Democracia em Tempos de
Digitalização
(“Democracy in Times of
Digitalization”) - This text is written in a way
to ease comprehensive electronic translation)
Klaus H. G. Rehfeldt
Mudanças cada vez mais
frequentes e profundas são observadas nas maneiras como democracias são atualmente
entendidas e vivenciadas em boa parte dos países. Se por um lado os partidos de
direita populista, notadamente na Europa, se fortalecem, por outro aumenta a
opção por governos orientados por socialismos mais ou menos moderados – nada de
comunismo – especialmente na América Latina. Ao mesmo tempo registra-se uma
contínua diminuição na participação em eleições (não é o caso do Brasil com
voto obrigatório), não por último decorrente da decrescente confiança nos
sistemas políticos e nos próprios políticos. Em parte, como consequência, mas
também em dinâmica própria surgem posições antidemocráticas onde não
necessariamente são esperadas, sempre se tendo em mente que se trata de
tendências, não de rupturas ou viradas massivas.
Pode parecer
sem propósito, mas faremos uma volta na história. Há mais de cinco séculos, a
igreja católica e soberanias seculares, foram desafiadas por uma revolução
midiática: a invenção da impressão por Gutenberg significou uma catástrofe
política para a Igreja e os sistemas de governo da época e mergulhou-os em uma
crise prolongada. O mercado foi inundado de livros, panfletos e sátiras. Em
poucos anos, milhares de títulos de livros foram impressos com edições de até dezenas
e centenas de milhares de exemplares. A revolução da impressão levou a uma nova
realidade de comunicação. A sociedade, que até então só tinha acesso a
limitadas cópias à mão das obras e tinha uma aproximação igualmente restrita ao
conhecimento, foi repentinamente confrontada com novas relevâncias e
significados. De repente, os cidadãos que até então tinham ficado em silêncio também
receberam uma voz. O cartel de poder e opinião da igreja e da nobreza vacilou.
A sociedade acordou.
Revoltas,
guerras e revoluções políticas se seguiram. Novas instituições foram formadas,
como parlamentos, universidades e dissidências religiosas. Com eles, surgiu uma
nova imagem do homem: o cidadão instruído, autônomo e crítico, que pode se
mover com confiança em seus novos ambientes. Alguma diferença com as mudanças
disruptivas causadas pela digitalização dos nossos tempos?
A digitalização desempenha um papel importante, até
certo grau revolucionário, nos atuais desenvolvimentos sociais, mas também no enfrentamento
dos desafios da democracia. Percebe-se isso não apenas como uma mudança
estrutural que afeta o público em geral, mas também como uma mudança nos
processos democráticos e formas de comunicação política na relação entre
representado e representante. Isso soa auspicioso, mas há reservas a esse
respeito, tanto pelos políticos, quanto o público em geral. Há temores de que o
uso da mídia digital influencie programada e tendenciosamente a formação de
opiniões políticas e leve à manipulação do eleitorado. As preocupações não se
limitem à esfera nacional, mas estendem-se também ao poder das redes sociais e
plataformas transnacionais. Todavia, as tecnologias digitais ampliam de muitas
maneiras as perspectivas e possibilidades de organização social, econômica e
política.
Trata-se não apenas de uma mudança estrutural e
programática que afeta o cidadão, mas que também se mostra nos processos
democráticos e nas formas de comunicação política. Por um lado, essas
plataformas contribuem decisivamente para reduzir as barreiras de participação
cívica e criam novas oportunidades de comunicação pública. Por outro lado, o
modelo dessas plataformas abre possibilidades para um extenso monitoramento e abordagem
algorítmica da sociedade. Embora os múltiplos mecanismos desses algoritmos possam
influenciar significativamente o fluxo de informações públicas, seu modo de
operação é absolutamente intransparente. Dessa maneira, o indivíduo torna-se um
ser manipulável, seja por informações confiáveis, seja por desinformações ou fake news. Portanto, como novas expedientes
requerem novas ferramentas, novas ameaças exigem novas defesas.
A semelhança entre os dois momentos sócio-políticos
é evidente. São períodos turbulentos que finalmente desembocam em avanços que
gradualmente ganham solidez e se tornam base para estruturas e contextos
consistentes. Estamos observando uma multiplicação de canais e pontos de
contato entre o cidadão e seus representantes, hoje limitados às urnas de
votação – obviamente canais e pontos de contato que precisam ser purgados de
abusos, vícios e fragilidades prejudiciais ao exercício pleno da democracia. Por
mais que possa parecer, a democracia atualmente julgada em crise, não precisa acabar
em fracasso, nem conservar a imagem de Churchill como sendo a pior das soluções
políticas. Como os efeitos da invenção de Gutenberg agitaram por décadas, até
séculos as igrejas, os palácios e a própria população, os da digitalização também
requerem seu tempo de maturação.
Creio que a democracia como forma de governo, do, pelo e para o povo deva continuar em evidência, em que pese tentativas da parte de aprendizes de ditadores de tomar o poder, inclusive no Brasil.
ResponderExcluirSeria interessante, a exemplo do que ocorre com a mídia profissional e séria, a implementação por parte de setores isentos da sociedade, de ferramentas digitais de disseminação de informações corretas e confiáveis, permitindo ao cidadão de boa fé o acesso à fatos que permitam a formação de opiniões de valor republicano.