Un-U e a Loba (2)
(“Un-U and the Wolf” - This text is written in a way to ease comprehensive
electronic translation)
Klaus H. G. Rehfeldt
Com o clarear do dia e a primeira luz a entrar na caverna, Un-U e sua mulher, Ma-Na,
levantam de seu estrado de galhos e folhas. Un-U coloca lenha no fogo e Ma-Na
começa a preparar um mingau de milho com um resto dos frutos colhidos no dia
anterior. A pequena Na-I, de dois anos, continua dormindo. As famílias dos dois
irmãos de Un-U, moradores da mesma caverna, também se preparam para um novo
dia.
Ao sair da caverna, Un-U assusta-se. Um lobo, melhor uma
loba, está deitada perto da entrada da caverna. Un-U para, e sem se mexer olha
para a loba que, fixando-o com os olhos, levanta-se lentamente para novamente
sentar-se um pouco adiante, aparentemente sem qualquer intenção agressiva.
Ma-Na presencia a cena e sorrateiramente coloca a borduna na mão de Nu-U. Os
dois irmãos de UIn-U, quando também percebem a presença da loba, tentam
afugentá-la com suas lanças. Porém, Un-U os impede. Por fim a loba, sem mostrar
qualquer hostilidade, afasta-se mais um pouco, para deitar-se na sombra de um
arbusto. Unu-U consegue convencer toda sua família a deixá-la em paz. Um tanto
apreensivo pela visita, os membros do clã retornam ao seu cotidiano, sempre de
olho naquele arbusto. Finalmente, ao anoitecer, a loba sumiu.
No dia seguinte, ao amanhecer, lá está ela de volta debaixo
do arbusto, atenta, mas tranquila. Isso repete-se por algum tempo. De vez em
quando, um e outro morador da caverna joga algum resto de comida para perto do
arbusto e a loba o come. Por mais que os ossos tenham sido limpos com os
dentes, a loba acha mais alguma carne, por fim, próprio osso. Mas Ma-Na está
muito preocupada por causa da pequena Na-I.
A partir de algum momento, quando Un-U vai para a savana, a
loba o segue, sempre mantendo uma boa distância. Segue-o até a colmeia de onde
ele tira algum mel de tempo em tempo, até a encosta onde costuma haver muitos
cogumelos e frutas silvestres, e até o velho tronco de árvore, onde sempre
encontra larvas de baixo da casca. Com o tempo, a distância com que a loba
segue Un-U em suas andanças diminui. Quando, no entanto, Un-U, seus irmãos e
mais alguns homens do grupo saem para caçar javali, a loba não os acompanha.
Enquanto Un-U não faz qualquer esforço para manter distância
da loba, Ma-Na é mais receosa, principalmente por causa da menina Na-I. Por
outro lado, a loba nunca se aproxima demasiadamente do acesso da caverna, até
porque a fogueira perto da entrada está sempre acesa, soltando um pouco de
fumaça. Então, há um momento inusitado. UN-U está sentado numa pedra perto da
caverna, arrumando seu machado de pedra lascada quando a loba chega lentamente
perto de Un-U, sem olhar para ele e, de repente, deita junto a seus pés, então,
sim, o encarando e depois esticando a cabeça no chão, fechando os olhos. Un-U
permanece sentado mais tempo do que necessário sem, todavia, tocar no animal.
Ma-Na vê a cena de longe ganhando um pouco mais de confiança na loba – mas, é
uma loba.
Embora fosse tratado mais como lenda, há entre os membros do
grupo quem afirma que já houve caso parecido com lobos. Mesmo assim, os outros
e a própria loba mantêm razoável distância entre si.
Na-I, embora já andasse firmemente, nunca sai da caverna sem pai ou mãe. O mesmo acontece com as outras duas crianças pequenas, filhos dos irmãos de Un-U. Mas, um dia, uma borboleta entra voando na caverna, relativamente baixa, Na-i corre atrás dela com a intenção de pegá-la. Sem perceber, acompanha a borboleta quando essa novamente sai da caverna. A borboleta afasta-se rapidamente e Na-I fica parada acompanhando-a com os olhos. Ela não percebe que a loba se aproxima calma e lentamente, parando ao lado de Na-I Ela começa a lamber primeiro seu braço, depois seu rosto. Na-i, despreocupada, pega nas suas orelhas, puxando-as para cima e para baixo. A loba não reage, parece gostar da carícia e senta em frente de Na-I. Quando Ma-Na percebeu a ausência de Na-I, olha para fora da caverna e leva um enorme susto, apavorando-se com a cena de entendimento mútuo de sua filha com a loba. Ela não grita para não assustar a loba, sai lentamente em direção a Na-I e sem olhar para a loba, que a observa atentamente, pega sua mão e puxa-a para dentro da caverna.
Algum tempo depois, a loba desaparece por um, longo tempo.
Quando, depois de muitas luas, reaparece, está acompanhada de três filhotes.
Ela espa em frente à caverna até ver Na-I, olha longamente para ela até
virar-se e desaparecer com os filhotes por entre os arbustos – para nunca mais ser
vista.
Nota: Estudos recentes convergem para a conclusão de que, diferentemente de outros animais silvestres que foram domesticados, no período paleolítico, o cão 001 resultou de uma aproximação espontânea e pacífica entre homem e lobo – muito antes de Romulo e Remo.
Este texto só poderá
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do autor.
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