quarta-feira, 15 de janeiro de 2025

Perspectivas para o Consumo do Futuro

 

Perspectivas para o Consumo do Futuro

 

(“Prospects for Future Consumption” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Ao longo da história da humanidade dos últimos milênios, a economia nunca evoluía linearmente.   Depois da fixação na terra, da urbanização e da constituição de nações, a economia de conquistas – territoriais e de recursos – de persas, gregos e romanos, produzindo tributos e mão de obra (energia) escrava, acabou num vazio econômico de séculos, marcado pelo esforço individual de subsistência em regime de feudos e vassalos, com a igreja cristã pregando a pobreza como virtude para chegar a vida eterna. A economia era marcada pelo escambo, em seguida, da introdução de moeda de troca de ouro nas sociedades urbanizadas.

 

Véu a revolução industrial com a disponibilidade de novos bens consumíveis, acabando na economia de consumo, fazendo dela seu esteio principal, e em vigor até hoje - e com consequências dramáticas. Maior capacidade de produção requer maiores mercados de consumo. Por outro lado, ao longo da vida, existe uma evolução natural na capacidade de consumo, caraterizada por um crescente poder de compra, acompanhando o aumento de prosperidade em função de progressos pessoais e profissionais, resultando em aumento contínuo individual. Outrossim, a mulher entrando no mercado trabalho foi, e continuará sendo, um potencial adicional na compra de itens pessoais. Como resultado, entre outros, o consumo desenfreado acaba por consumir enormes recursos naturais num planeta finito, e quantidades imensas de resíduos e desperdícios, orgânicos e inorgânicos, além de poluições de tola natureza – e em toda a natureza, da atmosfera ao subsolo.  

    

Diante disso, o que virá depois? Qual será o consumo do futuro? Para isso parece importante ver o consumo do futuro por três aspectos distintos: o como consumir, o conteúdo do consumo e as circunstâncias conjunturais. Na verdade, todos eles já vêm lentamente delineando seu rumo futuro.

 

Qual será então o comportamento do consumidor no futuro? Certamente ajuda observar a evolução do consumo em sociedades onde o consumismo não apenas começou mais cedo que no Brasil, mas também funcionou (ou ainda funciona) com maior intensidade – e que já estão entrando numa retração (geralmente setorial) do consumo. Especialmente, nessas economias já se percebe em consequência disso uma tendência consumista que se ajusta e responde a novos tipos de tecnologia, produtos sustentáveis e personalizados. Os consumidores procuram receber experiências perfeitas, produtos ecologicamente compatíveis, bem como ofertas personalizadas que atendem às suas necessidades, valores e expectativas particulares.

 

Quanto ao conteúdo do consumo porvir, sem dúvida, devemos esperar que o ‘consumo pelo consumo’, p.ex., a compra por impulso, do perfeitamente dispensável, ou como adequação a modismos extravagantes (com muita técnica estimulados pelos mercados), não terá futuro. Continuará, evidentemente, aquele em atendimento às necessidades básicas para garantir uma existência decente e confortável. Em outras palavras, haverá um deslocamento do desnecessário para o essencial.

 

Por outro lado, a tendência de ‘menos objetos, mais serviços’ já está claramente presente. O orçamento doméstico restringe cada vez mais a compra de produtos fora das necessidades básica, destinando crescentes valores ao uso de prestação de serviços, da frequência a restaurantes à utilização de veículos por aplicativo e a viagens de cruzeiro. Prova disso é, já agora, a substituição no        trabalho da indústria como maior empregador pela área de serviços. Outra particularidade observa-se no aumento da busca pelo conhecimento e do saber. A educação deixou de limitar-se ao preparo para a vida e profissional de crianças e jovens para ser objeto de aprimoramento durante toda a vida. Seniores em bancos de escola ou universidade deixam de ser algo extraordinário.

 

Com relação a fatores conjunturais, especialmente com foco em aspectos demográficos, observam-se dinâmicas importantes, moldadoras do consumo futuro. Especialmente, duas mudanças nessa área merecem uma atenção especial. Há várias décadas (no Brasil desde a virada do século) registra-se uma sensível redução na taxa de fertilidade das mulheres, resultando numa gradual queda na reposição populacional. E essa dinâmica, com o passar do tempo, projetar-se-á para idades maiores, afetando negativamente todo o mercado de consumo.

 

Numa outra dimensão, desde meados do século XIX, a expectativa de vida estás tendo um aumento contínuo e significativo. Entretanto, a pessoa idosa costuma reduzir seu consumo gradativamente para o essencial, no restante se limitando à manutenção de seu status quo. Todavia, essa população terá uma necessidade maior de contratar serviços, de saúde a cuidador. Essa mudança, entretanto, parece não ser de duração indefinida, pois os seres vivos não são eternos, mas têm tempo de vida limitado.

 

Outro processo demográfico em curso é a fragmentação da grande família para a família nuclear. Para o consumo, isso significa mais unidades familiares, demandando maior número de móveis, utensílios e aparelhos domésticos – inclusive um novo padrão de moradia.

 

Tudo isso exigirá que os mercados produtivo e de consumo substituam o habitual crescimento linear por uma flexibilidade capaz de uma constante adaptação aos contínuos efeitos dessas dinâmicas - dentro de uma economia que promete ser cada vez mais circular (reutilização, reciclagem, reparação e renovação de produtos e materiais).

 

Resumindo, diante das considerações acima, há a certeza de que o consumo do futuro não continuará o mesmo, mas passará para outra fase. Tudo indica, que novos valores, novas aspirações, novas constelações familiares e novo recursos tecnológicos devem mudar, talvez profundamente, o comportamento de consumo. O prazer da vida pelo prazer de viver, a certeza da mudança do ter para o ser, possivelmente introduzirão um novo minimalismo sustentado em high-tech. Os mercados terão de repensar suas estratégias e suas políticas, enfim, o cerne de seus negócios.

 

Aguardemos. Nossa Mãe Terra ficará profundamente agradecida. 

 

 

 

quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

Artigo 1º

 

Artigo 1º

(“Article 1” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

O objetivo deste texto é uma confrontação e, ao mesmo, demonstração dá evolução da política, e da multiplicidade de princípios básicos constitucionais e padrões de convívio de várias nações, bem como sua alma histórica e raízes culturais. Diferentes povos, diferentes visões e aspirações - e caminhos para alcançá-las. 

 

A mais antiga lei básica, a britânica, não tem artigos, nem sequer está escrita. Entretanto, ainda em plena Idade Média, a Carta Magna é o documento assinado por João Sem Terra. Seu Artigo 1º diz:

“Em primeiro lugar, concedemos a Deus e confirmamos por esta nossa presente carta para nós e nossos herdeiros em perpetuidade que a Igreja Inglesa deve ser livre e ter todos os seus direitos plenamente e suas liberdades inteiramente. Além disso, concedemos e damos a todos os homens livres de nosso reino para nós e nossos herdeiros em perpetuidade as liberdades escritas abaixo para ter e manter para eles e seus herdeiros de nós e nossos herdeiros em perpetuidade.”

 

É de 1787 a primeira Constituição dos Estados Unidos, então formados de 13 Estados, e ela está em vigor até os dias atuais. Eis, seu Artigo 1º:

Seção 1. Todos os poderes legislativos conferidos por esta Constituição serão confiados a um Congresso dos Estados Unidos, composto de um Senado e de uma Câmara de Representantes.”

 

A segunda mais antiga constituição democrática é a francesa, pós-Revolução Francesa de 1789, promulgada em 1791, e fortemente apoiada na dos Estado Unidos. Seu Artigo 1º cita:

O povo francês, convencido de que o esquecimento e o desprezo pelos direitos naturais do homem são as únicas causas dos infortúnios do mundo, resolveu expor numa declaração solene estes direitos sagrados e inalienáveis, para que todos os cidadãos, capazes de comparar em todos os momentos os atos do governo com a finalidade de toda instituição social, nunca se deixam oprimir ou aviltar pela tirania, para que o povo tenha sempre diante dos olhos as bases da sua liberdade e da sua felicidade, o domínio magistrado dos seus deveres, o legislador o objeto de sua missão.”

 

Essas Constituições serviram de base para muitos países, mesmo que os regimes fossem autocráticos. Assim, a primeira Constituição do Brasil de 1824 reza em seu Artigo 1º:

“O IMPERIO do Brasil é a associação Política de todos os Cidadãos Brasileiros. Eles formam uma Nação livre, e independente, que não admite qualquer outra laço algum de união, ou federação, que se oponha á sua Independência.

 

É notável a mudança de foco no mesmo país ao longo de 158 anos para a edição de 1988:

“Art. 1.º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado democrático de direito e tem como fundamentos: I - a soberania; II - a cidadania; III - a dignidade da pessoa humana; IV - os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa; V - o pluralismo político. Parágrafo único. Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição.”

 

Outros exemplos de Artigo 1º das respectivas Leis Básicas são:

 

Da China:

“A República Popular da China é um Estado socialista subordinado à ditadura democrático-popular da classe operária e assente na aliança dos operários e camponeses. - O sistema socialista é o sistema básico da República Popular da china. É proibida a sabotagem do sistema socialista por qualquer organização ou indivíduo.”

 

Do Irã, depois de um longo preâmbulo:

“A forma de governo do Irã é a de uma República Islâmica, endossada pelo povo do Irã com base em sua crença de longa data na soberania da verdade e na justiça corânica, no referendo de Farwardîn 9 e 10 no ano de 1358 do calendário islâmico solar, correspondendo a Jamadial-'Awwal 1 e 2 no ano de 1399 do calendário islâmico lunar [29 e 30 de março de 1979], através do voto afirmativo de uma maioria de 98,2% dos eleitores elegíveis, realizada após a vitoriosa Revolução Islâmica liderada pelo eminente marji' altaqlid, Ayatullah al-'Uzma Imam Khumayni.”

 

Da África do Sul, de 1996, revisada em 2012:

“A República da África do Sul é um estado soberano e democrático fundado nos seguintes valores: -  a dignidade humana e o avanço dos direitos e liberdades humanas. – Não-racismo e não-sexismo. – Supremacia da Constituição e do Estado de Direito. – Sufrágio universal de adultos, uma lista nacional de eleitores, eleições regulares e um sistema multipartidário de governo democrático, para garantir a responsabilização, a capacidade de resposta e de abertura.”

 

Da Alemanha, de 1949:

“A dignidade humana é inviolável. Respeitá-la e protegê-la é obrigação de todo poder estatal. O povo alemão, portanto, professa direitos humanos invioláveis e inalienáveis como base de toda comunidade humana, de paz e justiça no mundo.”

 

Diferentes povos, diferentes histórias, diferentes culturas, diferentes religiões, diferentes costumes, diferentes princípios de organização das sociedades, todos, porém, em busca de bem-estar e felicidade.  

sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

A Fralda, um Ícone da Sociedade de Consumo

 

A Fralda, um Ícone da Sociedade de Consumo

(“The Diaper, an Icon of the Consumer Society¨ - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Em climas mais quentes, os bebês provavelmente ficavam quase nus e não enrolados. Nossos bebês originalmente sempre carregado¨s, passando a maior parte do tempo em contato físico com a mãe. Então ela também sentia quando seu filho devia que evacuar e ela simplesmente segurava o bebê longe dela. Este ainda é o caso de muitos povos primitivos hoje. Já em áreas mais frias, peles de animais provavelmente eram usadas e enxaguadas quando sujas.

 

Existem registros de enrolamento que foram criados cerca de 600 anos antes de Cristo. Naquela época, os recém-nascidos eram completamente embrulhados com fitas. Musgo, feno e palha serviram como material absorvente. Existem também registros semelhantes do Egito, bem como da antiguidade grega e romana.

 

No século 18, as fraldas mudaram na Europa. Agora as mulheres tricotavam calcinhas de lã de ovelha para seus bebês. Elas os encheram de feno e palha. Isso resultou em uma fralda muito permeável ao ar. A calcinha de lã não precisava ser lavada após cada uso, mas apenas seca e recarregada.

 

À medida que os tecidos de algodão se tornaram mais acessíveis, os panos substituíram as fraldas de lã. Três panos foram usados para trocar fraldas. Um pano foi embebido em azeite, gordura quente ou cera de abelha para selar o pacote de fraldas. As fraldas sujas eram enxaguadas e depois fervidas em água quente. O pacote de fraldas ainda era muito permeável ao ar.

 

Até aqui, a história. – Na década de 1950, as calças de plástico agora deviam facilitar a troca de fraldas. Isso tornou possível estender consideravelmente os intervalos de embalagem. No entanto, o ambiente quente e úmido das fraldas em embalagens herméticas deu origem ao problema das assaduras.

 

Em 1961, a empresa Procter & Gambel introduziu com sucesso a marca Pampers nos EUA. A primeira fralda tinha uma forma retangular simples. Numerosas camadas de papel crepom serviram como núcleo absorvente e uma folha foi usada como proteção contra umidade. No entanto, o problema das assaduras ainda não foi resolvido. As mães simplesmente se acostumaram com um bumbum dolorido ao longo do tempo. Pós e pomadas fazem parte do equipamento padrão do trocador. Além disso, com a introdução da fralda descartável, as fraldas de pano foram retratadas como anti-higiênicas, fedorentas e elaboradas demais para fins de marketing.

 

Hoje, os varais com longas filas de fraldas ao vento sumiram da paisagem. E os tanques e tábuas de lavar não existem mais. Em compensação, cada mãe consome apenas no primeiro ano de seu bebê cerca de 2.700 fraldas descartáveis, a um custo expressivo. Por outro lado, no Brasil nasceram 2,5 milhões de bebês. Isso significa que num ano, cerca de 6,75 bilhões de fraldas vão para o lixo, não reciclável, depois de poucas horas de uso. O custo e astronômico, cerca de R$ 6,75 bilhões (tomando por base o preço de R$ 1,00 por fralda descartável) ao ano. A economia de consumo vibra e aplaude – o meio ambiente, nem tanto.

 

E aqui cabe uma reflexão. Hoje não existe mais nem tanque, nem tábua de esfregar, nem varal. Existe uma máquina que lava, enxagua e seca – apenas não dobra – onde as fraldas de pano representariam apenas parte de todo seu serviço. E muitas famílias possuem-na.

 

De fato, alguma coisa está mudando com o ícone fralda. Um pioneiro no retorno das fraldas de pano é a Inglaterra. Aqui, os futuros pais são sistematicamente instruídos em cursos preparatórios para trocar fraldas descartáveis por outras de pano. Os serviços de fraldas são indispensáveis e, assim, são emitidos vouchers para fraldas de pano. E cada vez mais pais também estão optando novamente por fraldas de pano. Nossas avós ainda sabiam muito bem o que a pele sensível de um bebê precisa: luz, ar e umidade. Além disso, as propriedades benéficas da ureia eram conhecidas e utilizadas. Não houve problemas com assaduras, fungos e inflamação. Esse conhecimento foi transmitido de geração em geração. Hoje, os estudos confirmam o que nossas avós já sabiam. É assim que as fraldas de pano modernas estão reconquistando trocadores.

 

Eis apenas um exemplo de consumismo altamente questionável num mundo em constante mutação. Cabe repensar todo consumo quando se torna irracional diante tais mutações de parâmetros.

 

 

 

 

 

 

quarta-feira, 27 de novembro de 2024

O Mito da Superpopulação

 

O Mito da Superpopulação

 

(“The Myth of Overpopulation¨ - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

O medo de um crescimento populacional explosivo remonta ao século XVIII. Naquela época, o pastor e economista britânico Thomas Malthus alertou que um número crescente de pessoas inevitavelmente levaria ao empobrecimento, à fome e às guerras. Para evitar essa "armadilha populacional", Malthus propôs a abstinência e a abolição da ajuda aos pobres. Suas teorias são baseadas em ideias darwinistas sociais, parcialmente eugênicas, e foram refutadas repetidas vezes.

 

Era um medo fundamentado. Afinal, a população mundial no início daquele século é estimada em cerca de 600 milhões de pessoas, e estima-se que tenha aumentado para 970 milhões de pessoas até o final do mesmo. Talvez não se tenha tido dados estatísticos razoavelmente precisos naquela época, mas certamente percebeu-se a mudança demográfica na vida cotidiana, principalmente a expansão das cidades. Em suma o crescimento da população global daqiele século excedeu o crescimento acumulado dos cinco séculos anteriores.

 

Não se tratava de um fenômeno somente europeu. Se por um lado observou-se a ocupação maciça das Américas por contingentes europeus, por outro, o Império Chinês continuou sua expansão na Ásia até atingir sua maior extensão em 1759, resultando em prosperidade econômica e um forte crescimento populacional.

 

E não parou ali. O século XIX registra um aumento demográfico global de 900 milhões para 1,65 bilhão de habitantes mundiais, ou seja, um aumento de 83,3%. No entanto, pior ainda foi a explosão demográfica do século XX, daquele 1,65 bilhão para 6,17 bilhões de humanos, significando um aumento de 373,9%, numa espantosa média de 3,7% por ano, ou seja, essa média de uma década equivale ao aumento demográfico do século XVI inteiro!

 

Um detalhe dessa expansão demográfica é que ela se concentrou no hemisfério norte do globo, em rápido desenvolvimento, não por acaso em consequência de ter abrigado a parcela da humanidade mais exposta a desafios existenciais ao longo de sua história. As causas principais dessa expansão a partir do dos séculos XVIII e XIX foram uma gradual melhora na segurança social e os recursos médicos mais desenvolvidos e sofisticados. Observamos um crescimento populacional que obviamente começou a deixas suas marcas na florescente economia e prosperidade geral, não esquecendo, por ouro lado, os efeitos colaterais negativos, mesmo que inicialmente ignorados.        

 

Hoje, a população mundial soma cerca de espantosos oito bilhões de seres humanos, o mamífero de porte mais numeroso do planeta (em segundo lugar está o boi doméstico com cerca de 1,5 bilhão de indivíduas).

 

Mas algo ocorreu desde fins do século XX. Vários fatores, como o controle de natalidade pela própria mulher em busca de autonomia social e profissional, ou a intenção de garantir um futuro próspero aos filhos, entre outros, começaram a determinar uma redução gradativa na taxa de natalidade por mulher. No espaço de tempo de apenas três gerações, as famílias com seis, oito, dez, ou mais filhos viraram história. Atualmente, a média mundial caiu para 2,3 filhos por mulher.

 

Mundialmente, mesmo na África, as taxas de auimento populacional estão em declínio. Na Ásia, por exemplo, esse crescimento, que era de 4,0% ao ano durante o século XX, diminui para 1,1% na década de 2010/20. Nas Américas, a respectiva queda foi de 5,9% para 2,1%. Já na Europa, a mencionada redução foi de 0,8% para 0,15%.

 

As causas dessa mudança demográfica são bastante sólidas e convincentes de que não se trata de um fenômeno espontâneo e transitório. Daí os mais diversos órgãos nacionais e internacionais, que operam estatísticas e projeções demográficas, preveem um crescimento zero para a população mundial para algum momento entre 2060 e 2100 – sendo continuamente corrigidas para baixo. E esse mesmo momento será o ponto inicial para o decréscimo demográfico mundial. Não se trata de um fenômeno simultâneo, e na realidade em vários países, como Japão ou Itália, já registram crescimentos negativos.

 

Percebe-se que não se trata de uma ruptura com repentinas consequências catastróficas, porém de um processo lento, permitindo os ajustes conjunturais necessários, seja no mundo econômico, seja no administrativo de cada sociedade. Possivelmente haverá necessidade num novo modelo existencial, caraterizado por alto nível tecnológicos, dando suporte a uma população cada vez menor. O resultado será um cenário vivencial inédito: o patrimônio público e privado construído    por gerações anteriores, mais numerosas, estará à disposição de populações cada vez menores. De qualquer maneira, é impossível prever como uma sociedade, depois de um longo passado de crescimento em todos os sentidos, lidará com essa nova realidade.

 

 

 

 

 

 

 

sábado, 9 de novembro de 2024

Hegemonias Não São Eternas

 

Hegemonias Não São Eternas

 

(“Hegemonies Are Not Eternal” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Hegemonias vem e vão. Supremacias vem e vão. Isso é uma constante histórica da humanidade desde quando estruturada em sociedades organizadas. Há milhares de anos, prosperidades regionais fizerem surgir sociedades fortes com potencial de expansão territorial e consequentes domínios de povos próximos menos afortunados. Sem esquecer evoluções civilizatórias no mundo asiático, conhecemos as primeiras estruturas estatais política e economicamente fortes surgidas no 4º milênio a.C. na Mesopotâmia, depois no Egito ao longo do rio Nilo (mas, menos notavelmente, também na costa do Pacífico sul-americano).

 

Um marco na história antiga foi o surgimento do Império Romano, que acabou por impor seu crescente poder militar, político, mas também cultural no sul e sudeste europeu, no Oriente Médio, ao redor do Mar Mediterrâneo e em terras germânicas. Durou de 27 a.C. a 1453 d.C. — um total de 1.480 anos para depois implodir.

 

Nos séculos XII e início do XIII, de origem asiática, o Oriente Médio, mas principalmente a Europa, foram alvos da expansão do Império Mongol, que, em seus avanços bélicos, chegou a formar o maior império contíguo da história, cobrindo 27,3 milhões de quilômetros quadradas de terra. O império teve 110 milhões de pessoas entre 1270 e 1309. Acabou sendo um império insustentável em sua época e desapareceu do mapa.

 

Depois de um vácuo secular, embora e paralelamente à expansão do cristianismo como fator de determinação civilizatória em terras europeias, o Império Otomano estabeleceu uma supremacia política e religiosa no espaço mediterrâneo, chegando ao seu auge entre os séculos 16 e 17 d.C., cobriu partes de três continentes para então lentamente sucumbir.

 

Com as iniciativas desbravadoras hispânicas, e portuguesas, dos séculos XVI e XVII, as supremacias territoriais começaram a ter origem europeia. Os continentes, americano, africano e asiático eram imensos, praticamente sem oferecer resistência à ocupação – e subjugação. Entretanto, depois de apenas o Império Hispânico, em seu auge, atingir uma soma de territórios de 13,7 milhões de quilômetros quadrados no final do século XVIII, iniciou-se um gradual declínio com um recuo final aos domínios limitados à atual península hispânica. – Impérios vem e vão.

 

As mesmas precondições favoráveis deram origem à quase simultânea construção do Império Britânico. Esse tornou-se o maior império da história, dominando quase um quarto do planeta. Motivado pelas explorações portuguesas e hispânicas, seu início deu-se no final do século XVI. O Império Britânico impôs a sua supremacia política, económica e militar ao redor do mundo, principalmente depois da derrota de Napoleão em 1814 e até ao início do século XX.

 

Em seu auge em 1920, o Império Britânico cobria 35,5 milhões de quilômetros quadradas, o que representava quase um quarto da área terrestre do mundo, e no qual “o sol não se punha”. Em 1913, o Império Britânico controlava 412 milhões de pessoas, o que representava 23% da população mundial na época. No entanto, ele começou a declinar após as duas guerras mundiais, quando a Grã-Bretanha ficou enfraquecida e endividada. A Grã-Bretanha também perdeu parte do seu poderio económico face a concorrentes como os Estados Unidos e a Alemanha. – Foi uma transição sem traumas nacionais.

E foram exatamente os Estado Unidos, como os grandes vencedores da Segunda Guerra Mundial, que assumiram uma nova liderança socioeconômica, política e cultural no mundo, apenas contestada pelo regime ideologicamente oponente da União Soviética ao longo de quase cinco décadas de Guerra Fria até a implosão do mundo comunista. A hegemonia norte-americana estendeu-se, direta ou indiretamente, pelos cinco continentes. Não foi uma supremacia territorial, mas um forte domínio – senão dependência – econômico, às vezes, político, especialmente sobre os países do assim chamado Terceiro Mundo. Uma hegemonia praticamente global.

 

Todavia, ao longo da história dos últimos milênios, nenhuma supremacia, hegemonia ou liderança conseguiu ser eterna. Assim e por enquanto, lenta, mas continuamente, outro candidato a líder econômico mundial já está se destacando – a China. Achando um compromisso entre uma doutrina político socialista e uma economia de mercado, ao longo dos últimos 40 anos avançou de um PIB de 190 bilhões de dólares, ou seja, insignificantes 6,5% dos 2,9 trilhões de dólares dos Estados Unidos em 1980, para atuais 18,3 trilhões de dólares, significando quase dois terços dos 29,17 trilhões estadunidenses. Um avanço, sem dúvida, espetacular, e, embora de impulso mais reduzido, promete continuidade. Ao lado de outros atores relevantes, outros aspectos determinantes: sua capacidade tecnológica e seu mercado de consumo interno, que é quatro vezes maior que o norte-americano.

 

A liderança econômica dos Estado Unidos está ameaçada? A lógica histórica e as evidências dizem que sim, e a admissão não será fácil no mundo da informação global. E acabará ali? Certamente não tão breve. A Índia está revelando progressos expressivos. E, quem sabe, ainda existe o continente africano. Hegemonias não são eternas. 

          

 

 

 

 

 

 

 

 

 

quarta-feira, 2 de outubro de 2024

A China e Seu Futuro Incerto

 

A China e Seu Futuro Incerto

 (¨China and its Uncertain Future¨ - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Durante quatro décadas, a China apresentou um crescimento conjuntural inusitado de sua economia. Nesse curto período, conseguiu um avanço econômico, especialmente uma industrialização, para cuja concretização os países de economias prósperas da Europa, do Japão e dos Estados Unidos necessitaram três séculos. Consequentemente apresentou uma estonteante média entre 1985 e 2010 de taxas de crescimento de seu PIB de 10,12%, e do PIB per capita de 8,18%.  

 

Esse ciclo começou na década de 1980 com transição do regime de comunismo marxista para um socialismo apoiado numa economia – ‘um país, dois sistemas’. Resultou disso uma abertura para o mundo com um consequente impulso notável de upgrade tecnológico e crescimento econômico, com picos de aumento de PIB de 14,2% e PIB per capita de, 13,6% – obviamente não sustentáveis no longo prazo.

 

O esteio central da consecução dos objetivos da nova concepção política foi a admissão maciça de investimentos externos, mormente na área industrial de bens de elevado valor agregado. Se essa importação de meios produtivos levou, por um lado, a um significativo aquecimento econômico, por outro, serviu – nem sempre por processos legais – à aquisição de conhecimentos tecnológicos. Além disso, o emprego de milhões de trabalhadores criou um potente mercado de consumo interno. Já no mercado externo, conseguiu se tornar rapidamente competitivo, especialmente com produto baixa valore qualidade, principalmente em função da mão de obra barata, mas também de incentivos governamentais (não raro chegando a dumping).   

 

Uma consequência direta e imediata desse desenvolvimento foi uma intensiva urbanização da população chinesa. Desde 1978 houve um crescimento média da população urbana de 4,1% ao ano, resultando hoje num índice de 66,2% desse segmento populacional, ou seja, são 933 milhões de pessoa, enquanto 477 milhões vivem em áreas rurais. Enquanto isso, a população total do país cresceu numa média de 1,0% ao ano, enquanto a população rural diminuiu 0,7% ao ano.

 

O resultado foi uma explosiva indústria da construção, seja para a área residencial e empresarial, seja para a implementação de uma gigante infraestrutura. Metrópoles surgiram nos recantos mais remotos, bem como vastas redes rodoviárias e ferroviárias, em tempos recorde. Ao mesmo tempo, uma série de fatores, por exemplo, a reduzida capacidade de produção agrária, levaram o governo a adotar uma rígida política de controle de natalidade – a política do filho único.

 

Recentemente, alguns dos parâmetros centrais que sustentam desenvolvimentos como China começaram a sofrer graduais declínios em seus índices, resultando num gradual desaquecimento da expansão econômica. Em 2023, essas taxas caíram para o PIB em 5,2% e para o PIB per capita em 5,3%. Os fatores são vários.

 

São vários os fatores. A área industrial está enfrentando várias adversidades. Uma é a cada vez maior escassez de mão de obra, provocando pressões salariais, consequência da prolongada política do filho único. Esse mesmo fator, dando origem a uma atual população de crianças, adolescentes e idosos perfazendo 60% da população total, deu origem a um encolhimento do consumo interno. Uma significa repatriação de indústrias para seus países de origem é outra consequência.    

 

Como em muitos países consumidores de produtos chineses ocorre o mesmo fenômeno, em futuro próxima também o mercado externo tenderá a encolhe – por um lado devido ao mesmo fenômeno de redução dos mercados de consumo nesses países, por outro, em decorrência da necessidade de proteger sua própria produção. Uma eventual reversão futura para um novo crescimento populacional tornar-se-á bastante difícil, uma vez por tratar-se de uma tendência mundial (com poucas exceções), por outro lado em virtude de toda a infraestrutura habitacional das últimas décadas, de moradias a áreas comuns, foi construída para a família nuclear de um só filho. Numa outra esfera é preciso ter em mente que uma urbanização em ritmo e extensão como a chinesa só se faz uma vez.  

 

Seria ingênuo acreditar que se trata de um problema somente interno da China. Em escala menor ou maior, a China tem relações comerciais de importação e exportação com a quase totalidade dos países ao redor do mundo, com isso evidentemente transferindo reflexos de sua situação para outras nações e outros mercados, tanto maiores, quanto for a intensidade desse intercâmbio. Entre esses parceiros, o Brasil é um dos maiores e, ao mesmo tempo, mais distantes, com vias de transporte longas e custos de frete altos. Isso significa que, em caso de cortes por parte da China, especialmente de produtos agropecuários e minérios, o Brasil estará entre os primeiros a ser atingido por tais medidas.

 

A situação chinesa que está se delineando certamente será um duro golpe na globalização, porque a prioridade de proteger dos mercados internos será vital. Obviamente, todos esses fatos não ocorrem do dia para a noite, porém, cabe que, mesmo acontecendo gradualmente ao longo das próximas décadas, deverão ser percebidos para permitir as devidas reações cautelares.  

 

 

 

 

 

 

 

sexta-feira, 27 de setembro de 2024

Democracia?

 

Democracia?

 

(“Democracy?” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

 

A palavra democracia ("demos" – o povo, "kratein" – governo) se traduz literalmente como "governo do povo". Ela descreve um regime no qual os cidadãos podem ter uma palavra no governo, por exemplo, por meio de eleições, votos ou participação em discussões. É tarefa da política adoptar regulamentos vinculativos para a coexistência de todos os cidadãos. As regras são geralmente adotadas pelos parlamentos na forma de leis, estabelecendo direitos e deveres tanto de cidadãos, quanto de governantes. Assim, uma das características mais importantes de uma democracia é a existência de um parlamento que realmente decide as leis.

 

Embora tenha raízes rudimentares na Grécia Antiga e no Império Romano, é uma forma de governo de aplicação relativamente recente em escala mais ampla, seguindo a séculos, até milênios de regimes autocráticos, sejam eles monarquias ou ditaduras. Ao longo da história desses governos absolutos, na realidade, houve tentativas de romper com o poder absoluto, como, por exemplo, a revolta dos escravos no Império Romano, o lendário Rei Artur em sua távola redonda, ou as guerras dos camponeses na Europa central da Idade Média. Mas somente a Revolução Francesa conseguiu dar um passo decisivo em direção à democracia. Enquanto os primeiros movimentos contra governos autoritários buscavam a libertação de excessos opressivos e a participação e co-determinação nos mesmos, com a Revolução Industrial começa a surgir a nova classe social dos trabalhadores urbanos assalariados, e com ela a categorização entre ideologias até então inexistentes, embora inicialmente sem clara identificação e presença política. Entretanto, evidenciou-se o jogo entre situação e oposição como essência da democracia – sem elas, não há democracia.  

 

Atualmente, a grande maioria das democracias estabelecidas existe a menos de um século. Em outras palavras, somente as últimas duas a três gerações viveram essa nova forma de governo, e as autocracias ainda habitam o subconsciente dos cidadãos. Os restantes governos – autoritários – são, ou fingem de ser ostensivamente de extrema esquerda.

 

 

Consequentemente, não é de se estranhar que o grau de maturação de sistemas democráticos depende diretamente do tempo de existência em cada nação. Quanto mais jovens a democracias são, menos consolidados são seus princípios entre os cidadãos e os próprios políticos, deixando espaço para as mais diversas anomalias, desde poderes mal definidos e indisciplinas governamentais a privilégios indefensáveis garantidos aos delegados do povo.

 

Não existe solução ideal no atendimento de aspirações, interesses e objetivos de todos os cidadãos, mas a democracia permite que ideários e posições coletivas e diversidades - absolutamente naturais - tenham voz e vez. Daí o confronto dos defensores de tais diferenças e visões ideológicas é inevitável e salutar. Os debates resultantes dessas disputas têm por consequência evidenciar abordagens diferentes, propostas diferentes de soluções e caminhos diferentes para alcança os anseios e objetivos de um povo. As soluções propostas acabam por ser temperadas e moderadas por posições opostas, finalmente alcançando um compromisso, idealmente, um consenso.

 

Essa é a situação ideal – na prática, quase uma utopia. Lamentavelmente, as situações de fato, podem distanciar-se radialmente desse ideal, obviamente conforme a maturidade do sistema e de seus participantes ativos. Quando, então, numa série de debates pré-eleitorais no maior colégio eleitoral de uma nação dois desses encontros servem exclusivamente para a desconstrução dos candidatos competidores, e somente na última ocasião, depois de constar o estrago feito, começam a aparecer algumas propostas, parece justo questionar a qualificação desses candidatos para representar e liderar milhões de pessoas. É bem verdade, que eles são produto de uma cultura de práticas políticas que deixam a desejar. Pior ainda quando se observam assassinatos de candidatos em plena rua.         

 

Culpa dos políticos, sim, mas também do eleitor que não se decide de recusar seu voto neles quando não se mostram à altura de seu cargo e da conduta exemplar que deveriam ostentar. Outrossim, o eleitor merece respeito ao invés de ser exposto a um show de baixarias e agressões por parte daqueles que pretendem decidir pelo seu destino. Somente respostas e posturas consequentes por parte do eleitor são capazes de empurrar o sistema para a maturidade.

 

Uma democracia, na qual os opositores passam a se enxergar como inimigos a serem destruídos, perde sua essência e deixa de fazer jus ao nome.