Un-U e a Surpresa do Rio (12)
(“Un-U and the
Surprise of the River¨ – This text has been written in such a way as to
facilitate translations by electronic means)
Klaus H. G. Rehfeldt
A primavera faz o
gelo desaparecer e deixa desabrochar rapidamente a natureza ao redor da aldeia.
Durante o inverno, Un-U, seu amigo Na-Ga e o irmão desse, Ne-Ma, construíram
uma nova embarcação. Eles tinham observado no encontro com os homens baixos,
como passaram a ser referidos, que seus barcos de estrutura de galhadas e
cobertas por peles tinham extremidades pontoadas e com isso deslizavam mais
fáceis pela água, enquanto seus barcos de troncos escavados têm frente e fundo
chato, exigindo mais força do remador e causando o som de água agitada,
suficiente para afastar eventuais caças.
O
trabalho valeu a pena. O homens logo sentem um considerável ganho no avanço da
embarcação, mas também as manobras ficam mais fáceis. Como resultado imediato,
as outras canoas ganham cunhas de madeira nas extremidades, coladas com resina
de bétula.
Para
não invadir, mesmo em paz, desnecessariamente o território do povo dos homens
baixos, Un-U, Na-Ga e Ne-Ma decidem preparar uma viagem exploratória rio baixo,
pensando em avançar por três ou quatro dias.
Com
esse propósito colocam cedo de manhã do dia seguinte suas armas e alguns
alimentos, como nozes, avelãs, raízes e carne seca na embarcação, mesmo com a
intenção de caçar algum animal durante a viagem. Eles partem ainda antes do sol
nascer. O rio está cheio o suficiente para que possam ficam sempre perto da
margem para a possibilidade de avistarem alguma caça, já que é hora de beber
água no rio. Mas apenas encontram um bisonte e um veado-gigante que seriam
grandes demais para essa ocasião.
Assim
seguem em sua viagem, de dia remando lentamente e sendo carregados pela
correnteza, e de noite acampando em algum lugar junto ao rio. Ao passo que vão
avançando, a floresta fica mais rala e dá espaço para uma vegetação mais baixa,
ou então savanas como os três homens já conhecem. No terceiro dia conseguem caçar
um glutão de tamanho médio, apropriado para garantir comida durante os próximos
dias. Nesse mesmo dia notam uma brisa estranha subindo o rio à tarde,
fresquinha e transportando um ar diferente daqueles que conhecem da floresta.
E
então, ainda na manhã do quarto dia, a grande surpresa. Já há algum tempo, as
margens do rio ficam cada vez mais baixas e, de repente, aumentam as ondas, as
margens abrem-se cada vez mais e diante dos homens estende-se um grande, um
enorme lago. Sempre seguindo a margem, a mesma começa a apresentar primeiro
algumas manchas de areia quase branca, que, ao passo que avançam, começam
formar uma larga faixa entre a vegetação e as ondas do lago. Un-U, Na-Ga e Ne-Ma,
ao mesmo tempo em que apreciam essa paisagem nunca antes vista, percebem para
seu espanto que não há margem no outro lado do lago. Isso faz Un-U se lembra
que sua avó lhe contou uma vez, quando ele ainda era criança, que em algum
lugar há um grande lago para dentro qual todos os rios desembocam e que no
outro lado dele o mundo acaba. Ela contou também que, ao entrar nesse lago,
nunca se deve ir além das ondas que quebram, pois, do contrário, restam dois
destinos: ser comido pelo grande peixe ou ser arrastado pela correnteza até a
borda onde o mundo termina e cair no nada. Portanto, Un-U, Na-Ga e Ne-Ma estão
conseguindo ver o fim do mundo. Eles não se atrevem aventurar-se com sua canoa
nas ondas mencionadas pela avó de Un-U, mas arriscam tomar banho naquela
estranha água fria e salgada.
Depois
de se conformar com a ideia da sua proximidade ao fim do mundo notam uma outra
novidade. Eles conhecem pequenas praias do rio, mas nunca viram uma tão grande
como essa onde estavam. Além disso, nunca tinham visto aquelas conchas, grande
e pequenas, brancas, marrons e pretas, e em grande abundância. Os três homens
enchem suas bolsas com as mais bonitas que encontraram. Mas também encontram
alguns peixes mortos na areia, significando que o lago pode ser uma ótima fonte
de alimento. O maior espanto, porém, foi Ne-Ma encontrar uma pedra amarela e
brilhante do tamanho de uma unha – mas, foi uma só.
Mas,
como resolvem acampar para a noite ali mesmo, na praia, outro espetáculo espera
os homens. Lentamente o sol vai baixando em direção a fim do lago, ao fim do
mundo. Ao passo que se aproxima dessa linha torna-se cada vez maior e sua cor
quase branca vai amarelando, depois avermelhando. E, finalmente, o sol atinge a
linha do fim do mundo e lentamente afunda no lago.
Depois
de todas essas emoções, na manhã seguinte, Un-U, Na-Ga e Ne-Ma, colocam sua
canoa no rio para iniciar a viagem de volta até a aldeia, que, sendo contra a
correnteza, deverá durar cerca de seis dias.
Dotados
da curiosidade natural existindo em todos os homens, certamente essa não será a
última exploração ao desconhecido no futuro dos homens da aldeia de Un-U.
Este texto só poderá ser reproduzido de qualquer forma e
por qualquer mídia com a citação explícita do autor.
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