domingo, 23 de outubro de 2022

O Desbotar das Ideologias

 

O Desbotar das Ideologias

(“The Fading of Ideologies” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Uma abordagem do tópico é impossível sem um olhar sobre o significado da ideologia (‘idéia’ em grego equivale ao nosso termo ideia, ‘’logos’, a ciência) como visão ou concepção de mundo, e a origem do conceito na política moderna.

 

Com a revolução industrial observam-se repentinas e vultuosas acumulações de capital, fora daquelas detidas tradicionalmente pela aristocracia. São capitais, em geral, gerados em direta relação com uma mão de obra mal recompensada. Porém, numa cristalização de classes bem definidas de burguesia e proletariado não precisou de muito tempo para o surgimento de vozes denunciando graves problemas sociais e oferecendo variadas respostas, entre aquelas não exatamente de conciliação, mas de caráter revolucionário. Ganharam destaque entre essas vozes as de Marx e Engels, que com sua ideologia do comunismo, da coletivização de bens e riquezas e do poder do proletariado deram origem a um movimento que rapidamente se espalhou pelas nações então industrialmente emergentes. As soluções oferecidas não foram exatamente democráticas, mas indiretamente provocaram um fortalecimento do pensamento democrático, e o consequente surgimento de uma nova elite: a dos políticos, como legítimos representantes dos interesses do povo, tanto em defesa do comunismo ou socialismos mais brandos, quanto em prol do status quo do capitalismo. A grande concretização do comunismo deu-se na revolução russa de 1917, com o objetivo a longo prazo de mudar as relações de poder e expandir-se por todo mundo.

 

Ao mesmo tempo, o capitalismo de livre iniciativa, e acompanhado de contínuos avanços tecnológicos, tomou seu rumo. Mas ao mesmo tempo foi submetido a uma lenta ‘socialização’ com o aparecimento de movimentos em defesa dos interesses dos trabalhadores (os sindicatos) e o surgimentos de insipientes sistemas de previdência social. Tais movimentos ganharam força e espaço, ganhando representação em governos democráticos como, por exemplo, o Partido Trabalhista inglês.

 

Com o fim da segunda guerra mundial ocorreu, especialmente na Europa Ocidental, uma mudança geral de regimes autocráticos para democráticos. Enquanto isso, nos países sob a tutela da União Soviética continuaram os governos totalitários, embora camuflados de democráticos. Já as democratizações livres admitiram e reconheceram partidos socialistas e comunistas na participação nos governos, dando lhes a possibilidade de exercer maior ou menor poder na concretização de seus interesses – o inverso não se observou nas ‘democracias’ socialistas/comunistas. Com isso, os trabalhadores nos regimes capitalistas conquistaram ao longo das décadas vantagens reais e significativas dentro de um ambiente de liberdade democrática, enquanto no mundo socialista vantagens semelhantes foram instituídas, porém, em regime nem tão democrático e com expressivas restrições econômicas e civis.

 

No decorrer do tempo, as democracias ‘capitalistas’ experimentaram sucessivas concessões de lado a lado dos interesses, com o que os argumentos das ideologias mais extremas se esvaziaram e as posições mais moderadas se aproximaram e se fortaleceram. Num longo processo, num fortalecimento dos partidos de centro, o capital e o social acabaram por encontrar mais facilmente os denominadores comuns em suas respostas.

 

Já no conjunto das nações oficialmente comunistas bastou a desintegração política da então União Soviética para que o ideário comunista sumisse quase instantaneamente. A maioria desses países optou pela adoção de sistemas democráticos representativos, outros se tornaram democracias mais ou menos fictícias, porém, todos abandonaram o comunismo como ideologia nacional. Mesmo a China, sem ser afetada pelo desmoronamento do comunismo europeu, embora politicamente dominada pelo (único) partido comunista, adotou uma linha um tanto acrobática de “um governo, dois sistemas”, contrariando um dos pilares do comunismo, isso é, o da não admissão da propriedade privada.

 

Na realidade encontramos hoje de um lado o social-capitalismo, politicamente visto nos regimes socialdemocratas, e de outro, sistemas autocráticos, de semi-socialismos a regimes capitalistas direcionados. Nada mais, portanto, das tradicionais ideologias em absoluta oposição, embora as mesmas ainda hoje sirvam de fantasmas eleitoreiros, mormente em democracias mais jovens.

 

Silenciosamente instalou-se um novo modelo político: o pragmatismo, talvez mais apropriadamente denominado de neo-pragmatismo, por não se trata de nenhuma novidade nas concepções políticas. Ele nada mais significa do que um comportamento baseado em circunstâncias situacionais, pelo qual a ação prática é colocada acima da razão política. Assim, ideologias, definitivamente, não encontram lugar nessa nova realidade política, resumida, sendo uma simples abordagem realista e prática das questões políticas. Enquanto a grande maioria dos governos atuais tem o 'social' escrito em suas bandeiras, ideologias, especialmente a comunista, na sua concepção tradicional, viraram indiscutivelmente um anacronismo.

 

     

 

Um comentário:

  1. A conclusão é bastante esclarecedora quanto a atual situação da democracia brasileira.

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