sábado, 20 de janeiro de 2024

Un-U e o Fogo na Savana (3)

 

Un-U e o Fogo na Savana (3)

 

(“Un-U and the Fire in the Savannah” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

O verão está sendo muito quente e bastante seco. Trovoadas são comuns na savana, raios e trovões são cotidianos nessa época do ano. Mas esse verão está sendo muito seco, Un-U e o resto do grupo estão encontrando dificuldades em encontrar alimentos. As buscas diárias por alimentos são cada vez mais exaustivas e, ao mesmo tempo, menos rendosos.

 

Até que, depois de uma trovoada rápida, Un-U percebe uma nuvem crescente de fumaça elevando-se sobre a savana, aparentemente não muito distante. Os outros membros do grupo também começam a olhar apreensivos em direção à coluna de fumaça. A savana está muito seca. Em geral, no caso de uma árvore ser atingida por um raio, a própria chuva impede que as chamas se alastrem. Mas, dessa vez, parece que a situação é diferente. A fumaça aumenta e em alguns momentos Un-U tem a impressão de ver chamas ao longe. E, de fato, o incêndio está se propagando e parece aproximar-se do sítio do grupo. A fumaça está ficando perto e, vez por outra, ventos estão jogando-a para dentro da caverna de Un-U. São maus presságios e que, ao amanhecer acabam por concretizar-se.

 

Sem exatamente saber para onde está fugindo e sem distinguir o fogo da caverna com aquele lá fora, uma cabra silvestre refugia-se para dentro da caverna. Uma caça benvinda, mas quando Un-U percebe que está prenha, deixa-a à vontade para sair quando quiser. Alguns pássaros procuram o mesmo refúgio.

 

Na manhã seguinte, todo o grupo percebe que suas preocupações se confirmaram. Toda a savana próxima que lhes garantia seu sustento virou cinzas. Porém, conforme sua experiência, Un-U e todo o grupo saem para a savana queimada em busca de animais mortos pelas chamas, alguns até já bastante assados. E são muitos, de cobras e lebres a javalis e veados. O fogo tinha sido avassalador.

 

Un-U logo percebe que, depois de consumida toda essa carne não haverá mais nada de alimento, nem mel, nem lesmas, nem larvas, nem nozes, e a recuperação da natureza levará bastante tempo. As consequências são evidentes, afinal, migrar de tempos em tempo para lugares mais promissores é parte da vida de Un-U e Ma-Na e os outros. Para a filha Na-I será a primeira experiência. Ma-Na está novamente grávida, talvez a última vez depois de tantos verões de vida.

 

Carregando couros e peles enrolados nas costas e munido de suas ferramentas, contendo pedra de fogo e fungo pavio e alguns alimentos, Un-U, Ma-Na, carregando uma panela de barro nas costas e mais alguns alimentos, e Na-i começam sua marcha para o oeste, onde há, segundo dizem alguns, florestas frondosas e rios cheios de peixes. A marcha leva semanas, às vezes expondo o grupo a penúrias, outras vezes, proporcionando relativa fartura, quando então resolve permanecer por alguns dias. Na falta de abrigo mais sólido, o fogo sempre deve ser mantido alto durante a noite para afastar eventuais animais perigosos.

 

Certa feita, uma pequena alcateia de lobos aproximou-se de seu local de pernoitar. Via de regra, os lobos não atacam humanos, mas, talvez, o cheiro do preparo do coelho que Un-U caçou os atraiu. É preciso Un-U e Ma-Na pegar vários pedaços de lenha em chama e jogar no meio dos lobos para que eles desistam e se afastem.  Em outro momento, um urso enorme aparece pouco distante à sua frente. Un-U, e o restante do grupo, seguraram mais firme suas lanças com ponta de pedra lascada, fixada com alcatrão de bétula, mas o animal está aparentemente de barriga cheia e não se vê ameaçado, seguindo tranquilo seu caminho.

 

Sempre se dirigindo em direção ao pôr do sol, começam a aparecer algumas ilhas de mato mais alto e mais fechado e a família atravessa vários cursos d’água, mas Un-U procura um ambiente que lhe garanta condições de subsistência por um tempo possivelmente longo.

 

Por fim, depois de quase três luas de caminhada exaustiva, a natureza torna-se mais promissora e depois de andar vários dias por um terreno mais montanhoso e predominantemente de florestas altas, Un-U, Ma-Na e Na-I chegam a um rio bastante largo, com ribanceiras às vezes rasas, outras vezes mais acidentadas e margeado em ambos os lados por uma vegetação mais rala. Resolvem para ali sua caminhada.

 

Junto a uma elevação mais íngreme, Un-U monta uma tenda redonda de galhos de árvores que se juntam no topo, cobrindo tudo com peles e couro e deixando uma abertura no topo para a fumaça poder sair, como já o tinha feito várias vezes antes, afinal, cavernas são raras. Ma-Na acende o fogo no meio da tenda com a pedra de fogo e o fungo-pavio. No dia seguinte, começa uma nova vida, com novos desafios e novas experiências.

 

Nota: Os povos Sami na Lapônia, norte da Finlândia, produzem e usam até hoje o alcatrão de bétula como cola e massa de calafetar, e habitam tendas redondas do tipo ‘lavvu’, conforme descrito no texto. 


Este texto só poderá ser reproduzido de qualquer forma e por qualquer mídia com a citação explícita do autor.      

 

 

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário