sexta-feira, 29 de dezembro de 2023

O Futuro num Beco sem Saída?

 

O Futuro Num Beco Sem Saída?

 

(“The Future at a Dead End?¨ - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Futuro e esperança são inseparáveis, e esperança por coisas melhores, ás vezes temperadas com temores. Incerteza e medo também andam de mãos dadas. Nem sempre, porém, o futuro da humanidade mostrou grande dinamismo. O futuro era uma simples repetição de ciclos de vida, essencialmente o amanhã igual ao ontem e ao hoje, apenas com novos atores no prazo mais longo. Durante centenas de milhares de anos o passado, o presente e o futuro se limitava a procurar e consumir alimento e dormir. Então, a fixação na terra inseriu novos aspectos no futuro das pessoas, como a observação das estações do ano, ou o preparo de ferramentais para cultivar o solo. Finalmente, a revolução energética de industrial também resultou numa revolução de futuros.   

 

Inovações e descobertas impulsionaram novas dimensões e perspectivas de futuro em espaços de tempo cada vez menores, e de intensidade crescente. O futuro de ontem, não é mais o futuro de hoje. Já com a revolução digital, o futuro passou da perspectiva para a surpresa, para o inimaginável. E a inteligência artificial? Ainda haverá espaço para pensar ou delinear um futuro?

 

Contar com o futuro? O que era quase certo para um futuro de ontem, passou a ser apenas provável, e hoje cada vez mais remotamente possível. O futuro ponderável e razoavelmente certo tem prazos cada vez mais curtos, as projeções com certo grau de garantia exigem revisões mais frequentes e os riscos de disposições erradas aumentam perigosamente. 

 

O futuro sempre foi, e continua sendo, um enigma, menos para videntes e oráculos. Algo, porém, mudou. Todo futuro tem um presente, e teve um passado. E sabidamente vivemos presentes cada vez mais dinâmicos, mais agitados. Novas informações, nem sempre resultando em sabedoria, novos ingredientes e condicionantes do cotidiano influem em nossas perspectivas e projeções, em nossas apostas no futuro.

 

A dinâmica dos avanços tecnológicos aumenta, sem dúvida, nossas imaginações e nossos sonhos, por outro lado, estreita a janela das probabilidades de um futuro certo. E a tendência é que probabilidades razoáveis cada vez mais se reduzam a possibilidades duvidosas. A previsibilidade torna-se gradualmente mais limitada no tempo. Resultaram daí diversos casos notórios, em que até grandes empresas perderam somas imensas em decorrência de avaliações errôneas relativas a estratégias futuras.

 

Nosso amanhã dependerá cada vez mais do nosso futuro tecnológico. A humanidade não mais consegue sobreviver diretamente dos recursos que nosso plante nos oferece. Sem energia extra-humana e infindáveis processos de extração, produção, transformação e logística, envolvendo algum grau de tecnologia, a vida humana é hoje inimaginável – salvo para alguns povos indígenas.                                

 

O avanço tecnológico é um processo auto-impulsivo, aparentemente inexorável. Cada conhecimento adquirido e transformado em tecnologia gera novos conhecimentos. Até quando? Ainda não conseguimos imaginar a extensão dos efeitos, produtos e resultados a inteligência artificial, ainda em trabalho de parto. Mas temos certeza que haverá um algo depois. Amanhã? Ano que vem? A grande questão é: a expansão do conhecimento nunca nos abandonou, mas, ela é ilimitada? Ela acabará no domínio da gravidade, nas leis do cosmo? Quando a armadura de tecnologias sobre corpo humano cada vez mais vulnerável se tornará insuportável ou insustentável?

 

Até aqui, nosso passado tem nos assegurado uma visão e uma postura de absoluto otimismo no amanhã, no entanto, o futuro tem suas próprias leis. Por enquanto, na Terra, quem sabe, no futuro além desses limites. Um novo futuro, talvez diferente em si, nas estrelas? Antes, porém, o homem terá de resolver seus problemas terrestres.

 

Por fim, o futuro demográfico. E este prevê que até a metade do século, cerca de um terço de todos países apresentará uma redução populacional de, pelo menos, 1%. É um futuro inédito na história da humanidade com consequências altamente imprevisíveis, um futuro absolutamente incerto em muitos aspectos. Tudo indica que diante dessa nova conjuntura demográfica, o mundo não escapará da obrigação de redefinir suas condições de vida neste nosso planeta, bem como suas visões para um novo futuro. Talvez será uma marcha a ré para sair de um beco sem saída e encontrar um novo rumo para o amanhã, talvez será um lance de sorte.

 

  

 

 

 

 

 

 

 

sábado, 23 de dezembro de 2023

Natal, 1944

 

Natal, 1944

(“Christmas, 1944” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

Extraído das minhas memórias ‘Simplesmente Eu’.

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Parta fins de contextualização, encontramo-nos em dezembro de 1944, na cidade de Breslau, hoje Wroclaw, Polônia, uma cidade ainda relativamente intacta, mesmo a cerca de dois meses antes de ser cercada pelo Exército Vermelho. Na época, eu tinha nove anos e minha irmã, onze, e, já como ginasiana, tinha sido evacuada para uma localidade no interior da Silésia numa operação de proteção contra bombardeios, e chegou poucos dias antes do Natal. Moravam conosco também minha avó e minha tia, que tinham perdido sua moradia num bombardeio.

 

“Minhas lembranças a esse ambiente são especialmente nítidas com relação ao tempo de Natal. Pouco depois da visita do Nicolau no dia 6 de dezembro, que regularmente ameaçava de colocar-me dentro do grande saco que carregava nas costas – eu, certamente, não era nenhum anjo, mas mesmo assim, ele acabava por deixar guloseimas –, as portas do hall de entrada e da sala de jantar, ambas de vidro fosco, que levavam para a sala de estar e a biblioteca de Vati (meu pai), eram fechadas e para nós crianças só restava adivinhar e imaginar o que estava acontecendo lá dentro. Os preparativos do ambiente natalino eram feitos prazerosamente por Mutti (minha mãe) sem a participação de nós crianças, suponho, em horas noturnas quando já estávamos dormindo. Nem víamos o pinheirinho chegar. Apenas achávamos poder enxergar alguma coisa através do vidro fosco das portas. Os sonhos viajavam longe e as expectativas eram imensas. Um ou dois dias antes do Natal, Vati chegava do front na França então para curtas férias anuais em casa e que provavelmente coincidiam com essa data em função da sua alta patente militar. Na noite de Natal, depois de abertas as portas para a sala de estar, um pinheiro que quase tocava o teto, cheio de vela acesas, ‘lametta’ (longas e finas tiras prateadas), bolas de vidro coloridas, doces e outros enfeites, encantou o ambiente. Iniciava-se então o ritual com declamações de versos natalinos por nós crianças, duas ou três canções de Natal eram cantadas por todos, acompanhadas com nossas flautas doces e, finalmente, a entrega dos presentes. Felicidade pura!

 

Para mim, esses presentes consistiam essencialmente de muitos soldadinhos e equipamentos militares em miniatura como tanques, caminhões, veículos leves, canhões, cozinha de campanha e outros mais, complementando todo o arsenal que eu já póssuia. No decorrer dos anos formou-se uma bela coleção de combatentes e materiais bélicos, da qual inclusive fazia parte uma limusine preta, aberta, na qual, em pé, Hitler cumprimentava suas tropas. Nesse último Natal da guerra somou-se a essa coleção uma lindíssima réplica em miniatura do avião Stuka, o bombardeiro de mergulho Ju 87, cujas peças essenciais eram desmontáveis. Terminada a distribuição dos presentes, pai e filho, nessa única ocasião de convivência anual, estavam deitados durante horas sobre o tapete da sala em frente à árvore de natal, montando cenários e formações bélicas. Naquele tempo, com certeza não era a única casa a produzir uma cena natalina tão controversa, mas era uma realidade da época.

Minha irmã teve atendida seu pedido de Natal com o exclamo “Oma, um violoncelo!” Esse violoncelo acompanhou-a de volta ao retiro escolar em Oels, de onde ela o trouxe de volta num trem de fugitivos do leste da Silésia, para depois abandoná-lo definitivamente no dia seguinte, quando deixamos o nosso apartamento – para nunca mais voltar. – Consegui levar o Stuka, que foi enterrado na neve pouco antes do exército russo nos alcançar.”

 

Por mais que minha mãe tentasse manter clima natalino nos anos seguintes, meus Natais de criança despreocupada e alheio aos problemas existenciais tinham acabado.

 

domingo, 10 de dezembro de 2023

Demografia e Globalização (2)

 

Demografia e Globalização (2)

 

(“Demography and Globalization [2]” This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

A virada demográfica é um fato real e inquestionável, causada pelo próprio ser humano a parir das condições civilizatórias e existenciais que ele mesmo criou. Isso, naturalmente, com efeitos sobre as estruturas sociais e econômicas – principalmente – que o homem desenvolveu ao longo de sua história. E o planeta torce para que continue assim.   

 

Com a globalização – mais vantajosa para uns do que para outros – seriamente comprometida, as economias dos diversos países tenderão a ganhar cada vez mais caráter e identidade nacional. A globalização nos mercados de consumo, salvo produtos de primeira necessidade indisponíveis no mercado interno, estará definitivamente destinada à sua extinção. Diferente é a situação de commodities, em geral desigualmente disponíveis ao redor do mundo. Surgem daí naturalmente dependências internacionais, às vezes mútuas. Esse mercado, portanto, continuará forte e firme. Para outros mercados, com o estabelecimento e fortalecimento dessas novas realidades econômicas, com o passar do tempo poderão começar a surgir novos acordos bi e multinacionais, obviamente com novos interesses, parâmetros e configurações.

 

De uma maneira geral, os mercados serão mercados extremamente estáticos. Já o transporte internacional, por exemplo, sofrerá importantes perdas no volume de bens de consumo final.

 

Na medida em que a população diminui, as estruturas políticas, econômicas e sociais tenderão a se ajustar e acomodar dentro de novos parâmetros condicionantes. Uma vez que se trata de mudanças lentas e graduais, as essências de vida deverão continuar largamente imutáveis, da mesma maneira como os valores culturais deverão ser pouco influenciados por meras mudanças numéricas de seus detentores. Em termos práticos, eis um exemplo: automóveis de tecnologia atual, ou futura, em estradas atuais, ou futuras, com densidade de tráfego dos anos de 1980. Caraterísticas fundamentais de cada sociedade – por exemplo, a mentalidade de um povo – poderão determinar diferentes maneiras de lidar com as mudanças, obviamente com resultados diferentes. Sociedades ricas possivelmente reagirão diferentemente das menos prósperas.                           

 

Tudo isso, no entanto, não mudará o curso demográfico acompanhado de adaptações e ajustes sociais, econômicos e culturais, mas também familiares. A tendência demográfica será o registro de taxas de fertilidade cada vez menores, ou seja, cada vez mais abaixo daquela de reposição populacional (2 filhos por mulher) e em cada vez mais países. Em outras palavras, teremos um contínuo e progressivo encolhimento de boa parte das populações nacionais, e o ingresso de sempre mais países nesse grupo.

 

Na permanência das atuais condições estruturais da família, tanto sociais quanto econômicas, não há mínimas chances de uma mudança geral na atual dinâmica demográfica. É importante notar que nesse cenário trata-se de um fenômeno que contraria as leis da natureza no que se refere à procriação natural e irrestrita. É um quadro que decorre de uma complexidade existencial cada vez maior e da busca de uma vida mais ‘confortável’, não sem uma boa dose de egoísmo. Portanto, não estamos lidando com um capricho da natureza, mas com comportamento humano, passado e atual.   

 

De absolutamente positivo resulta daí um vagaroso, mas progressivo aumento de espaço vital individual e público com todos os seus desdobramentos. Naturalmente com significativas consequências em todas as facetas econômicas, dos mercados de produção, distribuição e consumo de bens e serviços, de trabalho, de commodities e financeiros às próprias concepções micro e macroeconômicas. Tudo isso na concomitância de um contínuo avanço nos mais diversos campos tecnológicos, de recursos energéticas à computação quântica e inteligência artificial.

 

No entanto, é improvável que estejamos num caminho sem retorno, numa rota irreversível em direção à extinção da espécie humana. A pergunta é: quando e como teremos uma nova inversão demográfica com crescimento positivo? Em decorrência das mudanças mencionadas e seus prováveis efeitos, haverá lentas, inexoráveis e sensíveis mudanças no estilo de vida das pessoas e das coletividades. E possivelmente será esse novo estilo de vida e a experiência de superpopulação vivida por gerações no passado o berço de uma volta a estabilidade demográfica, ou um sadio crescimento populacional.

 

Se o mundo econômico voltará a buscar uma globalização nos moldes conhecidos ou em forma parecida está escrito nas estrelas, mas certamente aprendeu que alguma concepção dessa ordem requer um mundo em paz.

 

Conclusão: Este texto contém apenas projeções a partir de um processo demográfico já em curso. Haverá surpresas? Certamente que sim. O que, todavia, é importante que, especialmente nas sociedades já envolvidas nessa mudança demográfica, os poderes públicos, em todos os níveis, se inteirem desde já dessas realidades, seus efeitos e suas projeções, e as considerem em seus planos – negá-las seria desastroso. Ignorar as dinâmicas demográficas em curso, e por vir, poderá gerar problemas enormes e custos elevados irresponsáveis e perfeitamente evitáveis.

 

 

sábado, 9 de dezembro de 2023

Demografia e Globalização (1)

 

Demografia e Globalização (1)

 

(“Demography and Globalization [1]” This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Desde a virada do milênio, quando a taxa de fertilidade da mulher brasileira caiu para menos de dois filhos, o Brasil sofre um déficit crescente na reposição de sua população. Outros 10% de países do mundo já se encontram na mesma situação, e outros tantos estão se aproximando do mesmo panorama. Ao mesmo tempo, observam-se crescimentos populacionais unicamente decorrentes de um aumento geral da expectativa de vida. É um fenômeno em constante progressão, tanto temporal, quanto territorial, devendo alcançar dimensão global no início da segunda metade do século. 

 

            No caso específico brasileiro, hoje, a população abaixo de 24 anos já está desproporcionalmente representada no total da população, com agravamento na medida em que observamos faixas etárias mais jovens. Mas há países onde o déficit de reposição populacional já está muito mais avançado, Canadá e Japão, por exemplo, há mais de 50 anos.

 

Os reflexos econômicos desse quadro já começam a manifestar-se no mercado de fraldas e chupetas, mais tarde no número de frequentadores de creches e escolas, e chegará o momento em que toda a conjuntura de consumo passa a ser afetada, de alimentos a imóveis.

 

As consequências dessa inversão na dinâmica demográfica são impossíveis de serem previstas em toda sua extensão. Mas, os efeitos da lei de oferta e procura são inflexíveis sob qualquer dinâmica demográfica. E o futuro nos impõe a necessidade de saber lidar com tais consequências, cada sociedade de acordo com suas particularidades socioeconômicas. Estímulos governamentais para famílias mais numerosas, onde tentados, não têm produzido as reações esperadas.

 

Num primeiro momento, os reflexos dessa retração populacional têm dimensões microeconômicas. Por um lado, produtos especificamente destinados a consumidores nascidos desde o início dessa retração tem sua demanda reduzida, como artigos para bebês, depois para crianças, então adolescentes, e finalmente chegando aos mercados do cidadão adulto, na gama total de bens e serviços.

 

Se, por outro lado, o mercado de trabalho será afetado na mesma proporção dependerá do avanço tecnológico como, por exemplo, a inteligência artificial, e seu potencial de liberação de mão de obra na produção de bens e serviços.

 

Mais cedo ou mais tarde, com a população diminuindo e como respostas com caráter de proteção da economia nacional, serão estabelecidas medidas restritivas às importações. No foco entrarão inicialmente bens de consumo final em segmentos como, por exemplo, têxteis, utensílios domésticos, brinquedos, cosméticos etc. na busca de preservar as produções domésticas. Obviamente, comprometendo a contrapartida de exportação em acordos bi, ou multilaterais – com previsíveis efeitos desastroso para países como China, Correa do Sul, Bangladesh, entre outros. O objetivo será um máximo possível de produção interna e autonomia nacional com um mínimo de dependência de produtos de consumo do exterior. Um duro golpe no ideário da globalização.

 

Esse tipo de política de nacionalização, no entanto, terá suas consequências: além do desestímulo causado pela ausência de concorrência estrangeira em aprimorar qualidade e nível de tecnologia, haverá o risco de preços destemidos na falta de competidores externos.

 

Nesse conjunto de estratégias macroeconômicas, o Brasil encontra-se numa posição privilegiada. Como exportador de produtos agropecuários, especialmente em natura, e outras commodities, o país se tornará indispensável para outros países carentes desses bens – passará a ser detentor de ‘moeda forte’ num mercado cada vez mais dete5rminado por necessidades.  Produtos primários que historicamente foram considerados um atraso econômico passarão a ser um aspecto vantajoso.

 

Num momento posterior nas mesmas circunstâncias demográficas, seguindo estratégias mais amplas de proteção da economia doméstica, os países que abrigam produtores de marcas mundiais, por exemplo a indústria automotiva, procurarão a extinção de estabelecimentos no exterior, uma vez para fortalecer a produção interna, por outra, para fortalecer suas exportações e ganhar capacidade de importar commodities sem ´prejuízo no balanço de comércio exterior. Assim, com a repatriação de unidades empresariais se resolveriam questões domésticas, tanto de desemprego, como a necessidade de geração de divisas.

 

Muitos países, que praticamente não possuem marcas nacionais de produtos duráveis, de automóveis a furadeiras, de geladeiras a bens de produção correrão o risco de cubanização.

 

Restará de toda a globalização pretendida somente a do conhecimento que, com os meios de comunicação de hoje, não respeita fronteiras.

 

Todavia, evidências e surpresas andam de mãos dadas.

 

(Segue a parte 2)      

                   

sexta-feira, 27 de outubro de 2023

Guerras sem Vencedores - Apenas Perdedores

 

Guerras sem Vencedores – Apenas Perdedores

Wars without Winners – Only Losers - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Conflitos armados e guerras são parte inerente da história da humanidade. Por absurdo que possa parecer, as guerras constituem elemento da nossa cultura. Militares são parte indispensável da sociedade. Guerras constituíram nações e destruíram nações. Evoluíram as armas da beduína à arma nuclear, e evoluíram as estratégias do combate corpo a corpo ao digital, mas a essência permanece na destruição do opositor ou inimigo.

 

As causas e origens das guerras são as meais diversas, indo de questões culturais e religiosas, aspectos econômicos e políticos a meramente ideológicos ou militares. Muitas vezes há a conjunção de várias causas. Em determinados momentos, simples questões sucessórias em regimes imperiais resultaram em longos e sangrentos conflitos bélicos. E relações políticas e econômicas mal resolvidas em âmbito internacional conseguiam levar a situações esdrúxulas em que três primos, o kaiser alemão, o tzar russo e o rei da Inglaterra se confrontaram numa das mais sangrentas guerras na história da humanidade – a Primeira Guerra Mundial.

 

Essa, e a Segunda Guerra Mundial foram provavelmente as guerras mais devastadoras do passado. Mas guerras como a Guerra do Vietnã, as Guerras Napoleônicas (século XIX) ou a Guerra dos Trinta Anos (século XVII) também deixaram milhões de mortes. Para termos uma ideia das perdas humanas causadas por guerras basta somar as estimativas – melhores e piores – somente das 10 maiores guerras, entre a expansão mongol no século XIII e a Segunda Guerra Mundial, resultando num balanço entre 230 e 560 milhões de mortos.

 

O que, todavia, surpreende é o fato de que o imenso Império Romano acabou encolhendo para os territórios italianos de onde se originou, expansões mongóis se esfacelaram em numerosas etnias e nações, o império napoleônico retornou às dimensões da atual França, o território alemão até encolheu em relação ao que era antes da Segunda Guerra Mundial. Na mesma linha, impérios coloniais portugueses, espanhóis, britânicos, franceses, alemães e belgas, entre outros, decorrentes de ocupações bélicas nas Américas, na África e Ásia não se sustentaram ao longo dos séculos deram origem a novas nações ou à reconstituição ou a reagrupamentos de sociedades de longos enraizamentos étnicos e culturais e de antigas identidades.

 

Houve nas últimas décadas conflitos de menores proporções e visibilidade no panorama mundial, da Coreia e do Vietnam à Tchetchênia e o Sudão, algumas de cunho ideológico, outras ‘terceirizadas’ no interesse e num jogo de forças das principais potências econômicas – e militares. Foram conflitos sem efeitos políticos econômicos significativos em dimensões globais. Ao mesmo tempo, uma Europa de três gerações sem guerras foi um absoluto novum – e razão suficiente para esperanças de uma sólida e permanente paz no continente mais conflituoso da história humana, esperanças de “guerras nunca mais”.

 

Por outro lado e de uma maneira geral, os conflitos armados e as guerras mais recentes não resultaram em ganhos territoriais ou a conquista permanente de recursos. Ultimamente, a vitória de uma guerra consiste num acordo vantajoso – e a derrota, no contrário. A tradicional figura de um tratado de paz, com condições definitivas de coexistência pacífica, praticamente deixou de existir – até hoje não existe um tratado dessa natureza em relação à Segunda Guerra Mundial. 

 

São acordos de cessação de atividades bélicas, negociados em base de interesses e vantagens primordialmente – se não exclusivamente – econômicas. Eventuais aspectos culturais, religiosos étnicos, como na Irlanda do Norte ou no Mundo Árabe são de segunda ordem. Desde já, a evolução das guerras em curso a Ucrânia e entre Palestina e Israel parecem não resultar em significativas mudanças territoriais, mas em possivelmente demorados acordos.        

 

De fato, vários estudos revelam que o mundo nunca foi tão pacífico como hoje. Em comparação com as experiências de violência de TODAS as gerações anteriores a nós, a violência está clara e constantemente diminuindo. Não só a violência organizada da guerra, mas também a violência cotidiana entre as pessoas. Todas as maneiras pelas quais as pessoas prejudicam ou matam outras pessoas encontram-se em declínio na grande maioria de todos os países e regiões.

 

Será que, enfim, tornamo-nos mais civilizados ao buscar soluções pacíficas e consensos de interesses de maior duração? Embora milhares de pessoas precisem morrer antes de acordos serem atingidos! Na verdade, nada nos garante que jamais haverá paz completa e eterna. Porém, parece que a paz pode torna-se um jogo de preferência onde a guerra passa a ter cartas piores (as guerras nunca foram tão caras, e as armas nucleares acabam por transformar a guerra em aniquilação total, sem qualquer aspecto de triunfo). Talvez, de forma paradoxal, os atuais surtos de violência possam estabilizar a paz que parece estar evoluindo lentamente, com eventuais terríveis retrocessos, mas inexoravelmente fora da coalescência do mundo.

 

Guerras, conflitos e violências nascem nas cabeças de pessoas, por isso, é ali que a paz deve ser semeada.

 

 

quarta-feira, 18 de outubro de 2023

De Repente...

 

De Repente...

(“Suddenly...” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Bem, talvez nem tão de repente. Decisões em regimes autocráticos costumam ter concretizações bastante rígidas. Não existe muito espaço para discussões e as medidas e resultados são bastante imediatas. Isso não precisa significar que as resoluções e determinações continuem corretas e acertadas no médio e longo prazo.

 

Realidades distintas, disposições diferentes. Enquanto uma Alemanha nacional-socialista clamava por espaço territorial, dando origem à uma guerra histórica, poucas décadas depois uma China socialista, vendo-se afogada numa população sem espaço arável, proclama a política do filho único. São soluções que regimes totalitários não apenas enxergam como realistas, mas também conseguem levar para o mundo dos fatos sem dificuldade.

 

E os resultados? A guerra da Alemanha foi perdida e o país sofreu uma perda territorial. Já na China... Depois do período do Grande Salto para a Frente, com taxas de crescimento populacional de até 2,7% ao ano, se viu a solução na imposição da política do filho único, sem dúvida, uma medida radical num Estado disposto a não facilitar flexibilizações. Esse passou a ser o padrão familiar durante décadas, não sem aberrações da eliminação de milhões de vidas femininas e um atual desequilíbrio de gêneros. Estima-se que no período de vigor da política do filho único cerca de 400 milhões de filhos foram 'evitados'. Projeções demográficas mais recentes, na presença de uma situação econômica favorável, levaram a revisões da polícia original, permitindo a partir de 2016 dois filhos por casal, e três filhos desde 2021.

 

Então, de repente e muito antes das projeções oficiais, enquanto a população crescia ainda 0,22% em 2020, encolheu em 2022 pela primeira vez em seis décadas. No final do ano, o país mais populoso do mundo tinha 1,411 bilhão de habitantes, cerca de 850 mil a menos do que um ano antes (dados do Escritório de Estatística de Pequim; projeções inoficiais são ainda mais negativas). Em outras palavras, no ano passado, pela primeira vez na história da República Popular, o número de nascimentos ficou abaixo de 10 milhões. Apenas 9,56 milhões de bebês nasceram, enquanto 10,41 milhões de pessoas morreram. Resulta daí um crescimento populacional de menos 0,06%.

 

Diante disso, especialistas falam em um "ponto de inflexão" na história da China e alertam para as consequências devastadoras de uma crise populacional "inimaginável". As consequências dessa inversão são claras. Diversas análises recentes do perfil etário (pirâmide etária) concluem que as perspectivas demográficas, econômicas e sociais da China parecem bastante sombrias. Tudo indica uma contração com a necessidade de mudanças importantes para as políticas sociais e conjunturais.

 

Igual a outros países de desenvolvimento econômico mais recente, incluindo o Brasil, a China não conseguiu tirar vantagem de um “bônus demográfico”, ou seja, um período mais longo de população ativa maior que a inativa (jovens e idoso), e no qual as riquezas e os patrimônios dos países economicamente fortes foram construídos. Isso significa um futuro preocupante diante do crescimento da população idosa sem, na outra ponta, haver uma reposição populacional (pelo menos) na mesma proporção. E, no caso da China e de outros países, uma diminuição da força de trabalho já está começando a se fazer presente.

 

Com exceção do continente africano, observa-se uma tendência global em direção ao crescimento populacional zero ou negativo. As razões são conhecidas: emancipação da mulher, anticonceptivos eficazes, além de uma sociedade cujos filhos implicam em disponibilidade de recursos cada vez maiores. E na China, todo o estilo de vida da nação ajustou-se a essa realidade demográfica. Apenas um exemplo: décadas de mini-famílias geraram um padrão de moradia que simplesmente não consegue acomodar famílias com mais filhos.

 

A diminuição de filhos é um processo espontâneo e mais ou menos lento nos mais diversos países e, respeitando as respectivas particularidades socioeconômicas, não há respostas prontas para adequar-se a ele. Na China, no entanto, existe ainda o agravamento de sua já longa política populacional limitadora. Ter apenas um filho é hoje a norma social, uma tradição, nesse país. Duas gerações nunca experimentaram outra realidade familiar, hoje profundamente enraizada na sociedade.        

 

De repente... percebe-se claramente que a China, e por tabela o mundo todo, tem um problema muito sério a enfrentar, um problema que não tem receita pronta. Mas, certamente, o governo chinês está atento para a situação. E já há outra surpresa demográfica apontando no horizonte, hoje com o maior aumento do PIB no mundo, com 6,6% - a Índia.        

 

 

 

 

 

 

 

quinta-feira, 12 de outubro de 2023

Ódios Gratuitos

 

Ódios Gratuitos

(“Senseless Hate” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Da mesma maneira como não há escuridão sem haver luz, mesmo que seja apenas uma estrela no céu, não há ódio sem haver amor, mesmo que seja apenas um sorriso afetivo. Se, por um lado, nossa imperfeição impede o amor absoluto, por outro, também não permite um ódio incondicional.

 

Nossos sentimentos são provocados e excitados a todo instante e, entre eles, o ódio, sendo expressão de intenso de antipatia e hostilidade. Não há ódio sem a pessoa ou grupo de pessoas odiado, não importa que seja xenofobia, misoginia, homofobia, intolerância ou ódio religioso, ou racismo, para citar algumas modalidades. Os motivos para despertar o ódio são múltiplos e difíceis de determinar, deduzir e explicar. Podem ser baseadas na rejeição de algo ou alguém adquirido por ideologias ou convicções culturais ou sociais, ou em uma experiência concreta, como uma violação concreta de valores e ideais, mas também com resultado de preconceitos. O ódio pode surgir imediatamente, por exemplo, como resultado de uma experiência negativa.

 

Obviamente, o sentimento odioso pode variar em grau de severidade, especialmente quando se trata de uma reação espontânea e episódica, eventualmente a expectativas ou frustrações, e em ambientes distintos. Entretanto, uma reação odiosa como resposta a uma informação decepcionante é diferente se desencadeada num momento tranquilo de um entardecer, ou num ônibus lotado a caminho do trabalho. Trata-se de uma manifestação natural, que nos invade por alguma razão, mas também naturalmente controlável. Afinal, em tempos de comunicação global, nossos sentimentos podem ser despertados e avivados em qualquer momento e qualquer lugar. Entre as respostas, as raivosas, odiosas, bem como as solidárias e afetivas, são manifestações normais e fazem parte do perfil humano.

 

Diferentemente, o ódio insuflado ou induzido nos torna instrumento de ódios alheios. É o caso do ódio religioso, por longo tempo praticado pelas próprias igrejas, do centenário racismo, ou o ódio político como aberração do ideal democrático. São situações em que o indivíduo, em princípio indiferente, benévola e tolerante a distinções e convicções alheias, é influenciado ou se deixa conduzir para posturas de ira ou aversão (mas felizmente também para o amor!), radicalizando-se, às vezes por mera solidariedade, até em contrário à sua natureza. Sem dúvida, os modernos meios de comunicação de massa contribuem para a formação descuidada e leviana de posições e convicções sem embasamento, nem profundidade. E, que não haja dúvida, quanto à existência de fontes que procuram incentivar ódios e medos que servem a seus interesses.

 

Temos o direito – e a felicidade – de sermos diferentes uns dos outros, diferentes na percepção, na compreensão, na interpretação e na reação. E todos esses aspectos formam, por fim, nossa individualidade e personalidade. No entanto, seja no amor, seja no ódio, há uma imensa diferença entre um ato odioso, transitório pela sua própria natureza, uma atitude odiosa, ou seja, uma postura de tendência odiosa, ou um comportamento odioso, quando colocamos o ódio acima dos sentimentos que compõe um conjunto de posições equilibradas – o horror da personalidade odiosa. Aqui cabe lembrar que, além de corroer da personalidade, atos, atitudes e comportamentos costumam reverter à origem com a mesma qualidade da sua intenção.

 

De fato, somos a toda hora sacudidos repetidamente pela força elementar do mal, os avanços aparentemente inexplicáveis da crueldade, da devassidão selvagem ou friamente calculista, os assassinatos em massa e genocídios que enchem as manchetes da mídia. Devemo-nos deixar contagiar? Aliás, lembrando que o ódio jamais leva a resultados positivos, fica a pergunta: sanha ou serenidade?

 

Os princípios de vida de nossa sociedade ocidental são estreitamente ligados à ética cristã com sua essência centrada no amor ao próximo. Sem dúvida um próximo com todos os defeitos inerentes ao ser humano, mas que podem e devem ser moderados e contidos. O impulso da história da humanidade não são ódios ou repúdios, são mãos dadas.        

 

sábado, 16 de setembro de 2023

Espaço Vital, Onde Está o Limite?

 

Espaço Vital, Onde Está o Limite?

 

(“Vital Space, Where Is the Limit?” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Nosso planeta possui uma superfície total de 510 milhões de quilômetros quadrados. Desses, uma área de 149 milhões de quilómetros quadrados é constituída de terra firme. Igualmente à fauna e flora encontrada nos mares, esse um terço da superfície terrestre é habitada por uma vasta natureza vegetal e animal. De microrganismos e a plantas e animais superiores encontramos um complexo bio-sistema com milhões de espécies distribuídas entre os mais diversos biomas. São intrincados sistemas de interdependência e equilíbrios bioquímicos, energéticos e ecológicos.

 

O ‘sistema vida’ é simples e claro. Nascer, alimentar-se para a obtenção de hidrocarbonetos, proteínas, sais minerais etc. de outros seres vivos, procriar e morrer, servindo de alimento a outros seres vivos, entre microrganismos e seres mais evoluídos ou ‘superiores’ na cadeia alimentar A mesmo tempo, cada ser está condicionado e ajustado a seu próprio ecosistema. A espécie homo, contudo, desenvolveu capacidades impares de adaptação a diferentes e muitas vezes bastante hostis condições climáticas e recursos alimentares, tornando-se lenta e gradualmente dominador e dominante de praticamente todo o planeta.

 

E não lhe faltou extensão geográfica para sua expansão territorial e o encontro de novos espaços vitais. A singular capacidade intelectual do homo no mundo dos seres vivos garantiu-lhe um crescimento inusitado de sua população em todo mundo. Assim, na história mais recente podemos observar um crescimento populacional de cerca de 190 milhões de habitantes no ano zero da era cristão para 300 milhões nos próximos mil anos, atingindo o primeiro bilhão por volta do ano 1800, e desde então explodindo em pouco mais de dois séculos para os atuais 8 bilhões de habitantes.

 

Numa simples divisão da área de terras do plantes pelas mencionadas populações nos respectivos anos encontramos os seguintes espaços vitais por habitante: ano zero, 784 mil metros quadrados dessa área por habitante; ano 1000, 496 mil m2; ano 1800, 152 mil m2; ano 1900, 90 mil m2; e ano 2023, 18 mil m2 por habitante mundial. Um encolhimento impressionante! Como resposta, áreas setentrionais do globo originalmente cobertas por extensas florestas, foram transformadas em terras cultiváveis, na Europa desde meados do primeiro milênio da era cristã, e, nas Américas, desde suas colonizações nos séculos XVII a XIX, apenas para ter dois exemplos. Testemunhos disso são, por exemplo, os nomes de diversas localidades no espaço linguístico alemão que terminam em –rode ou –roda, o que significa desmatamento para o cultivo agrícola. A partir do século XX, mecanizações na agricultura e técnicas de adubagem conseguiram produzir expressivos ganhos de produtividade agrícola.

 

Como, no entanto, se trata de uma divisão global, incluindo a Antártida, os desertos e áreas montanhosas inabitáveis, ou seja, na verdade somente aproximadamente 70% das mencionadas áreas representam espaço verdadeiramente vital. E, em apenas pouco mais de dois séculos, a área disponível por habitante mundial encolheu em 88% para meros 12% desse espaço.

 

Deduzindo dessa disponibilidade as terras não aráveis, as florestas, os banhados, as áreas urbanas ou as reservas, restam no planeta Terra cerca  de 41,4 milhões de quilómetros quadrados de terras aráveis (ONU, FAO), o seja, com a população atual apenas 5,2 mil metros quadrados por habitante para garantir seu sustento (equivalente a um lote de cerca de 52 por 100 metros por pessoa) para a produção de cereais, verduras, laticínios, carne etc. Esses 5,2 mil m2 produzem (produtividade 2022) 2.300 kg/ano de arroz, ou 87 kg/ano de carne bovina, ou 1.900, kg/ano de soja, dos quais aproximadamente 70% se destinam a alimentação animal. Esses valores são médias mundiais, sabendo-se que há regiões com produtividades bem abaixo, e outras expressivamente acima desses valores.  

 

Na contrapartida, o consumo anual per capita, focando apenas dois produtos na média mundial, de arroz é de 30 kg, e de carne, 43 kg. No entanto, a produção de cada quilograma de carne consumo 160 kg/ano de soja para a alimentação animal. Com isso, apenas a produção de arroz e carne requerem um pouco mais da metade (2.720 m2) da disponibilidade de terras cultiváveis per capita. Ainda falta o espaço para o plantio de milhos, batatas, cenouras, alface e muito, muito mais produtos. Em outras palavras, com a produtividade agrícola de 100 anos atrás, a população mundial atual não seria possível. 

 

E há um, agravante: com uma população mundial de 10 bilhões de habitantes projetados para mais ou menos o ano 2050 (visto como pico com posterior decréscimo), a mesma área de cerca de 41,4 milhões de quilómetros quadrados de terras aráveis deverá alimentar 25% mais bocas do que as atuais, dependendo unicamente de significativos aumentos de produtividade agrícola. A pergunta é: onde é o limite da capacidade de produção do campo? Por outro lado, uma solução virá com a previsível inversão demográfica.

 

E eis um paradoxo: o desperdício mundial entre o campo e o consumo final de grãos está em mais de 10%, de verduras, frutas e hortaliças, em cerca de 20%, e de carnes, acima de 30%. 

 

   

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

terça-feira, 12 de setembro de 2023

Vamos Cair na Real

 

Vamos Cair na Real

("Let's Get Real" - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

O que mais frequentemente se escuta em comentários sobre a conjuntura das mais diversas áreas da economia, especialmente indústria e comércio, é a constatação de uma ‘momentânea’ retraída na demanda, porém a certeza de uma recuperação nos próximos semestres. E não faltam análises e argumentos técnicos solidamente fundamentados que justifiquem tais prognósticos. São explicações, sem dúvida, tranquilizantes, seja para empresários, seja para a classe política. E, de fato, são argumentos, na maioria das vezes, perfeitamente corretos na estrita visão econômica. Mas há outros, e o problema dessas projeções reside na perspectiva monofocal econômica, sem a consideração de outros parâmetros e entre esses, com destaque, o demográfico.

 

O único e efetivo agente econômico é o homem. É o homem em sua atividade econômica, mas também na sua dimensão demográfica. É o homem em sua eterna busca por uma vida segura, saudável, confortável e, porque não, de realização de sonhos. A consequência é uma milenar melhora de expectativa e qualidade de vida; conhecemos os inúmeros sonhos concretizados que beneficiaram sociedades inteiras, às vezes toda a humanidade.

 

Os benefícios conquistados ao longo de milhares de anos garantiram um moderado, mas continuo aumento populacional, apenas interrompido em momentos de guerras, catástrofes ou epidemias. Esse ritmo mudou nos últimos dois séculos e meio em decorrência de êxitos e triunfos tecnológicos na raiz da revolução industrial, acompanhados de vitorias na medicina e saúde pública, resultando numa explosão demográfica praticamente global. Em 200 anos, a população mundial passou de menos de 1 para mais de 6 bilhões de habitantes. Nesse mesmo período, o homem tomou literalmente conta de todo o planeta (salvo algumas profundezas oceânicas).

 

Curiosamente, o termo ‘homem’ é sinônimo de humanidade – mulher não. Igualmente curioso é o fato de quando a mulher deixou parta trás seu papel de criadora de filhos e dona de casa, provocou uma nova revolução – a da mudança demográfica. Seu ingresso na vida econômica, facilitada pela educação e o surgimento da pílula anticoncepcional. causou uma quase imediata queda nas taxas de natalidade.

 

No caso brasileiro, essa queda teve pôr consequência que por volta da virada do século a taxa de natalidade passou de forma decrescente da marca da taxa de mera reposição populacional, ou seja, de 2,1 filhos por mulher, e desde então essa taxa diminuiu gradativamente para a atual média 1,6 filho por mulher. Isso significa que desde aquele momento, nascem menos filhos do que seria necessário para garantir uma população numericamente constante. E esse déficit acumulado nos últimos 23 anos é de cerca de 33 milhões de pessoas, das quais cerca de 15% (5 milhões) já teriam hoje atingido a maior idade, ou seja, seriam teoricamente pessoa economicamente ativas. Essa realidade apenas não se espelha no último censo populacional, que ainda registra 0,1% de crescimento ao ano, em virtude do aumento de expectativa de vida (também já a taxas decrescentes), isso é, vida mais longa dos idosos.

 

Temos, portanto, uma quebra de cerca de 28 milhões de crianças e adolescentes a menos nos respectivos mercados de consumo se dimensionados pelos índices de crescimento habitual, de fraldas e livros escolares a tênis e telefones celulares. O mesmo quadro apresenta-se na sua especificidade para os aproximadamente 5 milhões de adultos em déficit. Isso significa para o produtor e comerciante de bens e serviços projeções de venda (salvo aqueles, cujo mercado se concentra no consumo por idosos) que se situam entre estagnação e decréscimo.

 

Sinais dessa realidade já se fazem sentir, seja nas montadoras de veículo, seja nos fabricantes de chupetas. Falta identificar suas causas não exclusivamente como de origem conjuntural econômica, mas incluir nas considerações as mudanças de dinâmicas demográficas. São ponderações de mudança no médio e longo prazo. Baixíssimas taxas de crescimento do PIB (se tanto) – não necessariamente do PIB per capita –, tendências deflacionárias, mas também concentrações de patrimônio publico e privado, além de revisões profundas das nossas teorias econômicas e muito mais farão parte de um futuro não muito distante. Por outro lado, políticas públicas terão de ser repensados em profundidade.

 

Em caso de dúvida, basta dar uma olhada nas recentes pirâmides etárias do Brasil, e de outros mais de 20 países em situação igual ou mais acentuada, incluindo Japão, Alemanha, Itália e Rússia. E alguns desses países poderão ter apenas metade da população atual em 2100. O Brasil deverá perder em torno de 50 milhões de habitantes no mesmo período.

 

No momento, o que importa é estar consciente de que nos encontramos no início da chegada de um novo mundo – possivelmente precisando de um novo homem, orientado por outros valores e objetivos existenciais.   

  

sábado, 12 de agosto de 2023

Rios Voadores

 

Rios Voadores

(“Flying Rivers” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Em longtudes ao redor de 30º, tanto no hemisfério norte, quanto no sul, situam-se os grandes desertos ao redor do globo. Saara (África), Arábia, Iran, Gobi (Ásia) e Mojave (América do Norte) no hemisfério norte, e Kalahari e Namíbia (África), os desertos australianos, e o da costa peruana e Atacama (América do Sul) no hemisfério sul são regiões de permanente alta pressão – isso é, sem chuvas. Esta incursão na geografia se torna necessária para o texto a seguir fazer sentido.

 

Qualquer grande área florestal funciona como uma bomba d'água. As nuvens de chuva que se formam sobre o mar só chegam a algumas centenas de quilômetros para o interior antes de se dissiparem em chuva. A floresta pode não apenas armazenar a água da chuva como uma esponja, mas também liberá-la la através da evaporação. Por exemplo, uma árvore caducifólia europeia "transpira" até 400 litros de água em um dia quente de verão. Dessa forma, tem efeito de resfriamento em seu entorno e contribui para a formação de nuvens de chuva.

 

Em contrapartida, um único gigante de selva tropical pode liberar até 1.000 litros de água por dia na atmosfera. Essa evaporação faz com que a bacia amazônica é, de longe, a maior bomba de água do planeta. Sua floresta tropical absorve as chuvas provenientes do Atlântico e da Mata Atlântica. Ao mesmo tempo, cerca de metade é liberada no sistema formado pelo rio Amazonas e seus afluentes, a outra metade evapora sobre a folhagem densa e de vários andares da floresta. O ar acima da floresta tropical da Amazônia absorve cerca de 20 milhões de metros cúbicos de água todos os dias, uma quantidade praticamente igual à água transportada pelo próprio rio Amazonas.

 

Na região do equador, os ventos em alturas de cerca de 3.000 metros, onde se formam as nuvens resultantes dessa evaporação, os ventos sopram predominantemente de leste para oeste, dando origem aos assim chamados "rios voadores" da América do Sul (nome dado pelo pesquisador brasileiro Antônio D. Nobre), por onde flui um décimo dos recursos de água doce do mundo. No seu trajeto leste-oeste, esses rios voadores atingem a Cordilheira dos Andes com montanhas de até 7.000 metros de altura, ou seja, bem mais altos do que a altura de flutuação das nuvens. Essa barreira força uma mudança de curso dos ventos e das nuvens, uma menor parte dos quais desviando-se e acompanhando os Andes em direção ao norte, descarregando suas chuvas sobre o leste Peru e a Colômbia.

 

A maior parte do rio voador e sua capacidade pluvial, no entanto, toma o rumo para o sul, garantindo chuvas mais ou menos regulares no leste da Bolívia, no norte da Argentina e no Paraguai, bem como, em território brasileiro no Centro-oeste, na parte sulina do Sudeste e no Sul quando entra numa faixa de ventos preponderantemente de oeste a leste.

 

E aí voltamos ao prefácio geográfico. A parte sul do Mato Grosso do Sul, o sul de Minas Gerais, e os estados de São Paulo, Paraná e Santa Catarina situam-se exatamente na faixa de latitude dos desertos do hemisfério sul. Isso significa que esses territórios são diretamente beneficiados pelo rio voador vindo da Amazônia, sem os quais a flora e fana típicas dos mesmos não existiria. Em outras palavras, cada árvore desmatada nas Amazônia resulta numa redução de cerca de 1000 litros de chuva por dia (aproximadamente o equivalente ao consumo diário de três famílias de três pessoas) ao longo do curso desses rios voadores.

 

Fica a lição: os sistemas meteorológicos são complexos, sensíveis e consequentes.