Uma Curta História do Trabalho
(“A
Short Story of Labor” - This text is written in a way to ease a comprehensive
electronic translation)
Klaus H. G. Rehfeldt
O
trabalho é assunto desde tempos bíblicos, mesmo, na época, sendo um trabalho
direto da mão para a boca – "ganhar
o pão com o suor do rosto", Gênesis 3:19. A natureza sempre oferecia, mas a obtenção de
seus produtos nunca foi fácil, mesmo com os recursos desenvolvidos em cada
momento a história do homem. É uma luta permanente pela sobrevivência e a
dignidade humana, com o empenho do esforço físico ou mental.
A humanidade carrega o trabalho em seu código
genético – uma questão de sobrevivência. Entretanto, como herbívoro, o homem é
muito vulnerável, como carnívoro, a natureza foi pouco generosa. Lhe faltam
ferramentas naturais – uma experiência de centenas de milhares de anos de vida
nômade.
Em compensação dotou-o com uma capacidade
mental ausente em outros seres vivos. Daí a evolução para a fixação na terra. O
trabalho regular e o cultivo racional da terra passaram a gerar produtos excedentes
e tempo livre, condições essenciais para a formação de sociedades e o
nascimento de culturas, que, porém, e por sua vez, tornaram o trabalho
indispensável.
Ao longo de milhares de anos, o trabalho ganhou
características de profissão, servindo a diferentes finalidades e atendendo
necessidades específicas de cidadãos e coletividades. Enquanto o campo concentrou
a grande maioria do trabalho, as profissões urbanas foram se organizando, por
exemplo, nas guildas (associações de classe). Nesse período, o trabalho rural
era executado pela família inteira, o profissional, porém, somente por homens.
A revolução industrial (e energética) foi
também uma revolução do trabalho. A humanidade conhecia o trabalho escravo da
antiguidade e do período de colonização da América (em menor escala na África).
Com a chegada da Revolução Industrial, o trabalho corporal novamente sofreu
abusos em larga escala, quando vemos, por exemplo, o trabalho de crianças com
12 anos, por 10 a 12 horas por dia, nas minas de carvão, assim tornando
possível túneis mais baixos (e mais baratos) – era comum que morressem de
tuberculose antes dos 20º anos de idade. O excesso de filhos nas famílias
rurais (mais higiene e medicina, menor mortalidade infantil) obrigava a busca
por trabalho nas novas empresas industriais e de mineração. Consequentemente, o
excesso de oferta de mão de obra criou uma dependência quase absoluta do
empregador.
O poder público da época era exercido quase
exclusivamente pela nobreza, muitas vezes dona desse novo potencial industrial.
Levou décadas para movimentos socias, inicialmente apolíticos e religiosos,
conquistassem poder político através de partidos socialistas e de
trabalhadores, que, em virtude da gravidade da situação, ganharam rapidamente
importância e peso decisório. O mundo parlamentar, até então moderador do poder
autocrático, começou a dividir-se em capitalista e socialista/comunista.
Isso trouxe gradualmente benefícios inegáveis para
o trabalhador, uma vez que a insistência socialista começou a conseguir
regulamentações e benefícios para a classe trabalhadora. Sindicatos foram
oficializados, e as condições de trabalho amplamente normatizados. A
Consolidação das Leis do Trabalho brasileira de 1943 é um exemplo. Se por um
lado essas legislações acabaram por engessar as relações de trabalho, por outro
é bom frisar que elas sempre foram baixadas em ambiente de abundância na oferta
de mão-de-obra.
Essa realidade encontra-se em contínua mudança
nas últimas décadas. As situações brasileiras, bem como de outros países em
larga escala, sofreram profundas redimensiones demográfico/familiares. As
populações em idade produtiva estão constantemente encolhendo. Mesmo com a
crescente dispensa de mão-de-obra nos processos produtivos, comerciais e de
serviços motivados por suportes de automação e robotização, a demanda de
trabalho humano, obviamente cada vez melhor qualificada, aumenta cada vez mais.
O Brasil, ao lado de muitos outros países,
especialmente europeus, encontra-se hoje no que em teoria econômica se chama de
pleno emprego (5% ou menos de desemprego, em boa parte sendo pessoas
incapacitadas física ou mentalmente e aquelas sob custódia do Estado). E isso
tem consequências, não somente diretas, mas também indiretas. Levantam-se
questões como a validade de suporte sindical, ou da necessidade de
regulamentação refinada, quando o trabalhador, diante de sua crescente
escassez, ganha cada vez mais espaço e poder de negociação. Cabe aqui sublinhar
que, além der ser uma realidade nova e inusitada, essa é a situação do trabalho
qualificado, o não qualificado fica fora dessa situação vantajosa.
Num mercado de consumo, quem manda é a demanda
– no do trabalho, idem. Dessa maneira, em decorrência da dinâmica demográfica
em curso, a balança de negociação entre empregador e empregado tenderá a pender
cada vez mais para o lado desse último. Será ele quem aceitará, ou não, as
ofertas do empregador, seja em condições de trabalho, seja em remuneração.
Legislações deverão passar para ser desconsideradas e desrespeitadas, não pelo
empregador, mas pelo empregado. A própria discussão em torno do trabalho 6x1
parece atrasada e sem validade prática. A atual rotatividade elevada de emprego
em supermercados, restaurantes, e outros, não deveria ser ignorada, mas
entendida corretamente – e com coragem.
O mundo do trabalho, à margem de vontades
políticas, parece sair de um conjunto de sofrimento e privação para entrar em outro
de satisfação de realização de atividades produtivas, e respeito mútuo entre
capital e trabalho.
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