Un-U, o Encontro (8)
(“Un-U, the
Encounter” – This text has been written in such a way as to facilitate
translations by electronic means)
Klaus H. G. Rehfeldt
Amanhã será lua
cheia, dia de tentar novo contato com os homens da ilha. Assim, no início da
tarde dessa véspera de lua cheia, partem rio acima três canoa, cada uma com
três homens, e uma quarta com quatro pessoa, entreas quais Em-Do. Un-U e Na-Ga
estão em uma das canoas. Eles sobem pela margem do rio, onde a correnteza é
mais fraca. Com o sol já bastante baixo chegam à margem em frente à ilha, desembarcam
e retiram as embarcações da água para não poderem ser vistas da ilha.
O grupo
acampa no mesmo lugar onde Un-U e Na-Ga haviam ficado na vez anterior. Enquanto
alguns homens vão à procura de frutas silvestres, nozes e raízes comestíveis,
outros aproveitam o baixar do sol para pescar no rio. O resultado serve para
alimentar a todos. Como o grupo é grande, um segundo fogo é aceso e todos se
acomodam entre as duas fogueiras.
Na
manhã seguinte, escondidos na vegetação baixa, ficam à espreita da vinda dos
homens da ilha. Quando o sol já começa a baixar, aparecem, saindo de uma curva
do rio, três embarcações ocupadas por vários homens. Ao chegar mais perto, Un-U
reconheceu o homem com a pele de urso com cabeça. Assim que eles puxaram as
canoas para a terra, dirigem-se até a árvore, outra vez carregando um veado,
aparentemente vivo. Repete-se o ritual que Un-U e Na-Ga já tinham presenciado,
e agora é visto por todo o grupo. Un-U percebe que todos os homens são de baixa
estatura, mas bastante musculosos, menos um jovem com altura e constituição
física julgada como normal para Un-U.
Terminado
o ritual, e os homens da ilha começando a se ocupar com atividades diversas,
Un-U, Na-Ga e Em-Do aproximam-se da margem do rio, dão um grito alto e abrem os
braços como da vez passada. O homem da pele de urso vira-se para eles e, vendo
os três homens de braços abertos, faz o mesmo gesto, sendo seguido por todo seu
grupo. Do lado de cá, os homens fazem o mesmo. Ainda como sinal de paz, Un-U
pega sua lança e enfia-a com a ponta na terra. O homem da pele de urso pega a
lança de um de seus homens e repete o ato.
Chega a
hora da aproximação. O grupo de Un-U coloca os barcos na água e atravessa o rio
até a ilha, onde desembarca. Depois de mais uma vez abrir rapidamente os braços,
o homem da pele de urso, falando uma língua incompreensível, aponta para si,
dizendo a palavra Nahel, aparentemente, seu nome. Em-Do, Un-U e Na-Ga respondem
da mesma maneira. Aquele jovem mais alto aproxima-se de Nahel e diz alguma
coisa. Nahel responde algo e o jovem, falando com alguma dificuldade a língua
de Un-U apresenta-se como Mihil. Diante da surpresa de Un-U e de todo o grupo,
ele explica que, quando era menino, foi colher mirtilo na floresta e se perdeu,
não mais achando o caminho para sua aldeia. Vagou pela floresta por vários dias
e noites, alimentando-se de frutas e lambendo o orvalho das folhas, até ser
descoberto por alguns caçadores da aldeia de Nahel. Eles levaram-no à sua
aldeia, ele aprendeu sua língua e acabou integrado ao grupo.
Está
criada uma ponte. Devagar, os homens dos dois grupos começam a se aproximar,
tentando comunicar-se por gestos. Todo o interesse concentra-se primeiramente nas
respectivas armas. Um dos homens de Un-U trouxe em sua bolsa algumas pedras de silex
e mostra a arte da pedra lascada ao grupo com a manufatura de uma ponta de
lança. Outro foco de curiosidade são as respectivas construções de barco, uma
de madeira escava e outra de uma estrutura de galhadas revestida de pelos, bem
mais leve, mas também mais frágil. Alguns trocam armas, utensílios e enfeites
pessoais, mas nenhum dos homens de Nahel tirou sua corrente de dentes,
aparentemente troféus, do pescoço.
Nahel,
com a ajuda de Mihil, contou a Em-Do e Un-U sobre sua origem em um lugar a três
luas de caminhada em direção ao sol nascente por motivo de uma doença que quase
dizimou outros grupos de sua região. Pararam sua marcha nesse rio ao perceber a
presença de grupos distintos da sua origem, assim procurando evitar qualquer disputa.
Ao
anoitecer esquartejam o veado sacrificado, assando-o sobe o fogo. Antes de
começar a consumir a carne, Nahel despeja um pouco de um líquido vermelho,
trazido numa bolsa, aparentemente uma bexiga de javali. Indagado por Em-Do, ele
explica que é o suco de uva fermentada e somente ele do grupo pode consumi-lo
como líquido. Enquanto os homens de Nahel começam a arrancar, ou cortar com
facas de chifre, a carne ainda quase crua, Em-Do e seus homens preferem a carne
mais assada. Houve até uma pequena disputa pelo fígado do animal.
Já com
a lua alta no céu, Em-Do reúne seu grupo para a volta ao acampamento. Nahel e
seu povo acompanham-nos até a margem da ilha. Em-Do abre seus braços e é
respondido da mesma forma por Nahel, em seguida, todos os homens acompanham os
dois em seu gesto.
Na manhã seguinte, um homem de Nahel atravessa o rio de barco e entrega a bolsa da bebida vermelha a Em-Do, que tira o colar de marfim do pescoço, entregando-a em retribuição. Com respeito mútuo, está selada uma convivência pacífica.
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