De Sigurdo a Harry Potter – Nossos Heróis
Encolhem?
(“From
Sigurd to Harry Potter – Do Our Heroes Shrink?” - This text is written in a way to ease comprehensive
electronic translation)
Klaus H. G. Rehfeldt
Nota: Sigurdo,
mitologia germânica, ao lado de Hércules, da mitologia grega, é tido como
talvez o maior herói da antiguidade, que abateu o dragão que ameaçava seu povo
e dominou os ‘nibelungen’, mas foi traiçoeiramente morto numa disputa amorosa.
Harry Potter, acredito, dispensa comentários.
Parece difícil imaginar nossos modelos pessoais e sociais sem
as figuras de heróis. E provavelmente sempre foi assim. Afinal, heróis marcam
sua presença ao longo de toda a história registrada da humanidade. São, de
maneira geral, pessoas que enfrentam uma tarefa difícil com intrepidez e
coragem e que realizam atos inusitados que lhes rendem admiração. Na maioria
das vezes, heróis são lembrados em conexão com batalhas e momentos bélicos,
deslocando, um tanto injustamente, heroísmos civis para o segundo plano.
Os heróis em armas de épocas antigas, como Hércules ou Sigurdo,
com apenas parcos registros históricos, habitam até hoje as mitologias de seus
povos. O mesmo ocorre com os heróis na dimensão religiosa, como Jesus Cristo, Maomé
e Lao Tsé, além de muitos santos e mártires de todo o espectro religioso. Já
heróis de épocas mais recentes, menos guerreiros e mais social e humanitariamente
engajados, como Mahatma Gandhi ou Martin Luther King representam momentos
decisivos para seus povos.
Então, ao lado dessas pessoas símbolos da defesa de suas
causas, a história também conhece seus anti-heróis, como Gengis Khan, Hernan
Cortés, ou Adolf Hitler, entre outros. Em geral, são pessoas com poder que
buscam alcançar seus objetivos sem quaisquer escrúpulos ou padrões mínimos de
moral. Mas, às vezes, é apenas uma questão de perspectiva: em boa parte do
mundo islâmico, Osama bin Laden é reverenciado como herói, contrário ao mundo cristão,
ou seja, os heróis de uns podem ser os vilões de outros.
Em tudo isso, é preciso levar em conta que heróis da
antiguidade são nos transmitidos no quadro dos padrões culturais que os
identificaram como tais em seus tempos, seus ambientes e seus lugares, e que seguramente
divergem das conceituações da sociedade moderna. Em outras palavras, estamos
aceitando o heroísmo – e o anti-heroismo – como era entendido em cada época. Herói
ou anti-herói são, obviamente, categorizações com a objetividade que a história
lhes conferiu. No plano subjetivo, por exemplo, até hoje há seguidores de
Hitler, que o cultuam como herói.
Nesse ponto, encontramos um fenômeno novo, embora no varejo
do heroísmo, naquele heroísmo de manchete de um dia, de arriscar a própria vida
para salvar a de outra pessoa. Na medida em que aumenta a prosperidade diminui
a disposição para atos ‘heróicos’, que se espera sejam assumidos pelos outros. É
o caso do olhar para o lado para não se envolver. Enquanto isso, o bandidinho é
capaz de virar herói do seu beco na favela.
E o que constatamos hoje, é uma certa desnecessidade de
heróis em nossas sociedades. Estamo-nos tornando uma sociedade pós-heróica, que
é uma sociedade que lembra que já foi heroica, que lutou guerras heroicas – ou
o que pensava que eram – e que descreve a despedida delas como um processo de
aprendizagem, de maturação. Valores heroicos já não estão em voga nas
sociedades ocidentais. As imagens dos heróis de cada um e cada sociedade parecem
apagar-se gradualmente na modernidade. Ao mesmo tempo, começam a surgir novos
heróis, como Superman ou Harry Potter em uma sociedade que substitui a reverência
pela emoção. Entretanto, de Batman ao Menino Louquinho, esses heróis de papel
jamais atingirão patamares de referência e deferência histórica.
Observamos
hoje uma certa inversão de valores a sociedade moderna que tende a confundir
com heróis, personagens sem escrúpulos e com carências morais, (des)qualidades
que, no entanto, são ignoradas num combate a um suposto ou arbitrário inimigo –
no mais puro populismo. Mas populismo e heroísmo não tem absolutamente nada em
comum.
E os anti-heróis? Ele continuam a surgir.
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