terça-feira, 30 de janeiro de 2024

Un-U, o Contato (5)

 

Un-U, o Contato (5)

 

(“Un-U, the Contact” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Aquela primeira incursão de Un-U e An-Ga rio acima, com a descoberta da ilha e o local de uma fogueira agitou todo o grupo. Obviamente foram membros de outro grupo que visitou a ilha, talvez permanecendo ali por algum tempo – ou ainda estavam lá. A grande dúvida que permanece é como descobrir quem foi que esteve lá e como seria em encontro entre os dois grupos. Ouvidos os mais velhos, Un-U e An-Ga decidem ir por terra, margeando o rio até chegar à altura da ilha. De lá irão observar a ilha por algum tempo para descobrir se havia, ou não, gente vivendo nela.

 

Munidos de suas lanças, machados e facas, além da pedra de fogo, fungo pavio e algum alimento, partem de manhã cedo. A caminhada é penosa porque a mata perto do rio é bem fechada, mas eles sempre precisam ter o rio à vista. No caminho conseguem surpreender e matar uma lebre que lhes garante comida para dois dias. Quando o sol já está alto avistam a ilha um pouco mais acima do rio. Quando ficam bem de frente para a ela, procuram um lugar onde se abrigar num pequeno baixio, que lhes permita fazer um fogo sem ser visto da ilha. O vento é favorável, impedindo que a fumaça possa ser sentida na ilha.

 

Durante dois dias nada acontece. Então, no terceiro dia, já ao entardecer, eles veem uma embarcação com quatro homens descendo o rio. A embarcação é diferente daquela que conhecem, pois é feita de pele de animal. O que há por dentro não dá para ver. Chegando na ilha, os homens tiram o barco da água e carregam-no pela mata rala para um lugar mais elevado. Além de lanças, eles têm alguns arcos curiosos, cuja finalidade Un-U e Na-Ga desconhecem. Além disso um dos homens traz nas costas um veado aparentemente vivo, com as patas amarradas.

 

Escondidos na moita, Un-U e Na-Ga chegam mais perto do rio para ver melhor o que acontece na ilha. Enquanto três dos homens usam roupas de couro, o quarto veste uma capa de pele de urso, com a cabeça cobrindo a cabeça do homem. O grupo dirige-se a um grande carvalho, a maior árvore da ilha. Lá chegando, executam um ritual de adoração ao carvalho. Em seguida sacrificam o veado e repetem o ritual com gestos corporais.

 

Absorvidos por suas observações, Un-U e Na-Ga não se percebem que o vento tinha virado, e, por mais leve que fosse, a fumaça do seu fogo é levado em direção à ilha. A fumaça acaba por despertar a atenção e curiosidade dos quatro homens. Depois de aparentemente debater sobre o que fazer, eles vão até onde está o barco e colocam-no na água. Un-U fica preocupado. Ele acha mais prudente evitar um encontro direto e, tendo o rio entre os dois grupos, se levanta e grita bem alto para ser notado. Os quatro homens param assustados e pegam suas armas, mas a largura do rio é maior que uma lança pode alcançar. Un-U abre seus braços sem armas nas mãos em sinal de paz e Na-Ga o imita. Um dos homens pega um daqueles arcos e com ele lança uma pequena lança que não chega a alcançar a margem do rio. Un-U e Na-Ga continuam em sua posição inofensiva. Quando os homens entram em seu barco e tomam rumo à margem onde Un-U e Na-Ga estão, os dois resolvem abandonar o lugar, já que num eventual confronto estarão em desvantagem. Antes, porém, Un-U pega uma de suas duas lanças e, num lugar bem visível, enfia-a com a ponta na terra. Quando os homens aparecem em cima do barranco, Un-U e Na-Ga já estão escondidos na vegetação numa distância segura, mas de onde podem observar os quatro homens. Aquele da capa de pele de urso pega a lança, examina-a e parece surpreendido com a ponta de pedra lascada, que mostra para os outros. Em seguida, os homens ainda inspecionam o local da fogueira e lá colocam no chão um daqueles arcos e três flechas, certamente como retribuição à lança presenteada. Como logo estará escurecendo, parecem não estar dispostos a procurar por Un-U e Na-Ga e tomam seu barco, retornando para a ilha.

 

Un-U e Na-Ga voltam para sua fogueira e pegam o arco e as flechas que, curiosamente não tem pontas de pedra lascada, mas de osso. Eles tinham visto como um daqueles homens atirou uma flecha em sua direção e, assim, Un-U experimenta atirar uma flecha, percebendo que precisa de bastante força para tencionar o arco. A flecha voa bem mais longe que Un-U esperava, e custa para achá-la.  

 

Eles decidam pernoitar junto à fogueira, porém se revezem na observação da ilha, onde os quatro homens fizeram uma fogueira, certamente também vigiando a margem do rio.

 

Na manhã seguinte, Un-U e Na-Ga voltam para a margem do rio gritam bem alto e logo veem os quatro homens aparecer na margem da ilha. Un-U e Na-Ga abrem novamente os braços em sinal de paz e, para sua surpresa, depois de alguma hesitação, os quatro homens respondem com o mesmo gesto, para depois afastar-se, pegar sua embarcação e remar subindo o rio. Foi dado o sinal para um novo encontro e Un-U e Na-Ga retornam com seu troféu para sua aldeia.

 

 Este texto só poderá ser reproduzido de qualquer forma e por qualquer mídia com a citação explícita do autor.     

sábado, 27 de janeiro de 2024

Un-U na Floresta (4)

 

Un-U na Floresta (4)

 

(“Un-U in the Forest”) - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

A floresta é diferente, é escura, mas é rica. É rica em tudo, é rica na vegetação, é rica em caça, mas também é rica em perigos. A adaptação da vida na savana para uma nova existência em ambiente florestal tem seus caprichos. A mudança mais radical é a habitação. A caverna é muito mais segura em todos os aspectos. A tenda, ao contrário, é relativamente frágil em momentos de muito vento e muita chuva, mas também na proteção contra animais selvagens. E há o fogo e as faíscas que tem de ser constantemente controlados e mantidos baixos, sob risco da armação da tenda se incendiar.           

 

Na verdade, Un-U conhece a vida na floresta, ou melhor, se lembra dessa vida quando era jovem, até que um grupo muito maior do que o dele, expulsou sua gente para a savana, mas que, na época, era bastante rica em alimentos. Mas mesmo depois dessa migração, seu pai e outros velhos do grupo muito lhe contaram e ensinaram sobre aquele tempo.

 

Assim, num primeiro instante, a floresta está sendo o mais importante fornecedor de matérias-primas para a produção de todas as necessidades da vida, de maneira bastante mais fácil do que na savana. Un-U e seu grupo também sabem distinguir frutos, cogumelos e ervas consumíveis dos imprestáveis. E a floresta oferece uma diversidade bem maior que a savana. Mesmo a caça na floresta é mais fácil, pois a grande dificuldade na savana era a aproximação em terreno muito aberto sem ser percebido pelos animais até chegar a uma distância que permitisse o uso da lança. Agora, a vegetação bastante fechada permite que o grupo possa cercar a caça para então abatê-la. Ao mesmo tempo, aumentam as possibilidades de serem surpreendidos por um urso, um bisonte, ou um javali assustado e feroz. Perigos mortais podem surgir inesperadamente a qualquer momento.

 

E lá está o rio. O rio bastante largo é uma fonte adicional àqueles alimentos conhecidos da savana. Ma-Na se lembra vagamente como seu pai preparava nassas, as armadilhas de peixe feitas de vime. O cardápio mudou bastante em relação aos tempos da savana – ficou mais rico e menos dependente das estações do ano. O peixe, como a carne, pode ser assado num espeto sobre o fogo ou é coberto por uma camada de lama e colocado dentro do fogo até assar.

 

Mesmo que a floresta ainda abrigue constantes surpresas, o desafio do grupo está no rio, em aproveitar o rio por meio de alguma embarcação. Ensinados pelos mais velhos, procuram um tronco de árvore suficientemente grosso, já caído e com a madeira já mais seca. Começam a aplainar um lado com seus machados de pedra lascada e cunhas de madeira e osso. Em seguida colocam fogo onde o tronco deve ser escavado. Num longo trabalho de queimar o cerne do tronco e manter húmidas as bordas a serem conservadas começa a surgir uma embarcação apta a transportar duas ou três pessoas. Por fim são calafetados os furos de antigos galhos com resina de pinheiros. Isso feito, pode-se pescar em partes mais fundas do rio

 

Numa exploração para mais longe, Un-U e An-Ga, um membro do mesmo grupo, talvez um parente, remando rio acima, depois de algumas curvas descobrem uma ilha no meio do rio. Chegando lá desembarcam e puxam o barco para a terra. Não esperam qualquer caça, mas logo descobrem vários pés de avelã, dos quais se servem enchendo suas bolsas. 

 

E, de repente, um susto. Numa pequena clareira, lá estão as cinzas de uma fogueira. Un-U coloca uma mão nas cinzas – estão frias, mas ainda não cresceu vegetação próxima da fogueira. Sendo apenas em dois, Un-U e An-Ga, mesmo muito curiosos, resolvem abandonar a ilha e voltar para seu acampamento para contar o achado ao conselho dos velhos. Mais preparados, certamente voltarão à ilha num grupo maior.   

 

Mas o rio tem suas perfídias. Depois de uma longa e forte chuva, seu nível começa a crescer mais do que já tinha acontecido anteriormente. Un-U e Ma-Na se veem obrigados a rapidamente tiram as peles da tenda. O barco, amarado numa árvore, começa a subir com o rio e ao passo que o rio toma conta das margens, Un-U o puxa para fora do leito do rio, e com a água entrando na floresta, ele, Ma-Na e Na-I entram na embarcação, depois de amarrada numa árvore para não ser levada pela correnteza. Assim permanecem por três dias e três noite, tomando a água da chuva colhida numa pele estendida e comendo o que Ma-Na tinha guardado na tenda.

 

Quando, finalmente, a chuva para e o rio começa a baixar, começam a procurar animais mortos, já que a vegetação está totalmente destruída. Acabam por encontrar alguns peixes numa poça d’água depois do rio baixar, o que lhes garante o alimento para os próximos dias. Para conseguir fazer um novo fogo precisam achar alguns galhos secos, ainda nas árvores. A nova tenda é construída em terreno um pouco mais elevado, embora sem a proteção que do barranco do rio nos fundos. A vida volta ao normal, caçar, pescar e procurar frutas e plantas e cogumelos comestíveis.

 

Mas os vestígios da fogueira na ilha não saem da cabeça de Un-U.

 

 Este texto só poderá ser reproduzido de qualquer forma e por qualquer mídia com a citação explícita do autor.     

 

 

 

 

 

 

 

terça-feira, 23 de janeiro de 2024

A China e Sua População

 

A China e Sua População

 

(“China and Its Population” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Até onde for rastreável, a China foi na maior parte do tempo o país mais populoso do mundo, ou seja, na média cerca de 15%, com picos perto dos 30%, da população mundial eram chineses. No ano zero da atual contagem de tempo, a China tinha cerca de 58 milhões de habitantes, enquanto a população mundial era de aproximadamente 160 milhões de almas.

 

O desenvolvimento da população sempre foi importante para os chineses. Na sociedade tradicional chinesa, ter filhos era considerado uma grande fortuna. Politicamente, também, uma grande população sempre foi associada a uma certa posição de poder. No entanto, na história do país tem havido vários momentos de elevadas perdas populacionais como resultado de guerras (incluindo guerras civis) e catástrofes naturais (inundações, terramotos). É por isso que uma alta taxa de natalidade era vista como uma compensação por perdas populacionais anteriores. Mao Tsé-Tung formulou isso nos seguintes termos: "É uma coisa excelente que a China tenha uma grande população. Mesmo que a população da China aumente muitas vezes, ainda será possível encontrar uma solução. A solução é a produção."    

 

Todavia, a China é um país com menos de um terço de seu território sendo terras aráveis, onde vivem cerca de 45% de sua população. Quando já se aproximava a uma população de um bilhão de habitantes, as reformas econômicas, incluindo a coletivização das terras, sob a visão comunista de Mao Tsé-Tung do “Grande Salto para Frente” revelaram-se desastrosas, resultando em quase três anos de extrema escassez de alimentos e a morte por fome de cerca de 30 milhões de pessoas. Em seguida, entretanto, a quase explosão demográfica continuou, motivando, finalmente, a adoção da política do filho único em 1971. Mesmo assim, o crescimento populacional continuou, embora a taxas decrescentes. Um fator importante para esse crescimento foi o significativo aumento da expectativa de vida, que em apenas sete décadas quase dobrou, de 43,7 para 78,8 anos.

 

A partir de 1980, a China alcançou em apenas quatro décadas o mesmo nível de industrialização que os países desenvolvidos levaram séculos. A partir de então, o país experimentou um rápido e expressivo avanço econômico, tecnológico e social, acompanhado de um contínuo crescimento do PIB per capita, mormente entre a população urbana. Ao mesmo tempo, a mulher chinesa começou a acompanhar padrões de nações desenvolvidas, tanto com relação ao ingresso no mercado de trabalho, quanto à autonomia sobre sua fecundidade. Com isso, voluntária e espontaneamente não apenas refreou o número de filhos, como retardou seu nascimento. Contribuíram para isso também fatores como o espaço cada vez mais caro das moradias e o custo elevado do preparo dos filhos para a vida profissional.         

 

Assim, não surpreende que, mais rápido do que em outros países, os efeitos dessa realidade começaram a refletir-se sobre as taxas de natalidade. Numa contramarcha no início do século XXI, percebendo as projeções negativas num futuro da política do filho único, o governo chinês afrouxou a mesma, inicialmente para dois, mais tarde para três filhos.  

 

Não obstante pesquisas sérias afirmem uma evolução negativa de nascimentos desde 2015, dados oficiais de autoridades chinesas informam em 2023 um crescimento negativo de população de 700 mil habitantes no ano anterior, e, recentemente, de 2,85 milhões de pessoas para 2023. Aparentemente, o país atingiu oficialmente o ápice de sua população em 2021, com cerca de 1,4 bilhão de habitantes. Tudo indica que já se deu o início de uma nova dinâmica demográfica com sentido decrescente. Com que consequências?

 

Nessa situação, a China ganhou, no mínimo, uma imagem surpreendente e inusitada. Como a taxa de fertilidade, há muitos anos, situa-se abaixo daquela de reprodução a população, já no curto prazo o país deverá começar a experimentar uma redução na sua força de trabalho, de consumidores e de contribuintes de impostos, com efeitos econômicos e sociais extremamente negativos e com reflexos inevitáveis sobre toda a conjuntura nacional. De acordo com o Escritório Nacional de Estatísticas, o número de pessoas empregadas na China caiu em mais de 41 milhões de 2019 para 2022. (Isso equivale a quase o número total de trabalhadores na Alemanha.) 

 

Ao mesmo tempo, o ônus decorrente da assistência aos idosos e com aposentadorias aumentará - e essa população, segundo estimativas da ONU, deverá ser de cerca de 110 milhões de habitantes até 2050. No mesmo prazo o número de aposentados deverá aumentar de atuais quase 200 para 400 milhões.

 

A situação atual é um grande desafio econômico e político e social para o governo chinês. Na verdade, outros países encontram-se em situação demográfica semelhante, talvez não tão dinâmica. Daí, devido sua característica autoritária, o governo chinês poderá apresentar respostas pragmáticas que em países democráticos certamente encontrarão resistências (vide a França na tentativa de ajustar a idade para a aposentadoria.) Será preciso aguardar, pois até agora, nem na China, nem em outros países existem programas concretos para enfrentar ou ajustar-se a essa nova realidade demográfica.       

 

 

sábado, 20 de janeiro de 2024

Un-U e o Fogo na Savana (3)

 

Un-U e o Fogo na Savana (3)

 

(“Un-U and the Fire in the Savannah” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

O verão está sendo muito quente e bastante seco. Trovoadas são comuns na savana, raios e trovões são cotidianos nessa época do ano. Mas esse verão está sendo muito seco, Un-U e o resto do grupo estão encontrando dificuldades em encontrar alimentos. As buscas diárias por alimentos são cada vez mais exaustivas e, ao mesmo tempo, menos rendosos.

 

Até que, depois de uma trovoada rápida, Un-U percebe uma nuvem crescente de fumaça elevando-se sobre a savana, aparentemente não muito distante. Os outros membros do grupo também começam a olhar apreensivos em direção à coluna de fumaça. A savana está muito seca. Em geral, no caso de uma árvore ser atingida por um raio, a própria chuva impede que as chamas se alastrem. Mas, dessa vez, parece que a situação é diferente. A fumaça aumenta e em alguns momentos Un-U tem a impressão de ver chamas ao longe. E, de fato, o incêndio está se propagando e parece aproximar-se do sítio do grupo. A fumaça está ficando perto e, vez por outra, ventos estão jogando-a para dentro da caverna de Un-U. São maus presságios e que, ao amanhecer acabam por concretizar-se.

 

Sem exatamente saber para onde está fugindo e sem distinguir o fogo da caverna com aquele lá fora, uma cabra silvestre refugia-se para dentro da caverna. Uma caça benvinda, mas quando Un-U percebe que está prenha, deixa-a à vontade para sair quando quiser. Alguns pássaros procuram o mesmo refúgio.

 

Na manhã seguinte, todo o grupo percebe que suas preocupações se confirmaram. Toda a savana próxima que lhes garantia seu sustento virou cinzas. Porém, conforme sua experiência, Un-U e todo o grupo saem para a savana queimada em busca de animais mortos pelas chamas, alguns até já bastante assados. E são muitos, de cobras e lebres a javalis e veados. O fogo tinha sido avassalador.

 

Un-U logo percebe que, depois de consumida toda essa carne não haverá mais nada de alimento, nem mel, nem lesmas, nem larvas, nem nozes, e a recuperação da natureza levará bastante tempo. As consequências são evidentes, afinal, migrar de tempos em tempo para lugares mais promissores é parte da vida de Un-U e Ma-Na e os outros. Para a filha Na-I será a primeira experiência. Ma-Na está novamente grávida, talvez a última vez depois de tantos verões de vida.

 

Carregando couros e peles enrolados nas costas e munido de suas ferramentas, contendo pedra de fogo e fungo pavio e alguns alimentos, Un-U, Ma-Na, carregando uma panela de barro nas costas e mais alguns alimentos, e Na-i começam sua marcha para o oeste, onde há, segundo dizem alguns, florestas frondosas e rios cheios de peixes. A marcha leva semanas, às vezes expondo o grupo a penúrias, outras vezes, proporcionando relativa fartura, quando então resolve permanecer por alguns dias. Na falta de abrigo mais sólido, o fogo sempre deve ser mantido alto durante a noite para afastar eventuais animais perigosos.

 

Certa feita, uma pequena alcateia de lobos aproximou-se de seu local de pernoitar. Via de regra, os lobos não atacam humanos, mas, talvez, o cheiro do preparo do coelho que Un-U caçou os atraiu. É preciso Un-U e Ma-Na pegar vários pedaços de lenha em chama e jogar no meio dos lobos para que eles desistam e se afastem.  Em outro momento, um urso enorme aparece pouco distante à sua frente. Un-U, e o restante do grupo, seguraram mais firme suas lanças com ponta de pedra lascada, fixada com alcatrão de bétula, mas o animal está aparentemente de barriga cheia e não se vê ameaçado, seguindo tranquilo seu caminho.

 

Sempre se dirigindo em direção ao pôr do sol, começam a aparecer algumas ilhas de mato mais alto e mais fechado e a família atravessa vários cursos d’água, mas Un-U procura um ambiente que lhe garanta condições de subsistência por um tempo possivelmente longo.

 

Por fim, depois de quase três luas de caminhada exaustiva, a natureza torna-se mais promissora e depois de andar vários dias por um terreno mais montanhoso e predominantemente de florestas altas, Un-U, Ma-Na e Na-I chegam a um rio bastante largo, com ribanceiras às vezes rasas, outras vezes mais acidentadas e margeado em ambos os lados por uma vegetação mais rala. Resolvem para ali sua caminhada.

 

Junto a uma elevação mais íngreme, Un-U monta uma tenda redonda de galhos de árvores que se juntam no topo, cobrindo tudo com peles e couro e deixando uma abertura no topo para a fumaça poder sair, como já o tinha feito várias vezes antes, afinal, cavernas são raras. Ma-Na acende o fogo no meio da tenda com a pedra de fogo e o fungo-pavio. No dia seguinte, começa uma nova vida, com novos desafios e novas experiências.

 

Nota: Os povos Sami na Lapônia, norte da Finlândia, produzem e usam até hoje o alcatrão de bétula como cola e massa de calafetar, e habitam tendas redondas do tipo ‘lavvu’, conforme descrito no texto. 


Este texto só poderá ser reproduzido de qualquer forma e por qualquer mídia com a citação explícita do autor.      

 

 

 

sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

Un-U e a Loba (2)

 

Un-U e a Loba (2)

(“Un-U and the Wolf” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Com o clarear do dia e a primeira luz a entrar na caverna, Un-U e sua mulher, Ma-Na, levantam de seu estrado de galhos e folhas. Un-U coloca lenha no fogo e Ma-Na começa a preparar um mingau de milho com um resto dos frutos colhidos no dia anterior. A pequena Na-I, de dois anos, continua dormindo. As famílias dos dois irmãos de Un-U, moradores da mesma caverna, também se preparam para um novo dia.

 

Ao sair da caverna, Un-U assusta-se. Um lobo, melhor uma loba, está deitada perto da entrada da caverna. Un-U para, e sem se mexer olha para a loba que, fixando-o com os olhos, levanta-se lentamente para novamente sentar-se um pouco adiante, aparentemente sem qualquer intenção agressiva. Ma-Na presencia a cena e sorrateiramente coloca a borduna na mão de Nu-U. Os dois irmãos de UIn-U, quando também percebem a presença da loba, tentam afugentá-la com suas lanças. Porém, Un-U os impede. Por fim a loba, sem mostrar qualquer hostilidade, afasta-se mais um pouco, para deitar-se na sombra de um arbusto. Unu-U consegue convencer toda sua família a deixá-la em paz. Um tanto apreensivo pela visita, os membros do clã retornam ao seu cotidiano, sempre de olho naquele arbusto. Finalmente, ao anoitecer, a loba sumiu.

 

No dia seguinte, ao amanhecer, lá está ela de volta debaixo do arbusto, atenta, mas tranquila. Isso repete-se por algum tempo. De vez em quando, um e outro morador da caverna joga algum resto de comida para perto do arbusto e a loba o come. Por mais que os ossos tenham sido limpos com os dentes, a loba acha mais alguma carne, por fim, próprio osso. Mas Ma-Na está muito preocupada por causa da pequena Na-I.

 

A partir de algum momento, quando Un-U vai para a savana, a loba o segue, sempre mantendo uma boa distância. Segue-o até a colmeia de onde ele tira algum mel de tempo em tempo, até a encosta onde costuma haver muitos cogumelos e frutas silvestres, e até o velho tronco de árvore, onde sempre encontra larvas de baixo da casca. Com o tempo, a distância com que a loba segue Un-U em suas andanças diminui. Quando, no entanto, Un-U, seus irmãos e mais alguns homens do grupo saem para caçar javali, a loba não os acompanha.

 

Enquanto Un-U não faz qualquer esforço para manter distância da loba, Ma-Na é mais receosa, principalmente por causa da menina Na-I. Por outro lado, a loba nunca se aproxima demasiadamente do acesso da caverna, até porque a fogueira perto da entrada está sempre acesa, soltando um pouco de fumaça. Então, há um momento inusitado. UN-U está sentado numa pedra perto da caverna, arrumando seu machado de pedra lascada quando a loba chega lentamente perto de Un-U, sem olhar para ele e, de repente, deita junto a seus pés, então, sim, o encarando e depois esticando a cabeça no chão, fechando os olhos. Un-U permanece sentado mais tempo do que necessário sem, todavia, tocar no animal. Ma-Na vê a cena de longe ganhando um pouco mais de confiança na loba – mas, é uma loba.

 

Embora fosse tratado mais como lenda, há entre os membros do grupo quem afirma que já houve caso parecido com lobos. Mesmo assim, os outros e a própria loba mantêm razoável distância entre si.

 

Na-I, embora já andasse firmemente, nunca sai da caverna sem pai ou mãe. O mesmo acontece com as outras duas crianças pequenas, filhos dos irmãos de Un-U. Mas, um dia, uma borboleta entra voando na caverna, relativamente baixa, Na-i corre atrás dela com a intenção de pegá-la. Sem perceber, acompanha a borboleta quando essa novamente sai da caverna. A borboleta afasta-se rapidamente e Na-I fica parada acompanhando-a com os olhos. Ela não percebe que a loba se aproxima calma e lentamente, parando ao lado de Na-I Ela começa a lamber primeiro seu braço, depois seu rosto. Na-i, despreocupada, pega nas suas orelhas, puxando-as para cima e para baixo. A loba não reage, parece gostar da carícia e senta em frente de Na-I. Quando Ma-Na percebeu a ausência de Na-I, olha para fora da caverna e leva um enorme susto, apavorando-se com a cena de entendimento mútuo de sua filha com a loba. Ela não grita para não assustar a loba, sai lentamente em direção a Na-I e sem olhar para a loba, que a observa atentamente, pega sua mão e puxa-a para dentro da caverna.

 

Algum tempo depois, a loba desaparece por um, longo tempo. Quando, depois de muitas luas, reaparece, está acompanhada de três filhotes. Ela espa em frente à caverna até ver Na-I, olha longamente para ela até virar-se e desaparecer com os filhotes por entre os arbustos – para nunca mais ser vista.

 

Nota: Estudos recentes convergem para a conclusão de que, diferentemente de outros animais silvestres que foram domesticados, no período paleolítico, o cão 001 resultou de uma aproximação espontânea e pacífica entre homem e lobo – muito antes de Romulo e Remo. 


Este texto só poderá ser reproduzido de qualquer forma e por qualquer mídia com a citação explícita do autor.        

 

   

 

 

 

domingo, 7 de janeiro de 2024

Un-U e o 'Por Quê?'. (1)

 

Un-U e o ‘Por quê?’. (1)

(“Un-U and the ‘Why?'” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Os primeiros raios de sol estão batendo na entrada da pequena caverna, encravada na encosta de uma colina, que Un-U habita com sua mulher, Ma-Na, e o dois filhos, há muitos sóis. Como de praxe, Un-U alimentou o fogo perto da entrada da caverna por várias vezes durante a noite. Ele habita essa caverna desde que a encontrou, Ma-Na, ainda jovem, escondida num canto e o resto da família dela morta e dilacerada por algum predador. Havia muitos deles por perto. Junto com ele moram aí dois irmãos seus, com suas famílias.

 

Está frio e enquanto Ma-Na já está amamentando a filha menor, Un-U levanta do estrado de galhos e folhas, coloca um pedaço grande de lenha na fogueira e sai da caverna, que, na verdade é apenas um espaço oco embaixo de uma laje de pedra, mas com acesso relativamente pequeno. Há na região cavernas semelhantes, aliás, muito disputadas pelos membros do grupo, nem sempre de forma pacífica.

 

Un-U e Ma-Na já tiveram vários filhos, dos quais vários já que morreram, uns mais cedo, outros mais tarde, uns de doença, outros pelas leis da natureza. Sobraram, até aqui, apenas Na-I, já uma moça, e Nu-E, ainda mamando no peito.

 

Un-U come nabo e sai da caverna, onde nada tinha mudado. Munido de uma bolsa amarrada na cintura, na verdade a bexiga de um javali, e sua borduna sai para a savana, com muitos arbustos e uma e outra árvore, hoje excepcionalmente coberta por uma leve bruma. Seu destino é uma árvore já morrendo e debaixo de cuja casca há uma rica safra de larvas. Ele vai lá de tempo em tempo. No caminho encontra uma carcaça de veado, ainda recente, da qual tira com os dentes os restos de carne deixados pelo predador, colocando-os em sua bolsa.

 

Após fartar-se das larvas procuradas, pegou uma boa porção para levar para a caverna. O sol, a essa altura já está alto e Un-U senta-se ao pé daquela árvore, quase morta, mas ainda dando algumas manchas de sombra. Parado assim, as frutas colhidas no caminho começam a atrair algumas abelhas que ele tenta espantar, sem muito sucesso. A insistência delas deixa Un-U brabo e na sua revolta explode uma pergunta em sua mente: “Bato nelas, elas caiem no chão e voltam a voar. Minha lança voa um bom pedaço, mas, no fim, cai no chão. A pedra que jogo num animal intruso, acaba por cair no chão. E essas abelhas continuam à minha frente sem cair! – Hm, sempre foi assim, mas por quê?”                 

 

No caminho para a caverna, ainda passa por um arbusto no qual amadureceram mais frutas de ontem para hoje. Mas a abelha não sai de sua cabeça.

 

Sentado ao anoitecer ao redor do fogo, comendo as iguarias trazidas para casa e um tubérculo que Ma-Natinha assado no fogo, perguntou a seus irmãos, ambos mais velhos que ele, “Por que a abelha não cai no chão, e minha lança cai, as folhas das árvores caem? A abelha voa na minha frente, e eu não consigo tirar os pés do chão?” Silêncio. Os dois irmãos se entreolham e sacodem as cabeças. Un-U olha para eles, mais velhos e mais experientes, mas não recebe resposta. De repente, Om-U, o irmão mais velho se levanta, murmurando “o Grande Daros sabe” e vai ao interior da caverna. A noite cai e todos se recolhem a seus estrados.

 

Cada vez que Un-U vê uma abelha volta a mesma pregunta à cabeça. Pássaros e borboletas voando não despertam a mesma dúvida. Um dia, porém, sua filha Na-I volta do rio e pergunta a Un-U, “Porque os peixes podem ficar embaixo a água o tempo todo, e eu não posso?” Un-U olha espantado para a filha, pensa longamente, e responde: “O Grande Daros sabe.”

 

Un-U nunca descobriu o segredo da abelha, nem a do peixe, mas os ‘por quês’ tinham começado a fazer parte da humanidade. Demorou, mas alguns ‘por quês’ começaram a encontrar resposta e ajudar a entender a vida na Terra – e os descentes de Un-U se tornarem-se seu maior predador. 


Este texto só poderá ser reproduzido de qualquer forma e por qualquer mídia com a citação explícita do autor.     

 

 

 

 

 

sábado, 6 de janeiro de 2024

De Sigurdo a Harry Potter - Nossos Heróis Encolhem?

 

De Sigurdo a Harry Potter – Nossos Heróis Encolhem?

 

(“From Sigurd to Harry Potter – Do Our Heroes Shrink?” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Nota: Sigurdo, mitologia germânica, ao lado de Hércules, da mitologia grega, é tido como talvez o maior herói da antiguidade, que abateu o dragão que ameaçava seu povo e dominou os ‘nibelungen’, mas foi traiçoeiramente morto numa disputa amorosa. Harry Potter, acredito, dispensa comentários.

 

Parece difícil imaginar nossos modelos pessoais e sociais sem as figuras de heróis. E provavelmente sempre foi assim. Afinal, heróis marcam sua presença ao longo de toda a história registrada da humanidade. São, de maneira geral, pessoas que enfrentam uma tarefa difícil com intrepidez e coragem e que realizam atos inusitados que lhes rendem admiração. Na maioria das vezes, heróis são lembrados em conexão com batalhas e momentos bélicos, deslocando, um tanto injustamente, heroísmos civis para o segundo plano.

 

Os heróis em armas de épocas antigas, como Hércules ou Sigurdo, com apenas parcos registros históricos, habitam até hoje as mitologias de seus povos. O mesmo ocorre com os heróis na dimensão religiosa, como Jesus Cristo, Maomé e Lao Tsé, além de muitos santos e mártires de todo o espectro religioso. Já heróis de épocas mais recentes, menos guerreiros e mais social e humanitariamente engajados, como Mahatma Gandhi ou Martin Luther King representam momentos decisivos para seus povos.

 

Então, ao lado dessas pessoas símbolos da defesa de suas causas, a história também conhece seus anti-heróis, como Gengis Khan, Hernan Cortés, ou Adolf Hitler, entre outros. Em geral, são pessoas com poder que buscam alcançar seus objetivos sem quaisquer escrúpulos ou padrões mínimos de moral. Mas, às vezes, é apenas uma questão de perspectiva: em boa parte do mundo islâmico, Osama bin Laden é reverenciado como herói, contrário ao mundo cristão, ou seja, os heróis de uns podem ser os vilões de outros.

 

Em tudo isso, é preciso levar em conta que heróis da antiguidade são nos transmitidos no quadro dos padrões culturais que os identificaram como tais em seus tempos, seus ambientes e seus lugares, e que seguramente divergem das conceituações da sociedade moderna. Em outras palavras, estamos aceitando o heroísmo – e o anti-heroismo – como era entendido em cada época. Herói ou anti-herói são, obviamente, categorizações com a objetividade que a história lhes conferiu. No plano subjetivo, por exemplo, até hoje há seguidores de Hitler, que o cultuam como herói.

 

Nesse ponto, encontramos um fenômeno novo, embora no varejo do heroísmo, naquele heroísmo de manchete de um dia, de arriscar a própria vida para salvar a de outra pessoa. Na medida em que aumenta a prosperidade diminui a disposição para atos ‘heróicos’, que se espera sejam assumidos pelos outros. É o caso do olhar para o lado para não se envolver. Enquanto isso, o bandidinho é capaz de virar herói do seu beco na favela.

 

E o que constatamos hoje, é uma certa desnecessidade de heróis em nossas sociedades. Estamo-nos tornando uma sociedade pós-heróica, que é uma sociedade que lembra que já foi heroica, que lutou guerras heroicas – ou o que pensava que eram – e que descreve a despedida delas como um processo de aprendizagem, de maturação. Valores heroicos já não estão em voga nas sociedades ocidentais. As imagens dos heróis de cada um e cada sociedade parecem apagar-se gradualmente na modernidade. Ao mesmo tempo, começam a surgir novos heróis, como Superman ou Harry Potter em uma sociedade que substitui a reverência pela emoção. Entretanto, de Batman ao Menino Louquinho, esses heróis de papel jamais atingirão patamares de referência e deferência histórica.   

 

Observamos hoje uma certa inversão de valores a sociedade moderna que tende a confundir com heróis, personagens sem escrúpulos e com carências morais, (des)qualidades que, no entanto, são ignoradas num combate a um suposto ou arbitrário inimigo – no mais puro populismo. Mas populismo e heroísmo não tem absolutamente nada em comum.

 

E os anti-heróis? Ele continuam a surgir.