domingo, 23 de maio de 2021

O Encontro Improvável

 

O Encontro Improvável

 

(“The Improbable Meeting“ - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translations)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Depois de ocupar todos os espaços possíveis da Terra, nada mais óbvio que olhar para as estrelas. Sempre houve fantasias férteis a imaginar possíveis aventuras extraterrestes do homem, ou de visitas cósmicas, que, no entanto, não passaram da presença do homem na lua e de explorações não tripuladas mais distantes por meio de artefatos cada vez mais sofisticados, carregando as últimas conquistas tecnológicas até para fora do nosso sistema solar.

A primeira incerteza nessa empreitada é a existência, ou não, de formas de vida compatíveis com as terrestres em outros planetas. Como são bilhões, não há como negar tal possibilidade em algum lugar do cosmo. A esperança é que não seja longe demais.

Anos-luz de distância, no entanto, não significam anos de viagem, pois nossas naves espaciais ainda estão muito, muito longe de atingir velocidades perto daquela da luz. Assim, uma viagem a um exoplaneta (planeta de outro sistema solar) poderá levar gerações num microcosmo que garanta a sobrevivência dos tripulantes, ou seja, o destino – incerto – poderá ser atingido somete pelos netos ou bisnetos dos astronautas que iniciaram a viajem.

E chegando lá, esses viajantes do espaço dependerão de uma imensa coincidência: a simultaneidade de estágio de existência de seres locais, algo até aqui aparentemente esquecido em todas as projeções dessa natureza.

Eis o dilema: para facilitar a compreensão, vamos reduzir a história da Terra ao tempo de um ano. Nessa escala, a vida começa em fevereiro, mas não explode antes de fins de novembro. Apenas meia hora antes da virada do ano o homo sapiens sobe ao palco da história, e apenas 5 segundos antes da meia noite do último dia, o homem do conhecimento e do saber, como o conhecemos dos últimos 5 séculos, entra em cena. E não sabemos quanto tempo durará diante de sua crescente fragilidade biológica – uma parte cada vez maior da população tem sua condição biológica constantemente corrigida ou fortalecida por fármacos, e consegue viver somente na total dependência de toda uma sofisticada estrutura de suportes econômicos, tecnológicos e sociais.  

Daí a pergunta crucial: numa eventual viagem bem-sucedida a algum exoplaneta com sua própria dinâmica evolutiva em intensidade e velocidade, quais são as chances de chegarmos exatamente nessa minúscula janela do tempo? Ou, em sentido contrário, a probabilidade de seres inteligentes de origem cósmica chegarem à Terra nesse instante da presença humana mais parece um milagre. É muito mais provável que essa visita tenha se dado, por exemplo, na época dos primeiros lagartos do jurássico, ou só venha a acontecer quando a Terra ainda abrigar apenas alguns insetos e espécies mais resistentes da flora.

Mas, porque não sonhar?  


sábado, 8 de maio de 2021

Alucinações Geopolíticas

 

Alucinações Geopolíticas

 

(“Geopolitical Hallucinations” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Ocupações pacíficas ou consentidas, anexações ou conquistas territoriais armadas fazem parte da história da humanidade desde as primeiras organizações sociais. Os motivos sempre se resumiam a um fator único: garantir melhores condições de sobrevivência, de melhores pastagens nos tempos do homem nómade a recursos naturais ou energéticos em tempos modernos.

Nos casos de apropriação territorial belicosa, via de regra a vitória resultou favoravelmente para o mais forte, o melhor estrategista e aquele que dispunha de armamento quantitativa e qualitativamente superior. Tais vantagens decorrem sem dúvida de uma sociedade técnica, econômica, até culturalmente mais avançada. Em tempos de civilizações essencialmente agrícolas, bastava tirar os soberanos vencidos e seu entorno de elite do poder para assumir o controle sobre as terras conquistadas. Para o cidadão apenas mudava o recebedor dos seus impostos.

Esta realidade tornou-se mais problemático na medida em que as sociedades desenvolveram estruturas mais complexas. Para isso basta comparar as conquistas territoriais de Carlos Magno, com as apoderações coloniais dos séculos XVII e XIX, e com a recente ocupação conflituosa da Península da Crimeia pela Rússia, e as respectivas consequências. A praticamente total ausência de conflitos de expansão territorial desde a fracassada tentativa pela Segunda Guerra Mundial mostra claramente a mudança de conceitos relativos a aventuras dessa natureza.

Num mundo de nacionalidade bem consciente, definida e caraterizada, quaisquer ameaças à soberania de uma nação encontram forte obstáculos, não somente pelo próprio povo, mas também pela comunidade das nações, com reações em tempo real. Em outras palavras, a humanidade moderna rejeita e condena qualquer ameaça à soberania das nações. Para assegurar isso, organizações supranacionais e pactos internacionais atuam especificamente no sentido de impedir agressões de caráter internacional com a aplicação de sanções imediatas e, em última instância, o uso de forças internacionais. A garantia da paz mundial é ordem suprema num mundo globalizado. Porque a China nunca tentou a ocupação de Taiwan, que considera território renegado?

Por outro lado, há uma vertente econômica. A inevitável supressão das instituições de uma nação dominada e a manutenção da ordem civil numa sociedade hostil aos supressores tem um custo elevadíssimo, podendo facilmente invalidar os ganhos obtidos com a ocupação. Os Estados Unidos experimentaram por várias vezes essa realidade. Atualmente, resistências, boicotes e revoltas em grande escala organizam-se em questão de horas. Além do ônus financeiro, uma operação dessa natureza envolve uma dolorosa perda de vidas humanas e um inestimável prejuízo moral.

Sabidamente não existem mais espaços vazios neste planeta e toda e qualquer tentativa expansionista encontrará fronteiras internacionalmente reconhecidas. Poucos países têm a sorte de dispor da quase totalidade dos recursos de que necessitam, ou de mercados para todos os seus produtos. Existem cobiças, sim, mas o mundo moderno aprendeu que não vale a pena satisfaze-las no campo de batalha. Por isso, o mundo teceu laços internacionais de toda ordem que garantem as trocas e os fluxos econômicos, sociais e culturais ao redor do globo.      

Outrossim, a superação mútua de desequilíbrios e disparidades se constitui em fonte de geração de boa parte das riquezas produzidas no mundo através das estruturas comerciais e logísticas existentes e a operacionalização de seus mecanismos.

Diante disso, fica evidente que insinuações fantasiosas relativas a possíveis atos de agressão externa, seja com armas tradicionais, sejam bacteriológicos ou com outros meios imaginários, não encontram mínima fundamentação sana. Prova disso é a Europa que hoje se encontra pela primeira vez na terceira geração que nunca viveu uma guerra. Há sete décadas vivemos, e continuamos vivenciando uma geopolítica orientada pela ‘realpolitik’ na preservação da paz mundial. 

        

quarta-feira, 28 de abril de 2021

O Censo Demográfico Brasileiro

 

O Censo Demográfico Brasileiro

 

(“ The Brazilian Demographic Census” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translation)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Uma nação compõe-se de um território e sua população. Em tempos modernos, sem guerras e conflitos de fronteiras, o território é imutável. Já a população está sujeita a continuas variações. Um crescimento natural das populações ao longo do tempo é regra geral e realidade histórica. Muda a intensidade. Quando não são mais as guerras, doenças, catástrofes e fenômenos naturais com decorrentes períodos de fome, ocasionais crises conjunturais causadoras de restrições e migrações têm sido motivo para mudanças demográficas, via de regra, negativas.

Já na antiguidade, os países promoviam de tempos em tempos censos de seus habitantes, não por curiosidade, mas para poder avaliar o poder tributário e bélico do mesmo. Com diferentes intervalos, objetivos e métodos, essa prática vem se desenvolvendo até a atualidade. Nos respectivos interregnos, estimativas orientadas por diferentes critérios costumam ser realizados para identificar possíveis mudanças e tendências.

No Brasil, o último censo decenal foi realizado e 2010. O previsto para 2020 foi adiado para 2021 devido à pandemia da covid-19, quando foi suspenso por falta de dotação orçamentária. Isso é grave. Na última década vivemos vários momentos de instabilidade política e econômica com graves efeitos socioeconômicos. Pior ainda é o fato de o Brasil, como outros países, estar experimentando nas últimas duas décadas duas mudanças inusitadas e concomitantes: a redução de nascimentos e o aumento da expectativa de vida. A tabela a seguir permite uma visualização clara.

 

Ano

População

(milhão)

Taxa Fe

cundid.

(filhos/

mulher).

Nacimentos

(milhão)

Matrículas Ensino. Fundam.

(milhão)

Expextat.

Vida (anos)

2005

184,2

2,09

3,1

33.5

71,9

2019

210,1

1,70

2,9

26,9

76,6

         Fontes: IBGE e INPE

 

Entre 2005 e 2019, a população cresceu em 14,1% no período de 14 anos (média de 1,0%/ano; em 2019 já foi apenas 0,7%). Parte do período corresponde a estimativas oficiais. Por outro lado, o número de nascimentos caiu no mesmo intervalo em 6,5% (média de 0,5%/ano). Na mesma direção, mas com valores bem mais significativos, vemos as matrículas no ensino fundamental em 19,7% (média de 1,4%/ano); este dado é concreto, pois resulta do censo escolar. A queda da taxa de fecundidade para baixo do índice de reposição populacional reforça esse quadro. O aparente contrassenso entre o aumento da população e a redução de nascimentos, ou taxa de fecundidade, explica-se pela expressiva elevação da expectativa de vida. As pessoas que pelos dados históricos deviam morrer em determinado ano sobrevivem esse prazo por mais algum tempo.

Os valores significativos revelam os graves riscos com que se revestem as estimativas quando feitas por longos períodos, especialmente quando estimativas são feitas em cima de outras, paralelas ou anteriores. As consequências podem ser sérias. A significância da exatidão de dados demográficos evidencia-se na seguinte evidenciação. O 1,4% de alunos a menos do ano de 2005 representa uma queda na mesma dimensão da população hoje economicamente ativa – como agente produtivo e como consumidor. Em outras palavras, num período de 14 anos haverá cerca de 20% menos novos produtores e consumidores de riquezas, em pequena parte compensados por consumidores (não produtores) mais longevos. Mas, com certeza, a cada ano será cerca de 1,5% a menos de pessoas a procurar uma moradia, jantar no restaurante, requerer a carteira de habilitação e a pagar imposto – com, ou sem erro de estimativa oficial. Não resta dúvida, portanto, que qualquer inexatidão poderá resultar em decisões políticas e econômicas potencialmente erradas. Torcemos que o censo nacional não seja novamente postergado, pois pandemia e estimativa demográfica não são compatíveis.

 

Nota: O livro “O Brasil de Menos Gente”: Rehfeldt, Klaus; Amazon e-book; 2020, aborda amplamente a demografia brasileira e suas projeções para o futuro.     

 

segunda-feira, 26 de abril de 2021

Startups ad Infinitum

 

Startups ad Infinitum

 

(“Startups ad Infinitum” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translations)

 

Klaus H.G. Rehfeldt

 

O processo civilizatório do homem está intimamente associado ao avanço de sua habilidade de criar, desenvolver e manusear ferramentas que reduzissem e racionalizassem seu dispêndio de energia. As mais antigas destinam-se à defesa e à caça na forma da cunha de mão, da clava, e da lança. Ao longo de centenas, milhares de anos, materiais, técnicas e habilidades melhores aperfeiçoaram continuamente os instrumentos.

A incipiente agricultura e seu consequente sedentarismo, com novas tarefas e novas formas de dispêndio energético, clamou por novas ferramentas destinados ao preparo da terra: o machado, já conhecido como arma, e o arado, inicialmente de simples pontas, depois de pá. Mas também se inventaram o disco do oleiro, serras de pedra lascada e a broca de sílex. Sempre sob a mesma premissa – melhores ferramentas, menor gasto energético, melhores resultados.      

Com a urbanização nasceram as atividades extra-agricolas na forma dos ofícios com seus artesãos. Numa evolução do conhecimento, trabalhos cada vez mais especializados de pedreiros, carpinteiros, ferreiros e outros artesãos fizeram surgir ferramentas e instrumentos especiais, apropriados para cada trabalho e material.

Então, a revolução industrial e energética com inovações de grandes efeitos dinamiza os avanços tecnológicos nos processos de extração e composição de matérias primas e de industrialização, gerando riquezas e investimentos. Apesar das ferramentas e instrumentos, cada vez mais complexos e sofisticados, são 10 mil anos limitados à fruição e aplicação das leis da física e química.

Chegou o século XX e a partir dos primeiros passos da cibernética, a era digital. Convergiram no tempo as altíssimas complexidades tecnológicas de bens de produção e processos – o hardware – com o aparecimento de recursos eletrônicos capazes de operacionalizar e controla-las – o software. Em poucas décadas, os recursos digitais invadiram todos os setores da economia, da robótica ao lazer, bem como todos as áreas da vida cotidiana, da casa digital ao pix. Até então, qualquer inovação era concebida, projetada e desenvolvida com grande dispêndio de tempo, material e financeiro. Hoje, programa digitais são desenhados num laptop, no quarto de dormir ou na garagem de alguém, quando não numa ilha do Pacífico, em questão de tempo relativamente curto e por pessoas eventualmente autodidatas e não necessariamente com apurada qualificação técnica – as cada vez mais espantosas startups. Essas figuras têm diante de si ao mesmo tempo o projeto, os esboços preliminares, a construção do protótipo, o banco de ensaios e a pesquisa de mercado para o produto. São os moldadores, fundidores e torneiros de novas ideias, novos conceitos. E se multiplicam rapidamente, acumulando sucesso e resultados expressivos em pouco tempo, muitas vezes sem qualquer capital.

No Brasil, atualmente 16 startups alcançaram o status de unicórnio, ou seja, de empreendimentos que valem mais de 1 bilhão de dólares, sendo que o primeiro surgiu em 1998. E há outros tantos a caminho do mesmo êxito, inclusive podendo partir de puro amadorismo. O conhecimento tornou-se um capital expressivo, às vezes o único – imaterial, intangível e imensurável. E para a transformação do conhecimento em produto já existirem investidores para os quais a criatividade e o pioneirismo das startups representam aplicação de baixo risco e isento de crise.

Não existe solo mais fértil que o conhecimento para a criatividade brotar e a solução se concretizar. As ferramentas de hoje são fórmulas em formato de software que dão resposta a necessidades concretas e abstratas, criando as próprias instrumentos físicas. São ferramentas invisíveis, mas com poder de causar até profundas mudanças comportamentais – até culturais.

Cada conhecimento novo traz em si novas perguntas, cujas respostas levam a novos conhecimentos. O conhecimento se reproduz em progressão geométrica. Uma projeção ad infinitum para startups e similares. 

   

terça-feira, 20 de abril de 2021

A Globalização em Marcha à Ré?

 A Globalização em Marcha à Ré?

 

(“Globalization in the Reverse Gear? - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translations)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Depois do mercantilismo ter se revelado ineficaz, durante séculos, os países europeus economicamente mais desenvolvidos lutaram em busca de um máximo de autonomia econômica, ou seja, independência de mercados externos. Contavam extensão territorial e recursos naturais disponíveis. A formação de colônias na África, América e Ásia constituiu-se na solução quase ideal.

O século XX com duas guerras mundiais e o desmoronamento do sistema colonial trouxe novos arranjos econômicos, como, p.ex., a ocupação de espaços economicamente esvaziados pelas destruições, principalmente por empresas norte-americanas. Paralelamente surgiu a formação de uniões de interesse econômicos, como a União de Carvão e Aço entre vários países da Europa.

Ao longo daquele século cristalizou-se uma nova racionalidade econômico e geopolítico: cada sociedade concentra-se naquilo que tem melhores condições de realizar. Tais condições incluíam disponibilidade de recursos naturais, tecnologia, mão-de-obra e infraestrutura. A Comunidade Europeia à frente conseguiu levar esse modelo a um bom nível de sucesso, passando a servir de exemplo para outras uniões econômicas, como o Mercosul, ou ASEAN. Simultaneamente, numerosos Encontros de Cúpula G-7, G-8, G-20 etc., além de objetivos políticos, reforçaram e consolidaram a ideia da interconexão das economias – da Globalização. O sucesso foi inegável.

Assim, o Comércio Internacional cresceu nas últimas 5 décadas duas vezes mais rápido que o PIB mundial. A tecnologia validou a globalização em seus aspectos práticos e operacionais, facilitando o funcionamento de complexas cadeias de fornecimento e produções em escala, mas também tecnológicos e culturais. Ao mesmo tempo e em formatos mais específicos, muitos tratados bi- e multilaterais buscam cooperações econômicas convergentes e mutuamente benéficas.

Mesmo assim, algumas uniões econômicas nunca conseguiram colocar os interesses da respectiva união acima dos interesses dos membros, como no caso do Mercosul. Outras, não por último em virtude de suas heterogeneidades econômicas, políticas e sócias, vivem até hoje sérios conflitos internos de interesse, e até evasão, como se observa no caso de Brexit.

O que não estava nos planos de convênios, das convenções e dos pactos foi o inesperado surgimento de uma pandemia, que repentinamente exigiu medidas e respostas locais, regionais e nacionais, não raro em desconformidade com o conjunto das sociedades membros de alianças. Consequência imediata foi o fechamento de fronteiras com o decorrente colapso do tráfego internacional e a implosão do turismo. Ao mesmo tempo, evidenciou-se a vulnerabilidade de determinadas nações em decorrência do outsourcing total de determinados ramos de atividade para outros países, como no exemplo da indústria farmacêutica mundial concentrada na China e na Índia. Repentinamente, todas as fragilidades revelaram-se concomitantemente, levando a um caos de incertezas e gargalos.

Ainda nos encontramos em meio à pandemia e qualquer previsão para o futuro seria mera especulação. Fato é que se criaram e desenvolveram realidades econômicas irreversíveis no curto prazo. Por um lado, uma enorme parte dos processos industriais foram transferidos para mercados com baixo custo infraestrutural e de mão-de-obra, de onde deverão sair somente no médio e longo prazo com a expansão da industrialização robotizada dentro de um eventual processo de repatriação. Por outro, por exemplo os Estado Unidos jamais conseguem consumir sua própria produção de trigo, a Austrália não tem mercado consumidor interno para sua extração de carvão, e o Brasil com um rebanho de mais cabeça do que habitantes, uma produção de quase mil quilos de grãos por habitante e imensas reservas de minérios em exploração não consegue sobreviver economicamente sem o mercado exterior.

De fato, as nações não apresentam sinais de uma interiorização de seus mercados, uma vez que as regras da globalização se fundamentam em benefícios mútuos. Isso garante a continuidade do comércio internacional, não importa sob que formato de acordos. O capital continua existindo e fluirá pelo mundo.

Naturalmente, a pandemia e as decorrentes crises deixarão o mundo mais pobre por algum tempo, mas é bom lembrar que essa perda será muito inferior àquelas causadas pelas duas Guerras Mundiais, com as consequências conhecidas. E o covid-19 não apenas poupou a tecnologia, mas proporcionou-lhe impulsos comuns de épocas de crise e da posterior recuperação.

A globalização sofrerá, com certeza, inúmeras revisões e reformatações, mas não vai se extinguir, por mais que algumas vozes nacionalistas insistem em afirmar. Historicamente, com mais ou menos celeridade, benefícios mútuos sempre têm aproximado os povos.    

 

quarta-feira, 14 de abril de 2021

MEIs e Desemprego

 

MEIs e Desemprego

 

(“Individual Micro-Entrepreneurs and Unemployment” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translations)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

Uma das áreas mais afetadas pela pandemia do covid-19 é, sem dúvida, o mercado de trabalho. Não necessariamente pelos efeitos patológicos diretos do vírus, mas pelas medidas restritivas no intuito da prevenção e da contenção da doença. É notório que tais medidas afetaram com bastante severidade alguns setores produtivos, de distribuição e de prestação de serviços. Especialmente empreendimentos econômica e financeiramente frágeis acabaram por encolher, ou até sucumbir.

Nesse contexto conjuntural, o aumento do desemprego é uma consequência direta. Em números concretos desenvolveu-se o seguinte quadro:  os 11,2% de desempregados (10,4 milhões) de dez. 2019 evoluíram para 14.6% (13,6 milhões) em dez. 2020 – aumento de 3,2 milhões de pessoas.

Porém, ao noticiar esses dados lamentáveis, outro fenômeno, igualmente importante e correlacionado, deixa de ser levado em consideração – o Microempreendedor Individual (MEI). Este trabalhador, de maneira geral, tem sua origem ocupacional no vínculo empregatício, ou no trabalho informal. Desde quando foi criado em 2011, a pessoa jurídica do MEI vem ganhando espaço no universo econômico e com boas razões é visto como a forma de trabalho do futuro. Uma das razões principais é o gradual fortalecimento do setor de serviços, contribuindo hoje com 70% no PIB e oferendo ótimas condições para esse regime de trabalho. As inúmeras oportunidades são preenchidas a partir da migração da mão-de-obra oriunda principalmente dos setores em processo de automação e robotização, mas fica praticamente vedada ao trabalhador sem qualificação.

No fim de 2019 havia um total de 9,4 milhões de MEIs registrados. Essa força de trabalho cresceu em significativos 20% ao longo de 2020 para 11,2 milhões de empreendimentos. Apenas no espaço de março – início da pandemia no Brasil – a dezembro de 2020 registrou-se um aumento de 1,3 milhão de novos CNPJs. Como são raros os casos de alguém entrar na vida profissional com a fundação de uma MEI, é lícito concluir que esses empreendedores vieram com o necessário conhecimento profissional de um anterior regime de vínculo empregatício, ou do trabalho informal. Além dos empreendimentos oficiais, muito provavelmente, outro contingente de mão-de-obra desempregada passou a engrossar um mercado de “MEIs informais”. Fato é, que futuramente não poderá haver análises do mercado de trabalho sem consideração da existência dos MEIs.

Com a devida atenção é possível observar uma intensificação no processo do empreendedorismo individual como consequência das condições impostas pela pandemia do covid-19. Por outro lado, esta realidade esvazia tentativas de agravar a situação de fato dramática do mercado de trabalho. Momentos de necessidade têm historicamente desafiado a coragem, a criatividade e os potenciais ocultos nas pessoas e não raro produzido resultados surpreendentes.

 


domingo, 11 de abril de 2021

Prosperidade e Desigualdade

 

Prosperidade e Desigualdade

 

(“Prosperity and Inequality” - This text is written in a way to ease comprehensive electronic translations)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

É clássica a divisão da sociedade no aspecto socioeconômico em pobres, classe média e ricos. Existem índices oficiais, nacionais e internacionais, que estabelecem valores de renda para a delimitação de tais categorias que não necessariamente definem ou espelham a percepção dos indivíduos de seu status econômico. Um cidadão de classe média, p. ex., pode facilmente considerar-se pobre ao ver o iate de 300 pés de seu primo rico.

            O ideal de uma sociedade igualitária é antigo, mas somente em visões filosóficas. As concepções de igualdade preconizados por ideários comunistas ou socialistas mais radicais através de mecanismos estatais de controle sobre a propriedade foram abandonadas. Em seu lugar entrou a busca pela redução das desigualdades, uma maneira de enfrentar as diferenças sociais dentro de uma compreensão mais capitalista de economia de mercado.

Na base da pirâmide de renda encontra-se a população mais pobre, ou em extrema pobreza, que, no caso brasileiro, é formada por 11% da população em 2019 (13% em 2021, depois de um ano de pandemia). Sua participação na economia nacional restringe-se basicamente ao valor distribuído pelo programa bolsa-família. Ao todo, cerca de 30% da população situa-se abaixo da linha de pobreza representando as assim chamadas classes D e E. A classe C, que constitui a classe média, perfaz aproximadamente 55% da população, e as classes A e B, ou ricas, cerca de 15%.   

Segundo estudo da FGV, cobrindo o período de 21 anos entre 2008 e 2018 observa-se aumento populacional de 3% nas classes A e B juntas, 6% na C, e uma diminuição de 9% nas D e E juntas. Isso faz conta da migração socioeconômica fechar: 9% das classes D e E avançaram para a classe C, de onde 3% passaram a integrar as classes A e B. (Obviamente, a pandemia causou uma ruptura nessa evolução com as perspectivas para o futuro totalmente em aberto.)    

Tomando-se o valor médio de renda estabelecido por classe (nas classes A e B, como não existe teto, um valor hipoteticamente estimado de R$ 25 mil), resultam as seguintes participações na renda nacional: classes A e B, R$ 750 bilhões (possivelmente mais), classe C, R$ 578 bilhões, e classe D e E, R$ 60 bilhões.

Um aumento de 3% na renda gerada pelas classes A e B representa um ganho de R$ 22,5 bilhões, o de 6% na pela classe C, um aumento de quase R$ 35 bilhões, e a diminuição da renda produzida perlas classes D e E de 9% perfaz uma perda de R$ 5,4 bilhões. Saldo positivo: R$ 52,1 bilhões. Em resumo, observa-se um aumento geral de prosperidade, acompanhado de uma migração também positiva entre as classes sociais.

No aspecto da desigualdade social, aplica-se geralmente o coeficiente, ou índice, de Gini, que mede a concentração de rendimentos; quanto mais perto de 0, maior a igualdade, e 1 revela a pior a distribuição possível de renda. No Brasil, de 2010 a 2019, a média móvel do índice Gini oscila relativamente estável entre 0,78 e 0,80, sem dúvida, um coeficiente lastimável. Para caso de aumento do índice, apresentam-se duas causas possíveis: aumento da parcela de pobres (classes D e E), ou o aumento da concentração da riqueza (classes A e B). Já numa redução do índice, nota-se uma aproximação entre as rendas produzidas entre pobres e ricos.

No caso brasileiro, a quase constância do índice Gini explica-se pela simultânea migração positiva das classes A, B e C, e aumento da riqueza nas D e E, (especialmente gerada no contexto tecnológico, p. ex., o surgimento de 11 unicórnios). Considerando o período pré-pandemia, a análise acima invalida a versão do aumento da pobreza no Brasil.

Tratando-se de um fenômeno sem precedentes, as consequências da pandemia do covid-19 sobre as dinâmicas sociais e econômicas são imprevisíveis. Enquanto os efeitos produzidos pela gripe espanhola não podem servir de parâmetro pela sua coincidência com aqueles da primeira guerra mundial, a peste negra na Idade Média causou profundas mudanças nas estruturas sociais e econômicas da época, dando um impulso extra na lenta evolução da humanidade havida até então. Veremos!