Un-U, uma Decisão Vital e o Urso-das-Cavernas (9)
(“Un-U, a Vital Decision
and the Cave Bear – This text has been written in such a way as to facilitate
translations by electronic means)
Klaus H. G. Rehfeldt
É madrugada e En-Na,
mulher de Nu-Me a cunhada de Un-U, entra em trabalho de parto. Nu-Me chama a
velha Ge-Mi, que assiste a todos os partos da aldeia. O trabalho de parto é
longo e sofrido. Finalmente, já com o sol alto conclui-se o parto, de cócoras,
como de hábito. No mesmo instante aparece uma expressão de horror no rosto de
Ge-Mi. Ela vê diante de si um casal de gêmeos siameses na forma de um corpo com
duas cabeças. A lei na aldeia, já há muitas gerações, é tão clara, quanto
cruel: crianças recém nascidos com anomalias que impedem sua autonomia no
futuro não devem permanecer vivas – e Ge-Mi cumpre sua obrigação. Quando En-Na vê
o que pariu, ela dá um grito e cai em pranto. Nu-Me entra na tenda, vê a
criança, coloca as mãos na cabeça em desespero, sai da tenda e senta no chão
onde permanece como petrificado.
A
notícia espalha-se pela aldeia com a velocidade de um raio. Em-Do, o mais velho
da aldeia vai pessoalmente à tenda de En-Na e Nu-Me, onde encontra o casal em
estado de pânico. A criança está deitada num estrado ao lado de En-Na. Em-Do,
que nunca viu algo igual arregala os olhos e se afasta.
Sem
muita demora, Em-Do chama todos os homens para reunirem-se sob o carvalho
sagrado. O choque é geral e é grande. A incerteza do porquê dessa fatalidade gera
medo em uns, pavor em outros. Durante o palavrório nervoso, a suspeita de um
mau presságio acaba por tomar conta de todos. Em-Do fica calado por um longo
tempo. Finalmente, se pronuncia. E é curto e determinado, decretando que um mau
espirito possui En-Na e Nu-Me e, dessa maneira, os dois não poderão mais
permanecer na aldeia. Ainda determina que a tenda deles seja cercada de
fogueiras até a manhã seguinte, quando deverão deixar a aldeia para sempre. E
deverão ser acompanhados por dois homens até uma distância segura, mantendo
assim os maus espíritos longe da aldeia. Un-U e seu genro Na-Gue se oferecem
para acompanhá-los. Durante toda a noite um grupo de homens permanece sentado em
vigília ao redor da tenda.
No
primeiro clarear do dia seguinte, En-Na e Nu-Me desmontam sua tenda e reúnem
todos os seus pertences e a comida que têm em casa. Toda a aldeia observa de
longe os acontecimentos. Un-U e Na-Gue chegam para sua missão de acompanhar o
casal, devendo sempre manter um certa distância. Há bastante tempo, Un-U
descobriu emuma pequena caverna afastada o bastante para servir de abrigo para
eles que aceitam a sugestão de ir lá. Assim que o grupo deixa a aldeia, uma
grande fogueira é acesa no local da tenda daquela família para afastar
eventuais maus espíritos ainda remanescentes.
A
marcha é árdua na floresta fechada. Ao passar por uma grota encontram uma cabra
morta, mas o corpo ainda quente. A julgar pelas feridas que não são de
mordidas, o animal parece ter despencado do penhasco. Eles levam-no junto,
garantindo alimento e uma pele para En-Na e Nu-Me. O sol está quase se pondo
quando o grupo chega à caverna.
Como a
noite está próxima, a primeira coisa a fazer é ascender um fogo perto da
entrada da caverna. Em seguida, os homens ascendem tochas para verificar o
interior da caverna. Nu-Me vai em frente, seguido a pouca distância por Un-U e
Na-Gue. Ao passo que avançam, o fogo e a fumaça faz com que bandos de morcegos
abandonem seu abrigo. A caverna é bastante estreita, mas funda. De repente
escutam um rugir vindo do fundo da caverna. Os três homens sabem que terão de
recuar ou enfrentar um urso-das-cavernas. Esses animais são relativamente
pequenos, são herbívoros e, em princípio, não atacam o homem. Quando, porém, se
veem acuados podem se tornar bastante ferozes.
Deixar
o animal na caverna significa não poder usá-la.
Quando, portanto, os homens se aproximam mais, o urso, rugindo forte,
levanta-se sobre a pernas traseiras para, com as patas dianteiras, jogar-se
sobre o primeiro agressor. Nesse instante, três lanças atingem o animal no
peito e ao cair para a frente duas delas quebram. Ao mesmo tempo, uma das patas
atinge a cabeça e o ombro de Nu-Me, que cai ao chão. O urso tenta ainda
avançar, mas logo tomba morto sobre Nu-Me. Quando esse sai debaixo do urso,
cheio de sangue, percebem que seus ferimentos são apenas superficiais, e os
três puxam o urso até a entrada da caverna.
O verão
já passou e a carne não mais poderá ser secada no sol para ser conservada;
resta pendura-la a certa altura sobre o fogo para o mesmo resultado. Como o urso
e a cabra são muita carne para En-Na e Ne-Me, esse manda que Un-U e Na-Gue levem
a cabra para a aldeia.
Quando os
dois homens retornam à aldeia e assim sua população está completa, Em-Do
celebra um ritual de purificação sob o carvalho sagrado, sangrando dois
carneiros silvestres, dando seu sangue a todas as pessoas, e queimando os
animais juntamente com o corpo da criança.
Muitas
luas depois, já tinha passado o inverno, Un-U e seu amigo Na-Ga passam pela
caverna durante uma caçada e constatam que a mesma está abandonada. Restam
apenas vestígios do local do fogo.
Este texto só poderá ser reproduzido de qualquer forma e
por qualquer mídia com a citação explícita do autor.
Nenhum comentário:
Postar um comentário