sábado, 27 de maio de 2023

Mais Filhos?

 

Mais Filhos?

(More children? - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H.G. Rehfeldt

 

A virada demográfica, em alguns países esperada para as próximas décadas, em outros já em curso, é um fato incontestável. Gradativamente aumenta o número de países com declínio em sua população, como a de Portugal (-0,22%), Japão (-0,33%) ou Itália (-0,59%) entre os 30 países atualmente nessa situação. Até a china, um pesadelo nas projeções demográficas, registrou o primeiro crescimento negativo em 2021. A causa central é a queda da taxa de fertilidade por várias razões impostas pela vida moderna (emancipação da mulher garantida pela pílula, o elevado custo dos filhos até sua autonomia econômica, etc.) e que não deverá mudar a curto e médio prazo. Essa tendência promete continuar e, cedo ou tarde, atingir toda a população mundial.

 

De uma maneira geral, essa realidade é vista com um misto de preocupação e indecisão de como reagir. Não sem razão, pois o declínio no número de nascimentos e o simultâneo aumento da expectativa de vida serão um real problema para os sistemas previdenciário. A relação entre um período economicamente produtivo inalterado por definição de lei diante de uma expectativa de vida em elevação certamente requer medidas corretivas. Por outro lado, menos mão de obra, embora com mesma produtividade, significa, grosso modo, um menor Produto Interno Bruto (PIB), o que não necessariamente deve afetar o PIB per capita. (Uma sociedade menor tem obviamente um PIB menor, mas o PIB per capita semelhante a economias maiores.)  

 

A resposta mais fácil, imediata e aparentemente lógica encontrada pelos governos dos países afetados é a proposta da criação de estímulos financeiros ou de outra natureza para as famílias terem mais filhos. A pergunta é: uma redução na população das nações, ou seja, mundial, representa realmente um problema? No caso de um crescimento continuado da população, até que limite nosso planeta consegue sustentar seus habitantes? De fato, trata-se de uma absoluta novidade na história da humanidade, e novidades geram incertezas. Mas encontramo-nos numa situação única de promover mudanças radicais a favor do nosso futuro. Existem aspectos econômicos entendidos como negativos, mas o futuro da humanidade não pode dependem somente de resultados contábeis. O que falta é a identificação de aspectos positivos dessa mudança existencial. E eles existem.

 

No caso da previdência social será preciso que o cidadão, diferentemente do século XIX quando terminou a ‘previdência familiar’ com o trabalho nas minas e nas fábricas e nasceu a previdência tutelada pelo estado, hoje, e no futuro, deverá, pelo menos em parte, ser gestada pelo próprio cidadão, sob pena de ser beneficiado apenas pelo mínimo necessário para uma vida digna. Haverá, sim, a necessidade de repensar e planejar o próprio sustento na velhice. Na verdade, paralelo ao aumento da expectativa de vida, também aumenta a vida produtiva das pessoas. Prova disso é que para muitas pessoas o benefício da aposentadoria é uma renda complementar àquela de uma atividade econômica normalmente executada (mesmo sendo com o suporte medicinal, preventivo ou não, hoje absolutamente normal) depois da entrada no amparo previdenciário.

 

Outra condição consiste numa população progressivamente menor vivendo num mundo de infraestruturas dimensionadas para populações maiores, ou seja, não haverá mais necessidade de investimentos de expansão – de melhoria e modernização, sim. Seria como a população de 1990 dispor de infraestruturas aturais, ou viver hoje com as tecnologias e infraestruturas de 2050.

 

Menos quantidade, mais qualidade. Menos consumo suprido por produções quantitativamente menores, mas crescimento através de qualidade e tecnologia. Não podemos esquecer nesta questão que o atual modelo de consumo num planeta de recursos limitados está condenado inicialmente a um encarecimento dos produtos na medida em que as matérias primas de tornam mais escassos, e finalmente a um colapso. Por outro lado, já estamos vivendo uma mudança do consumo de bens para o de serviços.

 

Por fim, um dos aspectos mais importantes e absolutamente positivo será uma gradual redução dos efeitos da ação humana sobre o nosso planeta com seu meio ambientes. Sejam espaços menores para fins agropecuários, sejam menos matérias primas para a geração de energia ou a produção de bens, seja uma redução em desperdícios e resíduos de toda sorte, ou seja, a redução de todo tipo de poluentes na, no ar e no mar, todos são ganhos indiscutíveis para nosso planeta e sua flora e fauna.  

 

Sem dúvida haverá desde já a necessidade de avaliar as projeções mais diversas nas esferas econômicas, políticas e sociais, onde mudanças importantes já são perfeitamente avaliáveis. No caso brasileiro ainda experimentamos um crescimento populacional diminuto de 0,6%, mas a inversão demográfica não deverá acontecer em não mais de duas décadas, e é preciso que tenhamos consciência dessa realidade, e de uma significativa mudança de mentalidade – a valorização do menos.

 

 

 

 

 

 

 

domingo, 2 de abril de 2023

Etarismo

 

Etarismo

(“Etarism” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Há não muito tempo, um casal de amigos nos convidou, eu e minha espora, de ir a um jantar promocional num restaurante bastante conhecido, mas havia necessidade de uma reserva. Tentei minha reserva por várias vezes, mas sem sucesso. O mesmo casal, ao tentar fazer minha reserva, foi informado que a promoção só valia para pessoa até 65 anos – como temos mais de 80, ficou explicada a reserva inconclusa.

Mais recentemente, na programação de uma viagem internacional, colhi várias ofertas de seguro de viagem, entre as quais, para minha surpresa, uma aceita apenas operações com pessoas abaixo de 85 anos.

 

São duas experiências pessoais e cuja repercussão não extrapolou essa esfera. Houve, porém, recentemente um episódio lamentável, e de ampla divulgação, em que colegas de um curso superior hostilizaram abertamente uma colega de turma em função de sua idade acima de 40 anos.  

 

Quem somos nós, idosos? E quem já éramos? Em culturas antigas, até em civilizações primitivas ainda hoje existentes, o conselho dos idosos era uma instituição indispensável na condução de uma sociedade. Com o correr do tempo e a expansão do conhecimento – em geral melhor dominado pelas gerações mais novas e mais recém instruídas – a sabedoria do idoso passou a ser desprestigiada em favor da cognição de fatos, conceitos e pensamentos mais modernos. Hoje é comum se ver pessoas com idade acima de 50 anos encontrar dificuldades na procura de um emprego, e esses obstáculos crescem rapidamente com o avanço da idade.

 

A era digital agravou ainda mais essa realidade. A rapidez dos progressos tecnológicos exige flexibilidade e dinamismo mentais que se tornam cada vez mais incompatíveis com as posturas conservadores que a pessoa desenvolve naturalmente com o aumento da idade. Nisso sucumbe a verdade de que uma palavra de sabedoria de um velho pode ser muito mais útil do que mil cliques num computador.

 

Tem se a impressão de que o idoso, e mesmo o pré-idoso, está sendo desembarcado da nau que avança rapidamente em direção ao futuro, erroneamente, ele é visto com fardo a ser carregado em vez de lastro que mantem o barco em equilíbrio. E é um futuro que conseguimos vislumbrar, mas, que ninguém consegue definir. Daí um pé no freio pelo velho, no mínimo dá tempo para refletir.

 

Não posso deixar de relatar uma experiência pessoal de não-etarismo, embora ocorrido há mais de duas décadas. Matriculei-me novamente, aos 60 anos de idade, num curso superior. Naquela ocasião, em nenhum momento, sofri qualquer tipo de discriminação. Muito pelo contrário, minha experiência de vida e profissional foi reconhecida e valorizada não apenas pelas minhas colegas de curso – todas mocinha nos seus 20 anos de vida –, como também pelo próprio corpo docente. Aproveito o momento para agradecer muito. Exceção? Na época não. Hoje? Não sei – lamentavelmente.

 

O que me assusta, é a velocidade com que mudam e são substituídos os valores – e as pessoas.

sábado, 25 de março de 2023

A Lucidez Compromete - Ignorar ou Discernir

 

A Lucidez Compromete - Ignorar ou Discernir?

(“Lucidity Obliges - Ignoring or Discerning?” -- This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

‘Vivemos na era da informação, desde a informação corriqueira à mais complexa, da mais clara à mais obtusa, da mais inocente à mais interesseira, da mais consistente à mais enganosa, da mais verdadeira à mais mentirosa. Antes restritas a publicações, mídia escrita, falada ou televisiva, a informação pode hoje transitar através das mídias sociais de cidadão a cidadão, não importa onde se encontra em nosso planeta. Enquanto as bibliotecas se esvaziam, as fontes digitais de informações se multiplicam, e os meios de comunicação interpessoal são inesgotáveis. Qualquer um, pessoa física ou entidade, dispõe de maneiras digitais para propagar quaisquer notícias ou informações em qualquer direção, para qualquer destinatário, seja qual for a qualidade ou o caráter do material informativo –do luxo ao lixo.

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Na outra ponta, o ‘informado’, bem ou mal informado, aquele que se torna consumidor de informação, eventualmente sendo consumidor e difusor ao mesmo tempo. Nesse universo, a grande maioria de informações é, de fato invasiva. São informações que, sem intenção de busca, aparecem e adentram seu mundo – e provocam sua reação.

 

A informação nos cerca hoje em dimensões qualitativas e quantitativas jamais imaginadas, e há consumidor para todas elas. Interessantes, importantes, consistentes e convincentes para uns, inócuas, insignificantes, triviais ou fúteis para outros. Notícias e informações, verdadeiras ou não, agradando a uns, e desagradando a outros, sempre encontram alguém que vê suas ideias ou convicções confirmadas. Até informações técnicas e científicas podem ser contrárias, conflitantes ou discutíveis, mormente quando se situam nas áreas sociais, políticas, ideológicas ou religiosas. E não podemos negar nas mídias sociais o caráter altamente invasivo do nosso espaço privativo.

   

Fazemos automaticamente uma pré-seleção conforme o título da informação, a fonte e o canal, canaliza a informação que agrada, que está em linha com conveniências e convicções, credos e crendices para o imediatamente aceito, ou, caso contrário, para a recusa.

 

 

É notório que nem todo e qualquer informação merece confiança ou é insuspeita, mas, muitas vezes, objetiva defender interesses de toda ordem, quando não procura desinformar ou conspirar. Daí, é preciso saber discernir entre o que merece crédito e o que deve ser visto com cautela. Isso não significa que o que parece suspeito deve imediatamente descartado. É preciso lembrar que o verdadeiro juízo só é possível ser feito conhecendo ambos os lados. O socialismo, por exemplo, não se explica sem o conhecimento do capitalismo.

 

Dessa maneira, fechar-se ao conhecimento do oposto, mesmo não sendo agrado, leva a um unilateralismo que seguramente não conduz a uma avaliação justa e satisfatória na busca da realidade e de uma resposta imparcial. Há quem, pelas mais diversas razões, do simples descrédito na própria capacidade de discernimento ao medo do enfrentamento de uma realidade detestada, simplesmente se exime, se subtrai da confrontação com o adverso, com a informação não desejada, não alinhada com certezas, e antagônica às convicções. É o encarceramento para a unilateralidade, a intolerância e o encolhimento de horizontes, em cela com janela gradeada.

 

Obviamente não é o caso de informações clara e comprovadamente falsas, enganosas ou mentirosas, mas, caso contrário talvez seja preciso uma certa dose de coragem civil e de disposição de mudar ou reformular pensamentos, alas um processo que, consciente ou inconscientemente acompanha toda nossa vida – é o “eu achava que...”. Não existe erro, salvo aquele no qual insistimos – até ter ânimo ou arrojo para corrigi-lo.

 

A conclusão, portanto, cristaliza a constante e indispensável necessidade de uma busca de informações pluralizadas em termos de linhas de pensamento ideológico, religioso etc., enfim, de visões de mundo. A cômoda fixação no habitual, eventualmente no convencional, cada vez mais entra em conflito com o dinamismo do mundo moderno, seja nos aspectos técnicos, seja nos sociais ou políticos, mas principalmente naqueles do conhecimento. Muda o mundo? É bom ficar de olho – talvez seja preciso reformular conceitos.   

 

Mas, afinal, quem diz que estou certo hoje, ou estarei amanhã?

 

 

 

 

 

quinta-feira, 9 de março de 2023

Energia

 

Energia

(“Energy” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

 

A força física do homem, como em todo mundo animal, é diretamente correspondente àquela necessária para garantir a obtenção de seu sustento e eventualmente de sua prole. Esta é uma lei da natureza desde os primórdios do homem. A força física era vital e qualquer deficiência que limitasse essa capacidade do indivíduo comprometia a sobrevivência do portador. E ela regia a vida humana durante centenas de milhares de anos, mais precisamente até o fim do homem coletor, caçador e pescador e do nomadismo.  

 

A fixação na terra e o agrupamento social abriu espaço para novas direções na criatividade, resultando no uso da força animal e na criação de ferramentas como, por exemplo, o arado, seja de madeira, seja de omoplata animal. No decorrer dos últimos poucos milênios, o homem aprendeu a aproveitar a força do vento e da água, mas também aquela do escravo, até desenvolver caga vez mais sofisticados sistemas de geração de energia como a nuclear e o aproveitamento da energia solar.

 

Hoje, geramos energia artificial empregada no forno elétrico na produção de aço e na escova de dentes elétrica, passando por veículos de toda sorte, de utensílios domésticos a telefones celulares, de iluminação e aquecimento a satélites e espaçonaves.

 

Mas o corpo humano moderno continua a gerar a mesma energia média de cerca de 230 Wh (0,23 kWh) do seu antepassado de milhares de anos atrás. O que mudou positiva e progressivamente ao longo de sua história foi sua inteligência. A busca por recursos energéticos acompanhou o conhecimento que levou à invenção de ferramentas, armas, instrumentos e máquinas que proporcionaram maior segurança alimentar, física e social, e, posteriormente, mais conforto, sofisticação e futilidade – com todos os aspectos negativos inerentes como o atual consumo desenfreado e desperdícios injustificáveis.

 

Hoje gastamos recursos naturais na geração de energia que movimenta máquinas agrícolas que produzem alimentos dos quais quarenta por cento não chega ao consumidor e acaba em latas de lixo, ou, especificamente no Brasil, em instalações de criação de gado e produção de carne cujo desperdício ao final equivale a 825 mil bois por ano. E se a produção de energia fosse mais fácil, compraríamos ainda mais camisas ou sapatos que ficam nos guarda-roupa sem jamais ser usadas.

 

Quando antes mencionamos o escravo como fonte energética, hoje nossos escravos e servos têm formato tecnológico. A explicação é simples: na somatória da energia elétrica e fóssil gerada e consumida em nosso país chegamos a cerca de 330 GW (Gigawatts) que divididos pela população de 208 milhões de pessoas resultam numa disponibilidade energética per capita de 1,64 kW/habitante. Isso corresponde à geração energética natural média de quase 7 pessoas o que significa que cada brasileiro tem, além de si mesmo, cerca de 7 escravos energéticos ‘caminhando’ num calcadouro (antigo tambor giratório acionado por pessoas andando em seu interior). Ou seja, 208 milhões de calcadouros com quase 1,7 bilhão de ‘operadores’ seriam necessários para acionar desde fornos siderúrgicos a escovas de dente elétricas, desde navios transatlânticos a geladeiras do mundo moderno. Na dimensão mundial, os atuais recursos energéticos equivalem a algo entre 60 e 70 bilhões de forças humana, de trabalho humano, na forma de água, raios solares, vento, ou matérias fósseis saindo de dentro da terra.

 

O que deve chamar nossa atenção é que apenas 43 % da matriz energética total (elétrica e fóssil) provém de fontes renováveis (hidráulicas, eólicas, solares, geotérmicas etc.); o resto são recursos energéticos de queima única de recursos naturais. Além de serem fontes energéticas poluentes em variados graus de severidade, trata-se de recursos limitados às reservas existentes em nosso planeta, portanto, esgotáveis.

 

Neste contexto, pouco ou nade se fala sobre a energia do solo na forma de nutrientes orgânicos renováveis, e anorgânicos não renováveis.  Em estado natural há uma constante renovação da flora garantida pelo ciclo de vida das plantas e o retorno de sua matéria para a terra. Quando, no entanto, houver um processo vegetativo acelerado ou intensivado como o encontramos na produção intensiva de produtos agrícolas (alimentares e energéticos), a fertilização e correção do solo torna-se indispensável. Especialmente no caso do Brasil com suas volumosas exportações de produtos agrícolas é preciso alertar que junto com os produtos exporta-se a fertilidade do nosso solo, mesmo levando em consideração que o país disponha de reservas de recursos naturais para fertilizantes químicos para os próximos cem anos.

 

O progresso da humanidade está diretamente ligado e dependente da disponibilidade energética. Que as futuras necessidades sejam cobertas por energias renováveis e limpas e os desperdícios disciplinados. Não há vida sem energia, e a médio e longo prazo nem com energia suja.     

 

       

 

 

 

 

 

domingo, 5 de março de 2023

A Caminho da Democracia Direta.

 

A Caminho da Democracia Direta.

(“On the Way to Direct Democracy.” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Eleições de chefe de estado em 2052. Não estarei mais aqui, mas posso imaginar que o voto sairá diretamente do celular, ou outro dispositivo digital de uma tecnologia hoje nem sonhada. Afinal, a evolução da TI das últimas décadas, e de IA recente não somente permitem, mas praticamente asseguram uma projeção dessa ordem. Mas isso serias apenas um aspecto da realidade política daquele momento futuro.

 

Muito, muito diferente das épocas iniciais da democracia da Grécia antiga na sua forma de democracia de assembleia. Ali, e então, a democracia ática é um precursor embrionário de uma ordem política baseada no princípio da soberania popular. Naquela ocasião desenvolveu-se um tipo constitucional que pode se tomar de modelo e experiência histórica nos esforços mais recentes em busca de regimes de política representativa, ou seja, de trespostas democráticas. A semente grega germinou durante um período relativamente curto para depois entrar em longa hibernação durante mais de dois milênios, para então desabrochar e produzir frutos de múltiplas colorações: da democracia autocrática (um contrassenso) e fictícia encontrada em alguns regimes autoritários, como na República Popular da China, à democracia direta encontrada na Suíça, talvez sendo a forma mais próxima de uma democracia ideal.

 

No formato suíço, ao contrário de uma democracia representativa, na qual os cidadãos elegem seus representantes que tomam decisões políticas em seu nome, na democracia direta (ou plebiscitária), as decisões políticas são tomadas diretamente pelo povo via plebiscito. O objetivo da democracia direta é traduzir a vontade do povo em decisões políticas de maneira tão autêntica quanto possível. Obviamente, condições específicas do país, como longa tradição democrática, padrões socioeconômico0s e culturais bem estabelecidos, estabilidade política, entre outros, garantem o sucesso desse sistema.

 

Entretanto, uma democracia direta absoluta é praticamente impossível diante da complexidade e a dinâmica evolutiva de amplo espectro das sociedades modernas. O que, por exemplo, se mostra viável numa pequena nação como a Suíça pode ser quase impraticável em outra com uma população de centenas de milhões de habitantes, emergente e em desenvolvimento econômico e social e permanentes ajustes político-administrativos. O que, porém, se mostra factível seria alguma forma híbrida entre democracia representativa e direta. Questões que afetam direitos e obrigações fundamentais do cidadão poderiam ser decididos por plebiscito, ou seja, por manifestação direta da vontade desse cidadão, como também casos de grande relevância – por exemplo, a mudança de regime presidencialista para o semi-presidencialismo, ou parlamentarismo. Essa prática ganharia especial legitimidade em nações com voto obrigatório. Se essa nova realidade aumentaria, por um lado, a identificação do indivíduo com a coisa política, por outra, reduziria a proeminência da figura do representante político.

 

O que não podemos ignorar é uma manifestação de democracia direta surgindo nos últimos anos nas ruas ao redor do mundo na forma de demonstrações espontâneas, embora nem sempre pacíficas. Se não constituem mecanismos der efeito legal, têm mostrado um poder de pressão cívica bastante grande e em alguns lugares conseguido atitudes ou mudanças fora ou contra as vontades do governo.    

 

Naturalmente haverá obstáculos importantes numa eventual transição de um regime de democracia representativa para a direta, mesmo no formato híbrido da semidireta, nem tanto na operacionalidade de um sistema plebiscitário, mas na própria vontade política. Uma barreira indubitável consistira nos cortes, nas amputações auto-impostas em suas atribuições por parte do congresso (melhor, dos congressistas), que teria de aprovar a transição. Todavia, uma transferência de parte do poder do congresso ao próprio cidadão seria extremamente salutar.

 

O mundo atual já dispõe de tecnologia e recursos de comunicação de extrema eficácia no que se refere a operacionalidade de plebiscitos, e o futuro promete enormes aprimoramentos possíveis primeiras práticas de democracia direta no futuro. Vivemos hoje – e muito mais no futuro – num mundo online e sem a presença física nos eventos dos quais participamos, proporcionando-nos uma liberdade espacial quase ilimitada. Nada mais obvio, portanto, que processos cívicos, como eleições e plebiscitos, deixarão de exigir a presença do cidadão na urna.

    

O que, evidentemente, falta erradicar neste momento é a eventual vulnerabilidade dos sistemas digitais a invasões e violações criminosas e, consequentemente, o fortalecimento da credibilidade nas tecnologias e suas capacidades. Creio que o avanço no campo da Inteligência Artificial ofereça soluções também para isso.

 

Mesmo com momentos difíceis, a democracia tem se fortalecida nas últimas décadas, como tem fortalecido o respeito pelo cidadão, mesmo que esse nem sempre tenha revelado maturidade cívica suficiente para respeitá-la.     

 

 

 

segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

Limitarianismo

 

Limitarianismo

 

(“Limitarianism” - - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

O termo é amplamente desconhecido, mas, em princípio, o limitarianismo questiona como o estabelecimento de certos limites para os seres humanos pode levar a resultados positivos e o conceito costuma ser usado em determinadas abordagens filosóficas. Recentemente, porém, ganhou destaque no contexto socioeconômico. Nessa esfera, a essência da questão é que bilionários ao redor do mundo estão chegando à nada prosaica conclusão de que não deveriam existir bilionários. Mas é bom lembrar que, embora sendo um argumento central do socialismo e que vem de longa data, esse questionamento não parte de alguma esquerda política, mas de dentro do cerne do capitalismo.

 

Os últimos dois séculos trouxeram um fenômeno novo para nossa civilização: a crescente concentração de riquezas em mãos de cidadãos comuns, fora da esfera aristocrática. Ao lado das centenárias riquezas dinásticas começaram a surgir aquelas oriundas de empreendedorismo, capacidade intelectual ou espírito inovador e desbravador. O resultado foi a constituição, concentração e reprodução de capitais necessários para fomentar o desenvolvimento de economias em rápido crescimento. Como atrás dessas iniciativas havia pessoas, essas obviamente foram remuneradas com lucros correspondentes. Na verdade, no sistema capitalista, a partir de um determinado nível de riqueza, sua acumulação não é mais resultado de empenho do detentor, mas simples efeito de reprodução do capital.    

 

Por um lado, justificando-se pelo próprio sistema capitalista, ressuscitaram por outro os antigos questionamentos de cunho religioso da legitimidade e licitude social e moral da riqueza de uns na presença de pobreza de outros, mas agora de ordem política. E eles se tornam mais intensos e relevantes na medida em que a desigualdade econômica e social está aumentando, embora não necessariamente por um crescente empobrecimento na base da pirâmide de renda, mais sim, do expressivo enriquecimento na sua ponta.

 

Como atitude voluntária e meritória, a filantropia faz parte da nossa história. Por exemplo, em 1521, Jakob Fugger inaugurou na cidade de Augsburg, Alemanha, uma vila para abrigar famílias em situação econômica difícil. (Até hoje existem 150 moradias em três ruas de sobrados, servindo ao mesmo fim – com aluguel de 0,88 € por ano.)  É um caso notório, até pela duração de sua existência, mas ele não é único. Sem entrar no mérito da razão, existem numerosos exemplos da prática de filantropia, seja ela eventual, seja rotineira, e em determinados casos, os montantes são expressivos. Porém, os resultados também, quando confrontamos o que significa o desembolso de 100 mil para um bilionário, e o que representa um ganho no mesmo valor para uma costureira ou um motoboy?

 

Numa postura mais radical, por ocasião do Fórum Econômico de Davos 2023, um grupo de mais de 200 super-ricos de vários países (nenhum brasileiro) está propondo outra solução. Partindo da realidade de que riqueza adicional a partir de certo ponto nada acrescenta porque ninguém, por exemplo, consegue viver em três iates ao mesmo tempo, o grupo propõe um imposto de alguma maneira correspondente à parte da riqueza impossível de ser usufruída, nem pelas próximas gerações, Diz parte da proposta textualmente: “Bilionários e milionários viram sua riqueza crescer em trilhões de dólares, enquanto o custo de uma vida simples agora está paralisando famílias comuns em todo o mundo A solução é simples para todos verem. Vocês, nossos representantes globais, devem tributar a nós, os ultra-ricos, e devem começar agora. - É um investimento no nosso bem comum e num futuro melhor que todos merecemos e, como milionários, queremos fazer esse investimento.

 

A fundamentação do grupo é simples: Desde 2020, a riqueza combinada dos bilionários aumentou US$ 2,7 bilhões por dia (dados da Oxfam), e que o 1% mais rico da população mundial acumulou quase dois terços de toda a riqueza mundial – seis vezes mais do que os 7,2 bilhões de pessoas que compõem os 90% da restante população.

 

Tributação significa a disponibilização de recursos para redistribuição de renda através de programas governamentais. Nesse sentido, a proposta, além de surpreendente e louvável, não apenas terá efeitos sociais e econômicos mediante da inclusão de segmentos populacionais na sociedade economicamente ativa, mas, ao mesmo tempo, serve para aplainar arestas político-ideológicas.    

 

Entre altos e baixos, a humanidade amadurece ao longo de sua evolução, lenta, mas constantemente, e parece delinear-se mais um passo nessa direção, lento, mas promissor.     

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

Câmbio e Paridade de Poder de Compra

 

Câmbio e Paridade de Poder de Compra

(“Exchange and Purchasing Power Parity” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Em seu discurso no Fórum Econômico Mundial 2023, em Davos, a Ministra do Meio Ambientes, Marina Silva, afirmou que no Brasil “120 milhões estão passando fome”. Isso seria quase 60 por cento da população do país, obviamente uma asserção altamente leviana e questionável. Duas hipóteses oferecem-se na tentativa de explicar uma manifestação claramente ficcional diante de uma plateia tão importante: a dramatização forçada de uma situação apenas parcialmente verdadeira, ou a utilização (voluntária ou não) de parâmetros impróprios e inadequados. O primeiro pressuposto encontra sua resposta nas artimanhas da política, já o segundo merece uma reflexão mais aprofundada.

 

É comum que dados econômicos e sociais no plano internacional e de comparações mundiais utilizam o US-dólar como referência para fins de confrontação. Ocorre que o câmbio bancário ou comercial utilizado para tais comparações e compensações é um instrumento de mercado de procura e oferta, mas não reflete de uma maneira clara realidades conjunturais e socioeconômicas de uma nação. Um exemplo simples, utilizando o câmbio entre Euro e Real: o aluguel de uma moradia de dois quartos numa cidade média europeia gira em torno de 1.000 €, o que corresponde a cerca R$ 6.000 ao câmbio atual.  Entretanto, um imóvel em condições semelhantes deve oscilar no Brasil em média entre R$ 1.500 e 1.800. Ou então, se uma refeição em restaurante de categoria média custa em torno de R$ 50,00, ela deveria custar nos Estados Unidos, ao câmbio atual, cerca de US 10,00, quando, na realidade esse preço encontra-se ao redor de US$ 40,00.

 

 Outro exemplo: Um padeiro nos EUA tem uma verba de US$ 600,00 para comprar açúcar, cujo preço é de US$ 1,00 por kg, e ele compra 600 kg do produto. Seu colega no Brasil, para comprar 600 kg de açúcar ao preço de R$ 4,00 por kg necessitará uma verba de R$ 2.400, o que, ao câmbio de R$ 5,00/US$ representa US$ 480,00. E o colega alemão, com 540€ (= US$ 600), compra somente 270 kg de açúcar ao preço local de 2,00€ o kg. Nenhuma taxa de câmbio explica.    

 

O câmbio tem seu papel indispensável no mercado de divisas, onde compara e estabelece o valor das moedas (sob influência de instabilidades geopolíticas, mudanças conjunturais ou até anomalias climáticas), mas não espelha a diferença no poder de compra dessas moedas nos respectivos países. Estabeleceu-se antão a assim chamada Paridade do Poder de Compra (PPC) como uma métrica usada na macroeconomia e que relaciona as moedas de diferentes países ao respectivo poder de compra a uma "cesta padrão de bens e serviços" (alimentos, habitação, transporte, impostos, etc.). Com isso, essa paridade permite que os economistas comparem a produtividade econômica e os padrões de vida entre os países.

 

A fórmula para obter esse índice é simples: P (paridade) = custo da cesta de bens e serviços na moeda 1 ÷ custo da cesta de bens e serviços na moeda 2. Com o UD-dólar como referência e um poder de compra com valor 1, resulta da aplicação dessa fórmula no caso do Real que enquanto, com o câmbio em torno de R$ 5,00/US$ o d´lar se mostra cerca de cinco vezes mais forte que o Real, o poder de compra do dólar é atualmente apenas 2,5 vezes maior que o poder de compra do Real. (A título de curiosidade, enquanto USD$ 1,00 vale atualmente 380,00 $ argentinos, o poder de compra do dólar é apenas cerca de 50 vezes maior.)               

 

Neste ponto evidenciam-se as diferenças nas situações do turista e do residente num país estrangeiro. O turista compra sua moeda estrangeira pela taxa de câmbio comercial (p.ex., R$ 5,00/US$), paga US$ 40,00 por um almoço, isso é, o equivalente a R$ 200,00. Já o residente num país estrangeiro vive seu poder de compra com relação à sua renda na moeda local. Aqui é importante frisar que a PPC é uma média dos produtos e serviços da cesta e é maior ou menor para cada produto ou serviço individualizado, no caso das refeições, ela é de apenas 1,25.

 

Uma particularidade curiosa encontramos na zona do Euro onde, apesar da moeda comum, diferentes países apresentam paridades de poder de compra diferentes em relação ao US$, como, p.ex., Alemanha com PPS 0,736, Grécia com 0,546, e Portugal com 0,627, refletindo as diferenças de estruturas e resultados econômicos entre eles.

 

De uma maneira geral, a Paridade de Poder de Compra permite comparações socioeconômicas mais reais entre as nações, mesmo com a ressalva do valor de referência 1 não ser um parâmetro absoluto, mas estar vinculado a um país, no caso os EUA, cuja economia possui suas dinâmicas próprias. Mesmo assim, na determinação dos valores do seu Produto Interno Bruto (PIB), alguns países já levam a Paridade de Poder de Compra em consideração.  


Voltando ao discurso de Marina Silva, conclui-se que ela tomou como base a linha de pobreza de US$ 10.000 anuais, usada em países desenvolvidos. Isso são ao câmbio atual R$ 52.000 no Brasil – um erro absurdo e inadmissível.