quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

Un-U, uma Decisão Vital e o Urso-das-Cavernas (9)

Un-U, uma Decisão Vital e o Urso-das-Cavernas (9)

(“Un-U, a Vital Decision and the Cave Bear – This text has been written in such a way as to facilitate translations by electronic means)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

É madrugada e En-Na, mulher de Nu-Me a cunhada de Un-U, entra em trabalho de parto. Nu-Me chama a velha Ge-Mi, que assiste a todos os partos da aldeia. O trabalho de parto é longo e sofrido. Finalmente, já com o sol alto conclui-se o parto, de cócoras, como de hábito. No mesmo instante aparece uma expressão de horror no rosto de Ge-Mi. Ela vê diante de si um casal de gêmeos siameses na forma de um corpo com duas cabeças. A lei na aldeia, já há muitas gerações, é tão clara, quanto cruel: crianças recém nascidos com anomalias que impedem sua autonomia no futuro não devem permanecer vivas – e Ge-Mi cumpre sua obrigação. Quando En-Na vê o que pariu, ela dá um grito e cai em pranto. Nu-Me entra na tenda, vê a criança, coloca as mãos na cabeça em desespero, sai da tenda e senta no chão onde permanece como petrificado.

 

A notícia espalha-se pela aldeia com a velocidade de um raio. Em-Do, o mais velho da aldeia vai pessoalmente à tenda de En-Na e Nu-Me, onde encontra o casal em estado de pânico. A criança está deitada num estrado ao lado de En-Na. Em-Do, que nunca viu algo igual arregala os olhos e se afasta.

 

Sem muita demora, Em-Do chama todos os homens para reunirem-se sob o carvalho sagrado. O choque é geral e é grande. A incerteza do porquê dessa fatalidade gera medo em uns, pavor em outros. Durante o palavrório nervoso, a suspeita de um mau presságio acaba por tomar conta de todos. Em-Do fica calado por um longo tempo. Finalmente, se pronuncia. E é curto e determinado, decretando que um mau espirito possui En-Na e Nu-Me e, dessa maneira, os dois não poderão mais permanecer na aldeia. Ainda determina que a tenda deles seja cercada de fogueiras até a manhã seguinte, quando deverão deixar a aldeia para sempre. E deverão ser acompanhados por dois homens até uma distância segura, mantendo assim os maus espíritos longe da aldeia. Un-U e seu genro Na-Gue se oferecem para acompanhá-los. Durante toda a noite um grupo de homens permanece sentado em vigília ao redor da tenda.

 

No primeiro clarear do dia seguinte, En-Na e Nu-Me desmontam sua tenda e reúnem todos os seus pertences e a comida que têm em casa. Toda a aldeia observa de longe os acontecimentos. Un-U e Na-Gue chegam para sua missão de acompanhar o casal, devendo sempre manter um certa distância. Há bastante tempo, Un-U descobriu emuma pequena caverna afastada o bastante para servir de abrigo para eles que aceitam a sugestão de ir lá. Assim que o grupo deixa a aldeia, uma grande fogueira é acesa no local da tenda daquela família para afastar eventuais maus espíritos ainda remanescentes.

 

A marcha é árdua na floresta fechada. Ao passar por uma grota encontram uma cabra morta, mas o corpo ainda quente. A julgar pelas feridas que não são de mordidas, o animal parece ter despencado do penhasco. Eles levam-no junto, garantindo alimento e uma pele para En-Na e Nu-Me. O sol está quase se pondo quando o grupo chega à caverna.

 

Como a noite está próxima, a primeira coisa a fazer é ascender um fogo perto da entrada da caverna. Em seguida, os homens ascendem tochas para verificar o interior da caverna. Nu-Me vai em frente, seguido a pouca distância por Un-U e Na-Gue. Ao passo que avançam, o fogo e a fumaça faz com que bandos de morcegos abandonem seu abrigo. A caverna é bastante estreita, mas funda. De repente escutam um rugir vindo do fundo da caverna. Os três homens sabem que terão de recuar ou enfrentar um urso-das-cavernas. Esses animais são relativamente pequenos, são herbívoros e, em princípio, não atacam o homem. Quando, porém, se veem acuados podem se tornar bastante ferozes.

 

Deixar o animal na caverna significa não poder usá-la.  Quando, portanto, os homens se aproximam mais, o urso, rugindo forte, levanta-se sobre a pernas traseiras para, com as patas dianteiras, jogar-se sobre o primeiro agressor. Nesse instante, três lanças atingem o animal no peito e ao cair para a frente duas delas quebram. Ao mesmo tempo, uma das patas atinge a cabeça e o ombro de Nu-Me, que cai ao chão. O urso tenta ainda avançar, mas logo tomba morto sobre Nu-Me. Quando esse sai debaixo do urso, cheio de sangue, percebem que seus ferimentos são apenas superficiais, e os três puxam o urso até a entrada da caverna.

 

O verão já passou e a carne não mais poderá ser secada no sol para ser conservada; resta pendura-la a certa altura sobre o fogo para o mesmo resultado. Como o urso e a cabra são muita carne para En-Na e Ne-Me, esse manda que Un-U e Na-Gue levem a cabra para a aldeia.

 

Quando os dois homens retornam à aldeia e assim sua população está completa, Em-Do celebra um ritual de purificação sob o carvalho sagrado, sangrando dois carneiros silvestres, dando seu sangue a todas as pessoas, e queimando os animais juntamente com o corpo da criança.

 

Muitas luas depois, já tinha passado o inverno, Un-U e seu amigo Na-Ga passam pela caverna durante uma caçada e constatam que a mesma está abandonada. Restam apenas vestígios do local do fogo.

 

Este texto só poderá ser reproduzido de qualquer forma e por qualquer mídia com a citação explícita do autor.


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