terça-feira, 27 de fevereiro de 2024

Nós, os Velhinhos

 

Nós, os Velhinhos

(¨We, the Old” – This text has been written in such a way as to facilitate translations by electronic means)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Uma das mudanças mais revolucionárias, mas muito pouco notada, ocorreu durante as últimas duas gerações: a mudança do velhinho confinado em sua casa para aquele hoje visto em shoppings e restaurantes, passeando na rua ou embarcando para um voo internacional em visita aos filhos.

 

Velhinho, quem? Aquele cara curvado e de bengala, junto com a velhinha com dor nas costas, inventados depois da instituição da idade inicial de 60 anos para o idoso pelo presidente Itamar Franco no apagar das luzes de seu governo? Aquele idoso, que de fato era um velhinho depois de uma vida inteira de trabalho de trabalho braçal na sua roça, eventualmente numa fábrica? Aquele velhinho que raras vezes chegou a conhecer um bisneto? Aquele velhinho que, aos 60 anos, era praticamente cego decorrente da mácula em suas retinas? Aquele velhinho que cada vez menos entendia dos avanços técnicos? Enfim, aquele velhinho sentado numa cadeira de balanço esperando seguir a velhinha que já se foi?

 

Não. Para o ‘velhinho’ mudou muito ao longo das últimas duas gerações! Inclusive o próprio. Hoje, velhinho vive a vida. Velhinho trabalha. Até por lei, porque o direito à aposentadoria, em princípio, exige uma idade mínima de 65 anos. E velhinho, segundo padrões de Itamar, mesmo com receituários extensos, ou por causa deles, hoje tem meta de chegar, digamos, a 90 aos, talvez até mais. Um ganho de idade de 50 por cento em pouco mais de meio século. Para desagrado dos institutos de previdência e dos seguros de saúde.

 

E o tal velhinho está aí, firme e forte. Viajando – nunca vi tanto velhinho em aeroporto ou em centros turísticos, mesmo tomando sua injeção de insulina minutos antes de cada refeição. As filas preferenciais de embarque aumentam cada vez mais, igual aos velhinhos que circulam em cadeiras de roda pelos aeroportos.

 

Quer a resposta? O corpo, vá lá, mas a cabeça do velhinho mudou. O velhinho saiu da cadeira de balanço e, mesmo consciente de eventuais riscos, está disposto a aceitar desafios. Se, por acaso, morrer a caminho de Amsterdam ou Honolulu, os navios de cruzeiro tem câmaras frigoríficas para defuntos – ninguém é eterno, nem sabe da hora. Mesmo que o corpo possa fraquejar, a mente, desde não dominada por receios e suspeições, vai longe.

 

Nosso capital é a nossa experiência, e chegou na hora de convertê-la em oportunidade e proveito. A geração ‘Z’, nossos netos, está pouco interessada em conhecê-la, mas para nós, ela é essencial, mesmo tida como superada. Ela conduz nossas vidas, não aquelas dos nossos filhos.

 

Pouco, ou nada, entendemos de bits e bytes. O próximo click pode ser desastroso. Na dúvida, ou na ignorância dos ‘como’, os netos resolvem – mas não explicam. E a dúvida e a desatualização continuam.

 

 

 

Velhinho sempre era, e continua sendo, teimoso. Teimoso em lembrar do passado, insistindo em querer passa-lo, sem muito sucesso, aos mais jovens. O futuro? Até quando? O presente, esse sim, esse vamos aproveitar. Autonomia, mesmo de bengala, é a palavra-chave.           

 

Vemos, então, uma nova realidade: os velhinhos se tornaram parte ativa da sociedade. Deixaram de ser um apêndice, desimportante como qualquer apêndice, de um corpo social. A população brasileira com idade acima de 60 anos representa hoje cerca de 16% da população total. Mesmo com mais de 65 anos, ainda são 11%. Politicamente falando, é um segmento populacional que é capaz de decidir qualquer resultado eleitoral. Basta haver uma causa comum. E não faltam causas para uma parte da população historicamente vista como fardo, como ônus.

 

Na realidade, o marco de 60 anos para definir o idoso, cedo ou tarde, precisará ser repensado. Afinal, um ‘velhinho’ de 60 anos – que eventualmente faz questão de não ser visto como tal – tem muito pouca coisa em comum com aquele de 80 anos, ou mais. Alguém parece ter notado isso, e, ao lado do idoso de 60 a 80 anos com atendimento preferencial, criou a figura do idoso 80+ com tratamento prioritário. A razão é simples: velhinho de mais de 80 anos também compra, também consome e também viaja.

 

Nós, os velhinhos XXI, nos livramos do estigma da inutilidade, da dependência por mero status de idoso, da sensação de peso social. Talvez não sejamos mais investidores em imóveis ou outros bens duráveis, mas somos 16% de todos os consumidores e somos contribuintes dos mais diversos impostos. Somos parte ativa da sociedade.

 

Levou muito tempo, mas hoje nós, os velhinhos, acordamos para essa nova realidade e vivemos ativamente – os sofás puídos e as cadeiras de balanço sumiram.   

 

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

O Upgrade Silencioso da Índia

 

O Upgrade Silencioso da Índia

(“India's Silent Upgrade¨ – This text has been written in such a way as to facilitate translations by electronic means)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

A comparação comum da Índia com um elefante, um animal pesado, forte e lento, mas também cooperativo quando domesticado, já não cabe mais. Hoje, é entendimento, ainda não tão comum, que esse país está se tornando o mais recente tigre asiático.  

 

A Índia sempre foi um país misterioso. Seja em suas mais de 500 religiões, seja em suas estruturas sociais, e, recentemente, em seu avanço tecnológico e econômico. 

 

Poucos países são tão marcados pelo seu passado nos últimos dois séculos como a Índia. Primeiro um longo período de colonização, no entanto, sem colonos. Depois dessa colonização de exploração (exportação de matérias-primas, importação de produtos acabados), inicialmente por uma única empresa britânica, depois pelo governo do mesmo país, a independência pacífica, mas, também a secessão do Paquistão. Em seguida, a adoção do modelo econômico soviético, sem considerar os passados econômicos distintos dos dois países. Enfim, com a desvinculação dessa doutrina econômica, a busca de uma economia de mercado.

 

Mesmo assim, em geral, muito pouco se conhece da Índia além de sua população numerosa (1,4 bilhão de habitantes), sua estrutura social de castas e o Taj Mahal, ou, então, a entrada da Índia no clube nuclear em 1974, ou a recente alunagem do primeiro veículo espacial no lado oculto da lua.

 

Entretanto, algo começou a mudar no campo social a partir da década de 1980 com a chamada “discriminação positiva¨ cujas medidas previam que uma série de vagas universitárias e cargos no serviço público estivessem disponíveis a membros da população original conhecidos como Adivasi (grupos tribais), bem como a grupos de castas inferiores, como os "Intocáveis" (Dalits), "reservados" de acordo com sua proporção na população e sujeitos a suas qualificações e seu perfil profissional. 

 

Porém, nesse ponto há dois aspectos com consequências de longo prazo sobre o perfil socioeconômico da Índia. Primeiro, como tantos outros países com desenvolvimento tardio, o país perdeu o bônus demográfico, e deve desde já preocupar-se com seu sistema previdenciário. Em segundo lugar, o desenvolvimento econômico da Índia é prejudicado pelo baixo nível de educação, com uma população muito grande sem educação primária e secundária; mesmo o ensino superior, por exemplo, não está acompanhando um grau de desenvolvimento mais elevado, como por exemplo, o do país vizinho, da China. 

 

Por outro lado, várias gerações de estudantes de nível superior importaram com seus estudos no Estados Unidos, Europa, Austrália e outros países asiáticos conhecimentos e tecnologias de ponta nos mais diversos campos.

 

O crescimento econômico, sempre na presença de avanços tecnológicos significativos, acelerou para uma média de 6,4% entre 1995 e 2005. Na década entre 2005 e 2015, a taxa de crescimento foi ainda maior. Em 2017, a Índia foi a quarta economia que mais cresceu no mundo, respondendo por 7,2%. No período de 1980 a 2022, o PIB aumento de US$ 186,3 bilhões, 9º lugar do mundo (Estados Unidos, US$ 2.857 trilhões; Brasil, US$ 237,4 bilhões) para US$ 2.668 trilhões, 5º lugar no mundo, (Estados Unidos, US$ 21,06 trilhões – aumento de ,74 vezes: Brasil, US$ 1,449 trilhão – aumento de 6,1 vezes). Com um crescimento relativamente pequeno (média de 1,2% ao ano na última década) resultou no mesmo período um aumento do PIB per capita de US$ 267,39 para US$ 2.301,42, um aumento de 8,6 vezes. 

 

A Índia não tem passado de país industrializado. Mesmo no presente, é uma área sem grande expressividade. Existe até a possibilidade da Índia simplesmente pular a faze de industrialização, onipresente em todos os países desenvolvidos. Nesse aspecto não se deve esquecer que o setor industrial, empregando cada vez menos mão de obra, tem pouco a pouco menos influência direta sobre o progresso social da economia. O que realmente impulsionou o crescimento econômico foi, e continua sendo a expansão do setor de serviços, substancialmente beneficiado pelo amplo domínio da língua inglesa por boa parte da população (por exemplo, já na década de 1990, grande parte de multinacionais tinham seus call centers na Índia). E esse crescimento está presente em praticamente todas as macroeconomias. 

 

Importante é observar que cerca de dois terços da população indiana vivem da agricultura. Existem aproximadamente 137 milhões de propriedades agrícolas na Índia, 60% possuem menos de um hectare. Apesar dessas estruturas agrárias, a Índia é o segundo maior produtor mundial de arroz, trigo e cana-de-açúcar, bem como o maior produtor mundial de frutas e leite. 

 

Esse fator conjuntural poderá ser importante, pelo menos em caráter transitório, quando o mundo se vê diante de consequências pouco previsíveis que o avanço da inteligência artificial terá sobre o setor de serviços. 

 

O Fundo Monetário Internacional (FMI) espera que a economia indiana continue a crescer mais de seis pontos percentuais do PIB nos próximos anos, tornando-se o crescimento mais forte do mundo. Os longos anos da "taxa hindu de crescimento econômico", como o estado insignificante da economia do subcontinente foi ridicularizado, acabaram. Usando bem seus potenciais indiscutíveis, o país de 1,4 bilhão de habitantes pode se tornar uma superpotência global. 

 

Tudo indica que ainda nesta década, a Índia deverá ocupar o 4º lugar entre as maiores potências econômicas do mundo.

 

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

Un-U e a Surpresa do Rio (12)

 

Un-U e a Surpresa do Rio (12)

(“Un-U and the Surprise of the River¨ – This text has been written in such a way as to facilitate translations by electronic means)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

A primavera faz o gelo desaparecer e deixa desabrochar rapidamente a natureza ao redor da aldeia. Durante o inverno, Un-U, seu amigo Na-Ga e o irmão desse, Ne-Ma, construíram uma nova embarcação. Eles tinham observado no encontro com os homens baixos, como passaram a ser referidos, que seus barcos de estrutura de galhadas e cobertas por peles tinham extremidades pontoadas e com isso deslizavam mais fáceis pela água, enquanto seus barcos de troncos escavados têm frente e fundo chato, exigindo mais força do remador e causando o som de água agitada, suficiente para afastar eventuais caças.

 

O trabalho valeu a pena. O homens logo sentem um considerável ganho no avanço da embarcação, mas também as manobras ficam mais fáceis. Como resultado imediato, as outras canoas ganham cunhas de madeira nas extremidades, coladas com resina de bétula.

 

Para não invadir, mesmo em paz, desnecessariamente o território do povo dos homens baixos, Un-U, Na-Ga e Ne-Ma decidem preparar uma viagem exploratória rio baixo, pensando em avançar por três ou quatro dias.

 

Com esse propósito colocam cedo de manhã do dia seguinte suas armas e alguns alimentos, como nozes, avelãs, raízes e carne seca na embarcação, mesmo com a intenção de caçar algum animal durante a viagem. Eles partem ainda antes do sol nascer. O rio está cheio o suficiente para que possam ficam sempre perto da margem para a possibilidade de avistarem alguma caça, já que é hora de beber água no rio. Mas apenas encontram um bisonte e um veado-gigante que seriam grandes demais para essa ocasião.

 

Assim seguem em sua viagem, de dia remando lentamente e sendo carregados pela correnteza, e de noite acampando em algum lugar junto ao rio. Ao passo que vão avançando, a floresta fica mais rala e dá espaço para uma vegetação mais baixa, ou então savanas como os três homens já conhecem. No terceiro dia conseguem caçar um glutão de tamanho médio, apropriado para garantir comida durante os próximos dias. Nesse mesmo dia notam uma brisa estranha subindo o rio à tarde, fresquinha e transportando um ar diferente daqueles que conhecem da floresta.

 

E então, ainda na manhã do quarto dia, a grande surpresa. Já há algum tempo, as margens do rio ficam cada vez mais baixas e, de repente, aumentam as ondas, as margens abrem-se cada vez mais e diante dos homens estende-se um grande, um enorme lago. Sempre seguindo a margem, a mesma começa a apresentar primeiro algumas manchas de areia quase branca, que, ao passo que avançam, começam formar uma larga faixa entre a vegetação e as ondas do lago. Un-U, Na-Ga e Ne-Ma, ao mesmo tempo em que apreciam essa paisagem nunca antes vista, percebem para seu espanto que não há margem no outro lado do lago. Isso faz Un-U se lembra que sua avó lhe contou uma vez, quando ele ainda era criança, que em algum lugar há um grande lago para dentro qual todos os rios desembocam e que no outro lado dele o mundo acaba. Ela contou também que, ao entrar nesse lago, nunca se deve ir além das ondas que quebram, pois, do contrário, restam dois destinos: ser comido pelo grande peixe ou ser arrastado pela correnteza até a borda onde o mundo termina e cair no nada. Portanto, Un-U, Na-Ga e Ne-Ma estão conseguindo ver o fim do mundo. Eles não se atrevem aventurar-se com sua canoa nas ondas mencionadas pela avó de Un-U, mas arriscam tomar banho naquela estranha água fria e salgada.

 

Depois de se conformar com a ideia da sua proximidade ao fim do mundo notam uma outra novidade. Eles conhecem pequenas praias do rio, mas nunca viram uma tão grande como essa onde estavam. Além disso, nunca tinham visto aquelas conchas, grande e pequenas, brancas, marrons e pretas, e em grande abundância. Os três homens enchem suas bolsas com as mais bonitas que encontraram. Mas também encontram alguns peixes mortos na areia, significando que o lago pode ser uma ótima fonte de alimento. O maior espanto, porém, foi Ne-Ma encontrar uma pedra amarela e brilhante do tamanho de uma unha – mas, foi uma só.

 

Mas, como resolvem acampar para a noite ali mesmo, na praia, outro espetáculo espera os homens. Lentamente o sol vai baixando em direção a fim do lago, ao fim do mundo. Ao passo que se aproxima dessa linha torna-se cada vez maior e sua cor quase branca vai amarelando, depois avermelhando. E, finalmente, o sol atinge a linha do fim do mundo e lentamente afunda no lago.

 

Depois de todas essas emoções, na manhã seguinte, Un-U, Na-Ga e Ne-Ma, colocam sua canoa no rio para iniciar a viagem de volta até a aldeia, que, sendo contra a correnteza, deverá durar cerca de seis dias.

 

Dotados da curiosidade natural existindo em todos os homens, certamente essa não será a última exploração ao desconhecido no futuro dos homens da aldeia de Un-U.

 

Este texto só poderá ser reproduzido de qualquer forma e por qualquer mídia com a citação explícita do autor.         

 

 

 

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

Un-U, o Inverno e o Nascimento do Filho (11)

 

Un-U, o Inverno e o Nascimento do Filho (11)

(“Un-U, Winter and the Birth of the Son” – This text has been written in such a way as to facilitate translations by electronic means)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

A primeira neve está vindo cedo este ano. O grupo de Un-U já vem se preparando desde o fim de inverno para esse período. As últimas caças já resultaram em pelos mais espessos dos animais, especialmente aquele do mamute. Não apenas as mulheres, mas também os homens e as crianças mais velhas costuraram roupas com agulhas feitas de espinhos de peixe e tendões ou fios de fibras vegetais. Roupas íntimas são feitas de couro de pato, com as penas para dentro. Para calças e casacos preferem peles de rena ao lado de meias de pele de veado e as botas são forradas com pelo de coelho ou lebre. É importante que as roupas sejam soltas, pois, se apertadas, estrangulam o fluxo sanguíneo, o que pode causar frio.

 

As tendas são examinadas quanto a rasgos ou costuras abertas. E há peles suficientes para, em caso de necessidade, cobrir as tendas com uma segunda camada. Além disso, mantendo alguns fogos externos acesos e cobertos com peles por causa da neve para impedir a aproximação de animas famintos, fogos são acesos dentro da tenda. Eles precisam ser mantidos baixos para evitar a formação excessiva de fumaça.

 

Mas a neve tem também suas vantagens, pois as pegadas dos animais ficam mais fáceis de encontrar, bem como o tempo de sua existência. Isso facilita a colocação certa de armadilhas de laçada para a captura de animais, principalmente pequenos como lebres. Basta colocá-las e depois de algum tempo verificar o resultado. Nessa época, animais encontrados normalmente em regiões mais frias migram para áreas menos frias, e renas e alces, em geral bastante mansos, podem ser encontradas e caçadas com bastante frequência.

 

Ficar sentado numa tenda de pele de animal e comer nada além de papa de bolota assada e mamute ou alce defumado não é exatamente agradável, mas é melhor do que morrer de frio. Agora é o momento de manufaturar os mais diversos artefatos e ornamentos, até pequenas estátuas com algum sentido representativo, entalhando o marfim e os ossos do mamute e de outras caças. Como era uma fêmea de mamute, as presas são mais retas e mais compridas do que aqueles dos machos, elas se prestam a peças maiores sem muita curvatura.

 

Assim, fora as ocasiões de caçar e juntar lenha, a vida se restringe ao ambiente da tenda, resta dormir o máximo possível do tempo, reduzindo dessa maneira o gasto calórico.

 

Não é exatamente o melhor momento para um parto, mas chegou a hora para Ma-Na. É hora de chamar Ge-Mi, a parteira da aldeia. Além dela, mais duas vizinhas aparecem para dar sua assistência ao parto. A tenda fica pequena para tanta gente. O fogo é aumentado um pouco para elevar a temperatura um pouco e derreter neve para a obtenção de água quente. Todas as mulheres estão apreensivas, principalmente Ma-Na, pois esse é o primeiro parto na aldeia depois da tragédia de En-Na e Nu-Me. O trabalho de parto é longo e doloroso. Ainda antes do inverno, Un-U colheu e secou alguns ramalhetes de erva beladona, cujas folhas agora dá a Ma-Na para mastigar e aliviar as dores. Enfim, a criança nasce como é hábito, Ma-Na de cócoras. Para alegria de Un-U, é um menino forte e sadio. Depois de Ge-Mi lavá-lo na água morna, embrulha-o num pele branquinha, quente e macia pele de uma lebre da neve com os pelos para dentro. Na-I e Nu-E seguram a criança alternadamente enquanto coloca um colar de anéis de marfim no pescoço de Ma-Na. Un-U e Ma-Na concordam em dar o nome de Ga-Nu ao menino, que significa urso valente. Nas noites seguintes, Ma-Na dorme mais perto do fogo, cuja fumaça escapa mais facilmente depois de Un-U abrir um pouco mais a abertura no topo da tenda.

 

Pouco tempo depois do nascimento de Ga-Nu, sua irmã, Nu-E, descobre que En-Me, antes de morrer, deixou-lhe um fruto de ambos, pois ela está grávida. Dessa maneira, assim que a primavera chegar Un-U terá de levantar uma tenda maior para poder abrigar toda sua família. Até então, a proximidade ajuda esquentar.

 

Este texto só poderá ser reproduzido de qualquer forma e por qualquer mídia com a citação explícita do autor.     

 

 

 

 

domingo, 18 de fevereiro de 2024

Un-U e a Caça de Mamutes (10)

 

Un-U e a Caça de Mamutes (10)

(“Un-U and the Mammoth Hunt – This text has been written in such a way as to facilitate translations by electronic means)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Estamos no outono e o inverno está se aproximando. Está na hora de formar as reservas de alimentos para poder passar o inverno. Em-Do reúne todo o grupo para falar sobre uma próxima caçada a mamutes. Nessa época, esses animais migram em manadas para o sul, sempre usando as mesmas rotas, deixando nítidas marcas de sua passagem na natureza. Quando o clã chegou à sua nova aldeia era primavera, e na sua marcha cruzaram por diversas dessas rotas, uma delas não muito distante da aldeia.

 

O plano é simples: eles seguem uma manada até localizar um animal mais afastado da manada, que então será cercado e atacado com lanças dos dois lados. Dessa vez, as mulheres e as crianças maiores acompanharão os homens à distância para depois ajudar no carnear o mamute e transportar carnes, ossos, tendões, dentes e o couro para a aldeia. Apenas os velhos e as mães com crianças pequenas permanecem na aldeia.

 

As manadas costumam movimentar-se com relativa lentidão, sempre parando onde encontram alimento farto. Dessa maneira, alguns homens vão até a suposta rota de migração, seguindo-a para o norte até avistar uma manada para então retornar e avisar todo o grupo. Enquanto isso, os homens dedicam-se a suas armas, deixando-as o mais perfeito possível. Un-U embora leve uma lança, dará preferência a seu arco e flechas. Ele preparou flechas com pontas de pedra lascada, apenas um pouco mais largas que a grossura da varra de madeira para conseguir uma maior penetração no animal. Ele percebeu que a flecha atirada com bastante força, chega à presa com maior impacto que a lança.

 

Depois de poucos dias, os batedores retornam com a notícia da aproximação de uma manada. Agora, tudo vai muito rápido. Os homens, chegando à rota, também seguem para o norte até encontrar a manada que deixam passar, para então segui-la até o momento apropriado para abater um animal.

 

Perto do anoitecer notam um animal afastar-se um pouco do grupo em busca de um arbusto. Quando está ocupado em se alimentar, o grupo o carca e, a um sinal, atacam ao mesmo tempo. O mamute, ferido por várias lanças e duas flechas de Un-U, solta um alto bramido e, sem reagir, corre em direção à manada. Nisso, um macho percebeu os homens e corre em sua direção em defesa do outro animal. Os homens fogem em várias direções para dificultar ao mamute furioso escolher sua vítima.

 

Nessa fuga, Ne-Me, o genro de Ne-Me tropeça e cai. Por alguma razão e custa para levantar-se e o mamute consegue atingí-lo com um de seus dentes, joga-o para cima onde Ne-Me gira algumas vezes no ar para então cair no meio de alguns arbustos. Todo o grupo tenta distrair o mamute, assim afastando-o de Ne-Me. Os que ainda têm uma lança, atiram-na contra o mamute, outros jogam pedras e Un-U consegue atingi-lo com duas flechas. O mamute bate em retirada.

 

O mamute, alvo de sua caçada, anda mais um pouco, visivelmente enfraquecido, para então cair morto. Ao mesmo tempo, os homens correm em socorro a Ne-Me e encontram-no gravemente ferido e fortemente sangrando de uma grande perfuração ao lado do corpo, logo abaixo das costelas. Ele morre antes de sua mulhar, Nu-E, conseguir chegar. As mulheres e crianças viram toda a caçada e o acidente com Ne-Me de distância.

 

Enquanto Nu-E e dois homens levam o corpo de Ne-Me para a aldeia, as lanças e flechas são retiradas do corpo do mamute e todos começam a tirar couro bastante peludo e carnear a caça. Ao passo que as peças de carne são retiradas, as mulheres e crianças as levam para a aldeia. Tudo tem de ser muito rápido antes das hienas aparecerem. Carne, couro, marfim, tendões, gorduras, tripas e ossos, tudo é levado para a aldeia e aproveitado. No meio dela, cercada pelas fogueiras das outras tendas, ergue-se uma tenda destinada receber a carne, tendões e tripas depois de secada sobre o fogo e que então é pendurada em cavaletes. Os ossos secarão ao sol.

 

No dia seguinte, na presença de do clã, se faz o enterro de Ne-Me. Uma cova é escavada próxima à aldeia onde Un-U e Nu-E o colocam em posição fetal, juntamente com sua lança, seus ornamentos, uma tocha e alguns alimentos para sua viagem ao outro mundo e cobrindo tudo com uma pele. A cova é fechada com terra e uma grande pedra das proximidade é rolada por vários homens até em cima da tumba.

 

Depois de alguns dias, Nu-E desarma sua tenda e volta para a dos pais. Durante muito tempo ela é vista frequentemente sentada calmamente ao lado daquela pedra.

 

 

Este texto só poderá ser reproduzido de qualquer forma e por qualquer mídia com a citação explícita do autor.     

 

 

 

 

    

 

 

 

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

Un-U, uma Decisão Vital e o Urso-das-Cavernas (9)

Un-U, uma Decisão Vital e o Urso-das-Cavernas (9)

(“Un-U, a Vital Decision and the Cave Bear – This text has been written in such a way as to facilitate translations by electronic means)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

É madrugada e En-Na, mulher de Nu-Me a cunhada de Un-U, entra em trabalho de parto. Nu-Me chama a velha Ge-Mi, que assiste a todos os partos da aldeia. O trabalho de parto é longo e sofrido. Finalmente, já com o sol alto conclui-se o parto, de cócoras, como de hábito. No mesmo instante aparece uma expressão de horror no rosto de Ge-Mi. Ela vê diante de si um casal de gêmeos siameses na forma de um corpo com duas cabeças. A lei na aldeia, já há muitas gerações, é tão clara, quanto cruel: crianças recém nascidos com anomalias que impedem sua autonomia no futuro não devem permanecer vivas – e Ge-Mi cumpre sua obrigação. Quando En-Na vê o que pariu, ela dá um grito e cai em pranto. Nu-Me entra na tenda, vê a criança, coloca as mãos na cabeça em desespero, sai da tenda e senta no chão onde permanece como petrificado.

 

A notícia espalha-se pela aldeia com a velocidade de um raio. Em-Do, o mais velho da aldeia vai pessoalmente à tenda de En-Na e Nu-Me, onde encontra o casal em estado de pânico. A criança está deitada num estrado ao lado de En-Na. Em-Do, que nunca viu algo igual arregala os olhos e se afasta.

 

Sem muita demora, Em-Do chama todos os homens para reunirem-se sob o carvalho sagrado. O choque é geral e é grande. A incerteza do porquê dessa fatalidade gera medo em uns, pavor em outros. Durante o palavrório nervoso, a suspeita de um mau presságio acaba por tomar conta de todos. Em-Do fica calado por um longo tempo. Finalmente, se pronuncia. E é curto e determinado, decretando que um mau espirito possui En-Na e Nu-Me e, dessa maneira, os dois não poderão mais permanecer na aldeia. Ainda determina que a tenda deles seja cercada de fogueiras até a manhã seguinte, quando deverão deixar a aldeia para sempre. E deverão ser acompanhados por dois homens até uma distância segura, mantendo assim os maus espíritos longe da aldeia. Un-U e seu genro Na-Gue se oferecem para acompanhá-los. Durante toda a noite um grupo de homens permanece sentado em vigília ao redor da tenda.

 

No primeiro clarear do dia seguinte, En-Na e Nu-Me desmontam sua tenda e reúnem todos os seus pertences e a comida que têm em casa. Toda a aldeia observa de longe os acontecimentos. Un-U e Na-Gue chegam para sua missão de acompanhar o casal, devendo sempre manter um certa distância. Há bastante tempo, Un-U descobriu emuma pequena caverna afastada o bastante para servir de abrigo para eles que aceitam a sugestão de ir lá. Assim que o grupo deixa a aldeia, uma grande fogueira é acesa no local da tenda daquela família para afastar eventuais maus espíritos ainda remanescentes.

 

A marcha é árdua na floresta fechada. Ao passar por uma grota encontram uma cabra morta, mas o corpo ainda quente. A julgar pelas feridas que não são de mordidas, o animal parece ter despencado do penhasco. Eles levam-no junto, garantindo alimento e uma pele para En-Na e Nu-Me. O sol está quase se pondo quando o grupo chega à caverna.

 

Como a noite está próxima, a primeira coisa a fazer é ascender um fogo perto da entrada da caverna. Em seguida, os homens ascendem tochas para verificar o interior da caverna. Nu-Me vai em frente, seguido a pouca distância por Un-U e Na-Gue. Ao passo que avançam, o fogo e a fumaça faz com que bandos de morcegos abandonem seu abrigo. A caverna é bastante estreita, mas funda. De repente escutam um rugir vindo do fundo da caverna. Os três homens sabem que terão de recuar ou enfrentar um urso-das-cavernas. Esses animais são relativamente pequenos, são herbívoros e, em princípio, não atacam o homem. Quando, porém, se veem acuados podem se tornar bastante ferozes.

 

Deixar o animal na caverna significa não poder usá-la.  Quando, portanto, os homens se aproximam mais, o urso, rugindo forte, levanta-se sobre a pernas traseiras para, com as patas dianteiras, jogar-se sobre o primeiro agressor. Nesse instante, três lanças atingem o animal no peito e ao cair para a frente duas delas quebram. Ao mesmo tempo, uma das patas atinge a cabeça e o ombro de Nu-Me, que cai ao chão. O urso tenta ainda avançar, mas logo tomba morto sobre Nu-Me. Quando esse sai debaixo do urso, cheio de sangue, percebem que seus ferimentos são apenas superficiais, e os três puxam o urso até a entrada da caverna.

 

O verão já passou e a carne não mais poderá ser secada no sol para ser conservada; resta pendura-la a certa altura sobre o fogo para o mesmo resultado. Como o urso e a cabra são muita carne para En-Na e Ne-Me, esse manda que Un-U e Na-Gue levem a cabra para a aldeia.

 

Quando os dois homens retornam à aldeia e assim sua população está completa, Em-Do celebra um ritual de purificação sob o carvalho sagrado, sangrando dois carneiros silvestres, dando seu sangue a todas as pessoas, e queimando os animais juntamente com o corpo da criança.

 

Muitas luas depois, já tinha passado o inverno, Un-U e seu amigo Na-Ga passam pela caverna durante uma caçada e constatam que a mesma está abandonada. Restam apenas vestígios do local do fogo.

 

Este texto só poderá ser reproduzido de qualquer forma e por qualquer mídia com a citação explícita do autor.


segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

Un-U, o Encontro (8)

Un-U, o Encontro (8)

(“Un-U, the Encounter” – This text has been written in such a way as to facilitate translations by electronic means)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Amanhã será lua cheia, dia de tentar novo contato com os homens da ilha. Assim, no início da tarde dessa véspera de lua cheia, partem rio acima três canoa, cada uma com três homens, e uma quarta com quatro pessoa, entreas quais Em-Do. Un-U e Na-Ga estão em uma das canoas. Eles sobem pela margem do rio, onde a correnteza é mais fraca. Com o sol já bastante baixo chegam à margem em frente à ilha, desembarcam e retiram as embarcações da água para não poderem ser vistas da ilha.

 

O grupo acampa no mesmo lugar onde Un-U e Na-Ga haviam ficado na vez anterior. Enquanto alguns homens vão à procura de frutas silvestres, nozes e raízes comestíveis, outros aproveitam o baixar do sol para pescar no rio. O resultado serve para alimentar a todos. Como o grupo é grande, um segundo fogo é aceso e todos se acomodam entre as duas fogueiras.

 

Na manhã seguinte, escondidos na vegetação baixa, ficam à espreita da vinda dos homens da ilha. Quando o sol já começa a baixar, aparecem, saindo de uma curva do rio, três embarcações ocupadas por vários homens. Ao chegar mais perto, Un-U reconheceu o homem com a pele de urso com cabeça. Assim que eles puxaram as canoas para a terra, dirigem-se até a árvore, outra vez carregando um veado, aparentemente vivo. Repete-se o ritual que Un-U e Na-Ga já tinham presenciado, e agora é visto por todo o grupo. Un-U percebe que todos os homens são de baixa estatura, mas bastante musculosos, menos um jovem com altura e constituição física julgada como normal para Un-U.

 

Terminado o ritual, e os homens da ilha começando a se ocupar com atividades diversas, Un-U, Na-Ga e Em-Do aproximam-se da margem do rio, dão um grito alto e abrem os braços como da vez passada. O homem da pele de urso vira-se para eles e, vendo os três homens de braços abertos, faz o mesmo gesto, sendo seguido por todo seu grupo. Do lado de cá, os homens fazem o mesmo. Ainda como sinal de paz, Un-U pega sua lança e enfia-a com a ponta na terra. O homem da pele de urso pega a lança de um de seus homens e repete o ato.

 

Chega a hora da aproximação. O grupo de Un-U coloca os barcos na água e atravessa o rio até a ilha, onde desembarca. Depois de mais uma vez abrir rapidamente os braços, o homem da pele de urso, falando uma língua incompreensível, aponta para si, dizendo a palavra Nahel, aparentemente, seu nome. Em-Do, Un-U e Na-Ga respondem da mesma maneira. Aquele jovem mais alto aproxima-se de Nahel e diz alguma coisa. Nahel responde algo e o jovem, falando com alguma dificuldade a língua de Un-U apresenta-se como Mihil. Diante da surpresa de Un-U e de todo o grupo, ele explica que, quando era menino, foi colher mirtilo na floresta e se perdeu, não mais achando o caminho para sua aldeia. Vagou pela floresta por vários dias e noites, alimentando-se de frutas e lambendo o orvalho das folhas, até ser descoberto por alguns caçadores da aldeia de Nahel. Eles levaram-no à sua aldeia, ele aprendeu sua língua e acabou integrado ao grupo.        

 

Está criada uma ponte. Devagar, os homens dos dois grupos começam a se aproximar, tentando comunicar-se por gestos. Todo o interesse concentra-se primeiramente nas respectivas armas. Um dos homens de Un-U trouxe em sua bolsa algumas pedras de silex e mostra a arte da pedra lascada ao grupo com a manufatura de uma ponta de lança. Outro foco de curiosidade são as respectivas construções de barco, uma de madeira escava e outra de uma estrutura de galhadas revestida de pelos, bem mais leve, mas também mais frágil. Alguns trocam armas, utensílios e enfeites pessoais, mas nenhum dos homens de Nahel tirou sua corrente de dentes, aparentemente troféus, do pescoço.    

 

Nahel, com a ajuda de Mihil, contou a Em-Do e Un-U sobre sua origem em um lugar a três luas de caminhada em direção ao sol nascente por motivo de uma doença que quase dizimou outros grupos de sua região. Pararam sua marcha nesse rio ao perceber a presença de grupos distintos da sua origem, assim procurando evitar qualquer disputa.

 

Ao anoitecer esquartejam o veado sacrificado, assando-o sobe o fogo. Antes de começar a consumir a carne, Nahel despeja um pouco de um líquido vermelho, trazido numa bolsa, aparentemente uma bexiga de javali. Indagado por Em-Do, ele explica que é o suco de uva fermentada e somente ele do grupo pode consumi-lo como líquido. Enquanto os homens de Nahel começam a arrancar, ou cortar com facas de chifre, a carne ainda quase crua, Em-Do e seus homens preferem a carne mais assada. Houve até uma pequena disputa pelo fígado do animal.

 

Já com a lua alta no céu, Em-Do reúne seu grupo para a volta ao acampamento. Nahel e seu povo acompanham-nos até a margem da ilha. Em-Do abre seus braços e é respondido da mesma forma por Nahel, em seguida, todos os homens acompanham os dois em seu gesto.

 

            Na manhã seguinte, um homem de Nahel atravessa o rio de barco e entrega a bolsa da bebida vermelha a Em-Do, que tira o colar de marfim do pescoço, entregando-a em retribuição. Com respeito mútuo, está selada uma convivência pacífica.  


 Este texto só poderá ser reproduzido de qualquer forma e por qualquer mídia com a citação explícita do autor.     

       

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

Un-U e a Nova Arma (7)

 

Un-U e a Nova Arma (7)

(“Un-U and the New Weapon” – This text has been written in such a way as to facilitate translations by electronic means)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

(Também acessível no blog: kl-rehfeldt.blogspot.com)

 

Depois de ter esticado uma pele de veado no chão, presa por meio de pinos pontudos de madeiras, Ma-Na e Na-I estão ocupadas em limpar com um raspador de pedra lascada o lado de dentro da pele dos restos de carne e gordura. Em seguida amaciam a pele, esfregando com uma pedra lisa e achatada uma pasta de sebo misturado com água, e deixam a pele secar num lugar fresco para a unção poder agir. Sendo uma pele bastante fina de um veado, amanhã repetirão esse processo apenas mais uma vez. Por último Ma-Na e Na-I defumarão a pele sobre um fogo feito num buraco no chão, tornando-a impermeável.

 

Enquanto isso, Un-U termina a confecção de seu arco. Depois de ter rachado ao meio um galho de cerca de dois dedos de espessura e um comprimento de aproximadamente de duas ‘els’, o comprimento entre cotovelo e ponta dos dedos, afina gradativamente cada metade do centro para as pontas, arredondado a parte onde a mão segurará o arco. Agora falta fazer os recortes nas pontas do arco onde será preso o tendão. Mas, não dispondo de um tendão animal suficientemente comprido, Un-U recorre a um material vegetal, a ráfia. Com espessura de aproximadamente meio dedo minguinho, ele a torce fortemente com o resultado de ficar muito resistente e mais fina.

 

Faltam as flechas. Galhos de não mais de um dedo minguinho de espessura, quanto mais retos, melhor, são endireitados perfeitamente sobre o fogo. O mais difícil é a preparação de ponteiras de galhada de veado com a faca de pedra lascada. Essas ponteiras são inseridas em fendas nas pontas das flechas e coladas com resina de bétula. Na outra extremidade, depois de cavar um entalho para a corda, Un-U amarra com ráfia duas penas de ave, rachadas ao meio. A nova arma está pronta.

 

Un-U escolhe uma pele velha, já com alguns rasgos, amarra-a verticalmente ente duas árvores e, com extrato de raiz de rúbia – também usado para ornar roupas –, marca um ponto vermelho no centro. As primeiras flechadas são disparas de uma distância de dez passos. Assim que os acertos melhoram, a distância é aumentada gradativamente.

 

Depois de alguns dias de prática intensa, os resultados de acerto começam a tornar-se bastante promissores. No final, Un-U consegue alcançar distâncias de mais de cem passos. Enquanto a precisão de acerto com a lança termina em cerca de trinta passos, ele consegue uma boa margem de acerto com distâncias até cinquenta passos. Mas ele espera ainda aumentar essa marca.

 

Achando que já vale a pena, junto com seu genro Na-Gue, Un-U parte para o primeiro uso na vida real. Antes de partir, porém, esfregam o corpo com folhas de eucalipto para camuflar o cheiro humano. Não dispensando suas lanças, os dois homens vão à procura de caça, querendo dar preferência ao uso do arco e das flechas. Un-U opta por procurar por javalis, em vez de veados mais rápidos, para eventualmente poder usar a lança, em caso da flecha não acertar ou, mesmo atingido, não matar o animal, e esse tentar fugir,. Ele conhece um lugar que eles visitam regularmente, pois há uma grande castanheira, soltando uma abundância de frutos na época certa, que é agora.

 

No caminho, ao passar ao lado de uma pequena clareira, avistam uma lebre. Un-U e Na-Gue aproximam-se cautelosamente abaixados na moita até esta acabar a cerca de quarenta passos do animal. Un-U pega seu arco e uma flecha da aljava, aponta cuidadosamente e atira. A flecha, porém, passa pertinho por cima do coelho que, certamente assustado com o zumbido das penas da flecha e o bater da mesma no chão, foge em saltos largos, não permitindo uma segunda tentativa.

 

Chegando perto do seu destino, já dá para ouvir um e outro grunhido a pouca distância. Embora camuflados com cheiro de eucalipto, o vento vem da direção dos javalis, o que permite que Un-U e Na-Gue se aproximem até uma distância segura para a flechada. De repente se veem diante de uma vara animais. Com gestos escolhem um javali um pouco afastado do resto do grupo. Enquanto Na-Gue fica pronto para atirar sua lança em caso da flecha de Un-U não acertar, esse escolhe uma flecha bem fina e que penetre melhor no couro do javali, coloca-a no arco, aponta e atira. Enquanto a flecha ainda está no ar, Un-U já coloca uma segunda no arco e alveja o javali. Mas, a primeira flecha acerta com precisão. Com um grunhido alto, o javali anda ainda alguns passos e cai morto. Com o grunhido, o resto da vara foge, seguindo um enorme macho, que Un-U e Na-Gue já estão preparados para ter de enfrentar, mas que, não vendo a origem do perigo, prefere fugir.

 

Quando toda a vara havia se afastado, os dois homens vão até a presa e Un-U retira a flecha do javali. É um animal bastante gordo. Eles juntam e amarram as patas dianteira, depois as traseiras. Na-Gue procura um galho suficientemente grosso, que então enfia entre as patas. Cada um dos dois pega uma extremidade do galho, colocando-a sobre o ombro e os dois seguem em direção à sua aldeia, não sem descansar por algumas vezes.

 

A nova arma aprovou.

 

Este texto só poderá ser reproduzido de qualquer forma e por qualquer mídia com a citação explícita do autor.