quinta-feira, 2 de junho de 2022

Os Limites da Globalização

 

Os Limites da Globalização

(“Limits of Globalization” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Globalização significa a integração dos homens e de suas estruturas econômicas, políticas, sociais e culturais ao redor do mundo. O processo de interconexão em várias áreas iniciou-se em meados do século 20, beneficiado pelas intenções pacifistas pós-guerra, mas especialmente pelos avanços nas tecnologias de comunicação e especialmente pela emergente TI (tecnologia de informação). Os aspectos econômicos mostraram-se os mais dinâmicos em desenvolvimentos globais, seja no estabelecimento de cadeias de fornecimento, seja na oportunização de mercados de consumo. No campo da política internacional, não por último em resposta e como suporte a interesses econômicos, pactos e acordos foram firmados com o intuito de aproximações internacionais e o fortalecimento das relações em vários planos.

Não devemos esquecer que sempre houve críticas das mais diversas origens à globalização em si, mas especialmente a formatos extremados, principalmente questionando interdependências excessivas de um lado em prejuízos de autonomia no outro. E essas preocupações revelaram-se justificadas no mínimo em três momentos da história recente: a crise bancária internacional de 2008, a pandemia recente da covid-19, e a guerra na Ucrânia atualmente em curso. Nessas ocasiões começaram e continuam se evidenciando situações que c0mprovaram e existência de limites à globalização, tanto econômica, quanto política, social e cultural. E tais limites têm várias feições.

Tanto a crise financeira com desdobramentos desastrosos para a economia de vários países, em princípio não envolvidos nas causas, quanto durante a pandemia, quando o outsourcing de indústrias farmacêuticas para um número reduzido de países, evidenciando uma extrema fragilidade do resto de munda em respostas medicinais imediatas, mostraram claramente a necessidade de autonomias domésticas mínimas em todos os setores. O custo de tal política parece justificar-se plenamente no médio e longo prazo. Em paralelo a isso é preciso considerar a desindustrialização de países desenvolvidos em benefício de países em desenvolvimento com o efeito secundário da transferência de problemas sociais em sentido contrário, decorrentes da liberação de mão de obra nos primeiros países com correspondente emprego nos segundos.

Num plano paralelo, não escapamos da realidade de que os recursos naturais são limitados e estão distribuídos irregularmente sobre o globo. Isso leva a outro limite, o da infraestrutura insuficiente de sustentar uma globalização econômica. Commodities são extraídos, em um ponto do globo, p.ex. da América do Sul, levados para outro, p.ex. na Ásia, para beneficiamento ou industrialização, para o produto final ser finalmente distribuído ao mundo todo para o consumo, inclusive de volta para a América do Sul. No caminho disso encontram-se obstáculos como portos inadequados para receber os modernos super-embarcações (que, aliás, são capazes de obstruir acidentalmente um canal estratégico por semanas como no caso do navio ‘Ever Given’ no canal de Sue, e represando centenas de outros navios – e centenas de milhões de dólares em mercadorias – em seus percursos), eventuais greves de marítimos ou aeroviários, e o elevado custo agregado por transportes, não esquecendo os consequentes efeitos ambientais. E esse processo significa que resíduos e subprodutos, além de serviços correlacionados, são desnecessariamente transportados ao redor do mundo. Além disso é preciso lembrar que o transporte marítimo é hoje o maior emissor de CO2, um problema ambiental de primeira ordem.

Em outra esfera, a flexibilização de fronteiras e a melhor acessibilidade aos meios de transporte favoreceram os contatos diretos entre os povos e suas culturas. Mas isso também significa o transplante de valores culturais e uma infalível diluição dos mesmos na convivência com outras culturas – ou entrar em choques. Um multiculturalismo excessivo tende a gerar estranhezas e desconforto. Por mais que valores culturais costumam ter raízes profundas, o risco de desfigurações, ou mesmo sua perda, é bastante real.

Com tudo isso em mente, impõe-se uma pergunta: existe a chance para uma civilização globalizada? A guerra em curso na Ucrânia mostra que interesses geopolíticos exacerbados podem quase instantaneamente desfazer pactos e alianças políticas, incluindo a implosão de constructos econômicos e a destruição de bases existenciais de sociedades inteiras. Uma globalização jamais subsistirá sem o respeito a pertencimentos étnicos ou religiosos, ou a identidades geográfico-políticos.

Concluindo parece evidenciar-se que não se justifica uma globalização absoluta, porém globalizações ou continentalizações relativas e inteligentes, onde independências e interdependências coexistam no melhor equilíbrio no alcance de micro- e macro-resultados econômicas, políticas, sociais e culturais.

                

sábado, 28 de maio de 2022

A Meteoro-Lógica

 

A Meteoro-Lógica

 

(“Meteoro-Logics” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H, G, Rehfeldt

 

O cosmo está em permanente movimento. Nosso planeta é um corpo em constante movimento, do seu centro plasmáticos, às placas tectônicas, às correntes marítimas e às atmosféricas. Nessa motilidade, nada mais mutável, em ininterrupta mobilidade, às vezes pouco previsível, na sensível superfície do globo do que as condições meteorológicas locais ou regionais, ou, o microclima que vivemos no nosso cotidiano. Causa disso são os inúmeros componentes inerentes a um quadro meteorológico e suas interações, extremamente complexos para sua compreensão, mais ainda para uma dinâmica futura. Igualmente difícil é a percepção, identificação e interpretação de mudanças no macroclima de dimensão global, ou seja, um aquecimento atualmente em curso.

Na realidade, todos os fenômenos baseiam-se em, ou são condicionados por leis imutáveis da natureza, físicas e químicas. Tais leis, porém, são amplamente desconhecidas – ou ignoradas, o que leva à negação despretensiosa ou intencional de fenômenos, mesmo quando bastante evidentes. Eis um exemplo: Uma das leis de física reza que o ar quente é mais leve que ófrio, ou seja, o ar quente sobe na atmosfera para, depois de esfriar em camadas mais altas da atmosfera descer ao passo que esfria.     Nesse processo, quanto mais quente for o ar, mais rápido sobe, e quanto mais frio, mais rápido desce. Traduzido isso para as dinâmicas climáticas significa, que em situação de aquecimento global, o ar quente em zonas temperadas, ou mais quentes, eleva-se mais rapidamente para camadas atmosféricas mais altas, causando que ar frio proveniente das regiões polares e subpolares cheguem mais rapidamente às regiões mais quentes. Por conseguinte, o ar frio em deslocamento aquece menos em seu percurso, chegando mais frio do que o habitual às regiões temperadas e mais quentes. Essa aceleração do processo climático natural tende a causar mudanças de tempo mais rápidas e intensas e, com isso, de criar a falsa impressão de um esfriamento geral – conforme tem ocorrido mais recentemente. Ao mesmo tempo, dá dando origem a situações extremadas como as que observamos com crescente frequência    É apenas um exemplo de muitos de conjugação de ações físicas e químicas causando resultados climáticos complexo, e ao mesmo tempo maravilhoso das quais, em última instância, depende nossa existência. 

As interações entre temperaturas diferentes, pressões atmosféricas variáveis, humidades relativas distintas, e outros tantos fatores em constante mutação determinam resultantes climáticas em infindáveis e incontáveis configuração. E tais fatores podem somar ou compensar suas energias. Resultam daí manifestações climáticas com as mais diversas intensidades. Clima, seja em qual dimensão ou intensidade, não é nem acaso, nem capricho da natureza, o clima é natureza viva segundo suas leis e sua lógica. Vestígios geológicos comprovam que o planeta sempre sofreu mudanças climáticas, mesmo muito antes da presença do homem, ou seja, não há como determinar ou dimensionar os efeitos do homem moderno sobre o clima. Isso, porém, não isenta a humanidade da responsabilidade de minimizar – ou até compensar – os efeitos de sua existência predatória sobre a Terra.

É inegável que estamos vivendo numa progressiva mudança climática da qual não conhecemos futuros graus de intensidade e severidade, nem sua duração, e menos ainda suas consequências e eventuais novos equilíbrios climáticos. Isso nos deixa duas opções: buscar argumentos que nos permitem simplesmente negar o fenômeno, ou fazer tudo que está ao nosso alcance para minimizar possíveis agravamentos consequentes de comportamentos levianos e inconsequentes no nosso relacionamento com a natureza – e negligente e irresponsável com as futuras gerações.  

As futuras condições de vida no nosso planeta estão em boa parte nas mãos de uma única espécie entre as milhões que o habitam: o homem.

 

sexta-feira, 13 de maio de 2022

O Brasil sobre Trilhos

 

O Brasil sobre Trilhos

(“Brazil on Rails” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H, G, Rehfeldt

 

São raros os momentos que indicam com tanta clareza a necessidade de uma mudança de rumo e, ao mesmo tempo, nunca ficou tão clara a vulnerabilidade da economia brasileira em decorrência de um sistema de transporte quase exclusivamente centrado no modal rodoviário.

O petróleo é commodity global e, assim, obedece em suas negociações a regras globais. Sendo assim, tentativas nacionais de corrigir excessos, seja de que natureza forem, em nada alteram os efeitos dessa realidade para o cidadão: ou ele paga mais impostos para financiar subvenções do governo, especialmente na existência de petrolíferas estatais, ou ele terá de enfrentar preços mais altos pelo produto transportado.

A partir de 1825, um novo meio de transporte passa a participar no transporte de pessoas e bens realizado até então somete por tração animal – o ferroviário como consequência da inovação da máquina a vapor. Rapidamente, o modal tornou-se um sucesso ao redor do mundo. Sete décadas depois, em 1896, foi comercializado o primeiro veículo rodoviário de transporte de carga, o caminhão, de operação mais ágil e flexível quando comparado com o ferroviário com infraestrutura de traçados imutáveis. Ao longo do tempo, os dois sistemas de transporte, especialmente o de carga, desenvolveram-se em direções próprias. Enquanto o caminhão, numa ampla paleta de tamanhos, capacidades e especificidades, ocupou praticamente todos os nichos do transporte terrestre, o trem abandou lentamente seu objetivo tradicional de atender o maior número possível de localidades, estabelecendo-se no transporte de longas distâncias.

A partir da industrialização do Brasil, da qual a indústria automotiva foi componente central, o então existente sistema ferroviário, precário, territorialmente disperso e economicamente inviável, foi desativado. Em épocas recentes, surgiram projetos ambiciosos de implantação de uma ampla e integrada rede ferroviária no país. Uma nação de grande extensão territorial e cuja economia se baseia fortemente na exportação de commodities esses projetos dispensam maiores justificativas, sabendo-se que o custo do transporte ferroviário representar apenas cerca de 30% do custo do rodoviário.

Falta tirar esses projetos do âmbito das promessas eleitorais. Hoje, o transporte de carga é uma questão central na economia do Brasil. Ferrovias não significam o esvaziamento do transporte rodoviário, mas sim, a complementação racional dos sois modais. É inconcebível um transporte de carga de longa distância por veículos cujo peso tara perfaz 25% ou mais da carga transportada.

A importância de uma rede férrea para nossa nação fica clara quando vemos, por exemplo, a extensão e sua relação com a área territorial de alguns países:

Est. Unidos (9,827 milhões km2) - 294 mil km; China (9,597 milhões km2) - 124 mil km; Alemanha (0,357 milhões km2) - 44 mil km; Brasil (8,512 milhões km2) - 30 mil km. O déficit brasileiro, portanto, é assustador – e não temos Montanhas Rochosas, nem o deserto de Gobi a cruzar.

Não há como negar a prioridade gritante da execução dos projetos estagnados. Prioridade significa considerar que os recursos destinados a Fundo Eleitoral de 2022 seriam suficientes para a construção de cerca de 800 km de linha férrea, o que equivale praticamente à construção do conjunto da Ferrovia do Frango (Itajaí – Dionísio Cerqueira) e da Ferrovia Interportos (Itapoá – Imbituba) em Santa Catarina. Aliás, outros países entendem seu sistema ferroviário perfeitamente viável como iniciativa privada.     

Por fim cabe mencionar os ganhos ambientais e que não são poucos quando consideramos a queima de milhões de litros de combustível fóssil sendo substituída por energia elétrica, no caso específico do Brasil, amplamente de fontes renováveis e com projetos cada vez menos agressivos à natureza. Em estágio posterior poderá se pensar na complementação do sistema para o transporte de passageiros, idem de longa distância.

 

 

 


sexta-feira, 29 de abril de 2022

O 'Social' Indispensável

O ‘Social’ Indispensável

 

(“The Indispensable ‘Social’ - This text was written in a way to ease comprehensive electronic translations)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Consta no nosso passado um período de cerca de dez mil anos de economia quase exclusivamente agrícola. A vida nesses ambientes era simples e muito homogênea: os mesmos conhecimentos, as mesmas práticas agrícolas, as mesmas ferramentas. Eventuais diferenças econômicas ou sociais eram de caráter individual e decorriam de aspectos concentrados em habilidades ou esforços pessoais, (ressalvadas situações de infortúnio como doenças, incêndios ou catástrofes naturais) e dessa realidade resultaram diferentes graus de ‘prosperidade’ nessas sociedades. Havia, naturalmente, diferenças no padrão de vida entre patrão e trabalhador.

Os objetivos de vida naqueles tempos consistiam em garantir a subsistência, segurança existencial e manutenção do status quo. Termos como progresso ou desenvolvimento não faziam parte do vocabulário. Mesmo trabalhadores rurais sem propriedade usufruíam de relativa estabilidade em seu ambiente de labuta. Nos ofícios, a situação era semelhante. Excluímos aqui as sociedades escravocratas onde o homem era mero ferramental humana que bastava ser mantido vivo. A sociedade em foco desconhecia ideologias e mobilidade social. Por isso é importante que ela seja vista dentro do seu contexto histórico – não cabe qualquer comparação descontextualizada com tempos posteriores. Eventuais e isoladas atitudes ou atividades ‘sociais’ da época limitavam-se à igreja ou partiam do feudo em casos de calamidade geral.

Para o bem ou para om mal, tudo isso começou a mudar com a mudança econômica de agrícola para empresarial/industrial. A simples relação patrão – peão, quando ambos se situaram em níveis muito próximos no manuseio do campo, evoluiu rapidamente para uma hierarquização ampla e complexa, seja ela vertical, seja por aspectos de poder financeiro e econômico, ou por necessidade de qualificação profissional. Resultou daí rápida e inexoravelmente uma nova divisão da sociedade em classes das mais diversas conotações.

Contingentes crescentes da população trocaram a vida de ampla de autossuficiência no campo por outra, fortemente dependente de estruturas urbanas e mecanismos financeiros. Esse novo modus vivendi impôs inusitadas normas de comportamento econômico e social ao trabalhador. A mudança da relação direta trabalho – produto, interpessoal e bastante flexível, para a rígida dependência da posse de meios pecuniários para a obtenção do essencial para a vida resultou numa sensível fragilização existencial. Uma quebra na safra não comprometia necessariamente o sustento do trabalhador rural; uma retração conjuntural, entretanto, podia facilmente significar, por exemplo, risco de fome para o operário em estruturas empresariais.

Somam-se a essa nova realidade os frequentes excessos de um brutal e selvagem capitalismo, desenfreado e descomedido, de uma insipiente sociedade industrial. De uma maneira geral, as condições de trabalho eram péssimas, quando não miseráveis. E isso, num ambiente de pensamento humanista em expansão, levantou vozes denunciando tais abusos e sugerindo medidas para sua remediação – de meras atitudes assistenciais a propostas comunistas e de violência contra o sistema, e que são, incluindo suas consequências, amplamente conhecidas. Num – então – mundo de acentuado desrespeito da dignidade humana eram respostas compreensíveis e eventualmente cabíveis. Entram em cena conceitos como socialismo, seguro social, assistência social, reforma social, contribuição social e outros mais. No entanto, não podem ser extrapoladas de seu contexto temporal e perpetuadas na história.           

Ao longo de dois séculos o assunto ganhou ratio político e registraram-se as contra-respostas na forma de legislações e regulamentações buscando corrigir excessos e abusos e uma maior harmonização entre o capital e o trabalho, cada vez mais dentro de um processo de adequação a conveniências mútuas. Os resultados, embora lentos, também são conhecidos e dispensam comentários. Por outro lado, tentativas de socialização extrema ou comunização de sociedades inteiras revelaram-se inexequíveis e fracassaram diante da extemporização de conceitos e princípios. A evolução de regimes autocráticos socialistas e comunistas – mas também capitalistas – em socialdemocracias é notória.

Num processo evolutivo estabeleceu-se um padrão de coexistência negociável na dependência de parâmetros econômicos, tecnológicos e políticos em constante transformação. Inalterável, entretanto, é uma realidade central da humanidade: somos 7,5 bilhões de pessoas física e mentalmente diferentes, com habilidades, capacidades, aspirações, convicções, sortes ou infortúnios e históricos de vida diferentes (para apenas citar algumas diferenças), redundando, obviamente, em dezenas, centenas de bilhões de decisões diferentes com dezenas, centenas de bilhões de resultados imateriais e materiais diferentes, podendo gerar fortunas e misérias em quaisquer dimensões. Numa outra perspectiva, sociedades complexas significam mais oportunidades, mas também mais riscos, incertezas e desajustes.

Adeus à utopia do fim das desigualdades. Benvindo o ‘social’ para amparar aqueles que ficaram para trás numa sociedade em permanente mudança e avanço. Benvindas também as iniciativas em busca da eliminação da desigualdade evitável e corrigível de chances e de preparo para a vida, que é de responsabilidade da sociedade e da qual a própria sociedade se beneficiaria, Como não existe a coletividade perfeita, o 'social' continuará a ter lugar na sociedade com presença diretamente proporcional à dimensão da população não integrada - seja qual for o motivo - no sistema socioeconômico vigente.

 parte o primitivismo que iguala todo ‘social’ com socialismo ou comunismo, o ‘social’ é, e continuará, indispensável no nosso modelo de vida.

  

  

domingo, 10 de abril de 2022

Infuencer

 

Influencer

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Não preciso de influencer!

O que preciso são:

bons livros para ler,

bons mestres para aprender,

bons amigos para engrandecer,

bons exemplos para amadurecer,

amor para crescer, e

paz para viver!

terça-feira, 22 de março de 2022

Apenas Mais Uma Guerra?

 

Apenas Mais Uma Guerra?

 

(“Just One More War?” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Guerras fazem parte constante da história da humanidade. De tribais a mundiais, as guerras determinaram destinos de grupos humanos e constituições geopolíticas em âmbito global. Conflitos armados e guerras de grande extensão podiam ter as mais diversas causas e origens: choques entre movimentos migratórios de povos nômades, disputa por recursos naturais, de metais e pedras preciosas a terras férteis, conquistas e hegemonias geopolíticas, questões religiosas, étnicas e ideológicas, entre outras de caráter mais pontual e específico.

As consequências sempre foram dramáticas, entre derrotas catastróficas e vitórias gloriosas. Mas não há ganho sem custo – especialmente para o perdedor. Não me atrevo a especular sobre o custo total em esforço e vidas humanas, armas, destruição e reconstrução apenas das guerras dois últimos dois milênios, e o que esses valores, se investidos no progresso da humanidade, representariam em prosperidade atual. Naturalmente, momentos de crise e de necessidades têm sido benéficos ao avanço tecnológico, mas esse certamente teria ocorrido de qualquer maneira, talvez apernas com algum atraso.

Guerras cada vez mais mortíferas – a segunda guerra mundial custo cerca de 65 milhões de vidas, (a população atual da França) – e com perdas econômicas imensas deram origem a inúmeras reflexões e iniciativas governamentais e privadas no sentido de prevenir e evitar um novo cataclismo, talvez de dimensões ainda maiores, e de promover uma coexistência pacífica entre os povos. Ainda assim houve várias guerras teleguiadas em terras de terceiros, longe dos senhores das armas.

Enfim, a Europa, a parte do globo que mais conflitos armados sofreu, conseguiu viver em paz por mais de inusitadas três gerações. Mas não apenas ali, em todo mundo cresceu um sentimento anti-guerra e de busca por soluções pacíficas para eventuais pontos conflitantes entre nações. Obviamente, a consciência da existência de armas capazes de exterminar toda a vida sobre o planeta contribuiu substancialmente para esse novo ideal.

Faltou um teste da consistência e solidez desse novum nas relações internacionais. Não falta mais. Bastou a invasão da Ucrânia pelo exército russo para que o clamor coletivo pela paz e pela rejeição resoluta da guerra invadissem os gabinetes de governos e as ruas ao redor do mundo, inclusive as avenidas dentro da própria Rússia. A habitual indiferença nos países não participados num conflito deu lugar à indignação e ao repúdio geral ao uso de armas, especialmente, à repulsa aos responsáveis no comando dessa invasão armada.

O que de fato surpreende são a determinação, a firmeza e a prontidão com que medidas são tomadas e convertidas em ações concretas, substituindo costumeiras relutâncias, ausências e evasões. O mundo está mostrando que não tolera mais guerras, especialmente quando são invasoras, e que está pronto para responder decididamente e com toda sorte de solidariedade e auxílio na obtenção e defesa da paz.

Seja por receio de um envolvimento involuntário e indesejado ou das consequências indiretas num mundo globalizado, seja pela simples renúncia à violência, mormente às populações civis, conflitos bélicos entre nações terão de contar com um novo combatente: uma força que, além de interferências humanitárias e eventuais auxílios concretos para quem os merece, excomungará da comunidade de nações aqueles países e seus líderes, que resolvem recorrer às armas para alcançar seus objetivos, mesmo que isso exija sacrifícios próprios. Assim, seja qual for o desfecho dessa guerra, dificilmente o atual governo russo terá voz ou auditório para possíveis demandas futuras, o que muito provavelmente servirá de exemplo a eventuais aventureiros geopolíticos no porvir. A Rússia terá de optar entre o ostracismo político e econômico e a aceitação das regras de convivência pacífica que regem o mundo moderno.

Tudo indica que a guerra deixa de ser uma opção para a solução de conflitos. Desde que o mundo se comporte de maneira consequente em suas reações, a humanidade poderá converter a lição em virtude e dar cores à bandeira do “Guerra Nunca Mais”!       

 

 

 

 

 

 

quinta-feira, 10 de março de 2022

A Fênix Sacode Suas Azas?

 

A Fênix Sacode Suas Azas?

 

(“Does the Phoenix Shake its Wings?” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Desde quando grupos de humanos disputavam entre si as terras mais férteis ou as áreas de caça mais rica, conflitos de toda natureza são eventos frequentes e quase constantes da história da humanidade, em geral terminando com vencedores e perdedores – raras conciliações. Quanto mais organizadas as sociedades ao longo da história e quanto maior a eficácia das armas, mais letais e devastadores tornaram-se caracterizaram as hostilidades. Ao mesmo tempo, todas as contendas foram seguidas de iniciativas no sentido de prevenir ou evitar novos confrontos belicosos, seja pela simples dizimação do vencido, seja por meio de acordos ou pactos que garantissem a paz no futuro. Evidentemente, tais tratados não resistiam às dinâmicas geopolíticas que marcaram todas as épocas e ao redor de todo mundo. 

Mas também fazem parte desse cenário os mais diversos conchavos entre sociedades e nações em busca de fortalecimentos – agressivos e defensivos. Todavia, também nesse plano, curtas durações de vigor dos pactos eram a regra. Na história recente, o Tratado de Versailles pós-Primeira-Guerra-Mundial, ou o Tratado de Não-Agressão ente o Terceiro Reich e a Rússia não evitaram, respectivamente, a Segunda Guerra Mundial, nem a invasão da Rússia pelas tropas alemãs.

 Depois dos nefastos resultados da Segunda Guerra Mundial, cristalizou-se um cenário de confrontos entre duas semiesferas ideológicos, cada uma aspirando a hegemonia sobre o globo. A ciência e a tecnologia impediram agressões em grande escala – as armas nucleares de parte a parte, caso usadas, projetariam o que eventualmente restaria da humanidade para dez mil ou mais anos para trás. Estratégias de outsourcing de conflitos pelas grandes potências para palcos sem grande visibilidade e longe dos interesses da maior parte da humanidade, sem ferir os termos de pactos e tratados, por um lado camuflaram os verdadeiros conflitos, por outro serviam de teste e avalição mútua das tecnologias armamentistas e operacionais militares.

Nesse ambiente, três gerações de paz no mundo ocidental, parte geopoliticamente sempre mais turbulenta do globo, fizeram surgir e consolidaram um novum civilizatório – uma decidida e profunda moral anti-bélica e com resultados contundentes. São posturas como a rejeição de nacionalismos irracionais, o conhecimento presencial de outros países, sua gente e seus costumes, laços interpessoais passando fronteiras, para citar apenas alguns fatos, que moldaram novas mentalidades de coexistência e novos padrões de tolerância e racionalidade social.

A metamorfose que deu origem e consolidou uma nova naturalidade ao longo de décadas foi agora sacudida e desafiada por um confronto armado entre nações, exigindo respostas inusitadas. Na sequência, onde pactos não se aplicam ou não podem ser aplicados, emergiu uma nova força – a solidariedade internacional com o agredido, que vai da simples condenação a ações e atitudes concretas. E não sem sacrifícios pessoais e coletivos. Não se tem notícia de demonstrações de protesto em países não diretamente envolvidos por ocasião da eclosão da Primeira ou da Segunda Guerra Mundial, muito menos ocorrendo dentro dos países agressores. 

Cada realidade geopolítica novo suscita respostas novas. Essencialmente, cada reação contém um menor ou maior ingrediente defensivo. Assim, o leque de reações, inclusive a agressões, estende-se da discussão em busca do consenso ao “bater de volta” seja com armas, seja por medidas econômicas. No mundo moderno, os interesses econômicos têm frequentemente se sobrepostos aos políticos – inclusive bélicos. Mesmo com efeitos de sanções econômicas em mercados globalizados tendo duas mãos, numa intensa interdependência econômica, como a observamos nos mercados mundiais de produtos e serviços, as quebras nas cadeias de suprimento e de consumo têm efeitos devastadores iguais, ou piores, a bombas de alto poder destrutivo. Estratégias econômicas, além de atingir o mundo empresarial resultam em privações para a população e, por conseguinte tendem a levar a reflexões e questionamentos e, num estágio mais grave, a resistências e revoltas internas.

No atual confronto entre a Rússia e a Ucrânia observamos cenários bastante diferentes daqueles de guerras anteriores. Em primeiro lugar, o mundo simplesmente não aceita mais guerras com todas as suas atrocidades, especialmente quando atinge a população civil. E as populações envolvidas, ou as solidárias, estão dispostas a mostrar sua indignação na rua – eventualmente sob risco da própria vida. No centro da questão está uma premissa central da humanidade moderna, uma convicção coletiva: a inquestionabilidade do direito de existir de todos, sejam esses indivíduos ou sociedades inteiras. Em segundo lugar, e decorrente desses fatos, seja qual for o desfecho dessa guerra, a Rússia, sob o atual regime, excluiu-se da comunidade das nações, com evidente prejuízo para seu povo, até uma revisão profunda de seus princípios e práticas de governo. No momento, a Rússia pode teoricamente ganhar essa guerra, mas jamais conseguirá estabelecer a paz. A Ucrânia sempre lutará por sua independência, autonomia e autodeterminação de seu destino – com as forças que já constituíram as tropas de elite da Rússia. O tempo quando se podia subjugar um povo passou, e o mundo sairá fortalecido moral e civicamente desse episódio.

Com o fim da Segunda Guerra Mundial, um sentimento de indignação e repúdio à guerra cresceu, e ouvia-se um clamor de “nunca mais” ao redor do mundo. E, de fato, os resultados e efeitos foram uma pacificação geral e duradoura entre povos historicamente envolvidos em enfrentamentos bélicos. Esta postura coletiva, assumida por governos, entidades econômicas e populações, ficou evidente com as intensas e generalizadas manifestações, seja em forma de apelos, de sanções, de condenação ou de maciços protestos populares ao redor do planeta. Como todas as anteriores, também esta guerra terminará e, quiçá, a fênix baterá suas azas para um voo eterno. A atual pandemia e esse conflito dão motivos para muitas reflexões; que delas resulte a paz entre os povos.

- Rezemos!