O Desbotar das Ideologias
(“The Fading of
Ideologies” - This text is written in a way to
ease comprehensive electronic translation)
Klaus H. G. Rehfeldt
Uma abordagem do tópico
é impossível sem um olhar sobre o significado da ideologia (‘idéia’ em grego equivale ao nosso termo
ideia, ‘’logos’, a ciência) como visão
ou concepção de mundo, e a origem do conceito na política moderna.
Com a
revolução industrial observam-se repentinas e vultuosas acumulações de capital,
fora daquelas detidas tradicionalmente pela aristocracia. São capitais, em
geral, gerados em direta relação com uma mão de obra mal recompensada. Porém, numa
cristalização de classes bem definidas de burguesia e proletariado não precisou
de muito tempo para o surgimento de vozes denunciando graves problemas sociais
e oferecendo variadas respostas, entre aquelas não exatamente de conciliação,
mas de caráter revolucionário. Ganharam destaque entre essas vozes as de Marx e
Engels, que com sua ideologia do comunismo, da coletivização de bens e riquezas
e do poder do proletariado deram origem a um movimento que rapidamente se
espalhou pelas nações então industrialmente emergentes. As soluções oferecidas
não foram exatamente democráticas, mas indiretamente provocaram um
fortalecimento do pensamento democrático, e o consequente surgimento de uma
nova elite: a dos políticos, como legítimos representantes dos interesses do povo, tanto em defesa do comunismo ou socialismos mais
brandos, quanto em prol do status quo do capitalismo. A grande concretização do
comunismo deu-se na revolução russa de 1917, com o objetivo a longo prazo de
mudar as relações de poder e expandir-se por todo mundo.
Ao mesmo
tempo, o capitalismo de livre iniciativa, e acompanhado de contínuos avanços
tecnológicos, tomou seu rumo. Mas ao mesmo tempo foi submetido a uma lenta
‘socialização’ com o aparecimento de movimentos em defesa dos interesses dos
trabalhadores (os sindicatos) e o surgimentos de insipientes sistemas de
previdência social. Tais movimentos ganharam força e espaço, ganhando
representação em governos democráticos como, por exemplo, o Partido Trabalhista
inglês.
Com o fim
da segunda guerra mundial ocorreu, especialmente na Europa Ocidental, uma
mudança geral de regimes autocráticos para democráticos. Enquanto isso, nos
países sob a tutela da União Soviética continuaram os governos totalitários,
embora camuflados de democráticos. Já as democratizações livres admitiram e reconheceram
partidos socialistas e comunistas na participação nos governos, dando lhes a
possibilidade de exercer maior ou menor poder na concretização de seus
interesses – o inverso não se observou nas ‘democracias’
socialistas/comunistas. Com isso, os trabalhadores nos regimes capitalistas
conquistaram ao longo das décadas vantagens reais e significativas dentro de um
ambiente de liberdade democrática, enquanto no mundo socialista vantagens
semelhantes foram instituídas, porém, em regime nem tão democrático e com
expressivas restrições econômicas e civis.
No
decorrer do tempo, as democracias ‘capitalistas’ experimentaram sucessivas concessões
de lado a lado dos interesses, com o que os argumentos das ideologias mais
extremas se esvaziaram e as posições mais moderadas se aproximaram e se
fortaleceram. Num longo processo, num fortalecimento dos partidos de centro, o
capital e o social acabaram por encontrar mais facilmente os denominadores
comuns em suas respostas.
Já no
conjunto das nações oficialmente comunistas bastou a desintegração política da
então União Soviética para que o ideário comunista sumisse quase
instantaneamente. A maioria desses países optou pela adoção de sistemas
democráticos representativos, outros se tornaram democracias mais ou menos
fictícias, porém, todos abandonaram o comunismo como ideologia nacional. Mesmo
a China, sem ser afetada pelo desmoronamento do comunismo europeu, embora
politicamente dominada pelo (único) partido comunista, adotou uma linha um
tanto acrobática de “um governo, dois sistemas”, contrariando um dos pilares do
comunismo, isso é, o da não admissão da propriedade privada.
Na
realidade encontramos hoje de um lado o social-capitalismo, politicamente visto
nos regimes socialdemocratas, e de outro, sistemas autocráticos, de
semi-socialismos a regimes capitalistas direcionados. Nada mais, portanto, das
tradicionais ideologias em absoluta oposição, embora as mesmas ainda hoje
sirvam de fantasmas eleitoreiros, mormente em democracias mais jovens.
Silenciosamente
instalou-se um novo modelo político: o pragmatismo, talvez mais apropriadamente
denominado de neo-pragmatismo, por não se trata de nenhuma novidade nas concepções
políticas. Ele nada mais significa do que um comportamento baseado em
circunstâncias situacionais, pelo qual a ação prática é colocada acima da razão
política. Assim, ideologias, definitivamente, não encontram lugar nessa
nova realidade política, resumida, sendo uma simples abordagem realista e prática das questões políticas. Enquanto a grande maioria dos governos atuais tem o 'social' escrito em suas bandeiras, ideologias, especialmente a comunista, na sua concepção tradicional, viraram indiscutivelmente
um anacronismo.
A conclusão é bastante esclarecedora quanto a atual situação da democracia brasileira.
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