sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Deflação



Deflação

Klaus H. G. Rehfeldt

Tecnicamente falando, uma situação deflacionária caracteriza-se pela queda geral de preços com duas causas principais: a falta de meios de pagamento, ou uma redução geral de demanda – a oferta é maior que a procura. E, numa visão geral dos economistas, a deflação é fator inibidor do desenvolvimento econômico devido ao desestímulo para o consumo. Alguns países, como o Japão, estão esvaziando esta argumentação.
O aparecimento episódico de um cenário deflacionário costuma decorrer de fatores conjunturais momentâneos decorrentes, por exemplo, de equívocos de política econômica ou por uma simples retração da demanda em função de uma inseguranças econômica generalizada. Diferente é a situação quando se trata de uma processo evolutivo que se inicia com o gradual declínio das taxas de inflação, resultando finalmente num estado deflacionário.
Esta é o atual quadro conjuntural do Brasil. Depois de um longo período de índices baixos e decrescentes da inflação, apesar de continuas tentativas de aquecimento do mercado mediante inventivos ao consumo e injeção de meios financeiros, o mês de setembro de 2019 encerrou com uma deflação de 0,04%. As tentativas de explicação foram muitas, como desemprego, falta de perspectivas econômicas positiva, etc.
Não contemplaram, porém, um aspecto importante. Por representar uma grandeza de fundo permanente, historicamente um vetor ascendente e de efeito geralmente positivo, mormente numa economia de consumo, as mudanças demográficas não costumam entrar nas reflexões macroeconômicas, exceto na questão do envelhecimento da sociedade pelo simples fato de constituir um problema previdenciário. Embora a idade máxima absoluta não tenha mudado significativamente ao longo dos últimos séculos, um número rapidamente crescente de pessoas aproxima-se desse limite, aumentando de forma expressiva o contingente da população idosa.
A outra ponta da escala etária tende a não ganhar a mesma atenção. Entretanto, desde o ano de 2000, a taxa de fertilidade da mulher brasileira situa-se inicialmente no nível de mera reposição da população com 2 filhos por mulher, passando em seguida para abaixo desse índice, ou seja, caindo continuamente para o atual 1,7 filho. Isso significa que desde então diminui ano a ano o número de novos consumidores. O Brasil só não apresenta um crescimento populacional negativo, porque o atual déficit de cerca de 300 mil nascimentos é compensado (e, ainda, superado) pelo ingresso e a permanência atuais de aproximadamente 525 mil pessoas 65+ no segmento dos idosos.
Com respeito à pressão deflacionária é preciso lembrar que, enquanto o potencial consumidor do idoso tende a diminuir em amplitude de produtos e quantidade com o envelhecimento da pessoa, este potencial ganha um espectro cada vez maior de produtos combinado com índices crescentes de descarte dos mesmos, uma vez que o número reduzido de filhos elimina e reutilização de roupas e brinquedos, por exemplo, pelos irmãos mais novos inexistentes. O encolhimento da base da pirâmide etária deverá projetar-se gradativamente sobre mercados específicos, começando, por exemplo, com artigos para bebês, depois passando para os brinquedos e o material escolar e assim por diante.
Tais aspectos demográficos certamente não respondem pela totalidade do índice deflacionário, mas certamente têm um peso importante na composição dos fatores que o compõe, e este peso deverá aumentar.   

Um comentário:

  1. De fato, uma situação a ser refletida e prevenida. Os próximos anos dirão e, principalmente, farão sentir o peso de realidades inimaginadas.

    ResponderExcluir