segunda-feira, 22 de agosto de 2022

Trabalho - Menos Horas, Mais Anos.

Trabalho – Menos Horas, Mais Anos

(“Labor – Less Hours, More Years” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Nas projeções estruturais econômicas e sociais para o futuro há consenso e uma preocupação geral: a falta de trabalho e com isso, a garantia de sustentação, mas também de prosperidade de boa parte da população. Mesmo reduções sensíveis no crescimento populacional das últimas décadas não deverão assegurar uma solução consistente para o problema. Simplesmente não há, nem haverá trabalho para   a população em idade produtiva (cerca de 60% da população total) durante 8 horas por dia e 220 dias por ano (considerando dias úteis menos férias). Trata-se de uma perspectiva global.

Em tempos de célere industrialização e crescente explosão demográfica na segunda metade do século XIX, cargas horárias semanais de trabalho de 60 a 65 horas eram comuns. Ao longo do tempo, várias forças políticas e da sociedade civil obtiveram gradativas conquistas na redução desses montantes. Tais medidas, no entanto, buscavam sanar desajustes sociais do trabalhador e não foram consequência da diminuição de disponibilidades de trabalho.

Na evolução da dinâmica de desenvolvimento, fatores como crescimento demográfico acelerado e avanço tecnológico, entre outros, acabaram levando a um desequilíbrio entre oferta e demanda de trabalho. O daí resultante desemprego costuma ser causa principal para todo um conjunto de problemas sociais que obstaculizam uma integração económica e social de boa parcela da população, no caso brasileiro cerca de 10% da força de trabalho disponível, mas improdutiva, sem considerar o trabalho informal. E os crescentes e progressivos processos de automação, robotização e inteligência artificial acarretam uma liberação cada vez maior de mão de obra em praticamente todos os setores.

Por outro lado, o constante aumento da expectativa de vida tende a agravar essa situação. Diante disso, cada vez mais países procuram ajustar as idades de aposentadoria a essa nova realidade. Ao mesmo tempo, especialmente entre o crescente número de autônomos, há pessoas dispostas a trabalhar apesar da idade avançada, continuando voluntariamente em atividade. Por outro lado, o crescimento populacional mais lento nas últimas décadas não chega a cobrir a observada falta de postos de trabalho.

A solução lógica no sentido de criar um maior número de acessos ao trabalho, portanto, reside na reestruturação das condições de trabalho através da modulação dos tempos de trabalho. Modelos para isso já estão sendo postos em prática em alguns países, em resumo consistindo em reduzir a carga de trabalho individual para dividir o trabalho disponível entre mais pessoas pela simples redução da jornada de trabalho, p.ex. de 8 para 6 horas, ou da diminuição da semana de 5 para 4 dias de trabalho.

Contrário ao que seria óbvio pensar, mudanças nesse sentido não resultam necessariamente na conclusão “menos horas de trabalho, menos produção”, com consequente corte na remuneração. Vários estudos revelam que cargas horárias semanais menores revertem para maiores produtividades. Segundo o ‘Instituto de Estatística Eurostat’, países com uma média de 35 horas de trabalho semanais atingem uma produtividade/hora em média de 15% (máximo 26,8% na Bélgica) acima da produtividade/hora média europeia. Um efeito secundário, mas não desprezível, desse esquema é que ele oferece maiores possibilidade de flexibilização na execução da carga horária, o que garante, p. ex. na área de prestação de serviços, o atendimento do cliente de 40 horas semanais, ou mais. Além disso, em alguns países europeus existe com sucesso o trabalho de meio período, com boa aceitação especialmente entre as mulheres.

Em todo esse contexto é preciso observar que com a diminuição do trabalho humano nas atividades industriais, a parcela do custo da mão de obra decaiu gradativamente no custo total do produto final nesse setor, com simultâneo deslocamento do trabalho para a prestação de serviços onde a remuneração tende a ser mais vinculada à produtividade.

Como inicialmente já mencionado, outro aspecto das mudanças no mundo do trabalho é a gradativa elevação da idade mínima de aposentadoria como consequência da elevação da expectativa de vida. Esse fenômeno, prolongando a vida produtiva do trabalhador, anula, em parte, os ganhos obtidos com a redução da jornada, ou dos dias semanais de trabalho. Como, no entanto, a elevação da expectativa de vida tem limite, com o tempo seus efeitos tendem a diminuir.

Resumindo, o problema da falta de trabalho existe e está identificado quanto à sua origem e seus efeitos. Sendo uma questão global, também existem soluções já testadas e implantadas com resultados positivos. Falta uma resposta nacional e para ela percepção, consciência e vontade política, independente da linha ideológica do governo. A única resposta no combate à pobreza, à falta de integração e redução da desigualdade econômica e social consiste na garantia de trabalho para todos, e quanto menor a pobreza, maior a prosperidade, não somente da população emergente, mas de todos. Afinal, o pobre é um ônus para o rico.

 

 

  

segunda-feira, 15 de agosto de 2022

Únicos, Mas não Eternos.

 

Únicos, Mas não Eternos.

 

(“Unique, But not Eternal” - An Increasing Phenomenon” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus  H. G. Rehfeldt

 

 

Desde seu surgimento sobre a Terra - a cerca de 8 bilhões de anos - há uma constante interação e interferência mútua entre a vida e o meio ambiente. A flora em abundância ou escassez causa condições climáticas específicas que, por sua vez, ocasionam mudanças geográficas e consequentes efeitos sobre ecossistemas. Florestas tornam-se savanas, ou essas, desertos – e vice-versa. Da mesma forma, a presença, ou não, bem como a respectiva densidade populacional de espécies da fauna são capazes de interferir em equilíbrios da flora, então resultando na vulnerabilidade, e eventual extinção, de determinadas espécies, ou em adaptações e mutações de ajuste a novas realidades ambientais. Meio ambiente, clima e formas de vida e espécies vivas encontram-se em permanente interatividade.

            Nessas condições, a vida nunca mais deixou de existir e resistiu em algumas de suas formas, mesmo em períodos dos mais adversos, seja por frio intenso em eras glaciais, seja por calor excessivo em outros momentos. Fatores dessa ordem geraram necessidades de resistência e de adaptações e as daí decorrentes mutações em espécies, tanto da flora como da fauna. As ramificações de formas de vida e as múltiplas derivações em subespécies e novas espécies sob condições ambientais distintas são prova disso. Tais processos, ao longo dos bilhões de anos, deram origem a inúmeras variações nas categorias e classes de seres vivos existentes em cada momento dessa história fantástica. Assim, também a extinção de espécies, inclusive por mudanças climáticas ou ambientais, faz parte desse processo evolutivo. Constantes desequilíbrios resultaram em continuas correções mútuas na superfície do nosso planeta.

            Esse progresso da vida sugere que, em algum momento a cerca de 4 bilhões de anos atrás, uma forma de primata ancestral, em meios ambientais distintos, tenha dado num longo seguimento de ajustes a condições distintas de vida origem a uma separação em duas espécies, resultando no futuro chipanzé – ou bonobo – e no futuro homo, até hoje com identidade de 99% em suas sequências de DNA. O significado desse valor ganha expressão quando sabemos que a sequência de DNA humano coincide em 90% com o do porco, e 40%, do tomate. Existem inúmeros paralelos para tal evolução, como, por exemplo, a lenta separação dos ancestrais de ursos e lobos. Mutações mínimas no genoma tem efeitos significativos.

Desafios existenciais distintos estimularam o desenvolvimento de habilidades diferentes e específicas. Evolução é aprimoramento genético num espaço de tempo. A ascensão para um cardápio misto de vegetal e animal tem contribuído para uma constituição bucal favorável à melhoria na comunicação através de articulações sonoras que deram origem à fala. Essa, por sua vez, favoreceu um processo de socialização. Por sua vez, a socialização facilitou o surgimento de mitos comuns, uma caraterística que acompanha o homem até a atualidade.

A comunicação combinada com a capacidade de assimilação de conhecimentos acabou resultado na descoberta da energia extracorporal – a energia que projetou o homo para uma civilização em continuado desenvolvimento, uma civilização cada vez mais afastada de sua origem, e cada vez mais dependente de suas criações, seus artifícios e suas sofisticações tecnológicas.

A espécie homo chegou a um ponto crucial: o conhecimento das leis da física, incluindo a criação de energia artificial, que pode ser adicionada à própria, limitada especificamente a cada ser. Química – o dom sobre as matérias deste planeta. Cibernética – o domínio sobre a informação. Inteligência Artificial - ..., sempre com verso da moeda, a característica única na natureza de destruir seu semelhante e a si mesmo.

O homo sapiens resultou da diversificação das espécies numa dialética de causa e efeito, uma resultante entre infinitas possibilidades de que a natureza dispõe. Duzentos anos de tecnologia são apenas 0,0000025% da existência e evolução de vida em sua superfície. E a natureza continua seu rumo, ninguém sabe para qual amanhã e em qual direção, com ou sem o homo sapiens – cuja presença neste planeta é de apenas 0,004% de sua massa biológica.

No entanto, tornamo-nos o ser mais poderoso na Terra, mas ao mesmo tempo o mais vulnerável, totalmente dependente dos artifícios e das circunstâncias que criamos para nossa garantia de vida com saúde, em segurança e prosperidade. Sem uma elaborada estrutura de mecanização, digitalização e industrialização da agricultura ao lado do uso de dezenas de milhões de toneladas de adubos artificial no cultivo de nossas terras aráveis seria impossível alimentar a atual população deste planeta. Sem a disponibilidade de todo um requintado arcabouço medicinal, seja farmacológico, seja profilático ou terapêutico, voltaríamos para uma expectativa média de vida de 40 anos. Por outro lado, estamos entrando num processo de atrofiamento: nosso acuidade de olfato e audição já perderam muito de sua capacidade original, e simplesmente não somos mais capazes de caminhar longas distâncias.

Paralelo a essa crescente dependência dos recursos da ciência e tecnologia aumentam os riscos inerentes a tais avanços. Um colapso no sistema de intercomunicação dos sistemas de satélites artificias resultaria na morte da maioria das populações urbanas em menos de duas semanas, por simples falta de abastecimento.  Apenas os povos indígenas ao redor do mundo sobrariam incólumes. Este é o preço de uma vida próspera e saudável de alguns e nem tão prospera, nem tão saudável de muitos outros.

Somos eternos? Certamente não na forma moldada por esta existência semiartificial e semissintética que criamos e que hoje condiciona nossa vida. Resta uma pergunta: basta agradecer ou apelar ao Criador deste universo, ou precisamos respeitar mais – muito mais – Sua criação?

 

 

 

 

sábado, 16 de julho de 2022

Polarização Política

 

Polarização Política.

(“Political Polarization” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

A polarização política é um fenômeno típico de democracias, especialmente aquelas de regime presidencial. Enquanto nos formatos parlamentaristas todas as linhas ideológicas concorrem para os cargos eletivos, inclusive os de primeiro ministro, ou equivalente, o presidencialismo acaba por dividir o eleitorado em dois campos, mormente nas eleições de segundo turno.

Teoricamente não há nada de mal nisso. A democracia baseia-se na admissão do confronto pacífico, civilizado e construtivo de ideários distintos e pressupõe como natural que haja, de caso em caso, maiorias vencedoras e minorias perdedoras nessa confrontação de propostas e netas de governo. Da mesma forma constituem-se as respectivas situação e oposição. Nesse contexto, o desempenho de cada governo ou de realidades sociais, econômicas ou políticas permitem e legitimam alternâncias de poder nos momentos oportunos.

A prática atual, entretanto, nem sempre se apresenta tão harmoniosa e tranquila. Especialmente partidos nos extremos do espectro de ideologias e de orientações políticas tendem a defender posições mais radicalizadas e de intolerância. As consequências disso são, em graus diversos, todo tipo de excessos comportamentais nos planos interpessoais e intergrupais. Nessa mesma linha observam-se agravamentos acentuados nos objetivos e nas estratégias em campanhas eleitorais. Táticas de desconstrução de adversários – vistos como inimigos, de discursos de ódio e excessos de toda ordem prevalecem sobre a racionalidade que se espera daqueles que governam, ou propõem-se a governar uma nação com a responsabilidade adicional de ser exemplo e referência para um povo.             

Esses alheamentos nada democráticos tornam-se especialmente graves quando seus promotores, inclusive o próprio estado, conseguem contaminar parte da população com campanhas desinformativas, difamatórias, e impregnadas de ódio e de falsos fantasmas e temores, sem qualquer consistência política construtiva. Nesse quadro, polarizações políticas numa sociedade são capazes de induzir as pessoas abrirem mão de sua racionalidade, sua coerência e do próprio bom senso a bem de idolatrias desarrazoadas e inconsequentes, tudo isso numa inadvertida ou ingênua ausência de questionamento de ilusões implantadas.

Na dinâmica do sistema democrático, as alternâncias de poder entre posições ideológicas extremadas podem ser altamente prejudiciais, senão traumáticas para uma sociedade. O que devia ser a simples prevalência da vontade da maioria sobre os anseios da minoria, ganha dimensões de vitória e derrota de combatentes em conflito aberto. A história nos ensinou que a evolução requer um equilíbrio entre continuidade de ruptura, essa, porém, sem o sacrifício do passado. No entanto observam-se nessas alternâncias drásticas uma forte tendência para a descontinuidade, senão reversão, de programas iniciados por governos anteriores, seja por rigidez de um ideário político, seja por mera autoafirmação.

Hoje é comum, principalmente nas numerosas socialdemocracias, observar-se a tendência de uma aproximação de objetivos políticos nos da direita e da esquerda. À parte das particularidades de cada nação, os objetivos políticos, dentro são praticamente os mesmos, o que diverge são os caminhos propostos para atingi-los. Enquanto, a esquerda busca a prosperidade das classes menos favorecidas, a direita almeja uma maior população economicamente forte. Basta encontrar uma política de convergência, talvez ao custo de identidades ideológicas.

 Não é por acaso que encontramos as democracias mais estáveis onde a grande maioria dos políticos e do eleitorado se concentra no espaço ideológico relativamente estreito entre centro-direita e centro-esquerda. É natural e nada impede convicções ideológicas extremadas de direita ou de esquerda entre cidadãos e seus representantes políticos, que vivam e manifestem livremente suas opiniões e que reivindiquem seu espaço na sociedade dentro das legalidades. Cada um e livre para fazer suas escolhas e externa-las com o devido respeito às escolhas dos outros. O que não se pode admitir são, como em tudo, excessos na intenção de impor convicções próprias a outrem. Intolerável é a atuação de um governo em instrumentalizar o estado no sentido de alimentar e incentivar estímulos à radicalização a seu favor, da desinformação à instigação ao ódio, tentando tornar o cidadão incauto em peça útil para a conquista ou manutenção do seu poder. A história já provou que a ideologia nasce e amadurece dentro do povo, como na Revolução Francesa de 1789, e facilmente fracassa quando imposta pelo governo, como na União Soviética em 1’991.           

A polarização política, nós e eles, jamais deve ser objetivo de um governo. Povos divididos, não importa por quais razões, são povos condenados à autodestruição de suas tradições e de seus valores coletivos e, consequentemente, de um futuro construído sobre a consciência e a vontade nacionais.    

 

quinta-feira, 7 de julho de 2022

Máquinas de Matar

 

Máquinas de Matar

(“Killing Machines” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Julho, 1952, estação de trem de Freiburg, Alemanha. Fim de férias e estou sentado numa plataforma, aguardando uma conexão na minha viagem do Lago de Constança de volta para o internato. Senta um cidadão simpático e relativamente jovem ao meu lado, fazendo muitas perguntas pessoais que, despreparado, respondo sem muita cautela. “Você gosta do internato?” “Não gostaria de ganhar muito dinheiro e conhecer muitos lugares no mundo?” Minha idade revelada de apenas 17 anos não invalidou o diálogo, e como minha vinda para o Brasil já estava acertada, a pergunta não chegou a me fascinar. A chegada do meu trem encerrou a conversa, mas ele me deu um papel com um contato em Freiburg caso me interessasse.  Comentando o caso com professores no internato, esclareceram o provável emprego: Legião Estrangeira Francesa (que tinha um centro de recrutamento em Freiburg). Na época, a França estava envolvida com os movimentos de independência de suas colônias.

            A figura do mercenário existe desde a antiguidade, por exemplo, grega e romana, quando escravos conseguiam sua liberdade caso sobrevivessem as constantes guerras da época. Mercenários formaram grandes contingentes nas guerras do Império Romano e na expansão muçulmana da Idade Média, da mesma forma como a Legião Estrangeira atuava nas colônias francesas. E existem até hoje. Recentes conflitos no Iraque, na Síria, entre outros, recorreram a tropas de mercenários, com emprego não raro nos momentos e locais mais críticos. A atual guerra da Ucrânia não é diferente com combatentes estrangeiros lutando em ambos os lados. São na maioria das vezes ex-combatentes de outros conflitos ou então aventureiros de toda espécie que arriscam sua integridade física e mental ou sua vida por salários a partir de US$ 500 por dia, podendo chegar a sete algarismos por missão especial.     

Enquanto antes as próprias estruturas militares recrutavam seus mercenários, hoje nomes como Asgaard, Lisa ou Nbolo, e muitos outros, aparecem como agentes de mercenários (as vezes camufladas como empresas de segurança), recrutando candidatos não mais em estações ferroviárias, mas pela internet. E não só isso. Além de recrutar mercenários, tais ‘empresas militares‘ sediadas por exemplo na Rússia, Inglaterra ou Alemanha, reúnem verdadeiros exércitos privados que operam em zonas de conflito em todo o mundo como exércitos sem controle estatal. A empresa militar privada mais conhecida é a norte-americana Academi (antiga Blackwater), que experimentou um crescimento sem precedentes na "guerra ao terror". Outra organização são os ‘mercenários Wagner’ russos. Nas guerras entre nações ou em conflitos internos de países, tropas terceirizadas de entidades privadas são cada vez mais comuns; entidades privadas muito bem remuneradas e pouco interessadas num mundo em paz.

Números e valores são obviamente desconhecidos, mas poupam a população de países em guerra, pelo menos em parte, de sacrifícios humanos. Sabe-se hoje, que boa parte das perdas humanas russas nas primeiras semanas da guerra na Ucrânia era de legionários, ou seja, os lutos e as indignações também foram terceirizados para fora do país.

 A missão do mercenário é simples: matar, quanto mais, melhor. Matar sem causa, apenas pelo soldo. Isso impõe uma pergunta: a tropa de obcecados pela aventura, pela glória e pela fortuna supera ou iguala-se àquela motivada pelo patriotismo, pela defesa da pátria, da família, da propriedade, dos valores e da história de um povo? E mais: Um uniforme estrangeiro legaliza a morte sem causa, mas remunerada? Afinal, o mercenário não é um cidadão em uniforme e a serviço da pátria, ele é simplesmente uma arma, uma máquina de matar.  

        

 

 

 

 

quarta-feira, 29 de junho de 2022

Abstenção do Voto - Um Fenômeno Crescente

 

Abstenção do Voto – Um Fenômeno Crescente

(“Abstention from Voting – An Increasing Phenomenon” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H, G, Rehfeldt

 

Um problema marcante das democracias ocidentais é a constante diminuição da participação nas eleições. Esse fenômeno costuma regularmente causar comentários preocupados e análises aprofundadas 'no dia seguinte' (ao de uma eleição), quando as comissões partidárias tiraram suas conclusões – em sua maioria de natureza pessoal – dos resultados eleitorais. Já em seguida, políticos e comentaristas políticos retornam aos negócios como de costume. Nesse contexto, explicações para as abstenções crescentes podem ir do simples desinteresse político ao questionamento da legitimidade do sistema democrático.

Na grande maioria dessas democracias – exceção feita a poucas como p. ex. Bélgica, Áustria ou Brasil, o voto e facultativo. Isso significa que o eleitor se manifesta nas urnas apenas quando pode ou quer, sem precisar justificar uma eventual abstenção. Em decorrência disso, as razões para a abstenção preenchem um amplo leque, que vai da preguiça ou o mau empo ao questionamento do próprio modelo democrático, passando por conformismo (“meu voto nada significa e nada muda”), resignação com a política, descrédito à classe política, ou, simplesmente, porque nenhum candidato corresponde às expectativas do eleitor. Consequência disso são taxas de abstenção, tidas como normais, em torno de 30%, podendo chegar a 44% como nas eleições presidenciais do Japão em 2021, ou a 67% observado nas eleições regionais da França em 2021. Isso faz o assunto suscitar intensas investigações e tornar-se razão de muitos estudos de ciências sociais.

Tais preocupações deviam ser desnecessárias no Brasil pelo simples fato do voto ser obrigatório, admitindo apenas algumas situações bem definidas, como doença de ausência do domicílio eleitoral. A prática, no entanto, é diferente. Para começar, a multa para a abstenção não justificada é de R$ 3,50, o que equivale à virtual inexistência de penalidade para essa contravenção.

Mas existem outras explicações para uma crescente taxa de abstenção do voto no Brasil, ou, pelo menos é definido como abstenção. Uma das razões é de simples ordem burocrática. Os próprios órgão eleitorais têm consciência da desatualização dos registros eleitorais, motivo pela qual promoveram um recadastramento dos eleitores, mas não concluído por razões políticas conhecidas. Outro aspecto central é o fato do voto ser facultativo para os eleitores com idade a partir de 70 anos. E esse contingente de pessoas encontra-se em constante crescimento, o que significa um crescente número de eleitores eventuais, que, não votando, geram abstenções. Os dados são claros: em dois períodos eleitorais, somando oito anos, a população brasileira de 70 e mais anos de idade aumentou de 9,242 milhões em 2010 para 12,405 milhões em 2018, um aumento expressivo de 34%. Isso significa que 3,163 milhões de eleitores passaram da obrigatoriedade do voto para o status de facultativos. No mesmo lapso de tempo, a população de eleitores cresceu apenas 6%.

Além disso há aspectos como o crescente número de pessoas econômica, social e politicamente excluídos e consequentemente desinteressadas ou impedidas de votar, ou então o jeitinho brasileiro que permite, por exemplo, esquivar-se da opção pelo candidato menos ruim de, mas parecem ser de menor importância.

Não há como negar que possa haver suspeitas de que a abstenção de voto seja usada como instrumento de fraude em eleições forjadas, todavia é sempre recomendável ter os dados acima em mente    

terça-feira, 7 de junho de 2022

Prosperação Intergerações

 

Prosperação Intergerações

(¨Inter-generation Prosperation” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Ano 2022. - Fernando e Ana formam um casal de classe média. Ele, 52 anos, farmacêutico, ela, 50 anos, pedagoga, tem dois filhos, Sueli e Pedro, ambos casados e ainda sem filhos. Fernando e Ana construíram um patrimônio sólido constituído de um apartamento confortável na cidade e um pequeno sítio a 30 quilômetros de distância, além de um carro que trocam a cada 4 a 5 anos.

A filha Sueli é casada com Ricardo, que é dono de uma pequena, mas bem-conceituada oficina de motocicletas. O casal mora em apartamento alugado e está adquirindo um apartamento ainda em construção. Eles não pensam em filhos no curto prazo. Alternam entre o uso de um carro econômico e aplicativos de transporte. Os pais de Ricardo, ambos professores, também moram em apartamento próprio. – Pedro, por sua vez, é programador de TI, solteiro, e como nômade digital não pensa em casar – por enquanto.

Essa moderna constelação familiar é contrasta bastante com as famílias numerosas de épocas passadas. Reduções sensíveis na taxa de fertilidade da mulher, de 4,6 filhos por mulher na década de 1940 para 2, no ano 2000, e atualmente 1,7 filhos, mudaram radicalmente as dimensões familiares. Entre as consequências observa-se uma importante mudança na dinâmica demográfica com expressivas consequências nos padrões de transmissão de patrimônio de geração a geração. Menos filhos, menos herdeiros – herança maior.

Essa tendência promete perpetuar e acentuar-se no futuro, possivelmente a médio prazo e talvez além, enquanto persistirem as estruturas familiares e de geração de renda com a participação da mulher. Como a fertilidade media da mulher tende a reduzir-se mais um pouco até cerca de 1,5 filho, devemos esperar uma consolidação, talvez acentuação dessa realidade

Voltemos à família de Fernando e Ana num pulo hipotético para o futuro, 30 anos depois. -  Fernando faleceu aos 79 anos de idade e Ana, agora aos 80 anos, continua em seu apartamento enquanto o sítio está sendo administrado pelo genro Ricardo. Sueli, mãe de gêmeos, está aposentada como funcionária pública, mas montou uma pequena oficina onde produz roupas para pets. Pedro vive, há 12 anos, numa relação estável, sem filhos, e é dono de uma consultoria de IA (inteligência artificial) especializada em logística multimodal. Em virtude da idade avançada de Ana, que vive com Sueli, a família acordou em que o sítio ficaria para Sueli e Ricardo e o apartamento, com Pedro, que ainda não sabe o que fazer com ele num mercado de baixa procura. Por outro lado, Ricardo seria herdeiro universal dos bens imóveis e moveis de seus pais.

Vemos aqui a constelação familiar típica do nosso momento, e seu bastante provável futuro. Percebe-se uma grande diferença com aquela de 70 ou 80 anos atrás, quando famílias de 6, 8 ou mais filhos eram normais, e isso numa época quando a mortalidade infantil já estava em acentuado declínio. As elevadas taxas de crescimento populacional neutralizavam em grande parte aquelas de crescimento das riquezas pessoas e familiares. Isso significa, que os patrimônios de cada geração eram repartidos entre um número relativamente grande de filhos, ou seja, a transferência de patrimônio para a posterioridade era bastante retalhada e, assim, limitada para cada herdeiro. (Obviamente, não estamos falando de sociedades com culturas de transmissão específica, p. ex., a primogênitos, ou similares.)

Naturalmente trata-se apenas de uma redistribuição de patrimônios, no entanto, essa concentração de renda propicia a capacidade de poupança e investimento. Na ausência de crescimento populacional, o enriquecimento da sociedade a partir de patrimônios anteriormente formados. A prosperidade pessoal e familiar, entretanto, aumentará substancialmente.

  

 

     

 

 

 

 

 

quinta-feira, 2 de junho de 2022

Os Limites da Globalização

 

Os Limites da Globalização

(“Limits of Globalization” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Globalização significa a integração dos homens e de suas estruturas econômicas, políticas, sociais e culturais ao redor do mundo. O processo de interconexão em várias áreas iniciou-se em meados do século 20, beneficiado pelas intenções pacifistas pós-guerra, mas especialmente pelos avanços nas tecnologias de comunicação e especialmente pela emergente TI (tecnologia de informação). Os aspectos econômicos mostraram-se os mais dinâmicos em desenvolvimentos globais, seja no estabelecimento de cadeias de fornecimento, seja na oportunização de mercados de consumo. No campo da política internacional, não por último em resposta e como suporte a interesses econômicos, pactos e acordos foram firmados com o intuito de aproximações internacionais e o fortalecimento das relações em vários planos.

Não devemos esquecer que sempre houve críticas das mais diversas origens à globalização em si, mas especialmente a formatos extremados, principalmente questionando interdependências excessivas de um lado em prejuízos de autonomia no outro. E essas preocupações revelaram-se justificadas no mínimo em três momentos da história recente: a crise bancária internacional de 2008, a pandemia recente da covid-19, e a guerra na Ucrânia atualmente em curso. Nessas ocasiões começaram e continuam se evidenciando situações que c0mprovaram e existência de limites à globalização, tanto econômica, quanto política, social e cultural. E tais limites têm várias feições.

Tanto a crise financeira com desdobramentos desastrosos para a economia de vários países, em princípio não envolvidos nas causas, quanto durante a pandemia, quando o outsourcing de indústrias farmacêuticas para um número reduzido de países, evidenciando uma extrema fragilidade do resto de munda em respostas medicinais imediatas, mostraram claramente a necessidade de autonomias domésticas mínimas em todos os setores. O custo de tal política parece justificar-se plenamente no médio e longo prazo. Em paralelo a isso é preciso considerar a desindustrialização de países desenvolvidos em benefício de países em desenvolvimento com o efeito secundário da transferência de problemas sociais em sentido contrário, decorrentes da liberação de mão de obra nos primeiros países com correspondente emprego nos segundos.

Num plano paralelo, não escapamos da realidade de que os recursos naturais são limitados e estão distribuídos irregularmente sobre o globo. Isso leva a outro limite, o da infraestrutura insuficiente de sustentar uma globalização econômica. Commodities são extraídos, em um ponto do globo, p.ex. da América do Sul, levados para outro, p.ex. na Ásia, para beneficiamento ou industrialização, para o produto final ser finalmente distribuído ao mundo todo para o consumo, inclusive de volta para a América do Sul. No caminho disso encontram-se obstáculos como portos inadequados para receber os modernos super-embarcações (que, aliás, são capazes de obstruir acidentalmente um canal estratégico por semanas como no caso do navio ‘Ever Given’ no canal de Sue, e represando centenas de outros navios – e centenas de milhões de dólares em mercadorias – em seus percursos), eventuais greves de marítimos ou aeroviários, e o elevado custo agregado por transportes, não esquecendo os consequentes efeitos ambientais. E esse processo significa que resíduos e subprodutos, além de serviços correlacionados, são desnecessariamente transportados ao redor do mundo. Além disso é preciso lembrar que o transporte marítimo é hoje o maior emissor de CO2, um problema ambiental de primeira ordem.

Em outra esfera, a flexibilização de fronteiras e a melhor acessibilidade aos meios de transporte favoreceram os contatos diretos entre os povos e suas culturas. Mas isso também significa o transplante de valores culturais e uma infalível diluição dos mesmos na convivência com outras culturas – ou entrar em choques. Um multiculturalismo excessivo tende a gerar estranhezas e desconforto. Por mais que valores culturais costumam ter raízes profundas, o risco de desfigurações, ou mesmo sua perda, é bastante real.

Com tudo isso em mente, impõe-se uma pergunta: existe a chance para uma civilização globalizada? A guerra em curso na Ucrânia mostra que interesses geopolíticos exacerbados podem quase instantaneamente desfazer pactos e alianças políticas, incluindo a implosão de constructos econômicos e a destruição de bases existenciais de sociedades inteiras. Uma globalização jamais subsistirá sem o respeito a pertencimentos étnicos ou religiosos, ou a identidades geográfico-políticos.

Concluindo parece evidenciar-se que não se justifica uma globalização absoluta, porém globalizações ou continentalizações relativas e inteligentes, onde independências e interdependências coexistam no melhor equilíbrio no alcance de micro- e macro-resultados econômicas, políticas, sociais e culturais.