sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

O Upgrade Silencioso da Índia

 

O Upgrade Silencioso da Índia

(“India's Silent Upgrade¨ – This text has been written in such a way as to facilitate translations by electronic means)

 

Klaus H. G. Rehfeldt

 

A comparação comum da Índia com um elefante, um animal pesado, forte e lento, mas também cooperativo quando domesticado, já não cabe mais. Hoje, é entendimento, ainda não tão comum, que esse país está se tornando o mais recente tigre asiático.  

 

A Índia sempre foi um país misterioso. Seja em suas mais de 500 religiões, seja em suas estruturas sociais, e, recentemente, em seu avanço tecnológico e econômico. 

 

Poucos países são tão marcados pelo seu passado nos últimos dois séculos como a Índia. Primeiro um longo período de colonização, no entanto, sem colonos. Depois dessa colonização de exploração (exportação de matérias-primas, importação de produtos acabados), inicialmente por uma única empresa britânica, depois pelo governo do mesmo país, a independência pacífica, mas, também a secessão do Paquistão. Em seguida, a adoção do modelo econômico soviético, sem considerar os passados econômicos distintos dos dois países. Enfim, com a desvinculação dessa doutrina econômica, a busca de uma economia de mercado.

 

Mesmo assim, em geral, muito pouco se conhece da Índia além de sua população numerosa (1,4 bilhão de habitantes), sua estrutura social de castas e o Taj Mahal, ou, então, a entrada da Índia no clube nuclear em 1974, ou a recente alunagem do primeiro veículo espacial no lado oculto da lua.

 

Entretanto, algo começou a mudar no campo social a partir da década de 1980 com a chamada “discriminação positiva¨ cujas medidas previam que uma série de vagas universitárias e cargos no serviço público estivessem disponíveis a membros da população original conhecidos como Adivasi (grupos tribais), bem como a grupos de castas inferiores, como os "Intocáveis" (Dalits), "reservados" de acordo com sua proporção na população e sujeitos a suas qualificações e seu perfil profissional. 

 

Porém, nesse ponto há dois aspectos com consequências de longo prazo sobre o perfil socioeconômico da Índia. Primeiro, como tantos outros países com desenvolvimento tardio, o país perdeu o bônus demográfico, e deve desde já preocupar-se com seu sistema previdenciário. Em segundo lugar, o desenvolvimento econômico da Índia é prejudicado pelo baixo nível de educação, com uma população muito grande sem educação primária e secundária; mesmo o ensino superior, por exemplo, não está acompanhando um grau de desenvolvimento mais elevado, como por exemplo, o do país vizinho, da China. 

 

Por outro lado, várias gerações de estudantes de nível superior importaram com seus estudos no Estados Unidos, Europa, Austrália e outros países asiáticos conhecimentos e tecnologias de ponta nos mais diversos campos.

 

O crescimento econômico, sempre na presença de avanços tecnológicos significativos, acelerou para uma média de 6,4% entre 1995 e 2005. Na década entre 2005 e 2015, a taxa de crescimento foi ainda maior. Em 2017, a Índia foi a quarta economia que mais cresceu no mundo, respondendo por 7,2%. No período de 1980 a 2022, o PIB aumento de US$ 186,3 bilhões, 9º lugar do mundo (Estados Unidos, US$ 2.857 trilhões; Brasil, US$ 237,4 bilhões) para US$ 2.668 trilhões, 5º lugar no mundo, (Estados Unidos, US$ 21,06 trilhões – aumento de ,74 vezes: Brasil, US$ 1,449 trilhão – aumento de 6,1 vezes). Com um crescimento relativamente pequeno (média de 1,2% ao ano na última década) resultou no mesmo período um aumento do PIB per capita de US$ 267,39 para US$ 2.301,42, um aumento de 8,6 vezes. 

 

A Índia não tem passado de país industrializado. Mesmo no presente, é uma área sem grande expressividade. Existe até a possibilidade da Índia simplesmente pular a faze de industrialização, onipresente em todos os países desenvolvidos. Nesse aspecto não se deve esquecer que o setor industrial, empregando cada vez menos mão de obra, tem pouco a pouco menos influência direta sobre o progresso social da economia. O que realmente impulsionou o crescimento econômico foi, e continua sendo a expansão do setor de serviços, substancialmente beneficiado pelo amplo domínio da língua inglesa por boa parte da população (por exemplo, já na década de 1990, grande parte de multinacionais tinham seus call centers na Índia). E esse crescimento está presente em praticamente todas as macroeconomias. 

 

Importante é observar que cerca de dois terços da população indiana vivem da agricultura. Existem aproximadamente 137 milhões de propriedades agrícolas na Índia, 60% possuem menos de um hectare. Apesar dessas estruturas agrárias, a Índia é o segundo maior produtor mundial de arroz, trigo e cana-de-açúcar, bem como o maior produtor mundial de frutas e leite. 

 

Esse fator conjuntural poderá ser importante, pelo menos em caráter transitório, quando o mundo se vê diante de consequências pouco previsíveis que o avanço da inteligência artificial terá sobre o setor de serviços. 

 

O Fundo Monetário Internacional (FMI) espera que a economia indiana continue a crescer mais de seis pontos percentuais do PIB nos próximos anos, tornando-se o crescimento mais forte do mundo. Os longos anos da "taxa hindu de crescimento econômico", como o estado insignificante da economia do subcontinente foi ridicularizado, acabaram. Usando bem seus potenciais indiscutíveis, o país de 1,4 bilhão de habitantes pode se tornar uma superpotência global. 

 

Tudo indica que ainda nesta década, a Índia deverá ocupar o 4º lugar entre as maiores potências econômicas do mundo.

 

Um comentário:

  1. Tudo isso é realidade na Índia atual.
    Parece inconcebível entretanto que este mesmo país ainda conviva com uma taxa de analfabetismo altíssima, crescimento demográfico descontrolado e saneamento urbano praticamente inexistente e a maior parte da população abaixo da linha de pobreza.

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