Un-U e o Fogo na Savana (3)
(“Un-U and the Fire in
the Savannah” - This text is written in a way to
ease comprehensive electronic translation)
Klaus H. G. Rehfeldt
O
verão está sendo muito quente e bastante seco. Trovoadas são comuns na savana,
raios e trovões são cotidianos nessa época do ano. Mas esse verão está sendo
muito seco, Un-U e o resto do grupo estão encontrando dificuldades em encontrar
alimentos. As buscas diárias por alimentos são cada vez mais exaustivas e, ao
mesmo tempo, menos rendosos.
Até que, depois de uma trovoada rápida, Un-U percebe uma
nuvem crescente de fumaça elevando-se sobre a savana, aparentemente não muito
distante. Os outros membros do grupo também começam a olhar apreensivos em
direção à coluna de fumaça. A savana está muito seca. Em geral, no caso de uma
árvore ser atingida por um raio, a própria chuva impede que as chamas se alastrem.
Mas, dessa vez, parece que a situação é diferente. A fumaça aumenta e em alguns
momentos Un-U tem a impressão de ver chamas ao longe. E, de fato, o incêndio
está se propagando e parece aproximar-se do sítio do grupo. A fumaça está
ficando perto e, vez por outra, ventos estão jogando-a para dentro da caverna
de Un-U. São maus presságios e que, ao amanhecer acabam por concretizar-se.
Sem exatamente saber para onde está fugindo e sem distinguir
o fogo da caverna com aquele lá fora, uma cabra silvestre refugia-se para dentro
da caverna. Uma caça benvinda, mas quando Un-U percebe que está prenha, deixa-a
à vontade para sair quando quiser. Alguns pássaros procuram o mesmo refúgio.
Na manhã seguinte, todo o grupo percebe que suas preocupações
se confirmaram. Toda a savana próxima que lhes garantia seu sustento virou cinzas.
Porém, conforme sua experiência, Un-U e todo o grupo saem para a savana
queimada em busca de animais mortos pelas chamas, alguns até já bastante
assados. E são muitos, de cobras e lebres a javalis e veados. O fogo tinha sido
avassalador.
Un-U logo percebe que, depois de consumida toda essa carne
não haverá mais nada de alimento, nem mel, nem lesmas, nem larvas, nem nozes, e
a recuperação da natureza levará bastante tempo. As consequências são evidentes,
afinal, migrar de tempos em tempo para lugares mais promissores é parte da vida
de Un-U e Ma-Na e os outros. Para a filha Na-I será a primeira experiência. Ma-Na
está novamente grávida, talvez a última vez depois de tantos verões de vida.
Carregando couros e peles enrolados nas costas e munido de
suas ferramentas, contendo pedra de fogo e fungo pavio e alguns alimentos,
Un-U, Ma-Na, carregando uma panela de barro nas costas e mais alguns alimentos,
e Na-i começam sua marcha para o oeste, onde há, segundo dizem alguns,
florestas frondosas e rios cheios de peixes. A marcha leva semanas, às vezes
expondo o grupo a penúrias, outras vezes, proporcionando relativa fartura,
quando então resolve permanecer por alguns dias. Na falta de abrigo mais
sólido, o fogo sempre deve ser mantido alto durante a noite para afastar
eventuais animais perigosos.
Certa feita, uma pequena alcateia de lobos aproximou-se de
seu local de pernoitar. Via de regra, os lobos não atacam humanos, mas, talvez,
o cheiro do preparo do coelho que Un-U caçou os atraiu. É preciso Un-U e Ma-Na
pegar vários pedaços de lenha em chama e jogar no meio dos lobos para que eles desistam
e se afastem. Em outro momento, um urso
enorme aparece pouco distante à sua frente. Un-U, e o restante do grupo,
seguraram mais firme suas lanças com ponta de pedra lascada, fixada com
alcatrão de bétula, mas o animal está aparentemente de barriga cheia e não se
vê ameaçado, seguindo tranquilo seu caminho.
Sempre se dirigindo em direção ao pôr do sol, começam a aparecer
algumas ilhas de mato mais alto e mais fechado e a família atravessa vários
cursos d’água, mas Un-U procura um ambiente que lhe garanta condições de
subsistência por um tempo possivelmente longo.
Por fim, depois de quase três luas de caminhada exaustiva, a
natureza torna-se mais promissora e depois de andar vários dias por um terreno
mais montanhoso e predominantemente de florestas altas, Un-U, Ma-Na e Na-I
chegam a um rio bastante largo, com ribanceiras às vezes rasas, outras vezes
mais acidentadas e margeado em ambos os lados por uma vegetação mais rala. Resolvem
para ali sua caminhada.
Junto a uma elevação mais íngreme, Un-U monta uma tenda
redonda de galhos de árvores que se juntam no topo, cobrindo tudo com peles e couro
e deixando uma abertura no topo para a fumaça poder sair, como já o tinha feito
várias vezes antes, afinal, cavernas são raras. Ma-Na acende o fogo no meio da
tenda com a pedra de fogo e o fungo-pavio. No dia seguinte, começa uma nova
vida, com novos desafios e novas experiências.
Nota: Os povos Sami na Lapônia, norte da Finlândia, produzem e usam até hoje o alcatrão de bétula como cola e massa de calafetar, e habitam tendas redondas do tipo ‘lavvu’, conforme descrito no texto.
Este texto só poderá
ser reproduzido de qualquer forma e por qualquer mídia com a citação explícita
do autor.
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