terça-feira, 11 de junho de 2024

A Caminho do Bem-Estar Global?

 

A Caminho do Bem-Estar Global

(“On the Way to Global Wellness?” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Depois dos tempos áureos da Grécia Antiga e do Império Romano – naturalmente no contexto sociocultural da época –, o mundo ocidental mergulhou num período de mais de mil anos de um crescimento civilizatório no máximo modesto, às vezes de estagnação, às vezes de retrocesso. Mesmo com o desenvolvimento de alguns conhecimentos técnicos, como a rotação de plantio, ou os artifícios da arquitetura, ferraria ou carpintaria, e expansões territoriais via colonizações fora da Europa, foram séculos mais de sobrevivência de povos em áreas rurais do que de progresso consistente. (Evidentemente, elites mandatários viviam outra realidade.) Pouca energia – essencialmente apenas humana e animal – gerava pouca riqueza.

 

Foi a revolução energética com a invenção e o aperfeiçoamento da máquina de vapor nas primeiras décadas do século XVIII, oportunizando a revolução industrial. Em conexão com isso, desencadeou-se um período de progressos extraordinários econômico, social e cultural no mundo ocidental – com diferenças de país a país. Ao mesmo tempo, a Europa tornou-se incubadora de conhecimento. Tratando-se de uma região composta de vários países distintos, cada um com interesses próprios, disputas bélicas eram inevitáveis. Apenas com a democratização europeia pôs Segunda Guerra Mundial mudou esse panorama. Mas o bem-estar europeu, apesar dos revezes sofridos nas duas guerras mundiais, acompanhado de moderado aumento de prosperidade, perdura até hoje, naturalmente com diferenças entre as nações.

 

Era inevitável, que o conhecimento do momento, concentrado na Europa, fosse levado por emigrantes em seu maciço movimento migratório para as colônias inglesas na América do Norte. E isso com um ingrediente especial: migrantes, por sua natureza, são gente determinada e de iniciativa. Daí na conjugação desses fatores, o progresso tecnológico, e consequentemente econômico, europeu encontrou novo solo fértil. Assim, em constante troca com a Europa, os Estados Unidos, oriundos dessa colonização, conseguiram acompanhar e promover a evolução técnico-econômica do ‘Velho Mundo’ e gerar sua própria prosperidade.

 

Véu a Segunda Guerra Mundial, com os Estado Unidos saindo como grande vitorioso. O consequente enfraquecimento econômico europeu reverteu diretamente para um impulso de prosperidade dos Estado Unidos. O progresso tecnológico e econômico daquele pais pós Segunda Guerra Mundial dispensa comentários. Além de promover sua própria prosperidade, o país, envolvido numa disputa ideológica acirrada com a União Soviética, irradiou seus potenciais mundo afora, salvo, ou em menor escala. E nessa disputa ideológica, os Estados Unidos provaram sua superioridade. Depois do Império Romano, os Estados Unidos foram o primeiro país a assumir a liderança – mormente econômica, tecnológica e militar – ‘mundial’.

 

Porém, lideranças não são eternas. Toda riqueza tem seus percalços, entre esses, aspectos competitivos. Um elevado padrão de vida costuma implicar em elevados níveis salariais, abrindo espaço a mercados com custo de mão-de-obra mais favorável. E quem soube aproveitar-se, embora com economia parcialmente planejada, foi a China. Num curtíssimo prazo de pouco mais de três décadas, esse pais conseguiu não somente atrair empreendimentos industriais de inúmeros países industrializados, inclusive dos Estado Unidos, mas também desenvolver seu próprio capital tecnológico. Nesse curto espaço de tempo, a China conseguiu equiparar-se – em alguns aspectos até superar – a infraestruturas do ‘primeiro mundo’ e ocupar posições de ponta em diversas tecnologias.

 

Com tais potenciais, a ocupação do lugar de economia mais poderosa parece ser apenas uma questão de tempo, o que não significa que os outros países prósperos, ou em desenvolvimento, deixem de sê-lo. O fundamento é o conhecimento e esse tende a propagar-se, com ou sem consentimento de seus detentores.

 

Muito embora a dinâmica de crescimento da China esteja começando a perder impulso, seu Produto Interno Bruto (PIB) e PIB per apita continuam aumentando – com reflexos positivos sobre seus satélites econômicos. Nessa altura, pelo menos um terço da população mundial tem atingido níveis, no miminho decentes, de bem-estar.

 

Mas a China não será o último protagonista na liderança da economia mundial. Pois, num mundo de encolhimento populacional em cerca de 25% de seus países, a Índia com uma população de quase um milhões e meio de habitantes (20% da população mundial), ainda em crescimento moderado e com uma enorme reserva de força de trabalho, encontra-se em posição de partida para repetir, obviamente a seu modo, a dinâmica desenvolvimentista da China. Além disso, parece não haver obstáculos ideológicos num povo ansioso de melhorar sua vida.

 

Em 2023, o PIB da Índia – sem passado industrial, e num contexto econômico mundial muito distante dos passados – cresceu 7,6% e é hoje o 5º maior do mundo, devendo dentro dos próximos 4 anos ultrapassa o Japão (4º) e a Alemanha (3º). O Estado investe milhões de dólares em fundos de pesquisa em centros de inovação como o "T-Hub", que segundo as suas próprias informações é o maior do género no mundo. Atualmente, cerca de 350 startups têm seus escritórios aqui, e cerca de duas vezes mais deverão surgir num futuro próximo.      

 

E depois? No horizonte aponta a África, atualmente com 18% da população mundial, e com países em pleno desenvolvimento com a Nigéria e a África do Sul. Possivelmente não será um bloco único, porém num modelo de complementação.       Da mesma maneira como empreendimentos hoje deixam a China para estabelecer-se na Índia, amanhã poderão tomar o caminho para a África. Afinal, o fator custo de mão-de-obra continua tendo sua importância.

 

É preciso frisar que essas substituições na liderança econômica mundial não constituem prejuízo para os anteriores detentores dessa posição, que continuam com sua prosperidade consolidada. Por outro lado, o resto do mundo continuará acompanhando, embora mais lenta e menos intensamente, como coadjuvantes o contínuo progressão da nossa civilização.

 

E o Brasil? Aparentemente não seremos promotores de prosperidade global, mas certamente terremos o papel de contribuinte importante, garantindo recursos básicos e pratos cheios de todo mundo. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

sábado, 8 de junho de 2024

A China e Seu 'Comunismo'.

 

A China e Seu ‘Comunismo’

 

(“China and Its ‘Communism’” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Eis a China, um país com 20% da população mundial, que se autodenomina ‘república popular’ e seu partido único chama-se ‘Partido Comunista Chinês’. Isso, em perfeita harmonia com a existência de estruturas econômicas tipicamente capitalistas. Como assim?        

 

Vejamos então. Em 1949, a União Soviética, saindo vitoriosa da Segunda Guerra Mundial, tinha recentemente logrado a formação de um bloco de países, caraterizado por governos de ideologia comunista. Nada mais óbvio, então, que, dentro de sua ambição visionária de um mundo comunista, se prontificasse a apadrinhar econômica e militarmente o nascimento da “República Popular da China”. O baixíssimo padrão de vida em ambos os países por ocasião da implantação do sistema foi extremamente favorável à aceitação desse ideário político.

 

A princípio, a China seguia o modelo soviético de construir riqueza através de estratégias comunistas, colhendo muitos fracassos e sem conseguir alcançar resultados significativos. Até que, em 1984, o então presidente Deng-Xiaoping fundamentou uma mudança radical quando disse: “O que é socialismo e o que é marxismo? No passado, não estávamos realmente cientes disso”.... “O socialismo significa a eliminação da pobreza. Pobreza em massa não é socialismo e muito menos comunismo”, justificando uma redefinição do sistema chinês “Um país dois sistemas”, na verdade, um pensamento latente desde 1979.

 

Primeiro foram as Zonas Econômicas Especiais, muito bem-sucedidas, mas beneficiando quase exclusivamente as populações urbanas. Em seguida foi o afrouxamento na planificação da política agrária, que acabou garantindo, entre outros resultados positivos, safras suficientes de grãos num país que tem 20% da população mundial, mas apenas 7% das áreas cultiváveis globais). Ao longo do tempo, planificação da economia tem concedido cada vez mais abertura para uma economia de mercado.   

 

Daí não surpreende o gradativo avanço da economia chinesa para o atual segundo lugar, após apenas da dos Estados Unidos. Entretanto, esse avanço está sofrendo uma desaceleração contínua – e significativa. O aumento do produto interno bruto (PIB) chinês, que na década de1980 e 90 teve picos positivos e negativos oscilando entre 14,3% e 3,9%, ultimamente vem decrescendo constantemente desde os 14,3% de 2007 para atuais 5,2% (2023). Na verdade, dentro dos parâmetros passados, a atual economia chinesa está gerando um crescente grau da incerteza. Enquanto empresas nacionais e estrangeiras, há algum tempo, vêm desenvolvendo estratégias para diversos cenários de crise, as universidades colocam duas vezes mais formandos de cursos superiores no mercado de trabalho do que a dez anos atrás – e que podem facilmente ter de aceitar empregos como motorista ou cozinheiro.

 

Atualmente, a economia chinesa está lutando contra a deflação. Em janeiro de 2024, os preços ao consumidor caíram drasticamente: a queda foi a maior registrada pela China desde a crise econômica global em 2009. Especialistas atribuem essa queda dos preços à demanda persistentemente fraca do consumidor.

 

Por outro lado, o pacto social informal – mas na prática especialmente eficiente depois do massacre da praça de Tian-anmen – do Estado garantir da promoção do bem-estar, não admitindo, em contrapartida, de ser questionado, parece começar a apresentar fissuras.

 

Apesar do sistema econômico de livre mercado patrocinado pelo Estado, o Partido Comunista Chinês não desistiu de seu objetivo de construir o comunismo. De acordo com os estatutos atuais do partido, o atual sistema de economia de mercado é considerado um precursor do comunismo. Dessa maneira, a ideia chinesa de comunismo de hoje é fundamentalmente diferente do ideário Karl Marx de 150 anos atrás. De acordo com dados oficiais chineses, o Partido Comunista Chinês de hoje é guiado pelas ideias de Mao-Tsé-Tung, temperadas pelas de Deng-Xiaoping, objetivando a construção de uma "economia de mercado socialista".

 

A ‘Nova Política Econômica’ (NEP) de Lenin foi concebido apenas como uma fase de transição na construção do socialismo e durou apenas de 1921 a 1927. Todo o comunismo soviético implodiu depois de 74 anos, já o ‘comunismo’ chinês em constante flexibilização de seus princípios dura de 1949 até os dias atuais e não há fim à vista.  

sábado, 1 de junho de 2024

Estamos Prontos?

 

Estamos Prontos?

(“Are we ready?” – This text has been written in such a way as to facilitate translations by electronic means)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

A mudança demográfica é um fato. Atualmente 41 (18%) dos 230 países do nosso planeta já apresentam redução populacional, entre eles, países populosos como Japão, Rússia e China. O Brasil, com um crescimento de ainda 0,5%, deverá entrar nesse grupo dentro dos próximos dez anos. Achar que se trata de um simples fato numérico seria leviano. Na verdade, nos espera uma inversão e revisão de uma série de fatos e fundamentos socioeconômicos.

 

É importante notar que os efeitos das mudanças demográficas só se tornarão perceptíveis a médio e longo prazo. Eles não se devem apenas ao nosso modo de vida pessoal, mas também a mudanças sistêmicas na sociedade e na economia. Considerando as mudanças demográficas globais em curso, estes efeitos são inevitáveis.

 

As consequências englobam mudanças profundas e duradouras que deverão prolongar-se, no mínimo, por várias gerações, décadas afora. Elas abrangem um vasto leque de áreas, incluindo a economia, a política social, a de saúde e do meio ambiente.

 

Na economia, um declínio da população pode afetar o mercado de trabalho, reduzindo o número de trabalhadores disponíveis, como já ocorre no Japão. Isso pode levar a uma escassez mão de obra qualificada e inibir o crescimento econômico de uma sociedade, salvo se o avanço tecnológico consiga compensar esse provável déficit nos processos industriais, comerciais e de serviços. Possivelmente haverá necessidade de mais linhas de produção robotizadas, mais comércios autônomos e mais serviços digitais.

 

Mais importante, porém, será uma queda geral de demanda por falta de consumidores, que implicará uma economia deflacionária, uma realidade absolutamente inusitada e difícil de imaginar a partir da nossa história econômica. O pensamento econômico – embora lentamente – terá de mudar radialmente.

 

Já na política social, o envelhecimento da população é fato central a ser levado em conta nessa realidade. Embora o crescimento populacional esteja em declínio, o aumento de expectativa de vida conduzirá a um aumento das despesas com o seguro social. Na verdade, o atual limite de capacidade produtiva aos 65 ou 67 anos já não corresponde mais ao homem, ou à mulher, médio atual. Na verdade, é a faixa etária quando a experiência profissional – e vivencial – faz a diferença. O alongamento da expectativa de vida não se restringe à velhice, mas a todas as fases da vida humana.   

 

Quanto aos cuidados de saúde, uma população idosa precisa de mais cuidados de saúde e cuidados, o que leva a um aumento da pressão sobre o sistema de saúde. Entretanto, uma mudança em curso, no sentido de uma maior concentração na saúde preventiva poderá atenuar esse problema a médio  prazo. A longo prazo, o foco deverá ser a saúde preventiva baseada no rastreamento genético, indicativo para possíveis quadros patológicos eventualmente possíveis de serem inibidos.

 

As mudanças demográficas também deverão ter um impacto sobre o meio ambiente, por exemplo, através de alterações na utilização dos solos e no consumo de recursos naturais. Menos gente consome menos recursos naturais, sejam eles de superfície, sejam de subsolo. Ao mesmo tempo, uma população menor gera menos resíduos, polui menos e viola a natureza em grau menor.

 

Outros desafios estão associados à transformação das estruturas familiares e ao declínio geral da população. Esses aspectos dizem respeito ao desenho da moradia, às necessidades educacionais e também à cultura e aos valores de identidade de uma sociedade.

 

Todos esses efeitos estão interligados e poderão influenciar uns aos outros. Eles exigem respostas coordenadas, sustentadas e de prazo mais curto possível para poder fazer face ao impacto das alterações demográficas e, ao mesmo tempo, manter a qualidade de vida de todos.

 

Não vivemos num mundo estático. Nossa vida, mais ainda a dos nossos descendentes, depende de nossa capacidade de avaliar o movimento presente, seus efeitos e suas projeções sobre o futuro, pois eles dependerão da qualidade e consciência de nossa presença e de nossas decisões.

 

Essas, sem dúvida, deverão ser nossas prioridades políticas para o vindouro.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

segunda-feira, 27 de maio de 2024

'Esquerdas' Históricas Antes da Esquerda

 

‘Esquerdas' Históricas antes da Esquerda

("Historical 'Lefts' before the Left" – This text has been written in such a way as to facilitate translations by electronic means)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

E se ninguém tivesse ousado se levantar?! Por exemplo, contra senhores coloniais, exploradores e opressores. Faremos uma viagem pela memória e apresentamos algumas das maiores revoltas que mudaram o curso da história – ou pelo menos tentaram ...

 

Não fosse um filme de grande sucesso, a figura de Espártaco (Spartacus) provavelmente estaria confinada aos livros de história. Nascido por volta de 111 AC na Tráquia, uma região na atual Romênia e Turquia, Espártaco foi um escravo que se tornou gladiador romano. Em 73 a.C., Espártaco, juntamente com cerca de 70 outros gladiadores, fugiu da escola de gladiadores em Cápua e começou sua luta contra a classe alta romana e pela liberdade dos escravos. Os insurgentes foram capazes de ganhar mais e mais seguidores e seu exército rapidamente cresceu para cerca de 70.000 a 100.000 homens, incluindo muitos escravos.

 

O exército de Espártaco derrotou várias legiões romanas e até conquistou algumas cidades do antigo Império Romano. Apesar desses sucessos, no entanto, Espártaco e seus seguidores não conseguiram derrotar o Império Romano. As tropas romanas finalmente esmagaram a revolta em 71 a.C. e Espártaco foi morto. Muitos de seus seguidores foram crucificados para dar um exemplo dissuasor para outros rebeldes em potencial.

 

O declínio e a morte de Espártaco marcaram o fim da maior revolta de escravos da história romana. Embora sua luta tenha fracassado, Espártaco deixou um legado significativo como símbolo de liberdade e resistência à desigualdade e à escravidão no Império Romano.

 

*

 

Embora tivesse havida levantes camponeses desde o século IX em vários países europeus, no século XVI, ocorrerem as Guerras Camponesas, principalmente no sul da Alemanha. A partir de 1524, os camponeses lutaram contra a nobreza, que os oprimia. Exigiam mais direitos e a abolição da servidão. Não é por acaso que as revoltas camponesas ocorreram durante a Reforma. Martinho Lutero havia preparado o terreno fértil espiritual com seus escritos.

 

Os agricultores naquela época não tiveram facilidade: eles representavam cerca de 80% da população na Idade Média. Eles financiaram a nobreza e o clero com altos impostos. Não possuíam nenhuma propriedade, muitos passavam fome e eram servos dos servos. As quebras de safra e o rápido aumento da população após a grande peste por volta de 1450 agravaram a situação já tensa.

 

Os camponeses sabiam da superioridade militar dos exércitos mercenários. Por isso, os representantes das "turbas" primeiro tentaram fazer valer suas demandas com palavras. Em março de 1525, eles escreveram um panfleto e nomearam suas demandas em 12 artigos.

 

Em abril de 1525, camponeses rebeldes mataram um conde e seus companheiros. Este foi o prelúdio de confrontos sangrentos em várias regiões do sul da Alemanha e nos países alpinos. Como as "turbas" de camponeses não tinham nada a opor ao material bélico e à organização dos exércitos, os canhões finalmente venceram. Cerca de 70 mil agricultores morreram na luta por uma vida melhor.

 

*

 

A Revolução Gloriosa na Inglaterra foi a primeira grande convulsão política dos tempos modernos. Deu origem a uma nova forma progressista de governo, a monarquia constitucional.

 

O pano de fundo é a luta pelo poder entre o parlamento e a coroa. Em 1215, a Carta Magna havia concedido direitos parlamentares, que a representação popular foi capaz de expandir progressivamente nos séculos que se seguiram. No início do século XVII, o trono passou para a Casa de Stuart, cujos governantes queriam reestabelecer o domínio absoluto. Desrespeitaram os direitos do parlamento e, em caso de dúvida, não se furtaram ao uso da violência.

 

A disputa pelo poder evoluiu para uma guerra civil em 1642. As tropas dos parlamentares - o Novo Exército Modelo - eram lideradas pelo nobre Oliver Cromwell. Em 1648, Cromwell venceu a guerra e, um ano depois, o rei Carlos I foi executado. A monarquia foi abolida, a Inglaterra tornou-se uma república.

 

*

 

A França estava falida. Diante disso, o rei convocou uma Assembleia Geral com representantes das três classes sociais, clero, nobreza e povo (90% da população), cada uma com apenas um voto. Enquanto o rei queria cobrar mais impostos, a terceira classe queria mais direitos, como participação política, o direito ao voto, melhores condições de vida e o direito de igualdade para todos os franceses.

 

A iniciativa, além de vir tarde, fracassou pelo formato e a revolução eclodiu em 14 de julho de 1789 com a tomada da Bastilha (prisão dos opositores ao Rei) pela população geral, formada por camponeses, artesãos e diaristas, terminando em 1799 com a tomada do poder por Napoleão.

 

As consequências da Revolução Francesa ainda hoje são a base de nossa compreensão moderna do Estado. Não eram heróis, mas pessoas de seu tempo, que tiveram a oportunidade de romper com um sistema antigo.

 

É importante compreender, no nosso mundo interligado, que também podemos deixar de pé outras culturas e formas de pensar, mas devemos estar conscientes de que os direitos humanos foram duramente conquistados e devemos defendê-los!

 

Fatos históricos vistos percebidos com objetividade e sem pretensões ideológicas.

 

sábado, 18 de maio de 2024

Porque Negar?

 

 

 

Porque Negar?

(“Why Deny?” – This text has been written in such a way as to facilitate translations by electronic means)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

A Terra é um corpo vivo, vivo à sua maneira, mas nasceu, se desenvolveu e, um dia, morrerá. “Da energia criou-se massa que à energia voltará”. É um avida que começou a 4,5 bolhões de anos atrás. E, ao longo do seu amadurecimento tornou-se hospedeira de nós, os seres vivos – vivos à nossa maneira: “Nasceste do pó e pó retornarás”.

 

Esse nosso planeta não é um corpo estável, imutável, existindo num cosmo estável e imutável. Ele possui forças internas e, ao mesmo tempo, está exposto a energias externas e dinâmicas cósmicas. A terra se mexe, por dentro e por fora. Hoje, certamente, não é a mesma de um, dois, ou três bilhões de anos atrás. Somente no último um milhão de anos, houve cinco grandes eras glaciais, com uma soma total de durações de cerca de 650 mil anos. Isso significa que quase dois terços do tempo, nesse espaço de tempo, foi de períodos glaciais, ou seja, de temperaturas mais baixas em todo o planeta – níveis dos mares, idem. (Um período glacial inicia-se e aumenta quando o verão não consegue derreter todo o gelo que se formou durante o inverno anterior, e diminui até terminar quando durante os verões derrete mais gelo do que se formou no inverno anterior.) Além disso, há provas de que, mesmo em períodos mais quente houve épocas de mini-glaciações.

   

Consequentemente, nosso planeta vive, por razões ainda não bem explicadas, mudanças climáticas constantes, isso é, elas são a normalidade.    

 

Por outro lado, existem fortes indícios de que em períodos de camada de ozônio mais espessa, flora e fauna permitiram seres bem mais avantajados do que os que conhecemos hoje. E mais ainda: atividades solares, como as assim chamadas proeminências que lançam luz, material solar e energia solar ao espaço, quando aproximadamente em direção da Terra, podem causar efeitos climáticos significativos.

 

E o homo sapiens entrou nessa história apenas há cerca de 250 mil anos, vivendo integrado à natureza que o planeta lhe oferecia até os últimos três séculos. De então para cá deixou de viver no, e em harmonia com o planeta para passar a viver do planeta e de todos os seus recursos. Tornou-se o ser vertebrado mais numeroso de dessa classe, subjugando as restantes espécies ao seu domínio e arbítrio – o solo, o mar e subsolo da mesma maneira. Ele tornou-se um predador implacável em todos os sentidos.

 

A presença humana na Terra nunca deixou tantas marcas no nosso planeta como nesse período muito recente – e minúsculo em relação à existência da mesma. São combustíveis fósseis, produzindo enormes quantidades de CO2, intervenções na vegetação, seja por desmatamentos, pecuária extensiva, ou monoculturas.

 

Apenas um exemplo factual: para produzir 1 kcal de carne, são necessárias 7 kcal de energia vegetal na forma de ração, e, ao mesmo tempo, 1 kg de carne produzida requer um consumo de 15.000 l. Por outro lado, a produção de 1 kg de carne libera a mesma quantidade de gases de efeito estufa que uma viagem de carro de 250 quilômetros.

 

Nas últimas décadas, essa realidade suscitou dois fatos novos; uma avaliação mais precisa da situação climática e suas dinâmicas, e o questionamento da responsabilidade humana como fator adicional nos efeitos da mudança climática em curso.

 

Essa discussão, por óbvio, não é isenta de interesses. A indústria do petróleo e da pecuária, por exemplo, tentam por todos os meios fazer crer que as mudanças climáticas independem de suas atividades. E talvez têm razão, pelo menos no grau dessa dependência. Afinal, o ‘buraco de ozônio’, que muito preocupava os ecologistas, está diminuindo ao mesmo tempo em que não houve redução significativa, talvez nenhuma, de gases CO2.

 

Entretanto, não há como negar a negação da mudança climática, hoje já diretamente sentida por boa parte da população deste planeta. Pode-se discutir sobre a culpa, cumplicidade ou inocência do homem nesse fenômeno, porém, isso nada muda na situação. Fato é que a humanidade possui hoje tecnologia para neutralizar os efeitos de suas agressões à natureza, com ou sem mudança climática. E toda aplicação econômica de tecnologia gera renda – além de, eventualmente, poder atenuar um processo naturalmente em curso.

 

Qualquer esforço nesse sentido é benéfico – é lucro para a sociedade. Basta ter consciência que talvez estejamos desafiando demasiadamente a capacidade regenerativa do nosso planeta – e não temos outro – para compreender que negar mudanças climáticas em curso nada resolve.

 

A Terra não é mossa, somos apenas fruto dela, dela dependemos e ela determina nosso futuro.        

 

 

segunda-feira, 29 de abril de 2024

Do Terror ao Bicho-Papão

 

Do Terror ao Bicho-Papão

(“From Terror to Boogeyman” – This text has been written in such a way as to facilitate translations by electronic means)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Ideias socialistas são bastante antigas e podem ser observadas desde a Revolução Francesa de 1789. Naquele momento, a Revolução Industrial já está tomando vulto em alguns países com todos os conhecidos abusos sofridos pelos trabalhadores sujeitos às regras (ou a falta delas) do capitalismo emergente. É o período do socialismo primitivo ou socialismo utópico quando se busca um Estado ideal e justo, mas também já idealizando as primeiras formas de propriedade comum.

 

A partir do Manifesto Comunista de 1848 e o livros ‘O Capital’, de K. Marx (por sinal escrito na Inglaterra, naquele momento o centro da Revolução Industrial e seus abusos), ficou consolidado e delineado o ideário comunista, passando a servir de referência a um socialismo mais radical. Por mais que essa ideologia fosse banida pelos governos da época, tanto autocráticos, quanto democráticos, ela encontrou receptividade, e também em virtude desse banimento, ganhou resiliência.

 

Veiou a Revolução Russa de 1917, que não foi uma revolução comunista, mas anti-tzarista, porém, o vácuo de poder que ela causou foi sangrentamente ocupado pelas forças comunistas existentes no país. E a Rússia, em seguida União Soviética (URSS), tornou-se o primeiro país identificado com o comunismo. Vitoriosa na Segunda Guerra Mundial, a URSS anexou praticamente todos os países em sua periferia territorial. A mesma ideologia passou a ser adotada pela China, e posteriormente por Cuba, Congo, Correia do Norte, parte do Vietnam, entre outros, porém nunca de forma democrática, mas como resultado de golpes de estado ou  revoluções, sempre apoiados, inclusive militarmente, pela União Soviética ou a China.   

 

O mundo dividiu-se em dois sistemas político-econômico, o capitalista, em geral democrático, e o comunista, sempre autocrático. O único equilíbrio entre os dois blocos foi o bélico, e esse custou muito caro à URSS com sua economia sempre problemática. Os planos quinquenais da economia soviética fracassaram um após o outro a ponto de repetidas vezes a URSS teve de importar trigo e outros commodities dos Estado Unidos e outros países capitalistas. Sendo um sistema político imposto que não admitia contestação, sempre foi um regime bastante brutal, e nunca fora amplamente sustentado pelo povo. Havia, naturalmente, uma significativa parcela da população simpatizante da ideologia marxista, uma vez que para muitos habitantes em países comunistas houve uma efetiva melhora em seu padrão de vida (mesmo longe daquele dos países capitalistas), mas apenas o rigor - muitas vezes terror – do sistema garantia sua própria subsistência. A mão de ferro era onipresente. Via de regra, especialmente os primeiros momentos da instauração de governos comunistas eram extremamente violentos, usando o terror como meio de submissão.

 

Essa realidade ficou inequivocamente evidente quando, em 1989 caiu pacificamente o Muro de Berlin e em 1991 se dissolveu repentina e quase silenciosamente a União Soviética. Nesses momentos ficou claro que o comunismo não conseguiu se impor como forma de governo exitoso – estava falido. O regime comunista, auto-definodo como progressista (em oposição aos conversadores) deixou poucos progressos, salvo em tecnologias bélicas.

 

Como as ex-repúblicas soviéticas não tiveram qualquer experiência em regimes democráticos tornarem-se presa fácil de poderes autocráticos. No entanto, nenhum desses países voltou a ser comunista, até em alguns casos temos hoje governos conservadores Da mesma forma, nenhum país adotou a ideologia marxista como regime político nas últimas seis décadas.

 

Em nenhum país onde governara, o regime comunista foi a livre escolha do povo (eleições com resultados acima de 95% a favor de candidatos comunistas obviamente não eram limpas), e os poucos países que ainda se dizem comunistas são ditaduras que colocaram o comunismo em suas bandeiras, mas ao mesmo tempo praticam economias de mercado, ou, como Cuba, que vende seu 'comunismo' como atração turística; a China inventou a esdrúxula definição de ‘um país, dois sistemas’.

 

Em síntese, o ideário comunista foi uma resposta utópica a uma realidade de um emergente capitalismo muitas vezes selvagem da incipiente Revolução Industrial, em nada comparável com o capitalismo moderno, cada vez mais em harmonia com regimes políticos socialdemocratas. O colapso sem retorno dessa utopia mostra claramente que o comunismo não cabe nem em governos, nem na cabeça dos cidadãos comuns da atualidade.


Fazit: O comunismo implodiu definitivamente há uma geração atrás, e desde então ninguém, por mais aloprado o saudosista fosse, tentou reerguê-lo.

 

Resta, porém, um papel ao comunismo: servir de bicho-papão como importante anti-herói em campanhas políticas. Sempre haverá pessoas e agrupamentos simpatizantes dos ideais marxistas, da mesma forma como outros pensamentos inusitados e sua presença faz parte da diversidade do pensamento humano. Cada povo tem seus bichos-papão e seus respectivos interessados que os mantêm vivos. Por sorte, bicho-papão é coisa de cabeça e a razão costuma vencer.

 

 

 

sábado, 27 de abril de 2024

Migração no Século XXI

 

Migração no Século XXI

(“Migration in the 21st Century” – This text has been written in such a way as to facilitate translations by electronic means)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Migrações são constantes na história da humanidade desde a saída do homo sapiens do continente africano até as atuais fugas políticas e econômicas. A população brasileira atual resulta em grande parte dos mais de sete milhões de imigrantes que aqui desembarcaram desde 1820. E essa realidade foi causa de uma cultura extremamente tolerante em relação a procedência, hábitos e credos dessa população multi-berço.

 

            A imigração no Brasil foi resultado de uma política de povoar esse imenso país, caraterizada pela harmonia de integração e convivência multi-cultural. Essa tolerância é marca nacional. Aliás, esse cenário é uma grande qualidade das Américas.

 

Mas existem outros quadros. As migrações hoje em curso não têm destinos onde está-se esperando por sua chegada. Quando não são cidadãos que se prevalecem de facilidades como habitantes de ex-colônias e se dirigem em direção aos países ex-colonizadores, são refugiados de zonas de conflitos armados ou simplesmente pessoas em busca de melhores condições de vida, forçando o ingresso nos países de destino e apelando a princípios humanitários de acolhimento. E as nações de destino são infalivelmente aqueles com elevados níveis de prosperidade – América do Norte e Europa.

 

Proporcionalmente, os países europeus são os que registram atualmente os maiores índices de habitantes com passado migratório. Para citar alguns exemplos, esses contingentes perfazem na França 10,3% (quase 7 milhões), na Inglaterra 14,1% (9,5 milhões) e na Alemanha 28,7% (mais de 24 milhões) da população. São situações que obviamente geram controvérsias, não somente pelo volume, mas também pela falta de qualificações para integração nos respectivos mercados de trabalho, constituindo sérios problemas na integração. As sociedades europeias, as objeções e resistências partem especialmente de defensores de um conservadorismo radical. Conservadorismo significa a manutenção de valores tradicionais. E valor tradicional em pais que nunca experimentou a imigração como política demográfica significa a conservação de uma população natural de um país, sem o ingresso de pessoas de outras culturas e religiões.

 

A título de curiosidade, sublinhando a diferença com países de passado fortemente marcado por imigrações de grandes contingentes, o Brasil tem o mérito de extrema tolerância à coexistência de culturas e religiões diferentes. Por essa razão, a tentativa de alguns extremistas de mobilizar a população contra uma suposta islamização não surtiu efeito.

 

Há, no entanto, um aspecto, também demográfico, que merece uma consideração maior. Atualmente, um terço das nações do mundo registram o fim do crescimento populacional ou a redução da mesma, inclusive os três países antes enfocados. Em outras palavras, sem os mencionados habitantes de passado migratórios, as atuais populações da França de 68 milhões, da Inglaterra de 67 milhões e a Alemanha de 85 milhões, seriam, respectivamente França de 61, Inglaterra de 57 e Alemanha de 61 milhões de habitantes. Os reflexos disso sobre a situação econômica e social dessas nações são difíceis de discernir em todas as suas extensões. Certamente apresentariam PIBs bastante inferiores aos atuais, mesmo que os per capita poderiam ser mais favoráveis. O Japão está atualmente começando a sentir os efeitos econômicos decorrentes da diminuição de sua população.

 

Existem chances para uma reversão dessa tendência? Parece difícil, uma vez que nenhuma mulher abrirá mãos de um emprego que lhe rende mil ou dois Euros em troca de um bônus de 500 Euros por filho adicional; ainda mais que os espaços vitais modernos não preveem famílias numerosas.  

 

Diante dessa realidade, cedo ou tarde, as nações nessas condições, sejam elas democracias ou com regimes mais autocráticos, encontrar-se-ão na necessidade de decidir-se por uma das duas opções, encolher deliberadamente, vivendo de grandezas passadas, ou aceitar a convivência e gradual absorção de novos compatriotas com seus particulares valores, suas culturas e seus credos. E isso fatalmente implica no decorrer das próximas gerações em crescentes taxas de miscigenação entre a população originária e imigrantes ou seus descendentes – certamente um pesadelo para os mais conservadores, um problema muito menor para populações jovens. Certamente, os olhos azuis tornar-se-ão mais raros.

 

Nessas últimas considerações, o Brasil pode certamente servir de exemplo de convivência tolerante e harmoniosa.