quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Desemprego ou Despreparo?



Desemprego ou Despreparo?

Klaus H. G. Rehfeldt

O desemprego, principalmente quando se apresenta em escala maior, costuma ser tratado como se fosse um fenômeno de força maior. Ocorre que desemprego não é causa, é efeito. Efeito de duas circunstâncias claramente definíveis: a falta de trabalho ou a falta de preparo para o trabalho. Dos atuais cerca de 12 milhões de desempregados no Brasil certamente um grande número de atingidos é composto de profissionais qualificados que não encontram colocação por falta de vagas, ou porque estas estão sendo preenchidas por pessoas mais jovens, devido à situação conjuntural, ou ainda, em razão da eliminação de determinadas atividades por meio de processos de digitalização, automação ou robotização em curso em quase todas as áreas econômicas. Para estes profissionais resta esperar um reaquecimento da economia ou realizar uma reciclagem em outra direção profissional.
            Maior e mais preocupante é o imensa massa de desempregados ou subempregados sem preparo escolar e profissional. Deixou de existir a função do servente de serviços gerais, muito menos a do auxiliar dele, está desaparecendo o trabalhador rural e o safrista, nem o auxiliar de escritório ou o vendedor de temporada deve esperar perspectivas satisfatórias para o futuro. O emprego industrial está em contínuo desaparecimento, enquanto a prestação de serviços se expande e se fortalece no mercado, porém, com enorme diferença de requisitos profissionais, atualmente inexistentes ou insuficientes no mercado do trabalho. O déficit de profissionais na informática é emblemático.
            Houve e continua havendo quem, em vista dessa realidade, aposta na concorrência através da mão de obra barata, não se importando com os consequentes índices baixíssimos de produtividade comuns no Brasil. Políticos de esquerda e sindicatos visam assim atender às peculiaridades – de despreparo – de grande parte da mão de obra disponível, ao mesmo tempo imaginando vantagens competitivas especialmente no mercado externo. Um absoluto paralogismo. A baixa produtividade não é garantia para mais empregos ou a manutenção dos existentes, nem beneficia a concorrência no longo prazo; a baixa produtividade compromete a permanência dos locais de trabalho porque coloca em risco a sobrevivência do empregador, enquanto alta produtividade assegura melhores condições de competição e a expansão do negócio. O estabelecimento produtivo desbanca a concorrência, se expande, abre filiais ou franquias, até fora do mercado doméstico – e cria novos empregos. É nessa direção que se desenvolvem hoje as estratégias micro- e macroeconômicas.
Segundo o IBGE-PNAD/2018, a taxa de frequência líquida no ensino médio (15 a 17 anos) foi de 69,3%, ou seja, 30,7% dos alunos estavam atrasados ou tinham deixado a escola. Num outro vetor, com relação aos jovens de 15 a 29 anos, constatou-se que 24,0% não trabalham, nem estudavam ou se qualificavam – cerca de 8% da força de trabalho do Brasil. Além desses, o número de desempregados com até 24 anos de idade é de 5,6 milhões, perfazendo outros 5% da força de trabalho. Esses dois grupos totalizam 13% do potencial de trabalho brasileira, i.e., um em cada oito jovens, e é razoável concluir que nesse contingente se concentrem os jovens sem qualquer preparo profissional. Mesmo para uma país solidamente desenvolvido isso representaria um ônus social e econômico muito significativo.
O grave da situação é que esses jovens já estão aí e, por isso, uma reversão da situação exige medidas urgentes e rápidas não apenas por parte do governo, mas também da sociedade civil – sindicatos de classe, ONGs, e as próprias empresas (onde isso já vem acontecendo). Talvez haja necessidade de sacrificar ou reformatar outros programas políticos, econômicos ou sociais, mas se há empenho com sucesso garantido, esse é na educação. A falta de educação cria sucessivamente problemas sociais, de segurança e de saúde; com reversão garantida dos mesmos na proporção geométrica em que os níveis de educação melhoram. Não existe país neste mundo que tivesse sofrido algum prejuízo em consequência de excesso de conhecimento por parte de sua população – muito pelo contrário.
Os jovens de hoje sem propósitos, sem projetos e sem oportunidades, sem a chance de tornarem-se aptos para uma vida profissional satisfatória, serão os adultos de amanhã, frustrados, desiludidos, revoltados e dependentes do sistema social do estado pelo resto da vida.       

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Deflação



Deflação

Klaus H. G. Rehfeldt

Tecnicamente falando, uma situação deflacionária caracteriza-se pela queda geral de preços com duas causas principais: a falta de meios de pagamento, ou uma redução geral de demanda – a oferta é maior que a procura. E, numa visão geral dos economistas, a deflação é fator inibidor do desenvolvimento econômico devido ao desestímulo para o consumo. Alguns países, como o Japão, estão esvaziando esta argumentação.
O aparecimento episódico de um cenário deflacionário costuma decorrer de fatores conjunturais momentâneos decorrentes, por exemplo, de equívocos de política econômica ou por uma simples retração da demanda em função de uma inseguranças econômica generalizada. Diferente é a situação quando se trata de uma processo evolutivo que se inicia com o gradual declínio das taxas de inflação, resultando finalmente num estado deflacionário.
Esta é o atual quadro conjuntural do Brasil. Depois de um longo período de índices baixos e decrescentes da inflação, apesar de continuas tentativas de aquecimento do mercado mediante inventivos ao consumo e injeção de meios financeiros, o mês de setembro de 2019 encerrou com uma deflação de 0,04%. As tentativas de explicação foram muitas, como desemprego, falta de perspectivas econômicas positiva, etc.
Não contemplaram, porém, um aspecto importante. Por representar uma grandeza de fundo permanente, historicamente um vetor ascendente e de efeito geralmente positivo, mormente numa economia de consumo, as mudanças demográficas não costumam entrar nas reflexões macroeconômicas, exceto na questão do envelhecimento da sociedade pelo simples fato de constituir um problema previdenciário. Embora a idade máxima absoluta não tenha mudado significativamente ao longo dos últimos séculos, um número rapidamente crescente de pessoas aproxima-se desse limite, aumentando de forma expressiva o contingente da população idosa.
A outra ponta da escala etária tende a não ganhar a mesma atenção. Entretanto, desde o ano de 2000, a taxa de fertilidade da mulher brasileira situa-se inicialmente no nível de mera reposição da população com 2 filhos por mulher, passando em seguida para abaixo desse índice, ou seja, caindo continuamente para o atual 1,7 filho. Isso significa que desde então diminui ano a ano o número de novos consumidores. O Brasil só não apresenta um crescimento populacional negativo, porque o atual déficit de cerca de 300 mil nascimentos é compensado (e, ainda, superado) pelo ingresso e a permanência atuais de aproximadamente 525 mil pessoas 65+ no segmento dos idosos.
Com respeito à pressão deflacionária é preciso lembrar que, enquanto o potencial consumidor do idoso tende a diminuir em amplitude de produtos e quantidade com o envelhecimento da pessoa, este potencial ganha um espectro cada vez maior de produtos combinado com índices crescentes de descarte dos mesmos, uma vez que o número reduzido de filhos elimina e reutilização de roupas e brinquedos, por exemplo, pelos irmãos mais novos inexistentes. O encolhimento da base da pirâmide etária deverá projetar-se gradativamente sobre mercados específicos, começando, por exemplo, com artigos para bebês, depois passando para os brinquedos e o material escolar e assim por diante.
Tais aspectos demográficos certamente não respondem pela totalidade do índice deflacionário, mas certamente têm um peso importante na composição dos fatores que o compõe, e este peso deverá aumentar.   

domingo, 6 de outubro de 2019

Sofisma ou Fake News



Sofisma ou Fake News?

Klaus H. G. Rehfeldt

O assunto é recorrente na mídia, mas especialmente nas redes sociais: a invasão da Europa por migrantes islâmicos e sua suposta transformação da região para um continente islâmico. Mesmos no Brasil, a 10 mil quilómetros de distância e totalmente à margem desse contexto, tais notícias são veiculadas, talvez meramente pela questão religiosa. Ou por mero sensacionalismo. Por isso cabe um análise mais aprofundada.
Primeiramente cabe notar que depois de um ápice de movimentos migratórios, entre refugiados e migrantes econômicos para a Europa em 2015, constata-se uma contínua e constante queda para cerca a metade em 2018, sem falar que muitos estão voltando a seus países de origem. Atualmente entram na Europa cerca de 4 pessoas para casa 1.000 habitantes, ou seja, aproximadamente 0,4% de uma população de quase 750 milhões de habitantes com uma momentânea taxa de crescimento de 0,1%. Isso significa que, falando globalmente da Europa que possui realidades demográficas bastante diversas, esse continente estaria hoje sem a imigração registrando uma queda populacional de 0,3% (2,25 milhões de pessoas) ao ano. (Apenas a título de comparação e curiosidade: em 2018, a população da China não aumentou mais, mas encolheu em 700 mil pessoas.)
Com relação a uma suposta perda de hegemonia do cristianismo para o islamismo na Europa devido às diferentes taxas de fertilidades entre a população residente e os migrantes circulam informações e dados alarmantes. A realidade é outra. A atual taxa de fertilidade da mulher europeia é de 1,59 filhos, com o mínimo de 1,26 filhos em Malta e o máximo de 1,90 na França. Por outro lado, os principais países de origem de migrantes para a Alemanha (principal país receptor) são em ordem de grandeza e com as respectivas taxas de fertilidade: Síria (2,8 filhos por mulher), Iraque (4,3), Nigéria (5,4), Turquia (2,0), Afeganistão (4,4) e Irã (1,6).
Referente a este aspecto é importante salientar que a queda das taxas de fertilidade nos países desenvolvidos, especialmente na Europa, não decorre de qualquer capricho da natureza, mas da clara e decisiva resolução da mulher por menos filhos em benefício de autonomia social e econômica. E esta postura é rapidamente adotada pela mulher imigrante, seja como simples assimilação do modelo feminino da mulher europeia, seja por motivo de concorrência profissional.
Concluindo, percebem-se nítidas divergências entre os dados e as ameaças amplamente divulgadas e inocentemente compartilhadas nas mídias sociais e os dados efetivos. Além disso, uma oportuna reflexão: o que dizer de uma sociedade etnicamente estável (para não dizer pura) em declínio populacional irreversível num processo de encolhimento de seu potencial humano? Certamente não é uma perspectiva muito promissora para as gerações futuras.   



quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Julgar Quem, Julgar o Quê?



Julgar Quem, Julgar o Quê?

Klaus H. G. Rehfeldt

Observemos um desfile militar de milhares de militares de ambos os sexos. É um contingente de iguais milhares de pessoas diferentes, personalidades distintas, de variadas origens étnicas, mais ou menos jovens, mais ou menos bonitas, mais ou menos simpáticas, ricas ou pobres, ambiciosas ou letárgicas, inteligentes ou tolas etc., etc., etc. Todas essas diversidades desparecem sob uniformes idênticos e no cumprimento simultâneo e sincronizado das ordens dadas. E se um dos soldados no meio desse desfile marchar fora do passo?
O indivíduo ganha notoriedade como tal apenas quando sai do passo, seja por descuido, por discordância ou por inconformidade. De resto, padrões socioculturais, a língua e outros aspectos comuns são os uniformes que escondem, às vezes mimetizam, as singularidades dos componentes de uma sociedade.
O imenso universo de desigualdades presentes, mas não percebidas pelo prisma da coletividade, é essencial para a constituição e existência da nossa sociedade. Uma coletividade composta de seres absolutamente iguais se auto-extinguiria. Portanto, a diversidade e consequente pluralidade nas sociedades é nossa garantia de sobrevida como espécie. Um aspecto importante é a improvável mutabilidade das personalidades, e mesmo que um universos de indivíduos receba as mesmas chances em seu preparo para a vida, cada membro desse universo deverá utilizá-las diferentemente de acordo com suas inclinações, seu ego, seu caráter e as impressões digitais de sua singularidade.
            Tendo isso em mente, evidencia-se a insanidade do julgamento da pessoa pelo que ela representa e pelo que ela é como resultado dos atributos que a natureza lhe conferiu, ou os moldes que a sociedade e sua condição de vida lhe impuseram. Somos todos imperfeitos. O que, então, qualifica uma pessoa detentora de seus próprios defeitos a julgar as – supostas – imperfeições, os – possíveis – senões de seu próximo?
Cada um é o que é em grande parte por razões que independem de sua vontade, porém, cada um faz o que faz a partir de deliberações ou por falta delas. Não nos compete julgar o cleptomaníaco pela sua condição, mas cabe, sim, julgá-lo pela omissão do exercício de controle sobre seus impulsos. Salvo quando inimputáveis, somos todos responsáveis pelos nossos atos, sua justeza e suas consequências, ou as omissões dos atos que a vida em sociedade nos impõe. Meus atos, minhas atitudes e meu comportamento, estes sim, devem obedecer às normas da convivência que a coletividade espera de mim. Quando a harmoniosa relação de submissão do eu ao nós for quebrada exponho-me ao juízo da sociedade, seja pela autoridade instituída, seja pela manifestação do cidadão.
Embora haja uma absoluta e inquestionável clareza sobre a diferença entre o ‘ser’ e o ‘fazer’ (ou deixar de fazer), surpreende o enorme número de pessoas que não fazem, ou não conseguem fazer, o discernimento entre estes dois conceitos. Nos tempos da vida social exclusivamente real os julgamentos, cabíveis e indevidos, difundiam-se no restrito círculos de pessoas relacionadas, hoje eles são propagados entre universos imensuráveis pelos canais virtuais das redes (anti)sociais, por ignorância, por leviandade, por necessidade de autoafirmação ou autprojeção, ou por pura má-fé. Não sabem, aparentemente, estas pessoas que se envolvem num ato deliberado e, com isto, se tornam objeto de julgamento justificado pelas suas conceituações, tanto justas, quanto descabidas, impertinentes e intoleráveis – senão criminosos, quando tais juízos deixam a intimidade de suas mentes. Nas dimensões que a mídia moderna permite.
Quem eu sou só, cabe a mim julgar, o que faço, qualquer pessoas pode aprovar ou desaprovar. Cabe refletir!         

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Meio Ambiente e Clima



Meio Ambiente e Clima
(O subtítulo fica a cargo do leitor)

Klaus H. G. Rehfeldt

Há muito tempo, a humanidade deixou de viver na natureza para viver da natureza. A diferença está em manter o equilíbrio, ou desequilibrar nossa relação com o meio ambiente. Na busca de cada vez mais facilitar nossas condições de vida e de construir riquezas, nem sempre de bons modos com o planeta que nos abriga, parece termos chegado a uma encruzilhada: ou continuaremos do jeito como fizemos e vivemos até aqui com consequências imprevisíveis, embora fatalmente catastróficas, ou repensamos e mudamos nossos valores, dando à natureza a prioridade que lhe cabe e o respeito que merece para garantir um futuro de razoável tranquilidade de bem-estar às próximas gerações.
Abusamos da natureza e daquilo que ela nos oferece por demasiado tempo, não importa se por ignorância, negligência ou ganância. E salvo os povos indígenas que ainda existem espalhados sobre a Terra, nenhuma nação ou civilização escapa dessa acusação. Durante muito tempo, e até o início dos tempos modernos, os abusos ambientais cometidos não se traduziram em situações dramáticas pela simples lentidão com que crescia a população e a grande disponibilidade de recursos naturais em territórios até então inexplorados. Ao mesmo tempo, o avanço tecnológico processava-se apenas paulatinamente. Práticas adotadas ainda na Idade Média na Europa Central como o rodízio de culturas e descanso da terra e a preservação das florestas podem não ter tido os objetivos preservacionistas que lhes foram atribuídos por muito tempo, mas, em primeiro lugar, atendido fins mas diretos como maior rentabilidade da terra e a garantia de caça para o senhorio.
Da mesma forma, as queimadas – depois da extração da madeira – eram a maneira mais rápida e econômica de obtenção de terra cultivável e seus produtos, especialmente nas infindáveis terras encontradas pelos colonizadores nas Américas, na África e na Oceania. Na ausência de preocupações ecológicas, ou, sequer, a necessidades para tais, a prática da queimada assumiu caráter cultural nessas regiões, estando em uso até a atualidade. Hoje, diante da grave realidade ecológica, urge, naturalmente, convencer-se das consequências condenáveis e abandonar essa técnica simplista. O benefício ambiental de processos mecânicos de limpeza é certamente maior que seu ônus. Aliás, o composto resultante da decomposição natural da vegetação é qualitativamente bem superior àquele produzido por cinzas.  
Na Europa Central, de onde partem hoje a maiores críticas contra esse procedimento, o mesmo não existe mais por motivos óbvios. Desde meados do século passado, a lavoura de pequena escala é abandonada e substituída por reflorestamentos. Por outro lado, as queimadas de pastagens para fins de limpeza, prática comum em regiões tropicais devido ao rápido crescimento da vegetação que estraga as pastagens, são dispensáveis em terras de clima temperado por causa do frio dos invernos. Por outro lado, é preciso lembrar que as florestas dessas regiões sofrem uma permanente ameaça – inclusive perdas concretas – decorrente das chamadas chuvas ácidas, consequência da crescente poluição do ar ao longo dos últimos dois séculos.
A natureza vive da própria natureza, a substância viva alimenta-se de outras substâncias vivas. Esta é a essência da existência da natureza e do equilíbrio nela reinante. O homem começou a ameaçar esse equilíbrio ao começar a utilizar a natureza não apenas para seu sustento básico, mas também para seu conforto, para o atendimento de suas ambições e a busca de recursos que contribuam para facilitar sua vida. A natureza passa a fornecer matéria prima para a construção de suas casas, de suas ferramentas e utensílios, de suas armas e defesas, e principalmente para a geração de energia. A exploração dos recursos naturais para fins impostos pelo avanço civilizatório, combinado com o rápido crescimento demográfico, iniciou um desequilíbrio que apenas a partir de meados do século passado foi identificado como causador de graves problemas.
A década de 1970 e os primeiros anos de 1980 chamaram notáveis em ecologia de diversos Institutos e Universidades de renome em todo o mundo ao palco para discutir os fenômenos ambientais inusitados de então. Enchentes aqui, secas acolá, verões chuvosos demais que dizimaram as colheitas no Paquistão, nas Américas e no Japão em 1972, a expansão do deserto do Saara, encontraram unânimes explicações em diversas formas e intensidades de poluição ao redor do mundo. Mas, uma curiosidade: as previsões então feitas pelas mais ilustres cabeças na área da ecologia tinham um denominador comum – a chegada próxima de uma nova era glacial a partir da observação de constantes quedas de temperatura, incluindo consequências catastróficas como calamidades extremas, grandes partes inabitáveis no nosso planeta, tornados, secas, enchentes e muito mais.
Bastaram 40 anos para, a partir de novas observações dos termómetros ao redor do planeta, para as atuais autoridades em meio ambiente (não são mais os Linus Pauling, Geroge J. Kukla e outros de décadas anteriores) preverem, a partir de causas idênticas, embora com novas magnitudes, um aquecimento global para o resto de século e além.
Não devemos, portanto, estranhar, ou até nos surpreender, que algumas (ou muitas) pessoas veem com ceticismos os alarmes expedidos por supostos entendidos no assunto, e com as atribuições de culpa em todas as direções. E catastrofismo vai às custas da credibilidade.
Estamos abusando dos recursos que a natureza nos oferece e sobrecarregando sua capacidade de se regenerar e recuperar? Estamos, sim. A natureza está se mostrando sensível e respondendo a esse abuso com reações extremadas? Está, sim. Adianta discutir se apenas vivemos ciclos naturais já anteriormente observados em nosso planta, ou se a humanidades é responsável pelas mudanças ambientais e climáticas, e em que grau contribui para as mesmas? Não, isso não resolve o problema.
Adianta, sim, resolve, sim, a consciência de que a natureza tem seu preço, o uso indevido, ou abuso, cobre taxas e sobretaxas, que serão reclamados daqueles que dela usufruem – todos nós. Esta consciência, honestamente vivida por cada cidadão e pela sociedade como um todo, discernindo entre usufruição e destruição, entre consumo e desperdício, entre lucro e ganância, enfim, entre respeito e desprezo à natureza, fará a diferença. Quando esta consciência, semeada hoje no solo receptivo e fértil da nova geração, amanhã trouxer frutos para finalmente converter-se em cultura – sem metas, nem promessas – voltaremos a viver na e com a natureza – não dela. A natureza é um conjunto vivo e, portanto, é vulnerável. Ela certamente não abandonará seus caprichos, mas estes não serão consequências de posturas irresponsáveis e inconsequentes da humanidade e, talvez, poderemos atenuá-los.
          
  

domingo, 22 de setembro de 2019

Um Entulho que Assusta



Um Entulho que Assusta

Klaus H. G. Rehfeldt

Se deixamos de lado as torres das habitações italianas do fim da idade média (a maior atingindo 97 metros de altura em Bologna), o primeiro arranha-céu surgiu em 1885 durante o boom de reconstruções em Chicago, EUA, depois do grande fogo de 1871, que destruiu mais de 17 mil edificações – o Home Insurance Building com 10 andares. Daí em diante, as cidades de Chicago e New York tornaram-se palco inicial de uma sequência e evolução de construções comerciais e habitacionais cada vez mais altas e audaciosas. Logo outras cidades norte-americanas acompanharam o mesmo modelo. Em 1894, o Manhattan Life Building rompeu com 106 metros de altura a marca dos 100 metros. Algumas décadas mais tarde, a mesma tendência de construção civil repetiu-se em outros países ao redor do mundo, principalmente naqueles em fase de desenvolvimento e com urbanizações rápidas. Hoje, o erguimento de arranha-céus é uma prática comum e estamo-nos aproximando da marca do 1.000 metros de altura.
            O Home Insurance Bulding já não existe mais; e foi demolido em 1931 e deu lugar a outro edifício maior. A grande maioria dos arranha-céus construídos desde a fase inicial de sua concepção, porém, continua em pé, embora muitos já tenham ultrapassado sua vida útil considerada pelos técnicos em uma média de 80 anos, conforme tecnologia e qualidade empregadas. Essa vida útil não se refere à substância construtiva dos prédios, mas à sua adequação com os requisitos técnicos e de utilidade prática exigidos pelos modernos usos comercial e habitacional. Como tais fatores são objeto de constantes melhorias e inovações resulta como consequência um crescente número de prédios desocupados por simples obsolescência em recursos e conforto e a decorrente rejeição pelos donos ou locadores. O centro de São Paulo tem mais de 200 edificações nessa situação.
            Há duas opções como reposta: a simples demolição (que pode não ser tão simples assim) ou o chamado descaroçamento (demolição interna, preservando apenas as estruturas essenciais) e uma renovação total, cujo custo é praticamente o de um novo prédio, podendo até excedê-lo; assim a demolição fica retardada em mais alguma s décadas. A forma mais simples é a implosão, que, no entanto, nem sempre é possível, especialmente em centros urbanos na proximidade de outras edificações. Nesse caso, o custo de uma demolição organizada e estruturada pode ser bastante onerosa. Esta é certamente uma das razões para tantos edifícios abandonados nos nossos centros urbanos.
            São raros os casos em que edifícios técnica e economicamente obsoletos ganhem uma nova finalidade de ocupação, como garagens ou hortas verticais, pelo simples fato de sua estrutura construtiva não admitir esse tipo de redefinição de ocupação. Nesse momento estamos ainda no início de um novo ciclo na construção civil: a desconstrução civil. Na verdade, quase não existe ainda consciência dessa realidade, o que se confirma pela total ausência de qualquer preocupação com o desenvolvimento de tecnologias que facilitem uma futura demolição e especialmente a reciclagem dos materiais empregados na construção. Nem, sequer, existe planejamento para o descarte dos materiais de demolição, de preferência com algum objetivo de criação de alguma utilidade. Mas é preciso começar a pensar nesses aspectos antes de eles ganharem formas e magnitudes indesejadas.   


sábado, 14 de setembro de 2019

A Câmara de Eco



A Câmara de Eco

Klaus H. G. Rehfeldt

O termo câmara de eco não habita o vocabulário cotidiano da maioria da população. Sua origem encontra-se na tecnologia analógica de processamento de sons em estúdios sonoros onde se refere ao ambiente próprio para o reforço da ressonância. Mas também tem outro sentido: o de ambiente onde apenas informações que correspondem às próprias preferências são oferecidas e consumidas. É o que hoje observamos nas redes sociais como facebook, twitter, whatsapp e outros. Fala-se também em bolha de filtro. Nelas participa todo um universo de amigos ou pessoas de quem – por alguma razão – gostamos, com suas e nossas notícias e comentários circulando entre as timelines. A impessoalidade dos contatos torna fácil ume seletividade; eventuais opiniões divergentes ou contradições, quando aparecem, podem simplesmente ser ignoradas ou acabam no lixo.

            Isso contribui naturalmente para a construção de uma visão bastante unilateral do mundo, reforça as próprias percepções e convicções ou confirma a sensação “estou certo e penso igual aos outros”. Algoritmos do facebook canalizam mais informações ou comentários sintonizados à pessoa ou ao grupo, reduzindo o senso crítico. Simultaneamente, pontos de vista divergentes são suprimidos, idem, a tolerância. Formam-se ilhas de posturas homogêneas, de convicções sociais, de ideologias políticas, de hábitos alimentares, de opções sexuais – ilhas e mais ilhas sem pontes entre elas, sem comunicação e sem interações. O facciosismo – para não dizer fanatismo –, conhecido das torcidas de futebol, invade boa parte das nossas opiniões e dos nossos critérios.
           
No caso extremo, encontramos grupos que a partir de sua percepção seletiva criam uma realidade alternativa e seguem muito radicalmente sua própria ideologia, seus conceitos e sua visão de vida, totalmente ignorando a heterogeneidade e pluralidade da humanidade. A continua realimentação de convicções idealizadas leva à dispensa – ou até rejeição – de outros ideários e finalmente ao incesto de comunicação.

O mundo online despersonificou a comunicação entre as pessoas. Conhecemos muitos interlocutores apenas pelos seus pronunciamento nas redes sociais, ou melhor, não as conhecemos. Cabe então a pergunta: não estamos abrindo mão de nossa liberdade de pensar, de avaliar, de aceitar e a nossa objetividade ao dar caráter de dogma à mensagem alheia – ainda mais quando não sabemos com que intenção e grau de verdade foi postada?  

Na essência de uma sociedade democrática podemos viver a livre manifestação de ideias e opiniões e enriquecemos a partir da pluralidade de discursos. Fechar-se voluntariamente a essa diversidade significa entrar numa câmara de eco que ensurdece e abate nosso bom-senso, e, num processo de atrofiamento de nossa capacidade de discernir, nos impede construir nossa personalidade. Cabe manter o padrão de relacionamento interpessoal que aprendemos desde quando nascemos, limitando as relações digitais a um plano assessório, não sem aprender a lidar com elas de forma sadia e inteligente.