sábado, 6 de janeiro de 2024

De Sigurdo a Harry Potter - Nossos Heróis Encolhem?

 

De Sigurdo a Harry Potter – Nossos Heróis Encolhem?

 

(“From Sigurd to Harry Potter – Do Our Heroes Shrink?” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Nota: Sigurdo, mitologia germânica, ao lado de Hércules, da mitologia grega, é tido como talvez o maior herói da antiguidade, que abateu o dragão que ameaçava seu povo e dominou os ‘nibelungen’, mas foi traiçoeiramente morto numa disputa amorosa. Harry Potter, acredito, dispensa comentários.

 

Parece difícil imaginar nossos modelos pessoais e sociais sem as figuras de heróis. E provavelmente sempre foi assim. Afinal, heróis marcam sua presença ao longo de toda a história registrada da humanidade. São, de maneira geral, pessoas que enfrentam uma tarefa difícil com intrepidez e coragem e que realizam atos inusitados que lhes rendem admiração. Na maioria das vezes, heróis são lembrados em conexão com batalhas e momentos bélicos, deslocando, um tanto injustamente, heroísmos civis para o segundo plano.

 

Os heróis em armas de épocas antigas, como Hércules ou Sigurdo, com apenas parcos registros históricos, habitam até hoje as mitologias de seus povos. O mesmo ocorre com os heróis na dimensão religiosa, como Jesus Cristo, Maomé e Lao Tsé, além de muitos santos e mártires de todo o espectro religioso. Já heróis de épocas mais recentes, menos guerreiros e mais social e humanitariamente engajados, como Mahatma Gandhi ou Martin Luther King representam momentos decisivos para seus povos.

 

Então, ao lado dessas pessoas símbolos da defesa de suas causas, a história também conhece seus anti-heróis, como Gengis Khan, Hernan Cortés, ou Adolf Hitler, entre outros. Em geral, são pessoas com poder que buscam alcançar seus objetivos sem quaisquer escrúpulos ou padrões mínimos de moral. Mas, às vezes, é apenas uma questão de perspectiva: em boa parte do mundo islâmico, Osama bin Laden é reverenciado como herói, contrário ao mundo cristão, ou seja, os heróis de uns podem ser os vilões de outros.

 

Em tudo isso, é preciso levar em conta que heróis da antiguidade são nos transmitidos no quadro dos padrões culturais que os identificaram como tais em seus tempos, seus ambientes e seus lugares, e que seguramente divergem das conceituações da sociedade moderna. Em outras palavras, estamos aceitando o heroísmo – e o anti-heroismo – como era entendido em cada época. Herói ou anti-herói são, obviamente, categorizações com a objetividade que a história lhes conferiu. No plano subjetivo, por exemplo, até hoje há seguidores de Hitler, que o cultuam como herói.

 

Nesse ponto, encontramos um fenômeno novo, embora no varejo do heroísmo, naquele heroísmo de manchete de um dia, de arriscar a própria vida para salvar a de outra pessoa. Na medida em que aumenta a prosperidade diminui a disposição para atos ‘heróicos’, que se espera sejam assumidos pelos outros. É o caso do olhar para o lado para não se envolver. Enquanto isso, o bandidinho é capaz de virar herói do seu beco na favela.

 

E o que constatamos hoje, é uma certa desnecessidade de heróis em nossas sociedades. Estamo-nos tornando uma sociedade pós-heróica, que é uma sociedade que lembra que já foi heroica, que lutou guerras heroicas – ou o que pensava que eram – e que descreve a despedida delas como um processo de aprendizagem, de maturação. Valores heroicos já não estão em voga nas sociedades ocidentais. As imagens dos heróis de cada um e cada sociedade parecem apagar-se gradualmente na modernidade. Ao mesmo tempo, começam a surgir novos heróis, como Superman ou Harry Potter em uma sociedade que substitui a reverência pela emoção. Entretanto, de Batman ao Menino Louquinho, esses heróis de papel jamais atingirão patamares de referência e deferência histórica.   

 

Observamos hoje uma certa inversão de valores a sociedade moderna que tende a confundir com heróis, personagens sem escrúpulos e com carências morais, (des)qualidades que, no entanto, são ignoradas num combate a um suposto ou arbitrário inimigo – no mais puro populismo. Mas populismo e heroísmo não tem absolutamente nada em comum.

 

E os anti-heróis? Ele continuam a surgir.

 

 

 

 

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário