sábado, 29 de agosto de 2020

O "Great Reset"

O "Great Reset”

 

(‘The Great Reste’ - This text was written in a way to ease comprehensive electronic translations.)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

A evolução da nossa civilização tem sido um sucesso inegável. Mas surge uma pergunta: para onde essa evolução levará a humanidade? Nossa sobrevida, até dois séculos atrás absolutamente sustentada por meios e produtos naturais, é crescentemente assegurada por artifícios sintéticos de toda natureza. Nossa expectativa de vida em ascensão resulta da medicação intensiva – preventiva e corretiva – da população idosa. Nossa sociedade de consumo – espontâneo ou estimulado – escasseia nosso recursos naturais e, ao mesmo tempo, nos cerca cada vez mais de lixo e subprodutos – nocivos de vários modos. Os avanços tecnológicos resultam em benefício de segmentos populacionais cada vez mais restritos, porque economicamente mais prósperos, e, enquanto grandes riquezas são construídas em tempos cada vez mais curtos, uma enorme parte da população consome produtos cada vez mais ‘baratos’, de preferência fazendo uso de uma sistema de crédito predatório. Por fim, o desenvolvimento econômico está seguindo em via de oito pistas em direção a um imenso deserto, um deserto de lixo, de um planeta de recursos exauridos, de frustrados consumidores des- ou subempregados ou de futuro profissional incerto, de manifestações climáticas extremadas – e oásis de prosperidade.

É um quadro sinistro, mas não necessariamente desesperador, pois cresce a consciência da seriedade da situação e do futuro preocupante. Pessoas de destaque na política, na economia e no terceiro setor estão levantando a voz em alerta e apelo pela busca de soluções. Enquanto o foco do último Fórum Mundial da Economia em Davos, Suíça, era a mudança climática, o fundador e presidente executivo desse evento refere-se ao próximo fórum em janeiro de 2021 com as seguintes palavras: “[...] precisamos de um “Great Reset” (Grande Reinicialização, ou Rearrumação) do capitalismo. – É nosso dever restabelecer um sistema funcional de cooperação global inteligente, estruturado para enfrentar os desafios dos próximos 50 anos”.

Existem atrás desse termo de impacto já algumas ideias e propostas razoavelmente bem definidas. Elas concentram-se em tópicos como: economia orientada para aspectos sociais, modelo de ensino, redistribuição de renda, cooperação entre países prósperos e aqueles econômica e socialmente mais carentes, comprometimentos ecológicos, enfim, um redesenho de toda a estrutura socioeconômica.

São metas e objetivos antigos. O que muda são os protagonistas e é o momento. Além dos tradicionais promotores e participantes do fórum, milhares de startups, jovens e de sucesso levarão novos impulsos, novas concepções e novas visões do mundo para o próximo Fórum. Por outro lado, a covid-19 evidenciou – escancarou – realidades intoleráveis e insustentáveis, e isso de forma inesperada e altamente impactante.

Obviamente, esse resenho das matrizes e linhas mestre da nossa civilização deverá envolver restrições e delimitações em nossos padrões de vida, e isso, desde já, está causando reações contrárias. Porém, é preciso convencer-se que quanto mais postergarmos essa rearrumação inexorável e inevitável, mais radicais serão as medidas corretoras e mais incisivos os efeitos.

Assim, vale a pena olhar atentamente para Davos em janeiro de 2021.         


segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Falando em Medicamentos...



Falando de Medicamentos...

(‘Speaking of Medicines…’ - This text was written in a way to ease comprehensive electronic translations.)

Klaus H. G. Rehfeldt
(Economista e Assist. Social)

Aposto que poucas, muito poucas pessoas têm noção de dimensões e proporções com relação aos remédios que tomam, sejam eles receitados ou de escolha em automedicação. Um comprimido de analgésico com poucos milímetros de diâmetro alivia a dor em pouco tempo e é isso que importa e o recomenda em futuras situações idênticas – ou parecidas.
Entretanto, o assunto merece algumas reflexões. Não estamos falando de algum medicamento específico, mas em termos gerais. Partimos então com um exemplo sobre dimensão e dosagem. Qual é a realidade de um comprimido qualquer que chamaremos de ‘XYZ’ de, por exemplo, 5 mm de diâmetro, pesando cerca de 0,5 grama (embora sua conformação física seja irrelevante para os efeitos medicinais) e cuja bula indica uma dosagem de 20 mg.
Dessas indicações resulta que tal comprimido contém apenas 0,02 g de substancia ativa (fármaco ou princípio ativo). Em outras palavras, 0,02 g, duas centésimas partes desse comprimido bastam para alcançar os efeitos procurados.
Há no entanto, outro aspecto a considerar nas nossas reflexões. Ainda não dispomos de uma maneira de direcionar uma medicação diretamente ao local de atuação, através da nano-medicação, ainda em fase de pesquisa. Portanto, a substância ativa distribui-se por todo o corpo – de maneira homogênea ou heterogênea. No caso da distribuição homogênea, ou seja, igual por todo o corpo, voltamos ao analgésico tomado contra uma dor de cabeça. Como a cabeça com um peso médio de 5 kg representa apenas 7% da massa corporal de uma pessoa de 70 kg de peso. Desta maneira, apenas 7% dos 20 mg de substância ativa do mesmo chegam à cabeça, isso são meros 0,0014 g. Já na distribuição heterogênea, certos tecidos ou órgãos não dão acesso a determinadas substâncias ativas e o fator de distribuição torna-se mais favorável, porém sempre haverá uma perda do fármaco pelo corpo. Aliás, é no fator de distribuição que reside a causa de muitos efeitos colaterais indesejados.  
Assim, falando em medicamentos, seu uso é coisa muito séria, especialmente num país de altíssimas taxas de automedicação – de especificidade de remédio e dosagem - e baixíssimos níveis de conhecimento. Percebe-se dessa forma que nosso corpo é extremamente sensível à presença de substâncias ativas e suas dosagens e os riscos no uso inadequado de qualquer medicação são imensos.


domingo, 26 de julho de 2020

Covid-19 Responsabilidade Coletiva



Covid-19 – Responsabilidade Coletiva

‘Covid-19 – Collective Accountability’ - This text was written in a way to ease comprehensive electronic translations.)

Klaus H. G. Rehfeldt

Ao longo de muitos anos de atuação na prevenção de dependências químicas escutei muitas vezes em resposta à abordagens réplicas como “a vida é minha, faço com ela o que eu quiser”, “a droga é minha e ninguém tem nada a ver com isso”. Lamentavelmente, percebe-se hoje com frequência uma atitude semelhante com respeito à adoção de medidas protetivas, como máscaras e distanciamento físico, diante da pandemia da covid-19.
Quando tal atitude não reflete simples ignorância deixa claro um forte sentimento de egoísmo, ou total ausência de espirito coletivo. Ignorância, ou mera falta de discernimento, do fato de que cada cidadão é parte de uma sociedade intradependente em função da integração social, econômica e política de todos os seus membros. É uma permanente troca entre a geração de bens e seu usufruto.             O início da vida, a infância e a adolescência de cada um representam um elevado ônus para a coletividade, que começa no pré-natal e na maternidade e se estende por toda a fase de educação e formação profissional, sempre em presença da garantia de subsistência, segurança e saúde. Esse ônus, como também aquele gerado pela população idosa, é compensado pela produção auferida pelo segmento economicamente ativo da população.
Em outras palavras, o trabalho não reverte apenas em benefício do trabalhador, mas, através das suas contribuições tributárias e da utilidade rendida à coletividade, garante o desenvolvimento e o sustento das parcelas populacionais não produtivas. Este é o pacto socioeconômico sem o qual uma sociedades não persiste.
A longa tradição de vivência deste pacto, como o observamos, por exemplo, nas nações europeias e forjada em históricas adversidades (guerras, epidemias, catástrofes naturais) tem favorecido o surgimento e a consolidação de um espírito coletivo muito presente, mas mais difícil de encontrar em nas nações mais jovens e com história sem maiores convulsões.
Traduzindo estas considerações para a atual situação epidêmica conclui-se que a deliberada desobediência às orientações ou instruções sobre como contribuir para o estancamento da propagação viral não constitui apenas um risco pessoal, mas representa uma absoluta falta de responsabilidade pela coletividade, seja pela possível contaminação de outras pessoas, seja pelo desrespeito do ônus que a sociedade já rendeu para sua existência desse indivíduo inconsequente.
Desconsiderando lucubrações conspiratórias nas mais diversas direções, é preciso convencer-se de que nos encontramos numa calamidade, num desequilíbrio da natureza, favorecido pela crescente densidade de contatos físicos no nosso cotidiano social. Não sendo eremitas, tornamo-nos agentes de contágio e sujeitos a ser contaminados.
Uma situação dessa ordem evidencia o descabimento de quaisquer egocentrismos, estrelismos ou divisionismos espetaculosos, ou de sapiências infundadas. Ela projeta para o centro da questão a necessidade de solidariedade, de compaixão e, acima de tudo, o espírito altruísta e protetor da saúde própria e alheia. Que este momento seja o da percepção que nada somos fora da sociedade e do amadurecimento da índole coletiva.
Solidariedade e responsabilidade coletiva significam abrir mão de algumas vantagens ou privilégios pessoais a bem das necessidades e do bem-estar se outrem. Por outro lado, o egoísmo em momento de crise acaba em perdas e prejuízo para o autocentrado.    


sábado, 27 de junho de 2020

Uma Catástrofe Natural



Uma Catástrofe Natural

(‘A Natural Catastrophe’ - This text was written in a way to ease comprehensive electronic translations.)

Klaus H. G. Rehfeldt

Embora tivesse havido alguma relutância inicia, existe hoje consenso de que no caso da pandemia Covid-19 não se trata de uma simples surto que permita compromissos em prejuízo de medidas sanitárias radicais e consequentes, mas de umas catástrofe natural a ser enfrentada com todo rigor..
O que tem dificultado a compreensão da gravidade da situação, seja por parte das autoridades governamentais, seja pela própria população em risco, são particularidades da atual calamidade, diferentes daquilo que conhecemos como catástrofe. Tsunamis, erupções vulcânicas ou excessos climáticos. Tais fenômenos costumam ter delimitações geográficas e temporais com impactos maciços sobre as áreas atingidas e com duração relativamente curta, e com perdas trágicas em vidas e valores. São milhares, dezenas de milhares de vidas perdidas e destruições quase instantâneas, mas sem o efeito de uma propagação territorial e de número de óbitos. Na época da comunicação digital, episódios dessa natureza ganham visibilidade imediata e dramática.  
A catástrofe do coronavírus é diferente. Ela apresenta-se inicialmente de forma concentrada e bem delimitada. Não demorou, contudo, sua expansão territorial, não avançando de país em país como os exércitos mongóis de Genghis Khan, mas seguindo as modernas rotas aéreas intercontinentais. Resultou daí em curto prazo o surgimento da doença em inúmeros lugares pontuais ao redor do planeta. A epidemia evoluiu para uma pandemia, especialmente nos centros urbanos.
Nessa expansão difusa reside um dos motivos da relativa indiferença da população e de alguns governos, numa relação dialética, diante da catástrofe. Mas também a incredulidade quanto à sua gravidade e aos enfrentamentos necessários devido à diversidade de discursos encontra suporte em diversos fenômenos presentes no ambiente social. São teorias de conspiração que geram insegurança, é a indiferença diante da desgraça do outro e a banalização do sofrimento e da morte, que começa nos games e chega à rua em frente de casa. É a atitude do capitão de navio em perigo que se preocupa mais com a carga do que com a vida dos passageiros, ou o difundido descrédito a mídia profissional, mais também é a simples falta de civilidade.
Há até hoje no mundo quase 10 milhões de pessoas contaminadas e perto dos 500 mil óbitos (no Brasil, perto de 1,3 milhão e 56 mil, respectivamente) e a garantia para a subsistência e expansão do vírus são sempre novas pessoas vulneráveis (ainda não imunes). Encontramo-nos numa evolução pandêmica sem fim previsível. Por uma lado falta uma medicação específica e eficaz, por outro, a solução definitiva reside na ansiosamente aguardada descoberta de uma vacina eficiente, mas cabe lembrar que ainda não temos vacinas contra o HIV e a dengue depois de décadas de pesquisa.
A história nos ensina que o menosprezo a riscos e perigos reais só tem agravado os problemas. Teoricamente, a identificação no surgimento dos primeiros casos com as devidas medidas de isolamento poderia ter extinto a propagação do vírus na origem. Na prática, ele prosperou devido ao despreparo – perfeitamente justificável por se tratar de vírus desconhecido – das autoridades sanitárias. A conjugação desses dois fatos autoriza uma conclusão: quanto mais rigor na aplicação dos (lamentavelmente, poucos) recursos disponíveis, melhores as chances de refrear o avanço da pandemia.
Diante da amplitude do fenômeno cabe às competentes autoridades governamentais assumir o comando sobre o controle e as medidas de enfrentamento do próprio problema e das consequências. O êxito dessas medidas, porém, está nas mãos, melhor, na cabeça, de cada cidadão, agindo e se comportando de maneira sensata, responsável e cívica na proteção da própria integridade física e em defesa da saúde alheia. A catástrofe expande-se de pessoa em pessoa, não de decreto em decreto. Cada um pode, por leviandade ou descuido próprio, ou de outrem, levar a qualquer momento o vírus para dentro de sua família ou círculo de amigos.
Nunca vivemos tão densamente concentrados. Isso suscita um corolário: nunca foi tão importante pensar e agir tão coletiva e solidariamente, com tanto respeito pelo próximo. Não há catástrofe sem perdas. Mas, quantas perdas, depende do grau de responsabilidade civil e social de cada um – depende da minha máscara e da minha distância aos outros.   


sábado, 20 de junho de 2020

O Suicídio das Mídias Sociais



O Suicidio das Redes Sociais

(‘The Suicide of Social Medias’ – This text was written in a way to ease comprehensive electronic translations.)


Klaus H. G. Rehfeldt

Era um encanto na comunicação interpessoal. A comunicação em tempo real, sem custo, sem “Caro Senhor...”, “Prezada Tia...” e outras formalidades flui fácil, basta um “oi” ou ”olá”. A leveza da forma, combinada com a amenidade dos conteúdos, tornam a participação prazerosa e divertida. Lembretes de aniversário ou compromissos, misturados com receitas de bolo, anedotas, curiosidades e até esquesitices, despertam os mais diversos interesses, atrativos e fascínios. Fotos, vídeos e versos completam o cenário.
            Algumas mais cedo, outras mais tarde, as pessoas ativas nas redes sociais descobriram que, sem maior esforço, tinham conquistado palcos e auditórios – e muito mais aplausos do que críticas. Mas, emerge um problema: como preencher esse palco e abastecer o público continuamente com matéria nova, e como manter e aumentar as ‘curtidas’ e os ‘compartilhamentos’?
A resposta era fácil de encontrar: mensagens mais sensacionais, mais bombásticas, mais catastróficas – e nem sempre verdadeiras. Nasceu a fake news, embora o batismo pelo presidente Trump tenha demorado alguns anos. E na falta de material próprio, existe o ‘encaminhado’ – sem critério, sem verificação de fonte ou de veracidade.
A infeliz e condenável divisão política da nação em ‘nós’ e ‘eles’ proporciona e reforça uma nova dimensão à mídia social – xingamentos, baixaria, injúrias, ofensas e difamações que ‘nós’ jamais dirigiríamos a ‘eles’ em contato pessoal Só falta a bruxartia (será que falta?). O que deveria ser uma discussão civilizada e democrática sobre diferenças descambou para o ódio ‘encaminhado’ e anônimo. Fanatismos cegos produzem postagens inconsequentes e frequentemente inverídicas que, quando questionadas, são, por falta de argumentos, respondidos com grosserias. Ao lado disso e operando de maneira semelhante, as redes sociais transformam-se em plataformas para a divulgação de teorias de conspiração.
O que era inicialmente um meio de entretenimento, de diversão e de comunicação fácil, eficiente e sem complicações torna-se um campo de batalha de ideologias, de fake news irresponsáveis e de exteriorização de baixezas e futilidades absolutamente desprezíveis. Um stress total.
São cada vez mais raras hoje as contribuições e postagens de cunho realmente social, interessantes, construtivas, genuinamente curiosas e divertidas. Deram espaço à radicalização, confrontação e segregação. Fato é que tais manifestações não condizem com a postura da maioria das pessoas, que preferem um clima mais harmonioso, mais tolerante e mais social.
Resultam daí algumas perguntas e respostas razoavelmente presumíveis:
- Pode se esperar uma mudanças nesses comportamentos desvirtuados? Não há sinais nessa direção.
- As pessoas costumam torturar-se voluntariamente com aquilo que as desagrada? O masoquismo é fenômeno raro.
- Há algum aspecto positivo na evolução qualitativa das postagens? Definitivamente não, com tendência a piorar.
Diante disso, a conclusão parece bastante clara. As redes sociais merecem cada vez menos fé. Consequentemente, as redes sociais atualmente em uso tenderão a auto-extinguir-se, ou, no máximo, prevalecer entre os apreciadores de baixo padrão e baixo calão. A constante queda de ‘curtidas’ dá uma mensagem clara; outro indicador é a ausência, há muito tempo, de anúncios pelas redes de novos usuários. Tudo indica que as atuais redes sociais serão outro fenômeno digital de curta duração.       






sexta-feira, 12 de junho de 2020

A Sala de Visitas



A Sala de Visitas

Klaus H. G. Rehfeldt

Quando conheci o Brasil, lá nos anos de 1950, uma peça indispensável das casas brasileiras era a sala de visita, a vitrina da casa. E essa peça fazia jus ao nome. Mesmo que ocupasse boa parte do espaço da casa e mobiliada e decorada com certo luxo, seu uso se restringia ao recebimento de visitas e a raros momentos de celebração, como o Natal, uma batismo, ou o casamento da filha. Durante o resto do tempo, esse recinto permanecia com a porta fechada e, eventualmente, chaveada.
A mudança desvirtuadora nessa realidade tradicional decorreu de uma invenção tecnológica e de efeito revolucionário na vida familiar: a televisão. Essa maravilha, o mundo visível na minha casa, objeto caro e de distinção social, não podia receber pedestal melhor que o balcão na sala de visita. Com isso caiu a inacessibilidade desse recinto restrito, pelos membros da casa – e os televizinhos.
A mais recente racionalização de espaços, mormente em apartamentos, criou um novo ambiente, nas plantas designado como ‘Estar”, a sala de estar e sala de jantar conjugadas com a televisão visível de ambos. As moradias encolheram.
Repentinamente, por ação do ‘novo caronavirus’, conceitos que lentamente germinavam nos respectivos ambientes projetaram-se para dentro das moradias: o ensino remoto, ou a distância, e o home working. O ‘fique-em-casa’ atribuiu novas funções ao ‘estar’: o home office, a sala de aula e o playground. O ‘fique-em-casa” é transitório, os efeitos, parece que não.
Considerando que esse não deverá ser o último vírus, algumas decorrências do isolamento social revelaram na sua aplicação vantagens já imaginadas pelos futurólogos.
O home schooling, por exemplo, não é exatamente uma novidade, e existe em pequena escala e em diversas modalidades há muito tempo nos Estados Unidos e na Europa. Recursos digitais e modernas estratégias pedagógicas em ensino remoto reforçaram a validade da concepção, que, naturalmente, requer ajustes em combinação com o ensino presencial, independentemente de uma reforma radical do ensino e de seus conteúdos. Certamente, o ensino não voltará por muito tempo ao padrão tradicional, transferindo boa parte de sua programação para fora da sala de aula – e para dentro de casa. A alfabetização pelo smartphone continuará ilusão por muito tempo?
O home working, no entanto, parece prometer resultados mais imediatos e concretos, até porque a ideia já está sendo praticada em pequena escala. A Covid-19 forçou muitas empresas a medidas e soluções quase imediatas, aparentemente com resultados positivos. De repente surgiram racionalidades e produtividades surpreendentes e não necessariamente imaginadas ou dimensionadas em eventuais projetos de home working pré-coronavírus. Tudo indica que se trata de uma nova realidade em consolidação e expansão.  
Ambas as transferências para dentro do lar compensam efeitos colaterais cada vez mais problemáticos como a sobrecarga dos sistemas de mobilidade e a consequente perda de tempo nas idas e vindas entre a casa e o local de trabalho ou a escola, mas também permitem a cogitação de uma interiorização, evadindo-se das concentrações urbanas.  
A sala de visitas não voltará e a moradia tenderá a ser um mero dormitório familiar. O lar ganhou uma nova dimensão – ou recuperou aquela, há muito, perdida, se lembramos a antiga reunião da oficina do artífice ou da loja do comerciante com as respectivas moradias debaixo de um mesmo telhado. Moradias de 100 ou 120 metro quadrados talvez não conseguirão abrigar as dimensões da nova vida familiar, exigindo respostas novas no âmbito unitário ou nos espaços comuns – com uma garagem a menos. Arquitetura e mercado imobiliário terão novos desafios.


sábado, 6 de junho de 2020

A Inovação, de Perene a Natimorta



A Inovação, de Perene a Natimorta


(‘Innovation, from Prennenial to Stillborn‘ - This text was written in a way to ease comprehensive electronic translations.)

Klaus H. G. Rehfeldt

Uma interminável sequência de descobertas e inovações tem caracterizada a existência do homem sobre a Terra desde o tempo da pedra lascada. Ao longo de dezenas, centenas de milhares de anos, ferramentas rudes e armas simples foram aperfeiçoados enquanto o homem avançava sobre os continentes, enfrentando novos climas, novos biomas e encontrando novas fontes de recursos naturais. A lentidão com que as invenções aconteciam fica evidenciada com o espaço de tempo de cerca de 5.000 anos que transcorreram entre as primeiras formas de escrita e a imprensa inventada por Gutemberg. Mesmo em tempos mais recentes, as invenções ocorreram em ritmo extremamente moroso: a adaptação do aproveitamento do vento através das velas de embarcações para uso em moinhos de vento levou cerca de 800 anos.
Entre as incontáveis inovações com o fim de tornar a vida humana mais segura e confortável, algumas tiveram impactos revolucionários e resultados que dinamizaram e mudaram o curso da história. A roda, o arado, o papel, a tipografia, a máquina a vapor, o telégrafo, a calculadora analógica, o automóvel, a lâmpada elétrica e o computador talvez sejam as mais importantes. Todos estes inventos, ou suas versões aperfeiçoadas, fazem parte da nossa vida até hoje. Um fator marcante na sequência dessas inovações é o progressivo encurtamento de intervalos entre seus surgimentos.
Significativo nessa aceleração é que os milênios ou séculos que inicialmente separaram uma invenção da outra reduziram-se a gerações até, em seus últimos eventos, acabaram a concentrar-se no espaço de uma única geração. A adaptação a novos condicionantes e padrões de vida que transcorria lentamente na passagem de civilizações inteiras, depois ao longo de várias gerações, ultimamente exigem que as mesmas pessoas precisam ajustar-se em diversos momentos de sua vida a novos conhecimentos e inusitados paradigmas de comportamento.
Especialmente, desdobramentos de invenções anteriores, às vezes de antigos conhecimentos em modernos contextos técnicos, econômicos e sociais, brotam a cada instante, contribuindo para novas facilidades – reais e imaginárias – da vida, obviamente com novos requisitos cognitivos e habilidades para o usuário – e novos custos. Nossa atual economia de consumo gira em torno desse fenômeno de permanentes invenções, reinvenções e reformatações.
Mas, a velocidade com que surgem – e desaparecem – novos inventos e seus efeitos abriga uma armadilha; a saturação do interesse e um consequente indiferença. As montadoras de automóveis têm as gavetas cheias de patentes de inovações que aplicam lentamente em seus novos modelos, evitando excessos de inovações. Elon Musk, dono da Tesla, SpaceX e outros empreendimentos de ponta, não registra mais patentes de suas invenções pelo simples fato das mesmas serem superadas tão rapidamente que qualquer cópia chega tarde e desatualizada ou superada ao mercado.
Smartphone, smartwatch, smart-qualquer-coisa, a próxima versão é projetada enquanto a anterior ainda está sendo lançada. A moderna invenção: prólogo e epílogo no mesmo parágrafo, na mesma frase, na mesma concepção, na mesma ideia.