sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

Un-U e a Loba (2)

 

Un-U e a Loba (2)

(“Un-U and the Wolf” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Com o clarear do dia e a primeira luz a entrar na caverna, Un-U e sua mulher, Ma-Na, levantam de seu estrado de galhos e folhas. Un-U coloca lenha no fogo e Ma-Na começa a preparar um mingau de milho com um resto dos frutos colhidos no dia anterior. A pequena Na-I, de dois anos, continua dormindo. As famílias dos dois irmãos de Un-U, moradores da mesma caverna, também se preparam para um novo dia.

 

Ao sair da caverna, Un-U assusta-se. Um lobo, melhor uma loba, está deitada perto da entrada da caverna. Un-U para, e sem se mexer olha para a loba que, fixando-o com os olhos, levanta-se lentamente para novamente sentar-se um pouco adiante, aparentemente sem qualquer intenção agressiva. Ma-Na presencia a cena e sorrateiramente coloca a borduna na mão de Nu-U. Os dois irmãos de UIn-U, quando também percebem a presença da loba, tentam afugentá-la com suas lanças. Porém, Un-U os impede. Por fim a loba, sem mostrar qualquer hostilidade, afasta-se mais um pouco, para deitar-se na sombra de um arbusto. Unu-U consegue convencer toda sua família a deixá-la em paz. Um tanto apreensivo pela visita, os membros do clã retornam ao seu cotidiano, sempre de olho naquele arbusto. Finalmente, ao anoitecer, a loba sumiu.

 

No dia seguinte, ao amanhecer, lá está ela de volta debaixo do arbusto, atenta, mas tranquila. Isso repete-se por algum tempo. De vez em quando, um e outro morador da caverna joga algum resto de comida para perto do arbusto e a loba o come. Por mais que os ossos tenham sido limpos com os dentes, a loba acha mais alguma carne, por fim, próprio osso. Mas Ma-Na está muito preocupada por causa da pequena Na-I.

 

A partir de algum momento, quando Un-U vai para a savana, a loba o segue, sempre mantendo uma boa distância. Segue-o até a colmeia de onde ele tira algum mel de tempo em tempo, até a encosta onde costuma haver muitos cogumelos e frutas silvestres, e até o velho tronco de árvore, onde sempre encontra larvas de baixo da casca. Com o tempo, a distância com que a loba segue Un-U em suas andanças diminui. Quando, no entanto, Un-U, seus irmãos e mais alguns homens do grupo saem para caçar javali, a loba não os acompanha.

 

Enquanto Un-U não faz qualquer esforço para manter distância da loba, Ma-Na é mais receosa, principalmente por causa da menina Na-I. Por outro lado, a loba nunca se aproxima demasiadamente do acesso da caverna, até porque a fogueira perto da entrada está sempre acesa, soltando um pouco de fumaça. Então, há um momento inusitado. UN-U está sentado numa pedra perto da caverna, arrumando seu machado de pedra lascada quando a loba chega lentamente perto de Un-U, sem olhar para ele e, de repente, deita junto a seus pés, então, sim, o encarando e depois esticando a cabeça no chão, fechando os olhos. Un-U permanece sentado mais tempo do que necessário sem, todavia, tocar no animal. Ma-Na vê a cena de longe ganhando um pouco mais de confiança na loba – mas, é uma loba.

 

Embora fosse tratado mais como lenda, há entre os membros do grupo quem afirma que já houve caso parecido com lobos. Mesmo assim, os outros e a própria loba mantêm razoável distância entre si.

 

Na-I, embora já andasse firmemente, nunca sai da caverna sem pai ou mãe. O mesmo acontece com as outras duas crianças pequenas, filhos dos irmãos de Un-U. Mas, um dia, uma borboleta entra voando na caverna, relativamente baixa, Na-i corre atrás dela com a intenção de pegá-la. Sem perceber, acompanha a borboleta quando essa novamente sai da caverna. A borboleta afasta-se rapidamente e Na-I fica parada acompanhando-a com os olhos. Ela não percebe que a loba se aproxima calma e lentamente, parando ao lado de Na-I Ela começa a lamber primeiro seu braço, depois seu rosto. Na-i, despreocupada, pega nas suas orelhas, puxando-as para cima e para baixo. A loba não reage, parece gostar da carícia e senta em frente de Na-I. Quando Ma-Na percebeu a ausência de Na-I, olha para fora da caverna e leva um enorme susto, apavorando-se com a cena de entendimento mútuo de sua filha com a loba. Ela não grita para não assustar a loba, sai lentamente em direção a Na-I e sem olhar para a loba, que a observa atentamente, pega sua mão e puxa-a para dentro da caverna.

 

Algum tempo depois, a loba desaparece por um, longo tempo. Quando, depois de muitas luas, reaparece, está acompanhada de três filhotes. Ela espa em frente à caverna até ver Na-I, olha longamente para ela até virar-se e desaparecer com os filhotes por entre os arbustos – para nunca mais ser vista.

 

Nota: Estudos recentes convergem para a conclusão de que, diferentemente de outros animais silvestres que foram domesticados, no período paleolítico, o cão 001 resultou de uma aproximação espontânea e pacífica entre homem e lobo – muito antes de Romulo e Remo. 


Este texto só poderá ser reproduzido de qualquer forma e por qualquer mídia com a citação explícita do autor.        

 

   

 

 

 

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