A China e Sua População
(“China and Its
Population” - This text is written in a way to
ease comprehensive electronic translation)
Klaus H. G. Rehfeldt
Até
onde for rastreável, a China foi na maior parte do tempo o país mais populoso
do mundo, ou seja, na média cerca de 15%, com picos perto dos 30%, da população
mundial eram chineses. No ano zero da atual contagem de tempo, a China tinha
cerca de 58 milhões de habitantes, enquanto a população mundial era de aproximadamente
160 milhões de almas.
O desenvolvimento da população sempre foi importante para os
chineses. Na sociedade tradicional chinesa, ter filhos era considerado uma
grande fortuna. Politicamente, também, uma grande população sempre foi
associada a uma certa posição de poder. No entanto, na história do país tem
havido vários momentos de elevadas perdas populacionais como resultado de
guerras (incluindo guerras civis) e catástrofes naturais (inundações,
terramotos). É por isso que uma alta taxa de natalidade era vista como uma
compensação por perdas populacionais anteriores. Mao Tsé-Tung formulou isso nos
seguintes termos: "É uma coisa excelente que a China tenha uma grande
população. Mesmo que a população da China aumente muitas vezes, ainda será
possível encontrar uma solução. A solução é a produção."
Todavia, a China é um país com menos de um terço de seu
território sendo terras aráveis, onde vivem cerca de 45% de sua população. Quando
já se aproximava a uma população de um bilhão de habitantes, as reformas
econômicas, incluindo a coletivização das terras, sob a visão comunista de Mao
Tsé-Tung do “Grande Salto para Frente” revelaram-se desastrosas, resultando em quase
três anos de extrema escassez de alimentos e a morte por fome de cerca de 30
milhões de pessoas. Em seguida, entretanto, a quase explosão demográfica
continuou, motivando, finalmente, a adoção da política do filho único em 1971. Mesmo
assim, o crescimento populacional continuou, embora a taxas decrescentes. Um
fator importante para esse crescimento foi o significativo aumento da
expectativa de vida, que em apenas sete décadas quase dobrou, de 43,7 para 78,8
anos.
A partir de 1980, a China alcançou em apenas quatro décadas o mesmo nível de industrialização
que os países desenvolvidos levaram séculos. A partir de então, o país experimentou
um rápido e expressivo avanço econômico, tecnológico e social, acompanhado de
um contínuo crescimento do PIB per capita, mormente entre a população urbana. Ao
mesmo tempo, a mulher chinesa começou a acompanhar padrões de nações
desenvolvidas, tanto com relação ao ingresso no mercado de trabalho, quanto à
autonomia sobre sua fecundidade. Com isso, voluntária e espontaneamente não
apenas refreou o número de filhos, como retardou seu nascimento. Contribuíram
para isso também fatores como o espaço cada vez mais caro das moradias e o
custo elevado do preparo dos filhos para a vida profissional.
Assim, não surpreende que, mais rápido do que em outros
países, os efeitos dessa realidade começaram a refletir-se sobre as taxas de
natalidade. Numa contramarcha no início do século XXI, percebendo as projeções
negativas num futuro da política do filho único, o governo chinês afrouxou a
mesma, inicialmente para dois, mais tarde para três filhos.
Não obstante pesquisas sérias afirmem uma evolução negativa
de nascimentos desde 2015, dados oficiais de autoridades chinesas informam em
2023 um crescimento negativo de população de 700 mil habitantes no ano anterior,
e, recentemente, de 2,85 milhões de pessoas para 2023. Aparentemente, o país atingiu
oficialmente o ápice de sua população em 2021, com cerca de 1,4 bilhão de
habitantes. Tudo indica que já se deu o início de uma nova dinâmica demográfica
com sentido decrescente. Com que consequências?
Nessa situação, a China ganhou, no mínimo, uma imagem
surpreendente e inusitada. Como a taxa de fertilidade, há muitos anos, situa-se
abaixo daquela de reprodução a população, já no curto prazo o país deverá
começar a experimentar uma redução na sua força de trabalho, de consumidores e
de contribuintes de impostos, com efeitos econômicos e sociais extremamente
negativos e com reflexos inevitáveis sobre toda a conjuntura nacional. De acordo
com o Escritório Nacional de Estatísticas, o número de pessoas empregadas na
China caiu em mais de 41 milhões de 2019 para 2022. (Isso equivale a quase o
número total de trabalhadores na Alemanha.)
Ao mesmo tempo, o ônus decorrente da assistência aos idosos e
com aposentadorias aumentará - e essa população, segundo estimativas da ONU,
deverá ser de cerca de 110 milhões de habitantes até 2050. No mesmo prazo o
número de aposentados deverá aumentar de atuais quase 200 para 400 milhões.
A situação atual é um grande desafio econômico e político e social
para o governo chinês. Na verdade, outros países encontram-se em situação
demográfica semelhante, talvez não tão dinâmica. Daí, devido sua característica
autoritária, o governo chinês poderá apresentar respostas pragmáticas que em
países democráticos certamente encontrarão resistências (vide a França na
tentativa de ajustar a idade para a aposentadoria.) Será preciso aguardar, pois
até agora, nem na China, nem em outros países existem programas concretos para
enfrentar ou ajustar-se a essa nova realidade demográfica.
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