Un-U e o ‘Por quê?’. (1)
(“Un-U
and the ‘Why?'” - This text is written in a way
to ease comprehensive electronic translation)
Klaus
H. G. Rehfeldt
Os primeiros raios de sol estão batendo na entrada da pequena
caverna, encravada na encosta de uma colina, que Un-U habita com sua mulher,
Ma-Na, e o dois filhos, há muitos sóis. Como de praxe, Un-U alimentou o fogo
perto da entrada da caverna por várias vezes durante a noite. Ele habita essa
caverna desde que a encontrou, Ma-Na, ainda jovem, escondida num canto e o
resto da família dela morta e dilacerada por algum predador. Havia muitos deles
por perto. Junto com ele moram aí dois irmãos seus, com suas famílias.
Está frio e enquanto Ma-Na já
está amamentando a filha menor, Un-U levanta do estrado de galhos e folhas,
coloca um pedaço grande de lenha na fogueira e sai da caverna, que, na verdade
é apenas um espaço oco embaixo de uma laje de pedra, mas com acesso
relativamente pequeno. Há na região cavernas semelhantes, aliás, muito
disputadas pelos membros do grupo, nem sempre de forma pacífica.
Un-U e Ma-Na já tiveram vários
filhos, dos quais vários já que morreram, uns mais cedo, outros mais tarde, uns
de doença, outros pelas leis da natureza. Sobraram, até aqui, apenas Na-I, já uma
moça, e Nu-E, ainda mamando no peito.
Un-U come nabo e sai da
caverna, onde nada tinha mudado. Munido de uma bolsa amarrada na cintura, na
verdade a bexiga de um javali, e sua borduna sai para a savana, com muitos
arbustos e uma e outra árvore, hoje excepcionalmente coberta por uma leve
bruma. Seu destino é uma árvore já morrendo e debaixo de cuja casca há uma rica
safra de larvas. Ele vai lá de tempo em tempo. No caminho encontra uma carcaça
de veado, ainda recente, da qual tira com os dentes os restos de carne deixados
pelo predador, colocando-os em sua bolsa.
Após fartar-se das larvas
procuradas, pegou uma boa porção para levar para a caverna. O sol, a essa altura
já está alto e Un-U senta-se ao pé daquela árvore, quase morta, mas ainda dando
algumas manchas de sombra. Parado assim, as frutas colhidas no caminho começam
a atrair algumas abelhas que ele tenta espantar, sem muito sucesso. A
insistência delas deixa Un-U brabo e na sua revolta explode uma pergunta em sua
mente: “Bato nelas, elas caiem no chão e voltam a voar. Minha lança voa um bom
pedaço, mas, no fim, cai no chão. A pedra que jogo num animal intruso, acaba
por cair no chão. E essas abelhas continuam à minha frente sem cair! – Hm,
sempre foi assim, mas por quê?”
No caminho para a caverna,
ainda passa por um arbusto no qual amadureceram mais frutas de ontem para hoje.
Mas a abelha não sai de sua cabeça.
Sentado ao anoitecer ao redor
do fogo, comendo as iguarias trazidas para casa e um tubérculo que Ma-Natinha
assado no fogo, perguntou a seus irmãos, ambos mais velhos que ele, “Por que a
abelha não cai no chão, e minha lança cai, as folhas das árvores caem? A abelha
voa na minha frente, e eu não consigo tirar os pés do chão?” Silêncio. Os dois
irmãos se entreolham e sacodem as cabeças. Un-U olha para eles, mais velhos e
mais experientes, mas não recebe resposta. De repente, Om-U, o irmão mais velho
se levanta, murmurando “o Grande Daros sabe” e vai ao interior da caverna. A
noite cai e todos se recolhem a seus estrados.
Cada vez que Un-U vê uma
abelha volta a mesma pregunta à cabeça. Pássaros e borboletas voando não
despertam a mesma dúvida. Um dia, porém, sua filha Na-I volta do rio e pergunta
a Un-U, “Porque os peixes podem ficar embaixo a água o tempo todo, e eu não
posso?” Un-U olha espantado para a filha, pensa longamente, e responde: “O
Grande Daros sabe.”
Un-U nunca descobriu o segredo da abelha, nem a do peixe, mas os ‘por quês’ tinham começado a fazer parte da humanidade. Demorou, mas alguns ‘por quês’ começaram a encontrar resposta e ajudar a entender a vida na Terra – e os descentes de Un-U se tornarem-se seu maior predador.
Este texto só poderá
ser reproduzido de qualquer forma e por qualquer mídia com a citação explícita
do autor.
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