Nós, os Velhinhos
(¨We, the Old” – This text has been written in such a way as to facilitate translations
by electronic means)
Klaus H. G. Rehfeldt
Uma das mudanças mais revolucionárias, mas muito
pouco notada, ocorreu durante as últimas duas gerações: a mudança do velhinho
confinado em sua casa para aquele hoje visto em shoppings e restaurantes, passeando
na rua ou embarcando para um voo internacional em visita aos filhos.
Velhinho, quem? Aquele cara
curvado e de bengala, junto com a velhinha com dor nas costas, inventados depois
da instituição da idade inicial de 60 anos para o idoso pelo presidente Itamar
Franco no apagar das luzes de seu governo? Aquele idoso, que de fato era um velhinho
depois de uma vida inteira de trabalho de trabalho braçal na sua roça,
eventualmente numa fábrica? Aquele velhinho que raras vezes chegou a conhecer
um bisneto? Aquele velhinho que, aos 60 anos, era praticamente cego decorrente
da mácula em suas retinas? Aquele velhinho que cada vez menos entendia dos
avanços técnicos? Enfim, aquele velhinho sentado numa cadeira de balanço
esperando seguir a velhinha que já se foi?
Não. Para o ‘velhinho’ mudou
muito ao longo das últimas duas gerações! Inclusive o próprio. Hoje, velhinho
vive a vida. Velhinho trabalha. Até por lei, porque o direito à aposentadoria,
em princípio, exige uma idade mínima de 65 anos. E velhinho, segundo padrões de
Itamar, mesmo com receituários extensos, ou por causa deles, hoje tem meta de
chegar, digamos, a 90 aos, talvez até mais. Um ganho de idade de 50 por cento em
pouco mais de meio século. Para desagrado dos institutos de previdência e dos
seguros de saúde.
E o tal velhinho está aí, firme e
forte. Viajando – nunca vi tanto velhinho em aeroporto ou em centros turísticos,
mesmo tomando sua injeção de insulina minutos antes de cada refeição. As filas
preferenciais de embarque aumentam cada vez mais, igual aos velhinhos que
circulam em cadeiras de roda pelos aeroportos.
Quer a resposta? O corpo, vá lá, mas
a cabeça do velhinho mudou. O velhinho saiu da cadeira de balanço e, mesmo
consciente de eventuais riscos, está disposto a aceitar desafios. Se, por
acaso, morrer a caminho de Amsterdam ou Honolulu, os navios de cruzeiro tem
câmaras frigoríficas para defuntos – ninguém é eterno, nem sabe da hora. Mesmo
que o corpo possa fraquejar, a mente, desde não dominada por receios e
suspeições, vai longe.
Nosso capital é a nossa experiência,
e chegou na hora de convertê-la em oportunidade e proveito. A geração ‘Z’,
nossos netos, está pouco interessada em conhecê-la, mas para nós, ela é
essencial, mesmo tida como superada. Ela conduz nossas vidas, não aquelas dos
nossos filhos.
Pouco, ou nada, entendemos de
bits e bytes. O próximo click pode ser desastroso. Na dúvida, ou na ignorância
dos ‘como’, os netos resolvem – mas não explicam. E a dúvida e a desatualização
continuam.
Velhinho sempre era, e continua
sendo, teimoso. Teimoso em lembrar do passado, insistindo em querer passa-lo,
sem muito sucesso, aos mais jovens. O futuro? Até quando? O presente, esse sim,
esse vamos aproveitar. Autonomia, mesmo de bengala, é a palavra-chave.
Vemos, então, uma nova realidade:
os velhinhos se tornaram parte ativa da sociedade. Deixaram de ser um apêndice,
desimportante como qualquer apêndice, de um corpo social. A população
brasileira com idade acima de 60 anos representa hoje cerca de 16% da população
total. Mesmo com mais de 65 anos, ainda são 11%. Politicamente falando, é um
segmento populacional que é capaz de decidir qualquer resultado eleitoral. Basta
haver uma causa comum. E não faltam causas para uma parte da população
historicamente vista como fardo, como ônus.
Na realidade, o marco de 60 anos
para definir o idoso, cedo ou tarde, precisará ser repensado. Afinal, um
‘velhinho’ de 60 anos – que eventualmente faz questão de não ser visto como tal
– tem muito pouca coisa em comum com aquele de 80 anos, ou mais. Alguém parece
ter notado isso, e, ao lado do idoso de 60 a 80 anos com atendimento
preferencial, criou a figura do idoso 80+ com tratamento prioritário. A razão é
simples: velhinho de mais de 80 anos também compra, também consome e também
viaja.
Nós, os velhinhos XXI, nos
livramos do estigma da inutilidade, da dependência por mero status de idoso, da
sensação de peso social. Talvez não sejamos mais investidores em imóveis ou
outros bens duráveis, mas somos 16% de todos os consumidores e somos
contribuintes dos mais diversos impostos. Somos parte ativa da sociedade.
Levou muito tempo, mas hoje nós, os
velhinhos, acordamos para essa nova realidade e vivemos ativamente – os sofás
puídos e as cadeiras de balanço sumiram.
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