uma mão de obra mal recompensada. Porém, numa cristalização de classes bem definidas de burguesia e proletariado não precisou de muito tempo para o surgimento de vozes denunciando graves problemas sociais e oferecendo variadas respostas, entre aquelas não exatamente de conciliação, mas de caráter revolucionário. Ganharam destaque entre essas vozes as de Marx e Engels, que com sua ideologia do comunismo, da coletivização de bens e riquezas e do poder do proletariado deram origem a um movimento que rapidamente se espalhou pelas nações então industrialmente emergentes. As soluções oferecidas não foram exatamente democráticas, mas indiretamente provocaram um fortalecimento do pensamento democrático, e o consequente surgimento de uma nova elite: a dos políticos, como legítimos representantes dos interesses do povo, tanto em defesa do comunismo ou socialismos mais brandos, quanto em prol do status quo do capitalismo. A grande concretização do comunismo deu-se na revolução russa de 1917, com o objetivo a longo prazo de mudar as relações de poder e expandir-se por todo mundo.

 

Ao mesmo tempo, o capitalismo de livre iniciativa, e acompanhado de contínuos avanços tecnológicos, tomou seu rumo. Mas ao mesmo tempo foi submetido a uma lenta ‘socialização’ com o aparecimento de movimentos em defesa dos interesses dos trabalhadores (os sindicatos) e o surgimentos de insipientes sistemas de previdência social. Tais movimentos ganharam força e espaço, ganhando representação em governos democráticos como, por exemplo, o Partido Trabalhista inglês.

 

Com o fim da segunda guerra mundial ocorreu, especialmente na Europa Ocidental, uma mudança geral de regimes autocráticos para democráticos. Enquanto isso, nos países sob a tutela da União Soviética continuaram os governos totalitários, embora camuflados de democráticos. Já as democratizações livres admitiram e reconheceram partidos socialistas e comunistas na participação nos governos, dando lhes a possibilidade de exercer maior ou menor poder na concretização de seus interesses – o inverso não se observou nas ‘democracias’ socialistas/comunistas. Com isso, os trabalhadores nos regimes capitalistas conquistaram ao longo das décadas vantagens reais e significativas dentro de um ambiente de liberdade democrática, enquanto no mundo socialista vantagens semelhantes foram instituídas, porém, em regime nem tão democrático e com expressivas restrições econômicas e civis.

 

No decorrer do tempo, as democracias ‘capitalistas’ experimentaram sucessivas concessões de lado a lado dos interesses, com o que os argumentos das ideologias mais extremas se esvaziaram e as posições mais moderadas se aproximaram e se fortaleceram. Num longo processo, num fortalecimento dos partidos de centro, o capital e o social acabaram por encontrar mais facilmente os denominadores comuns em suas respostas.

 

Já no conjunto das nações oficialmente comunistas bastou a desintegração política da então União Soviética para que o ideário comunista sumisse quase instantaneamente. A maioria desses países optou pela adoção de sistemas democráticos representativos, outros se tornaram democracias mais ou menos fictícias, porém, todos abandonaram o comunismo como ideologia nacional. Mesmo a China, sem ser afetada pelo desmoronamento do comunismo europeu, embora politicamente dominada pelo (único) partido comunista, adotou uma linha um tanto acrobática de “um governo, dois sistemas”, contrariando um dos pilares do comunismo, isso é, o da não admissão da propriedade privada.

 

Na realidade encontramos hoje de um lado o social-capitalismo, politicamente visto nos regimes socialdemocratas, e de outro, sistemas autocráticos, de semi-socialismos a regimes capitalistas direcionados. Nada mais, portanto, das tradicionais ideologias em absoluta oposição, embora as mesmas ainda hoje sirvam de fantasmas eleitoreiros, mormente em democracias mais jovens.

 

Silenciosamente instalou-se um novo modelo político: o pragmatismo, talvez mais apropriadamente denominado de neo-pragmatismo, por não se trata de nenhuma novidade nas concepções políticas. Ele nada mais significa do que um comportamento baseado em circunstâncias situacionais, pelo qual a ação prática é colocada acima da razão política. Assim, ideologias, definitivamente, não encontram lugar nessa nova realidade política, resumida, sendo uma simples abordagem realista e prática das questões políticas. Enquanto a grande maioria dos governos atuais tem o 'social' escrito em suas bandeiras, ideologias, especialmente a comunista, na sua concepção tradicional, viraram indiscutivelmente um anacronismo.

 

     

 

quinta-feira, 20 de outubro de 2022

Imortalidade, Um Tema Imortal

 

Imortalidade, um Tema Imortal

(“Immortality, an Immortal Subject“) - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

KIaus H. G. Rehfeldt

 

 

Você quer ser imortal? Você quer, pelo menos, atingir o limite de 122 anos que os cientistas acham possíveis alcançar numa combinação ótima dos mais de 120 genes que influem na longevidade do homem? Quem sabe você possa, já que existem inúmeras pesquisas tentando romper essa barreira – e outras eventuais mais adiante.

 

A curiosidade pelo futuro sempre foi e continua sendo imensa e insaciável. Toda nossa história de evoluções civilizatória e científica promete um futuro fascinante e inimaginável. E isso despertar uma vontade imensa de estar presente nesse futuro, de não perde-lo por uma morte ‘prematura’. Diferentemente de épocas passadas de uma evolução sólida, mas muito lenta, não houve gerações na história da humanidade que vivenciaram avanços tão rápidos e vultosos em todas as áreas da vida como as últimas duas ou três. Assim, as expectativas para o futuro são logicamente muito grandes.

 

Suponhamos que somos os únicos entre todos os seres vivos que têm consciência de algum futuro. Seja ele qual for, em todo futuro existe a certeza da finidade da vida. E essa fatalidade assusta e causa medo. Esse medo, no entanto, parece mudar ao longo da vida da pessoa. O que na juventude é percebido com pavor, na idade avançada se apresenta com cada vez mais naturalidade e aceitação, às vezes passa a ser almejado. Isso deixa deduzir que se trata um processo de abrandamento, mesmo sabendo do desejo normal de uma vida mais longa possível. Talvez seja esta a razão por que é difícil encontrar cientistas idosos envolvidos em pesquisas buscando a extensão da duração de vida, ou, até a imortalidade.

 

Imortalidade, um sonho da humanidade desde culturas da antiguidade. Mas um sonho que parece ignorar que toda vida é finita, a vida de qualquer ser, bem como a vida de seus componentes. Das nossas cerca de 37 milhões de células, algumas vivem poucos dias, outras, vários anos para então ser substituídas por novas. Todavia, descobertas científicas como, por exemplo, a enzima telomerase, que pode proteger os cromossomos do envelhecimento (ela pode fazer com que eles regenerem os telômeros e, assim, prolongam a vida deles), ajudam alimentar esses devaneios. De concreto, no entanto, nada. E até agora, nade se sabe sobre telomerase neuronal, ou algo parecido. Outrossim, o homem tem, no decorrer de sua existência, conseguido tirar proveito de inúmeras leis da natureza, porém jamais conseguiu alterá-las.

  

Mas, e se ...? Tal hipótese, obviamente, abre espaço para muitas e as mais variadas especulações, como prós e contras da convivência inimaginável de 6 ou mais gerações. Entre elas haveria a dúvida sobre até onde uma extensão da vida fisiológica seria acompanhada por um prolongamento das condições mentais. Valeria a pena, por exemplo, uma vida sem passado, ou seja, uma idade fisiológica de 200 anos com a memória apenas dos últimos 50, ou sua capacidade de memória se esgota nos primeiros 100 anos?

 

Outros aspectos consequentes são mais presumíveis. A questão mais previsível é a demográfica. Vivemos nas últimas décadas um significativo aumento da expectativa de vida que apenas não traz consequências maiores porque é compensado pelo decréscimo de nascimentos. No entanto, essa mudança demográfica evidencia as consequências de um contínuo prolongamento da vida da população (além dessa compensação): mais alimentos, mais infraestruturas, mais habitações, mais consumo de recursos naturais, mais necessidades básicas e outras nem tanto etc. sem uma correspondente geração de renda e produção de riquezas, mesmo que a vida ativa das pessoas se estenda em alguns anos.

 

Por outro lado, surge o problema do custo. Que parcela da população terá os recursos econômicos e financeiros para custear um programa terapêutico provavelmente contínuo e possivelmente dispendioso? Daí outra questão: teremos uma população dividida em duas classes: a dos longevos porque conseguem custear esse ‘privilégio’ e aquela dos mais pobres e proscrita a uma duração normal de vida? Pesquisas nessa direção podem render fama, muito dinheiro e, talvez, algum proveito colateral, mas, de resto, não resultarão em benefício geral para a humanidade.    

 

Seja na esfera biológica, seja na proposta divina, a natureza exige sensíveis equilíbrios em todos os seus planos, e um dos fatores para garantir isso é a duração de permanência de cada espécie no ecosistema. A quebra desse equilíbrio por um dos membros desse conjunto pode ser fatal para outros, especialmente no caso do homem, o maior predador sobre a Terra.


Talvez o título deste texto devesse ser: "Imortalidade, a Fatalidade para a Humanidade".

 

 

 

 

quinta-feira, 13 de outubro de 2022

Cradle to Cradle - Uma Economia Circular

 

‘Cradle to Cradle’ – Uma Economia Circular

(“Cradle to Cradle – A Circular Economy” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

KIaus H. G. Rehfeldt

 

‘Cradle to Cradle’ que, por si, não sugere qualquer coisa plausível, mesmo na tradução para o português, Berço para Berço, não é muito esclarecedor. Talvez uma tradução no sentido de “da Origem à Origem” chegue mais perto da ideia pretendida. O logo oficial do conceito é C2C.

 

Houve tempos, quando as pedras e a medeira de uma construção abandonada ou sucumbida eram usadas em novas construção, ferramentas, utensílios e peças de roupa gastos ganharam novas utilidades. As matérias primas eram poucas, eram caras e reaproveitadas até onde era possível. Os resíduos de uns, podiam ser úteis para outros.

 

Hoje, novos bens são produzidos com novas matérias-primas, causando novo desperdício, novas substâncias tóxicas e nova poluição ambiental. Produzimos, por exemplo, globalmente mais de 4,4 bilhões de toneladas de cimento por ano, jamais reaproveitáveis. Em 2019, foram fabricadas em todo o mundo cerca de 368 milhões de toneladas de plástico – hoje, a taxa de reciclagem desta quantidade é de apenas 14%, incluindo o chamado "downcycling", uma conversão para produtos de baixa qualidade. Vivemos a realidade econômica ‘cradle to grave’, ou seja, do berço ao túmulo. Entretanto, nosso planeta com sua natureza nos mostra outro modelo: os ciclos biológicos não deixam resíduos, nem desperdícios para trás. Nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.

 

A resposta chama-se ‘cradle to cradle’. Como o nome sugere, o princípio do C2C é fundamentalmente diferente: pensar em circuitos fechados. Não só o primeiro benefício de um bem deve ser o foco, mas também a reutilização das matérias-primas após o uso original. Recursos preciosos não são desperdiçados, mas reaproveitados. O princípio de ‘cradle to cradle’ também inclui a produção ambientalmente sustentável e o uso de energias renováveis. Dessa forma, os circuitos biológicos e técnicos fazem parte da ideia, cada um sendo um processo fechado. Componentes orgânicos de um produto são destinados ao composto e, portanto, ao ciclo normal da natureza. Os bens tecno de consumo são projetados de tal forma que podem ser reciclados de maneira sensata, por exemplo, através de processos químicos ou mecânicos. Para recuperar as matérias-primas, as empresas devem receber os produtos de volta para reuso em sua produção. Poderia se pensar nesse caso num sistema de depósito através de locação ou leasing de produtos, materiais ou componentes. A recuperação e reciclagem de materiais têm custo, mas este é muito menor do que aquele da extração e do beneficiamento.  

 

Implementada com sucesso, essa concepção não significa uma verdadeira revolução em nossos produtos – desde o design do produto, o processo produtivo e o uso até o retorno e reuso. Como resultado podemos esperar um mundo sem lixo. Um ciclo fechado perfeito – da origem ao benefício e de volta à origem

 

Inerente a toda inovação, o ‘cradle to cradle’ também enfrenta ceticismos, principalmente fundamentados em aspectos de custo ou em supostas inviabilidades. No entanto, custo inicial elevado é uma constante em praticamente todas as inovações, que é gradativamente resolvido com melhorias, aprimoramentos e inventos complementares. Por outro lado, inviabilidades desaparecem na medida em que a tecnologia avança passo a passo.

 

Já existe o assim chamado Cradle to Cradle Products Innovation Institute que certifica produtos C2C de acordo com normas e padrões estabelecidos. Apesar de todas as críticas, o ‘cradle to cradle’ encontra inúmeros parceiros na indústria que estão empenhados em implementá-lo. São fabricantes que desenvolvem roupas compostáveis, como camisetas, calças e babadores de bebê. Outros produtos nesse mercado incluem detergentes, cadeiras de escritório, tecidos de estofados, azulejos, tapetes, papel higiênico revestimentos de fachada e outros materiais de construção. Hoje já são centenas de fabricantes ao redor do mundo com milhares de produtos no mercado.     

 

Um exemplo: a holandesa Philips desenvolveu um televisor de acordo com os princípios C2C. No entanto, as vendas foram aparentemente limitadas devido ao preço. Mesmo assim, a Philips não abandonou o ‘cradle to cradle’. Seguirão novas iniciativas e a produção sob esses critérios de um dispositivo tão complexo mostra que o conceito também pode funcionar com produtos altamente técnicos.

 

O princípio C2C pode estimular o fechamento de ciclos e definir impulsos importantes, mas a viabilidade provavelmente só se provará a longo prazo. No "período de transição", o consumo consciente é uma contribuição necessária para o desenvolvimento sustentável.

 

Se hoje toda a população da Terra tivesse um padrão de consumo igual ao dos países mais desenvolvidos necessitaríamos de mais dois planetas iguais.

 

 

 

terça-feira, 11 de outubro de 2022

Idosos sobre Rodas

 

Idosos sobre Rodas.

(“Elderly on Wheels.” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Idosos atrás do volante são uma realidade. E são uma realidade amplamente aceita e praticamente não questionada por uma razão simples: por mais que pudesse parecer, o idoso, de uma maneira geral, não é um problema de trânsito. Prova disso é o fato de nunca ter sido estabelecido uma idade máxima para a habilitação de conduzir veículos.

 

Como exemplo vale um estudo realizado pelo Detran do Estado de São Paulo que comprova que o avanço da idade não representa um obstáculo para que os motoristas com idades acima dos 60 anos mantenham vivo o desejo de continuarem a dirigir. No período de junho de 2015 a junho de 2021 as carteiras de habilitação      registrado na cidade de São Paulo para idosos aumentaram de 2,393 milhões para 3,474 milhões, um crescimento de 45%.

 

Uma razão para isso reside na própria definição de idoso a partir dos 60 anos de idade. Boa parte das pessoas acima de 60 anos de idade continua participando ativamente da vida econômica, social, política e cultural da sociedade. Continuam as necessidades do cotidiano, os compromissos, os lazeres – e continua a autonomia e a mobilidade. Estatisticamente, as pessoas com mais de 60 anos não estão envolvidas em acidentes acima da média. Como regra geral, eles dirigem com mais cautela e rotina do que os usuários mais jovens das ruas e estradas, compensando assim alguns déficits relacionados à idade. No entanto, os idosos com idade avançada têm que lidar criticamente com sua própria capacidade de dirigir repetidamente – e também considerar alternativas.

 

Decisivo para uma participação livre de acidentes no trânsito não é a idade, mas o estado de saúde do motorista, diz um estudo da Associação Alemã de Automóveis, ADAC. A idade sozinha não faz um mau motorista. É por isso, a capacidade de dirigir não pode ser negada de forma generalizada aos idosos. Eles muitas vezes têm experiência suficiente para dirigir com previsão e adaptar seu estilo de condução à respectiva situação de tráfego. O idoso, como em tudo, é um fator moderador, leva o buzinaço de trás, mas segue seu estilo comedido, até cauteloso.

 

Fato é, que é o idoso quem mais precisa de rodas, sejam elas próprias ou públicas. É verdade que, com a autonomia preservada, o idoso tende a optar pela independência de locomoção, ou seja, as rodas próprias. Se nos limitarmos à população adulta brasileira, redondo 20% da mesma situa-se em idades entre 60 e 90 anos, sendo muito prováveis condutores de seus próprios veículos. Isso significa, que um em cada cinco veículos, um deve estar sendo guiado por um motorista desse grupo.

 

Diferentemente de muitos países, inclusive ocidentais, o Brasil se esmera a muito tempo por uma clara preocupação e um proativismo bastante avançado em relação a seus idosos. Não houve, no entanto, os necessários ajustes quantitativos que acompanhassem o crescimento numérico desse grupo, como, por exemplo, a disponibilidade de vagas de estacionamento nas vias públicas e em outros ambientes. 

 

Neste mesmo contexto, cabe um questionamento: numa expectativa de vida de 76 anos – continuando a aumentar –, o cidadão ou a cidadã com 60 ou 65 anos pode ser considerado idoso? Diferentemente de algumas gerações atrás, são hoje pessoas que participam ativamente nos mais diversos setores da vida, até chegando a recusar-se de ser tidos como idosos. Há necessidade de uma revisão desses parâmetros.

 

O que, todavia, não muda é que o idoso continuará a ser mais saudável, mais bem informado, mais disposto a ter parte no cotidiano e, dessa maneira, reivindicar sua autônomo e sua presença na rua.

 

Problemas, ou não, o veículo autônomo, que certamente virá, invalidará definitivamente estas questões.

 

 

 

 

 

 

 

quinta-feira, 6 de outubro de 2022

Neuromarketing - Quem Decide Sobre Minha Compra?

 

Neuromarketing – Quem Decide Sobre Minha Compra?

 

(“Neuromarketing – Who Decides on My Buying?” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

A crescente produção em massa de todo tipo de bens dos anos de 1950/60 exigiu na outra ponta um correspondente consumo em massa. Ou, em outras palavras, o consumidor, até então conservadoramente contido em suas aquisições precisou ser induzido a comprar. Ao lado de um emergente mercado de publicidade surgiram as primeiras pesquisas de mercado em busca de entender melhor o consumidor. A partir disso, desenvolveram-se estratégias de marketing que se ajustassem ao comportamento do consumidor com o intuito de estimular sua vontade de consumo. Chegou a haver estudos sobre como o cliente percebe, absorve e reage durante os primeiros 10 segundos de olhar uma propaganda. Tecnologias de marketing se sofisticaram e, sem dúvida com sucessos, em pouco mais de 50 anos transformaram, sociedades de hábitos de consumo extremamente controlados em outras de consumo desenfreado. O conceito e a prática de ‘marketing’ tornam-se indispensáveis nos mercados.

 

Com o início do século XXI surge outa ferramenta visando estimular o consumo. Pesquisas cerebrais mostram que o cliente consciente e racional é uma ilusão. Em primeiro lugar, as decisões de compra são em grande parte inconscientes e, em segundo, são sempre emocionais. Além disso, neurocientistas descobrem que os sistemas de emoção e cognição mudam consideravelmente ao longo de uma vida. Como resultado, os grupos-alvo diferem não apenas de acordo com suas preferências e escolhas, mas também de acordo com o sexo e a idade.

 

Nasce o neuromarketing como combinação de achados neurocientíficos com mecanismos e práticas de mercado. Trata-se da questão de como os processos de compra e de tomada de decisão ocorrem no cérebro e como eles podem ser influenciados com a publicidade e técnicas de venda. A psique humana – mesmo apenas parcialmente – desvendada através do neuromarketing ganha enorme importância para as empresas – pois permite que medidas publicitárias particularmente eficientes e que sejam perfeitamente adaptadas a cada grupo-alvo sejam implementadas.

 

O neuromarketing baseia-se no pressuposto de que os processos de tomada de decisões econômicas ocorrem em grande parte inconscientemente. Assim, o cliente não age racionalmente ao decidir a favor ou contra um produto, mas sob efeito emocional. Isso significa que o consumidor não pode estar ciente de todos os fatores que influenciam uma decisão de compra. Mas significa também que ele não pode fornecer informações válidas e utilizáveis para fins de pesquisa de mercado. Assim, é complicado para as empresas otimizar suas estratégias de vendas. Neste ponto, o neuromarketing procura o acesso direto ao cérebro humano, a fim de obter informações sobre esses processos inconscientes.

 

E o cliente? De maneira geral, o público desconhece totalmente o fato de involuntariamente ser objeto de uma sondagem e consequente manipulação de suas vontades e decisões – que antes de tudo, sua compra é transformada num ato prazeroso. O resultado é que da intenção de comprar uma geladeira com a melhor relação custo–benefício acaba resultando um modelo altamente sofisticado e além das necessidades, além da aquisição de uma adega climatizada. Um eventual arrependimento só surgirá depois da primeira noite. Hoje, uma pessoa de classe média urbana pode facilmente possuir perto de 1.000 objetos, dos quais muitos nem são mais lembrados. Quando falamos de compra por impulso, seria bom se perguntar de onde vem esse impulso, do comprador ou de uma estratégia refinada e hightech de neuromarketing. Tudo isso pode soar fantasioso, mas fato é que as emoções naturalmente envolvidas numa compra podem facilmente colocar a percepção de efeitos luminosos, sonoros ou de odor com atuação psicoativa num segundo plano.

 

Empresas de presença global, por exemplo nos mercados automotivos ou de refrigerantes, veem perspectivas promissores nesse campo, o que pode deixar o consumidor conhecedor dessa realidade sentir-se um tanto desconfortável. No entanto, como a neurociência está longe de respostas conclusivas, ninguém consegue hoje avaliar a profundidade e extensão dos efeitos e resultados da aplicação prática do neuromarketing. Fica, todavia, um alerta no sentido de o consumidor tomar consciência dessa realidade e, em sua própria defesa, procurar previamente definir com clareza os parâmetros de sua compra, sem espaço para eventuais manipulações. Assim, com certeza encontrará entre seus pertences menos blusas ainda na embalagem original e menos ferramentas que nunca chegou a usar. O cliente é rei, mas precisa ter cautela para não passar a ser um vassalo de neuro-estratégias.    

 

 

 

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

Baixarias Não Elegem Ninguém

 

Baixaria Não Elege Ninguém.

(“Smear Campaigns Don’t Elect Anyone” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Nenhum candidato se elege, ele é, ou não, eleito pelo cidadão eleitor. Cabe ao candidato apresentar suas leituras da sociedade e do pais, suas propostas, seus planos e seus projetos. Na sequência, o eleitor faz sua escolha qual dos postulantes a um cargo público melhor atende às suas expectativas. Simples assim.

 

De país a país há diferenças, a maior delas sendo a obrigatoriedade, ou não do voto, ou, do contrário, o voto facultativo, este último caso sendo o mais comum. Diferentemente do voto obrigatório, no facultativo, o candidato precisa também motivar o eleitor a ir até a urna. Isso acrescenta um desafio adicional à campanha. Em outras palavras, o candidato merece, ou não, a disposição do eleitor de levantar-se da poltrona para ir votar. Dessa motivação certamente fazem parte uma postura civilizada e respeitosa tanto perante os eleitores, quanto seus adversários.

 

O resto é com o eleitor. Repetimos: nenhum candidato se elege, ele é, ou não, eleito pelo cidadão eleitor. Todavia, o eleitorado é composto de uma infinidade de combinações entre necessidades, esperanças e aspirações, e outra infinidade de visões e ideários para suprir ou satisfazê-las. Outra infinidade, a de graus de conhecimento e capacidade de discernimento completa essa complexidade.

 

Assim, um universo de incontáveis interesses, desejos e vontades convergem para um número bastante pequeno de candidatos com suas qualidades e capacidades naturalmente restritas, mas dispostos a atender seus votantes. E aqui acaba a teoria – e a ilusão.

 

Não que as estruturas ou esquemas eleitorais sejam falhos ou levantem dúvidas, os problemas residem nas pessoas, sejam eles os candidatos ou sejam os eleitores. Em última instância, toda eleição envolve a criação e homologação de poderosos, no sentido de pessoas com poder sobre os outros, e esse fato historicamente tem extravasado e desvirtuado atos, atitudes e comportamentos supostamente éticas e moralmente corretos.

 

Ao lado e em consequência disso, em lugar de avaliações e confrontos construtivos de concepções e projetos políticos para a sociedade ou o país observam-se desqualificações mútuas destrutivos entre os oponentes, assumidos e acompanhados por certa parcela dos eleitores simpatizantes. Nesse clima surgem ofensas, difamações, agressões e outros excessos que, aliás, em algumas sociedades levam diretamente a processos criminais. Com isso, aspectos pessoais, de presumidos a reais (ninguém é perfeito) ganham o primeiro plano nas campanhas eleitorais em detrimentos dos verdadeiros objetivos de uma campanha eleitoral – apresentar e comprometer-se com projetos necessários e viáveis. E uma distorção lamentável e nada enriquecedora de uma instituição democrática fundamental. Em claro prejuízo do voto racional.

 

Fica a pergunta: como corrigir esse desvio de propósitos tão nobres que, afinal, não é nada elogioso para toda uma coletividade. Em nenhum relacionamento interpessoal ou intergrupal, xingamentos, ofensas ou outras mais afrontas desprezíveis geram resultados positivos. Pelo contrário, geram conflitos, ódios e graves cisões. A mesma imaturidade cívica vale para as disputas políticas. No entanto, sendo o eleitor o ator principal e decisivo nesse cenário, a responsabilidade principal em qualquer processo corretivo, civilizatório e de democratização é ele mesmo.

 

Quem é privilegiado com instrução e formação mais aprimoradas, senso crítico mais apurado, postura pública positiva e outros atributos salutares, independente de concepções ou convicções políticas, religiosas e outras, tem uma grande responsabilidade civil: sem superioridade, servir de exemplo, de referência, de figura a ser imitada. Mas para isso é preciso sair do casulo de silencioso isolamento e se expor e se manifestar – apesar dos defeitos inerentes a todos temos – com o intuito de provocar reflexões, autoanálises e reposicionamentos de postura.

 

Todos nós medimo-nos nas imagens dos outros e de preferência em imagens fortes e positivas, sejam elas os pais, professores, profissionais, artistas, sacerdotes, atletas ou políticos. E essas imagens são substituíveis ao longo da vida. Todos nós podemos ser imagens de referência para alguém. Então, em vez de deixar nos arrastar para atitudes nada nobres, procuremos ser e construir imagens positivas. Eis, uma opção para um Brasil mais altivo.