sábado, 28 de dezembro de 2019

Desigualdade - Qual Delas?



Desigualdade, Qual Delas?

(Inequality - Which One? - This text was written in a way to ease comprehensive electronic translations.)

Klaus H. G. Rehfeldt

Condições, ou causas desiguais geram efeitos desiguais. Esta verdade lapidar acompanha a humanidade desde seus primórdios. Por mais uniforme, inalterada e repetitiva a vida em comunidades do início da civilização possa ter sido, no plano individual dos seus componentes encontramos pessoas fortes e fracas, corajosas e medrosas, ambiciosas e acomodadas, mais ou menos hábeis – a lista é longa. Por outro lado, nem todas as terras eram igualmente férteis, nem todos os animais eram igualmente saudáveis, e assim por diante. Portanto, condições iguais definitivamente não existiam, jamais. E esta realidade traduz-se fatalmente em resultados, ou efeitos econômicos desiguais – e, consequentemente, sociais
Com a cada vez mais sofisticada organização das sociedades, somaram-se às iniquidades naturais àquelas de ordem hierárquica. Poderes e privilégios concedidos pela sociedade, ou dela tomados, converteram-se igualmente em riquezas pessoais – e desigualdade. Esta desigualdade, que vem acompanhando a humanidade ao longo de sua história, é inerente a qualquer processo de avanço econômico simplesmente em função das diversidades já apontadas dos agentes individuais desse processo. E ela tende a aumentar especialmente quando progressos tecnológicos e econômicos ganham velocidade enquanto seus efeitos multiplicadores não conseguem acompanhar esse ritmo. Por exemplo, o Brasil produziu somente nos anos 2018/19 dez empreendimentos startup, de curtíssima existência, com dimensão de unicórnio (i.e., eles atingiram a marca de US$ 1 bilhão em avaliação de mercado), ou seja, gerou-se em dois anos uma riqueza adicional de mais de R$ 40 bilhões na ponta da pirâmide; obviamente, os impactos positivos e benefícios econômicos para as populações mais pobres deverão levar um prazo bem maior para chegar lá. Por outro lado, ideias e tentativas de reduzir este problema são muitas e habitam as mentes de políticos e cientistas sociais nos últimos dois séculos e meio; aparentemente estão se aproximando de opções viáveis de amenizá-lo (por exemplo, a renda universal básica).
Por longos tempos ignorada, mas ganhando evidências alarmantes, convivemos com outra desigualdade, não menos profunda e com reflexos mais amplos, porque compromete nosso grau de importância no contexto mundial: a desigualdade educacional. Enquanto em regiões mais desenvolvidas e mais prósperas do país os alunos deixam o ensino fundamental razoavelmente preparados para o mundo do trabalho de menor exigência qualificativa ou o ingresso em outros níveis de ensino, grande – se não a maior – parte do país prepara o jovem brasileiro de maneira absolutamente precária e insatisfatória, conforme mostram ano a ano os resultados do Estudo PISA. Ocorre que, há décadas, o mercado de trabalho demanda cada vez mais trabalho cognitivo em prejuízo do trabalho físico deixado para autómatos e robôs. Os próprios conceitos de ensino não atendem mais aos requisitos do trabalhador moderno, menos ainda, daquele do futuro. Continuando assim, a abismal desigualdade educacional em relação a países como Correa do Sul, Finlândia, Dinamarca, que a muitos anos trabalham na modernização dos seus sistemas de ensino (e que não se incomodam em ser copiados), ganhará dimensões simplesmente irrecuperáveis. Corremos o risco de jamais seremos locomotiva, apenas vagão – de soja e de gado.
As políticas, as estratégias e a execução do ensino estão em sua grande maioria na mão do Estado e por isso cabe a ele encontrar e aplicar urgentemente as respostas adequadas para manter o Brasil (sem um Prêmio Nobel, sequer) no conjunto dos países emergentes e com chances de acompanhar o desenvolvimento global. -  Aliás, um Real investido na educação poupa quatro Reais na saúde pública.  


sábado, 21 de dezembro de 2019

Sustentabilidade Lucrativa



Sustentabilidade Lucrativa

(Profitable Sustainability - This text was written in a way to ease comprehensive electronic translations.)

Klaus H. G. Rehfeldt

Nada mais sustentável que a reposição natural promovida pela natureza através de seus mecanismos de perpetuação das espécies, cada uma adaptada em seu meio, integrada com as outras e com seu próprio modo e ciclo de vida. O que por milhões se anos era um sistema absolutamente simbiótico e equilibrado, salvo em momentos de catástrofes naturais, sofreu a repentina e crescente interferência através de uma das espécies que, pela incomum evolução de sua capacidade mental, destacou-se das outras, subjugando todas as outras à sua vontade, a seu serviços e a seu consumo – o homem sapiens.
O homem começou a cultivar vegetais, domesticas animais, e caça-los com o uso de armas, sem as quais jamais os dominaria – tudo para seu sustento cada vez mais assegurado e garantindo sua expansão sobe a Terra. Hoje, tirando camundongos, ratos e morcegos, o homem é de longe o mamífero mais populoso do planeta com cerca de sete e meio bilhões de seres, sempre recorrendo à outras espécies da fauna e flora para sua alimentação (como elevadas taxas de desperdício) e outros usos (muitas vezes supérfluos).
O planeta tem dimensões imutáveis e, consequentemente, seus recursos são limitados. Daí a premissa, senão imposição, da necessidade de seu uso mais racional possível. E isso é possível. Um exemplo: em países europeus, como Alemanha, França, Áustria e outros, é bastante fácil encontrar refeições com carne de caça nos cardápios. A explicação é simples: os animais silvestres existem e sua caça é regulamentada de maneira que fique garantida a preservação numérica da espécie, mas animais adultos sejam abatidos antes de sua morte natural.
O mesmo raciocínio é aplicável à flora, especialmente à de vida longa como as árvores, matéria prima e um dos elementos centrais de construção da humanidade. Onde as árvores abundam, a madeira era explorada sem preocupações por longos tempos, até, recentemente, esse abuso leviano levantar questões ambientais e dar origem a maiores controles e disciplinas. Com isso, estamos na Indonésia, na África Equatorial e – no Brasil, mais precisamente, na Amazônia com uma área florestal de 3,3 milhões de quilômetros quadrados.
Como todos os seres vivos, árvores têm ciclos de vidas que variam de acordo com cada espécie. A cada momento nascem, crescem e morrem incontáveis mognos, ipês, jatobás, jacarandás e muito outros, acabando tombados para tornar-se humos e enriquecer a terra. Enquanto, no ambiente da floresta tropical, a vegetação baixa, como arbustos, tem uma duração de vida entre 2 a 15 anos, para as árvores, abrangendo as de crescimento rápido e lento, estima-se uma duração média vida de 60 anos, com picos acima 100. Resulta daí que a flora arbórea se renova em média nesse mesmo espaço de tempo pela morte de um e o brotamento de outro indivíduo. Esta renovação, portanto, é de cerca de 1,7% ao ano.   
Desmatamentos são dimensionados por área, não por unidades de árvores. Se, então, calcularmos 1,7% sobre 3.3 milhões de km2, chegamos a uma área de um pouco mais de 56 mil km2. Isso corresponde aproximadamente à área do Estado da Paraíba, ou 7 a 8 vezes (os dados divergem muito) a área média desmatada nos últimos anos. Bastaria, portanto, demarcar áreas que totalizassem as áreas necessárias (de 7,5 a 8 mil km2) em localizações convenientes e adequadas (nas cercanias de hidro- e rodovias) para a colheita controlada de árvores em idade apropriada e antes de sua morte natural. Aliás, são essas as espécimes que interessam e estão na mira do madeireiro. Quais são? Pergunte ao indígena, que ele sabe.
Dessa maneira, sem qualquer prejuízo para a regeneração natural, a flora arbórea em nada seria afetada em sua dinâmica existencial, apenas se evitaria a decomposição natural dessa madeira na sequência de sua morte natural.
Resumindo, basta articular, organizar e fiscalizar o que está ocorrendo desordenada, inapropriada e, muitas vezes, ilegalmente. Será difícil? Talvez. Mas a possibilidade do homem voar foi ´difícil’ durante milênios, a existência do dispositivo que pensasse em seu lugar, inimaginável.
Finalmente cabe a pergunta: um país com um rebanho comercial de bovinos (213,5 milhões de cabeças) numericamente ligeiramente maior à sua população (210,1 milhões de habitantes) precisa desmatar para criar mais pastagens? Relativo à exportação de carne é preciso lembrar que o aumento do produto tende a pressionar o preço para baixo, prejudicando o lucro marginal, sem considerar o fato que especialmente nos países ocidentais há um forte movimento dos consumidores e revisando seu consumo de carne. O mercado de carne oscila no curto prazo, o replantio de uma floresta leva décadas. Aliás, nenhum exportador prudente investe na exploração de picos de disponibilidade.               


terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Você já...? - Have you ever...? - Hat Du jemals...?



Você já...? – Have you ever...? – Hast Du jemals…?

Klaus H. G. Rehfeldt

Você já se empenhou com corpo e alma numa campanha humanitária?
Você já defendeu seus princípios e convicções para um mundo melhor na ONU e no Encontro econômico Mundial em Davos?
Você já discutiu sua visão de mundo com diversos Chefes de Estado?
Você já expôs suas ideias e opiniões, sabendo que contrariam poderosos interesses econômico?
E tudo isso com apenas 16 anos!
Se sim, parabéns e não se preocupe com as críticas, porque algumas verdades doem.
Se não, continue sentado na sua poltrona, criticando junto com o rebanho que corre atrás do touro da vez.


Have you ever engaged yourself with body and soul in a humanitarian campaign?
Have you ever defended your principles and convictions for a better world at the UNO and the World Economic Meeting in Davos?
Have you ever discussed your worldview with several Heads of State?
Have you ever exposed your ideas and opinions, knowing that they contradict powerful economic interests?
And all this at the age of 16!
If so, congratulations and don't worry about criticism, because some truths hurt.
If not, continue sitting in your armchair, criticizing along with the herd that runs behind the bull of the moment.


Hast Du Dich jemals mit Leib und Seele in einer humanitären Kampagne engagiert?
Hast Du jemals Deine Prinzipien und Überzeugungen für eine bessere Welt vor der UNO und dem Weltwirtschaftstreffen in Davos verteidigt?
Hast Du jemals mit mehreren Staatsoberhäuptern über Ihr Weltbild gesprochen?
Hast Du jemals Deine Ideen und Meinungen offengelegt, wissend, dass sie mächtigen wirtschaftlichen Interessen widersprechen?
Und das alles im Alter von 16 Jahren!
Wenn ja, herzlichen Glückwunsch und keine Sorge vor Kritik, denn einige Wahrheiten tun weh.
Wenn nicht, bleib weiterhin in Deinem Sessel sitzen und kritisiere zusammen mit der Herde, die dem Stier des Augenblicks folgt.

domingo, 24 de novembro de 2019

Pobreza e Desigualdade



Pobreza e Desigualdade

(Poverty and InequalityThis text was written in a way to ease comprehensive electronic translations.)

Klaus H. G. Rehfeldt

A desigualdade econômica e social entre membros de uma mesma sociedade é uma componente constante na história da humanidade desde as origens da organização dos corpos sociais. Inicialmente encontramos nas respectivas extremidade do perfil econômico da sociedade aqueles poucos que detêm os poderes político – religioso – e econômico e uma grande massa vivendo no nível da subsistência, ou um pouco acima (quando não em regime de escravidão ou servidão), Este estado de coisas praticamente não mudou durante milhares de anos pela simples falta de um crescimento econômico contínuo e razoavelmente significativo. Nessa situação, a desigualdade econômica e social era, obviamente, enorme. Castelos e exércitos privados de uma lado, no outro, a mera sobrevivência, doenças, fome e uma expectativa de vida abaixo de 40 anos.
            A partir da revolução industrial começam a se formar concentrações de riqueza nas mãos dos protagonistas da nova economia industrial e de seus desdobramentos por uma lado e, por outro, uma nova classe de trabalhadores assalariados.com crescentes chances de incrementar seu status econômico e começar a constituir uma classe média. Como se tratava de uma mudança bastante rápida – a palavra revolução industrial diz tudo –, não surpreende que essas chances eram diminutas, senão inexistentes para uma grande parte da população. Mesmo assim, registrou-se um contínuo avanço nas melhorias sociais e de auferimento de renda ao longo dos últimos dois séculos gerando uma classe média sólida e duradoura.
Não resta dúvida, porém, que um grande contingente da população não conseguia e continua não conseguindo fugir da pobreza. Entre esses podemos identificar duas situações distintas, aqueles presos à pobreza absoluta, ou seja os econômica e socialmente excluídos, e os que simplesmente não conseguem acompanhar o passo do desenvolvimento tecnológico e econômico de seu ambiente existencial. Para os primeiros, os remédios devem ser procurados em iniciativas governamentais, seja na forma do programas assistenciais como bolsa família ou renda básica universal, seja na revisão tributária relativa a produtos essenciais.
Já no segundo grupo, dos relativamente pobres, a situação é bem diferente. A expressão ‘relativamente pobre’ deve ser entendida considerando os padrões de pobreza em cada época: há cem anos, possuir rádio e telefone era sinal de riqueza, hoje há mendigo acompanhando meio escondido seu whatsapp.
As repetidas constatações de um aumento da desigualdade entre mais ricos e mais pobres, comparando os patrimônios de 1 ou 10% da população mais rica com os 30 ou 50% mais pobres de uma sociedade, não devem necessariamente ser interpretadas como aumento da pobreza. A problemática em torno da desigualdade econômica fica evidente quando imaginamos o que aconteceria com a desigualdade econômica num pais como o lindo mas pobre Haiti se Bill Gates de mudasse com seus US$ 110 bilhões para lá.
Mas há outro aspecto. Enquanto duas a três gerações eram precisas para a construção das grandes fortunas dos últimos dois séculos, mais recentemente podemos observar a constituição de patrimônios bilionários em períodos de uma ou duas décadas, especialmente na área da tecnologia de informação; start ups podem transformar-se em unicórnios em menos de 10 anos. São espaços de tempo absolutamente insuficientes para absorver e integrar contingentes populacionais mais numerosos nessa dinâmica de progresso tecnológico e econômico e, por conseguinte, se beneficiar dela. A prova está no clamor universal por mão de obra qualificada para operar e desenvolver as tecnologias mais recentes.
Recentemente noticiam-se com mais frequência aumentos de desigualdade econômica e social, simplesmente sugerindo como causa o empobrecimento das camadas menos abastadas da população. Esta conclusão pode ser parcialmente correta, porém outro aspecto da atualidade parece muito mais importante. Na corrida do desenvolvimento, os poucos protagonistas do avanço tecnológico e econômico saíram disparando na frente numa velocidade que a restante população não conseguem acompanhar. Com isso encorparam aquela minoria na ponta da prosperidade sem, no entanto, causar o empobrecimento de outros segmentos populacionais. Assim, a desigualdade não é necessariamente só de patrimônio, mas de capacidade de ajuste a novas realidade tecnológicas e econômicas. Lembrando que sem esta consideração, os resultados apurados acabam por ganhar conotação demagógica, passo a palavras para a educação.    


quarta-feira, 20 de novembro de 2019

O Clique do Repasse



O Clique do Repasse
(The Pass On Click - This text was written in a way to ease comprehensive electronic translations.)

Klaus H. G. Rehfeldt

Na medida em que a comunicação eletrônica intensificou, e muito, nossos contatos e laços com um número cada vez maior de pessoas e entidades, aumentou expressivamente nossa visibilidade em todos os sentidos. 

Sempre quando ouço falar em privacidade me pergunto quem, e em que grau, está realmente preocupado com isso. Obviamente, empresas como google, facebook, twitter, instagram e similares precisam manter o respeito pela privacidade em suas bandeiras, mais em defesa própria do que no interesse do usuário. Em outra esfera, as mais diversas instâncias governamentais mantêm hoje incontáveis câmaras de segurança, inclusive com identificação facial, nos espaços públicos, e se sua janela estiver aberta, nada impede uma olhadela por um desses espiões para dentro de seu quarto. Coisas de Big Brother e o público vê isso com indiferença.
Quando, porém, você se deslocar para o imenso mundo das redes sociais, a indiferença cede lugar irresponsabilidade – especialmente com respeito à privacidade do próprio autor de textos, comentários, contribuições etc. Até o advento dessas redes, as comunicações interpessoais, fossem elas faladas ou escritas, salva quando se tratasse de efetivas agressões, desenvolviam-se obedecendo determinados preceitos de respeito ao interlocutor. A fora a consideração demonstrada com relação ao outro, esta conduta, as vezes até exacerbada ao ridículo ou caricato, pouco, ou quase nada, revelava sobre o caráter, os princípios, as convicções etc. do emitente da mensagem, salvo se ele voluntariamente ou por inabilidade ou descuido desse mostras nestes sentidos. A preservação da imagem do interlocutor sempre está presente nessas modalidades de comunicação, não por último devido à identificação inevitável.
A intercomunicação através das redes sociais invalidou amplamente os filtros convencionais. A origem da notícia ali veiculada pode se perder no espaço e no tempo através de repetidos repasses e o destinatário é a rede, uma coletividade amorfa de receptores interessados, ou não. E é exatamente a falta deste tipo de filtros que acaba por expor o ‘autor’ da notícia sem que ele se dê conta disso.  Mesmo as postagens não sendo de autoria do emitente, seus conteúdos e o fato de serem repassados categorizam o autor do clique, identificando-o como simpatizante do assunto enfocado e de sua interpretação (salvo em caso de manifesta contestação).   
O anonimato leva a pessoa a não se importar com os efeitos daquilo que diz ou escreve e, por conseguinte, propiciando que esqueça, ou mesmo dispense a autocrítica. Dessa maneira, basta um número relativamente pequeno de repasses relativos a um determinado tema para o interlocutor ganhar elementos suficientes para deduzir um perfil geral ou específico do repassador. Este perfil fica mais preciso na medida em que aumentam os repasses.
Na prática, o que parece um mero automatismo transforma o autor do clique de protagonista em vítima da insensatez do próprio narcisismo, da sensação de palco, de (supostas) genialidade ou sabedoria e outras fraquezas mais.
Diante disso fica a pergunta: será que a pessoa realmente deseja produzir a imagem – a nudez de sua personalidade – que seus cliques de repasse são capazes de construir?


domingo, 3 de novembro de 2019

Os Buracos São Mais embaixo.



Os Buracos São Mais em Baixo.
(The Holes Are Further Down. - This text was written in a way to ease comprehensive electronic translations.)

Klaus H. G. Rehfeldt

Depois de previsões generalizadas de um período de esfriamento do nosso planeta na década de 1980, um passado mais recente aponta na direção contrária: o aquecimento global. Se este fenômeno tem e em que grau, ou não, contribuição humana deveria ser visto como secundário, uma vez que trabalhamos apenas com conjecturas por falta de conhecimentos específicos e mecanismos que permitam determinar com precisão dados, causas e efeitos e suas respectivas intensidades. Como, porém, vivemos uma situação bastante clara, cabe-nos enfrenta-la e fazer o possível para limitar ou reduzir reais e possíveis causas e efeitos. E é o que está acontecendo de variadas formas. Os focos de proteção ambiental são os mais diversos e amplamente conhecidos: poluição atmosférica, dos mares e da terra pela mão humana.
            Mass nem tudo é ‘obra’ do homem. Um asteroide caiu na Terra, há 350 milhões de anos, e, além de outros estragos enormes, extinguiu os lagartos sauros, abrindo espaço para o futuro dos mamíferos. Sempre e até na atualidade, vulcões irrompem de tempos em tempos em todo o plantes. Pinatubo e Tambora são conhecidos, e conhecidos são as catástrofes ambientais que causaram. Segundo vulcanólogos, existem hoje cerca de 1.900 vulcões em estado ativo ou latente na superfície da Terra.
Pouco, porém se sabe dos vulcões submarinos estimados pelos mesmo estudiosos em cerca de um milhão, que se escondem no fundo dos mares ao longo de fendas geológicas, margens de placas tectônicas e outros locais. Trata-se de um mundo menos conhecido do que muitas regiões do espaço sideral. Erupções desses vulcões, quase sempre episódicos, costumam liberar, além da magma que permanece no fundo do mar, gases como dióxido de enxofre, dióxido de carbono (CO2), halogêneo de hidrogênio e ácido sulfúrico, que podem chegar à atmosfera às centenas de milhões de toneladas numa ertupção. Dependendo da profundidade da erupção e de sua intensidade, estes gases chegam à atmosfera em formas que variam de espessos rolos de fumaça a bilhões de pequenas bolhas. Não dispomos de meios para medir os danos causados à fauna e flora marinha por esses eventos. 
Outro aspecto é o próprio calor da magma e dos gases transmitido à água. Se por uma lado temos imensos volumes de água distribuídos nos mares de nosso planeta, por outro é preciso considerar que as temperaturas dos mares situam-se num gradiente de menos de 20o C entre as maiores profundidades e a superfície. E bastam, por exemplo, mudanças de frações decimais de graus no Oceano Pacífico para desencadear fenômenos climáticos como El Niño com efeitos dramáticos no continente sul-americano. Pesquisadores concluíram que, nos últimos anos, as atividades vulcânicas submarinas se intensificaram – e as temperaturas médias anuais sobre a Terra subiram.
Nessas profundidades, imensas forças eruptivas contrapõe-se a pressões de colunas d’agua de milhares de metros de altura num frágil equilíbrio.  Somos efetivamente impotentes contra tais forças da natureza e as condições que elas criam, mas isso não nos isenta da responsabilidade de evitar que a ação humana agrave ainda mais a situação.       


sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Vida Eterna?



Vida Eterna?
(Eternal Life? - This text was written in a way to ease electronic translations.)

Klaus H. G. Rehfeldt

Recentemente, a revista Veja publicou um artigo sob o título “Em Busca da Vida Eterna”. Ali elencou uma série de pesquisas médicas realizadas nas mais diversas universidades mundo afora, destinadas a prevenir ou corrigir deficiências físicas e mentais, sejam elas de origem natural pelo próprio envelhecimento do organismos, sejam por razões patológicas. Um verdadeiro festival de ciborguisação. Não há dúvida que se trata de pesquisas sérias e com resultados confiáveis, especialmente concernindo casos específicos. Até onde tais intervenções são aplicáveis de forma concomitante, ou mesmo que sucessivamente em várias partes e funções do nosso organismo, ficará para outro plano de investigação médica científica. O otimismo, porém, impressiona e toda iniciativa para melhorar ou preservar condições de saúde é merecedora de aplausos.
            A vida e sua duração, entretanto, exigem outras considerações e abordagens. Sob o aspecto biológico existe uma predeterminação na natureza inerente a cada espécie diretamente ligada à sua constituição fisiológica e seu ambiente vivencial. Entre todas as espécies da fauna conhecidas, apenas o homem sofreu mudanças realmente radicais ao longo de sua história (em escala infinitamente menor, alguns animais domesticadas). Como nesse caso se trata de uma evolução qualitativamente positiva, envolvendo diversos fatores de melhora das condições de vida, seria no mínimo ingênuo ou míope não admitir que isso possa ter influenciado a duração de vida da espécie humana.
Existe uma diferença entre limite biológico de idade e expectativa de vida. Desde quando existem registros mais numerosos sobre longevidades atingidas ao longo dos últimos dois milênios, as mesmas giram em torno dos 100 anos. O que tem mudados é o número de pessoas que, não por último pelos avanças da medicina, se aproximam – e cada vez mais – dessa idade limite, aumentando sua expectativa de vida. É preciso atentar, porém, que nessa grandeza trata-se de uma média estatística influenciada, também positivamente, pela queda drástica dos índices de mortandade infantil durante as últimas décadas.
Por outro lado, uma vida eterna generalizada envolveria uma questão demográfica importante. A cada cerca de 30 anos nasce uma nova geração em número aproximadamente igual à anterior. Na hipótese da vida eterna, não havendo mortes na ponta dos idosos, isso significaria um aumento populacional em progressão geométrica, ou seja, ao cabo de 100 anos teríamos uma população cerca de dez vezes maior que a atual – algo em torno de 70 bilhões de habitantes com uma consequência fatídica: muito antes de chegar nesse ponto, os jovens eliminariam os velhos para não morrer de fome. Adeus, vida eterna.


quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Coisas do Mercado



Coisas do Mercado.

Klaus H. G. Rehfeldt

Três dias antes do solstício de verão do ano de 2853 antes de Cristo, Jida, sem saber que este era o ano e morador do vilarejo de Sabn, na Mesopotâmia, deixa sua casa ao nascer do sol em direção ao mercado da cidade próxima, Ur, carregando nas costas um cabrito e duas medidas de cevada. Depois de várias tentativas consegue achar um tecelão disposto a trocar o cabrito por um bom pedaço de linho, que deverá vestir sua filha Siha em seu casamento. Não é do tamanho, nem da qualidade que ele esperava, mas como o leite da cabra foi também consumido pela família, o cabrito era um pouco magro. A segunda compra foi um jarrão de argila para o preparo do vinho da festa em pagamento da cevada. Jida voltou para casa satisfeito; sua próxima visita ao mercado de Ur demoraria anos.
Quando o vulcão Tambora irrompeu na Indonésia em 1815 liberou uma nuvem de enxofre que circundou e se fixou ao redor da Terra durante dois anos. Além de mais de 10 mil mortes diretas, as consequências foram catastróficas: monções retardados, mas com inundações violentas na Índia, uma epidemia de cólera que se alastrou pelo mundo nas duas décadas seguintes, e em todo o hemisfério norte um ano sem verão – e um ano sem colheitas. Então, comerciantes espertos, percebendo a situação ainda na fase da semeadura, compraram todas as reservas de grãos dos lavradores a preços convidativos, condenando estes, obviamente menos informados, a morrer de fome nos meses seguintes.
Ano 2019: entre o primeiro clique e a conclusão da compra online passam-se menos de cinco minutos e depois de 15 dias e percorrer uma distância de mais de 20 mil quilômetros, o produto é entregue em casa. 
Desde seu papel primitivo de oferecer excedentes agrícolas à venda nas cidades emergentes até seus modernos mecanismos envolvendo e interconectando praticamente toda a população do planeta, o mercado reuniu necessidade e benefício em sua função de parte central da economia. Desde sempre, utilidade, escassez e abundância das mercadorias e seu valor objetivo e subjetivo determinaram os preços, e a história dos meios de pagamento vai do escambo à moeda eletrônico, passando por conchas, pepitas de ouro e letras de câmbio.
Um sistema simples e compreensível a todos tornou-se complexo e quase imperscrutável quando os próprios meios de pagamento sem valor intrínseco se tornaram mercadoria e atividades especulativas de elevado risco inseriram segmentos inteiros na economia moderna. Se, por uma lado, o mercado se ampliou em extensão, diversidade e especificidades, por outro, num processo de continua evolução, ganhou facetas e mecanismos cada vez mais sofisticados e requintados – sempre inclusos no preço do produto.
E novas modalidades, particularidades inéditas e estratégias surpreendentes surgirão com as previsíveis mudanças nos fatores condicionantes do seu funcionamento. Aspectos como,
- estagnação demográfica, apontando para um crescimento negativo,
- inflação baixa e decrescente,
- o crescente desinteresse pela propriedade em troca do acesso ao produto por arrendamento,
- as incertezas para o trabalho do futuro, e
- acima de tudo, uma população mais bem informada e de conhecimento aprimorado,
todos interdependentes e se retroalimentando mutuamente, tendem, por exemplo, a inibir o sistema de crédito destinado ao consumo com evidentes reflexos sobre os juros e a subtrair riscos gerais do mercado.
Falar em juros sugere lembrar o fato de o mundo árabe islâmico condenar a cobrança de juros (um preceito derivado da proibição do juro no cristianismo de primeira hora). Esconde-se atrás disso um filosofia de vida muito sábia: “Se eu disponibilizo minhas sobras àqueles que podem utilizá-los para melhorar suas vidas, sem nada cobrar por isto, contribuo para a ventura da minha sociedade, proporcionando-me novas oportunidades e mais prosperidade – mais lenta, mas mais solidamente. Você sempre viverá melhor como próspero entre iguais, do que como rico no meio da pobreza”. Um bom passo em direção à igualdade social.


domingo, 27 de outubro de 2019

Mudanças, Muitas Mudanças. E Depois?



Mudanças, Muitas Mudanças. E Depois?

Klaus H. G. Rehfeldt

            A própria vida é um processo contínuo de mudanças. Ela é uma sequência de mudanças inicialmente evolutivas, mais tarde para passando para involutivas e acabando com uma mudança radical – sua extinção pela morte. Na existência da espécie humana sobre a Terra podemos registrar um paralelo até o estágio atual, embora restrito à primeira fase. De mudança em mudança percorremos o caminho do homem primitivo ao atual estado civilizatório. Mudanças lentas e com episódios espaçadas, às vezes regressivas, ganham dinâmica maior na medida em que o homem desenvolve ciências, ‘tecnologias’ e habilidades da pedra lascada à estação espacial, passando pela invenção do arado, da roda, da vela e a geração de energia.    
Mas também ouve momentos de transformações realmente revolucionárias como a introdução do cultivo da terra, o surgimento da sociedade assalariada e a invenção da cibernética com as respectivamente consequentes mudanças sociais, econômicas, políticas e culturais.
Se a dimensão das mudanças surpreende, a aceleração do ritmo com que aconteceram assusta. Foram cerca de 300 mil anos para o homem descobrir as vantagens do plantio dos primeiros grãos e da domesticação de animais, meros 10 mil anos para a passagem da sociedade agrícola para a assalariada, e apenas 2 séculos para, através da tecnologia da informação, a substituição do trabalho humano pela robotização, e, na sua extensão, do trabalho mental pela inteligência artificial. Atualmente, a velocidade com que o conhecimento e a tecnologia avançam é tal que as mudanças mais significativas, que ainda no século passado se processavam ao longo de uma ou duas gerações, ocorrem em períodos inferiores a dez anos.
Os resultados disso estão se evidenciando. Por um lado, a organização social e política não consegue adaptar-se com a mesma velocidade com que as transformações ocorrem e geram consequências, desde comportamentais (ativas e reativas) a legais.
Por outro, e mais dramático, configuram-se as projeções desta realidade sobre o indivíduo. Nessa dimensão encontram-se pessoas de certa idade que, apesar de boa formação escolar e um sólido passado profissional, precisam recorrer aos netos para explorar os recursos de seu smartphone, mas também o jovem que por carência de escolaridade e conhecimento não preenche os requisitos mínimos para ter chances profissionais no moderno mundo de trabalho. O primeiro caso não tem solução enquanto esta geração estiver viva, já o segundo exige medidas radicais na área de educação, de preferência uma reforma total da educação, da concepção à aplicação, visando um preparo profissional mais eficaz.
Nada indica um alteração no ritmo com que surgem avanços científicos e tecnológicos geradores de novas mudanças e transformações até nos fundamentais parâmetros existenciais; mais provável é uma continua aceleração no progresso tecnológico. Encontramo-nos no início de uma nova revolução tecnológica – a inteligência artificial (IA), por enquanto ainda na fase da chamada IA fraca, ou seja, até o momento, por exemplo, ela seria incapaz (ainda) de programar o processo produtivo circular a partir do produto final preestabelecido. Porém, a IA desenvolver-se-á à sua perfeição e à produção de lucros fabulosos. Depois desta, a próxima provável revolução tecnológica não deve demorar a acontecer.
É preciso ter em mente a palavra ‘provável’. A razão é simples. Atualmente já existem na China, na Índia, no Brasil e em praticamente todos os países emergentes, mas também nos Estado Unidos e outros países desenvolvidos, bilhões de pessoas ainda presas na chamada old economy sem haver perspectiva de tirá-las dessa situação. Beneficiar-se das conquistas tecnológicas não significa participar delas. Mesmo uma maciça expansão do setor de serviços não promete ser uma resposta efetiva e suficiente. Por outro lado, uma introdução a médio prazo de mecanismos de amparo socioeconômico como a renda universal básica pode resolver somente parte do problema. Continuarão abertas questões como: O que será do homem desocupado? Quais efeitos psicossociais serão desencadeados nessa população socioeconomicamente descolada e marginalizada? Que possíveis atrofiamentos físicos e mentais poderão resultar de um estado permanente de inatividade? Que universo de pessoas terá participação ativa nas tecnologias da respectiva última geração? E por fim, serão os regimes democráticos capazes de acolher e enfrentar tais realidades e oferecer soluções a essas sociedades econômica, social e, com resultado, politicamente desarticuladas?
Urge pensar em respostas efetivas e com aplicação no curto e médio prazo!            


sexta-feira, 25 de outubro de 2019

Aumento Populacional sem Crescimento



Aumento Populacional sem Crescimento

Klaus H.G. Rehfeldt

O título soa estranho, incoerente, mas, vejamos:
Recentemente, o IBGE publicou que a população brasileira ultrapassou a marca dos 210 milhões de habitantes em julho deste ano. Trata-se, no caso, de uma estimativa; um censo geral deverá ocorrer somente no próximo ano. No mesmo contexto, anunciou um crescimento demográfico de 0,78% no espaço de 2018 a 2019, fato comemorado com destaque pela mídia nacional.
            Na realidade não se trata de um crescimento, mas sim, de um mero aumento de habitantes. Esses dois conceitos são aparentemente sinônimos, têm, porém, características bastante distintas. Dois outros dados do mesmo instituto esclarecem essa divergência.
            A permanente queda na taxa de fertilidade da mulher brasileira ao longo das últimas seis décadas para o atual 1,7 filho por mulher (insuficiente para a reposição da população) redundou, como não podia ser diferente, na primeira redução da base da pirâmide etária na década de 1980, até então no formato de um perfeito cone. Esta redução nas populações infantis e jovens continua e o antigo cone está se assemelhando cada vez mais a uma cebola.
            A queda nesse segmento populacional é significativa com uma queda percentual de 29,6% para 21,3% de participação na população total do ano 2000 até hoje. Isso são atualmente cerca de 300 mil pessoas por ano a menos entrando na vida economicamente ativa – como geradores de riquezas e como consumidores. Há, sim, um crescimento negativo nas faixas etárias baixas.
            Na ponta da pirâmide etária há outra particularidade, apontando na direção contrária – a elevação da expectativa de vida. Num processo que já dura todo o último século observamos um ganho de longevidade nos brasileiros com 65 e mais anos. Esta parte da população aumento desde o ano 2000 de uma participação de 5,9% para atuais 9,2% na totalidade da população – um aumento atual de cerca de 525 mil pessoas por ano. O perfil econômico desse segmento, porém, caracteriza-se por baixa atividade produtiva e um estreitamento e empobrecimento de renda e consumo.
            As mesmas tendência de mudanças há, em escala menor, nas respectivas faixas etária adjacentes. Tirando diferenças regionais, o Brasil não vive mais um crescimento populacional, mas mero ganho numérico, o que explica grande parte dos problemas econômicos atuais do Brasil – o desemprego não deslinda tudo.
           

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Desemprego ou Despreparo?



Desemprego ou Despreparo?

Klaus H. G. Rehfeldt

O desemprego, principalmente quando se apresenta em escala maior, costuma ser tratado como se fosse um fenômeno de força maior. Ocorre que desemprego não é causa, é efeito. Efeito de duas circunstâncias claramente definíveis: a falta de trabalho ou a falta de preparo para o trabalho. Dos atuais cerca de 12 milhões de desempregados no Brasil certamente um grande número de atingidos é composto de profissionais qualificados que não encontram colocação por falta de vagas, ou porque estas estão sendo preenchidas por pessoas mais jovens, devido à situação conjuntural, ou ainda, em razão da eliminação de determinadas atividades por meio de processos de digitalização, automação ou robotização em curso em quase todas as áreas econômicas. Para estes profissionais resta esperar um reaquecimento da economia ou realizar uma reciclagem em outra direção profissional.
            Maior e mais preocupante é o imensa massa de desempregados ou subempregados sem preparo escolar e profissional. Deixou de existir a função do servente de serviços gerais, muito menos a do auxiliar dele, está desaparecendo o trabalhador rural e o safrista, nem o auxiliar de escritório ou o vendedor de temporada deve esperar perspectivas satisfatórias para o futuro. O emprego industrial está em contínuo desaparecimento, enquanto a prestação de serviços se expande e se fortalece no mercado, porém, com enorme diferença de requisitos profissionais, atualmente inexistentes ou insuficientes no mercado do trabalho. O déficit de profissionais na informática é emblemático.
            Houve e continua havendo quem, em vista dessa realidade, aposta na concorrência através da mão de obra barata, não se importando com os consequentes índices baixíssimos de produtividade comuns no Brasil. Políticos de esquerda e sindicatos visam assim atender às peculiaridades – de despreparo – de grande parte da mão de obra disponível, ao mesmo tempo imaginando vantagens competitivas especialmente no mercado externo. Um absoluto paralogismo. A baixa produtividade não é garantia para mais empregos ou a manutenção dos existentes, nem beneficia a concorrência no longo prazo; a baixa produtividade compromete a permanência dos locais de trabalho porque coloca em risco a sobrevivência do empregador, enquanto alta produtividade assegura melhores condições de competição e a expansão do negócio. O estabelecimento produtivo desbanca a concorrência, se expande, abre filiais ou franquias, até fora do mercado doméstico – e cria novos empregos. É nessa direção que se desenvolvem hoje as estratégias micro- e macroeconômicas.
Segundo o IBGE-PNAD/2018, a taxa de frequência líquida no ensino médio (15 a 17 anos) foi de 69,3%, ou seja, 30,7% dos alunos estavam atrasados ou tinham deixado a escola. Num outro vetor, com relação aos jovens de 15 a 29 anos, constatou-se que 24,0% não trabalham, nem estudavam ou se qualificavam – cerca de 8% da força de trabalho do Brasil. Além desses, o número de desempregados com até 24 anos de idade é de 5,6 milhões, perfazendo outros 5% da força de trabalho. Esses dois grupos totalizam 13% do potencial de trabalho brasileira, i.e., um em cada oito jovens, e é razoável concluir que nesse contingente se concentrem os jovens sem qualquer preparo profissional. Mesmo para uma país solidamente desenvolvido isso representaria um ônus social e econômico muito significativo.
O grave da situação é que esses jovens já estão aí e, por isso, uma reversão da situação exige medidas urgentes e rápidas não apenas por parte do governo, mas também da sociedade civil – sindicatos de classe, ONGs, e as próprias empresas (onde isso já vem acontecendo). Talvez haja necessidade de sacrificar ou reformatar outros programas políticos, econômicos ou sociais, mas se há empenho com sucesso garantido, esse é na educação. A falta de educação cria sucessivamente problemas sociais, de segurança e de saúde; com reversão garantida dos mesmos na proporção geométrica em que os níveis de educação melhoram. Não existe país neste mundo que tivesse sofrido algum prejuízo em consequência de excesso de conhecimento por parte de sua população – muito pelo contrário.
Os jovens de hoje sem propósitos, sem projetos e sem oportunidades, sem a chance de tornarem-se aptos para uma vida profissional satisfatória, serão os adultos de amanhã, frustrados, desiludidos, revoltados e dependentes do sistema social do estado pelo resto da vida.       

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Deflação



Deflação

Klaus H. G. Rehfeldt

Tecnicamente falando, uma situação deflacionária caracteriza-se pela queda geral de preços com duas causas principais: a falta de meios de pagamento, ou uma redução geral de demanda – a oferta é maior que a procura. E, numa visão geral dos economistas, a deflação é fator inibidor do desenvolvimento econômico devido ao desestímulo para o consumo. Alguns países, como o Japão, estão esvaziando esta argumentação.
O aparecimento episódico de um cenário deflacionário costuma decorrer de fatores conjunturais momentâneos decorrentes, por exemplo, de equívocos de política econômica ou por uma simples retração da demanda em função de uma inseguranças econômica generalizada. Diferente é a situação quando se trata de uma processo evolutivo que se inicia com o gradual declínio das taxas de inflação, resultando finalmente num estado deflacionário.
Esta é o atual quadro conjuntural do Brasil. Depois de um longo período de índices baixos e decrescentes da inflação, apesar de continuas tentativas de aquecimento do mercado mediante inventivos ao consumo e injeção de meios financeiros, o mês de setembro de 2019 encerrou com uma deflação de 0,04%. As tentativas de explicação foram muitas, como desemprego, falta de perspectivas econômicas positiva, etc.
Não contemplaram, porém, um aspecto importante. Por representar uma grandeza de fundo permanente, historicamente um vetor ascendente e de efeito geralmente positivo, mormente numa economia de consumo, as mudanças demográficas não costumam entrar nas reflexões macroeconômicas, exceto na questão do envelhecimento da sociedade pelo simples fato de constituir um problema previdenciário. Embora a idade máxima absoluta não tenha mudado significativamente ao longo dos últimos séculos, um número rapidamente crescente de pessoas aproxima-se desse limite, aumentando de forma expressiva o contingente da população idosa.
A outra ponta da escala etária tende a não ganhar a mesma atenção. Entretanto, desde o ano de 2000, a taxa de fertilidade da mulher brasileira situa-se inicialmente no nível de mera reposição da população com 2 filhos por mulher, passando em seguida para abaixo desse índice, ou seja, caindo continuamente para o atual 1,7 filho. Isso significa que desde então diminui ano a ano o número de novos consumidores. O Brasil só não apresenta um crescimento populacional negativo, porque o atual déficit de cerca de 300 mil nascimentos é compensado (e, ainda, superado) pelo ingresso e a permanência atuais de aproximadamente 525 mil pessoas 65+ no segmento dos idosos.
Com respeito à pressão deflacionária é preciso lembrar que, enquanto o potencial consumidor do idoso tende a diminuir em amplitude de produtos e quantidade com o envelhecimento da pessoa, este potencial ganha um espectro cada vez maior de produtos combinado com índices crescentes de descarte dos mesmos, uma vez que o número reduzido de filhos elimina e reutilização de roupas e brinquedos, por exemplo, pelos irmãos mais novos inexistentes. O encolhimento da base da pirâmide etária deverá projetar-se gradativamente sobre mercados específicos, começando, por exemplo, com artigos para bebês, depois passando para os brinquedos e o material escolar e assim por diante.
Tais aspectos demográficos certamente não respondem pela totalidade do índice deflacionário, mas certamente têm um peso importante na composição dos fatores que o compõe, e este peso deverá aumentar.   

domingo, 6 de outubro de 2019

Sofisma ou Fake News



Sofisma ou Fake News?

Klaus H. G. Rehfeldt

O assunto é recorrente na mídia, mas especialmente nas redes sociais: a invasão da Europa por migrantes islâmicos e sua suposta transformação da região para um continente islâmico. Mesmos no Brasil, a 10 mil quilómetros de distância e totalmente à margem desse contexto, tais notícias são veiculadas, talvez meramente pela questão religiosa. Ou por mero sensacionalismo. Por isso cabe um análise mais aprofundada.
Primeiramente cabe notar que depois de um ápice de movimentos migratórios, entre refugiados e migrantes econômicos para a Europa em 2015, constata-se uma contínua e constante queda para cerca a metade em 2018, sem falar que muitos estão voltando a seus países de origem. Atualmente entram na Europa cerca de 4 pessoas para casa 1.000 habitantes, ou seja, aproximadamente 0,4% de uma população de quase 750 milhões de habitantes com uma momentânea taxa de crescimento de 0,1%. Isso significa que, falando globalmente da Europa que possui realidades demográficas bastante diversas, esse continente estaria hoje sem a imigração registrando uma queda populacional de 0,3% (2,25 milhões de pessoas) ao ano. (Apenas a título de comparação e curiosidade: em 2018, a população da China não aumentou mais, mas encolheu em 700 mil pessoas.)
Com relação a uma suposta perda de hegemonia do cristianismo para o islamismo na Europa devido às diferentes taxas de fertilidades entre a população residente e os migrantes circulam informações e dados alarmantes. A realidade é outra. A atual taxa de fertilidade da mulher europeia é de 1,59 filhos, com o mínimo de 1,26 filhos em Malta e o máximo de 1,90 na França. Por outro lado, os principais países de origem de migrantes para a Alemanha (principal país receptor) são em ordem de grandeza e com as respectivas taxas de fertilidade: Síria (2,8 filhos por mulher), Iraque (4,3), Nigéria (5,4), Turquia (2,0), Afeganistão (4,4) e Irã (1,6).
Referente a este aspecto é importante salientar que a queda das taxas de fertilidade nos países desenvolvidos, especialmente na Europa, não decorre de qualquer capricho da natureza, mas da clara e decisiva resolução da mulher por menos filhos em benefício de autonomia social e econômica. E esta postura é rapidamente adotada pela mulher imigrante, seja como simples assimilação do modelo feminino da mulher europeia, seja por motivo de concorrência profissional.
Concluindo, percebem-se nítidas divergências entre os dados e as ameaças amplamente divulgadas e inocentemente compartilhadas nas mídias sociais e os dados efetivos. Além disso, uma oportuna reflexão: o que dizer de uma sociedade etnicamente estável (para não dizer pura) em declínio populacional irreversível num processo de encolhimento de seu potencial humano? Certamente não é uma perspectiva muito promissora para as gerações futuras.   



quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Julgar Quem, Julgar o Quê?



Julgar Quem, Julgar o Quê?

Klaus H. G. Rehfeldt

Observemos um desfile militar de milhares de militares de ambos os sexos. É um contingente de iguais milhares de pessoas diferentes, personalidades distintas, de variadas origens étnicas, mais ou menos jovens, mais ou menos bonitas, mais ou menos simpáticas, ricas ou pobres, ambiciosas ou letárgicas, inteligentes ou tolas etc., etc., etc. Todas essas diversidades desparecem sob uniformes idênticos e no cumprimento simultâneo e sincronizado das ordens dadas. E se um dos soldados no meio desse desfile marchar fora do passo?
O indivíduo ganha notoriedade como tal apenas quando sai do passo, seja por descuido, por discordância ou por inconformidade. De resto, padrões socioculturais, a língua e outros aspectos comuns são os uniformes que escondem, às vezes mimetizam, as singularidades dos componentes de uma sociedade.
O imenso universo de desigualdades presentes, mas não percebidas pelo prisma da coletividade, é essencial para a constituição e existência da nossa sociedade. Uma coletividade composta de seres absolutamente iguais se auto-extinguiria. Portanto, a diversidade e consequente pluralidade nas sociedades é nossa garantia de sobrevida como espécie. Um aspecto importante é a improvável mutabilidade das personalidades, e mesmo que um universos de indivíduos receba as mesmas chances em seu preparo para a vida, cada membro desse universo deverá utilizá-las diferentemente de acordo com suas inclinações, seu ego, seu caráter e as impressões digitais de sua singularidade.
            Tendo isso em mente, evidencia-se a insanidade do julgamento da pessoa pelo que ela representa e pelo que ela é como resultado dos atributos que a natureza lhe conferiu, ou os moldes que a sociedade e sua condição de vida lhe impuseram. Somos todos imperfeitos. O que, então, qualifica uma pessoa detentora de seus próprios defeitos a julgar as – supostas – imperfeições, os – possíveis – senões de seu próximo?
Cada um é o que é em grande parte por razões que independem de sua vontade, porém, cada um faz o que faz a partir de deliberações ou por falta delas. Não nos compete julgar o cleptomaníaco pela sua condição, mas cabe, sim, julgá-lo pela omissão do exercício de controle sobre seus impulsos. Salvo quando inimputáveis, somos todos responsáveis pelos nossos atos, sua justeza e suas consequências, ou as omissões dos atos que a vida em sociedade nos impõe. Meus atos, minhas atitudes e meu comportamento, estes sim, devem obedecer às normas da convivência que a coletividade espera de mim. Quando a harmoniosa relação de submissão do eu ao nós for quebrada exponho-me ao juízo da sociedade, seja pela autoridade instituída, seja pela manifestação do cidadão.
Embora haja uma absoluta e inquestionável clareza sobre a diferença entre o ‘ser’ e o ‘fazer’ (ou deixar de fazer), surpreende o enorme número de pessoas que não fazem, ou não conseguem fazer, o discernimento entre estes dois conceitos. Nos tempos da vida social exclusivamente real os julgamentos, cabíveis e indevidos, difundiam-se no restrito círculos de pessoas relacionadas, hoje eles são propagados entre universos imensuráveis pelos canais virtuais das redes (anti)sociais, por ignorância, por leviandade, por necessidade de autoafirmação ou autprojeção, ou por pura má-fé. Não sabem, aparentemente, estas pessoas que se envolvem num ato deliberado e, com isto, se tornam objeto de julgamento justificado pelas suas conceituações, tanto justas, quanto descabidas, impertinentes e intoleráveis – senão criminosos, quando tais juízos deixam a intimidade de suas mentes. Nas dimensões que a mídia moderna permite.
Quem eu sou só, cabe a mim julgar, o que faço, qualquer pessoas pode aprovar ou desaprovar. Cabe refletir!         

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Meio Ambiente e Clima



Meio Ambiente e Clima
(O subtítulo fica a cargo do leitor)

Klaus H. G. Rehfeldt

Há muito tempo, a humanidade deixou de viver na natureza para viver da natureza. A diferença está em manter o equilíbrio, ou desequilibrar nossa relação com o meio ambiente. Na busca de cada vez mais facilitar nossas condições de vida e de construir riquezas, nem sempre de bons modos com o planeta que nos abriga, parece termos chegado a uma encruzilhada: ou continuaremos do jeito como fizemos e vivemos até aqui com consequências imprevisíveis, embora fatalmente catastróficas, ou repensamos e mudamos nossos valores, dando à natureza a prioridade que lhe cabe e o respeito que merece para garantir um futuro de razoável tranquilidade de bem-estar às próximas gerações.
Abusamos da natureza e daquilo que ela nos oferece por demasiado tempo, não importa se por ignorância, negligência ou ganância. E salvo os povos indígenas que ainda existem espalhados sobre a Terra, nenhuma nação ou civilização escapa dessa acusação. Durante muito tempo, e até o início dos tempos modernos, os abusos ambientais cometidos não se traduziram em situações dramáticas pela simples lentidão com que crescia a população e a grande disponibilidade de recursos naturais em territórios até então inexplorados. Ao mesmo tempo, o avanço tecnológico processava-se apenas paulatinamente. Práticas adotadas ainda na Idade Média na Europa Central como o rodízio de culturas e descanso da terra e a preservação das florestas podem não ter tido os objetivos preservacionistas que lhes foram atribuídos por muito tempo, mas, em primeiro lugar, atendido fins mas diretos como maior rentabilidade da terra e a garantia de caça para o senhorio.
Da mesma forma, as queimadas – depois da extração da madeira – eram a maneira mais rápida e econômica de obtenção de terra cultivável e seus produtos, especialmente nas infindáveis terras encontradas pelos colonizadores nas Américas, na África e na Oceania. Na ausência de preocupações ecológicas, ou, sequer, a necessidades para tais, a prática da queimada assumiu caráter cultural nessas regiões, estando em uso até a atualidade. Hoje, diante da grave realidade ecológica, urge, naturalmente, convencer-se das consequências condenáveis e abandonar essa técnica simplista. O benefício ambiental de processos mecânicos de limpeza é certamente maior que seu ônus. Aliás, o composto resultante da decomposição natural da vegetação é qualitativamente bem superior àquele produzido por cinzas.  
Na Europa Central, de onde partem hoje a maiores críticas contra esse procedimento, o mesmo não existe mais por motivos óbvios. Desde meados do século passado, a lavoura de pequena escala é abandonada e substituída por reflorestamentos. Por outro lado, as queimadas de pastagens para fins de limpeza, prática comum em regiões tropicais devido ao rápido crescimento da vegetação que estraga as pastagens, são dispensáveis em terras de clima temperado por causa do frio dos invernos. Por outro lado, é preciso lembrar que as florestas dessas regiões sofrem uma permanente ameaça – inclusive perdas concretas – decorrente das chamadas chuvas ácidas, consequência da crescente poluição do ar ao longo dos últimos dois séculos.
A natureza vive da própria natureza, a substância viva alimenta-se de outras substâncias vivas. Esta é a essência da existência da natureza e do equilíbrio nela reinante. O homem começou a ameaçar esse equilíbrio ao começar a utilizar a natureza não apenas para seu sustento básico, mas também para seu conforto, para o atendimento de suas ambições e a busca de recursos que contribuam para facilitar sua vida. A natureza passa a fornecer matéria prima para a construção de suas casas, de suas ferramentas e utensílios, de suas armas e defesas, e principalmente para a geração de energia. A exploração dos recursos naturais para fins impostos pelo avanço civilizatório, combinado com o rápido crescimento demográfico, iniciou um desequilíbrio que apenas a partir de meados do século passado foi identificado como causador de graves problemas.
A década de 1970 e os primeiros anos de 1980 chamaram notáveis em ecologia de diversos Institutos e Universidades de renome em todo o mundo ao palco para discutir os fenômenos ambientais inusitados de então. Enchentes aqui, secas acolá, verões chuvosos demais que dizimaram as colheitas no Paquistão, nas Américas e no Japão em 1972, a expansão do deserto do Saara, encontraram unânimes explicações em diversas formas e intensidades de poluição ao redor do mundo. Mas, uma curiosidade: as previsões então feitas pelas mais ilustres cabeças na área da ecologia tinham um denominador comum – a chegada próxima de uma nova era glacial a partir da observação de constantes quedas de temperatura, incluindo consequências catastróficas como calamidades extremas, grandes partes inabitáveis no nosso planeta, tornados, secas, enchentes e muito mais.
Bastaram 40 anos para, a partir de novas observações dos termómetros ao redor do planeta, para as atuais autoridades em meio ambiente (não são mais os Linus Pauling, Geroge J. Kukla e outros de décadas anteriores) preverem, a partir de causas idênticas, embora com novas magnitudes, um aquecimento global para o resto de século e além.
Não devemos, portanto, estranhar, ou até nos surpreender, que algumas (ou muitas) pessoas veem com ceticismos os alarmes expedidos por supostos entendidos no assunto, e com as atribuições de culpa em todas as direções. E catastrofismo vai às custas da credibilidade.
Estamos abusando dos recursos que a natureza nos oferece e sobrecarregando sua capacidade de se regenerar e recuperar? Estamos, sim. A natureza está se mostrando sensível e respondendo a esse abuso com reações extremadas? Está, sim. Adianta discutir se apenas vivemos ciclos naturais já anteriormente observados em nosso planta, ou se a humanidades é responsável pelas mudanças ambientais e climáticas, e em que grau contribui para as mesmas? Não, isso não resolve o problema.
Adianta, sim, resolve, sim, a consciência de que a natureza tem seu preço, o uso indevido, ou abuso, cobre taxas e sobretaxas, que serão reclamados daqueles que dela usufruem – todos nós. Esta consciência, honestamente vivida por cada cidadão e pela sociedade como um todo, discernindo entre usufruição e destruição, entre consumo e desperdício, entre lucro e ganância, enfim, entre respeito e desprezo à natureza, fará a diferença. Quando esta consciência, semeada hoje no solo receptivo e fértil da nova geração, amanhã trouxer frutos para finalmente converter-se em cultura – sem metas, nem promessas – voltaremos a viver na e com a natureza – não dela. A natureza é um conjunto vivo e, portanto, é vulnerável. Ela certamente não abandonará seus caprichos, mas estes não serão consequências de posturas irresponsáveis e inconsequentes da humanidade e, talvez, poderemos atenuá-los.
          
  

domingo, 22 de setembro de 2019

Um Entulho que Assusta



Um Entulho que Assusta

Klaus H. G. Rehfeldt

Se deixamos de lado as torres das habitações italianas do fim da idade média (a maior atingindo 97 metros de altura em Bologna), o primeiro arranha-céu surgiu em 1885 durante o boom de reconstruções em Chicago, EUA, depois do grande fogo de 1871, que destruiu mais de 17 mil edificações – o Home Insurance Building com 10 andares. Daí em diante, as cidades de Chicago e New York tornaram-se palco inicial de uma sequência e evolução de construções comerciais e habitacionais cada vez mais altas e audaciosas. Logo outras cidades norte-americanas acompanharam o mesmo modelo. Em 1894, o Manhattan Life Building rompeu com 106 metros de altura a marca dos 100 metros. Algumas décadas mais tarde, a mesma tendência de construção civil repetiu-se em outros países ao redor do mundo, principalmente naqueles em fase de desenvolvimento e com urbanizações rápidas. Hoje, o erguimento de arranha-céus é uma prática comum e estamo-nos aproximando da marca do 1.000 metros de altura.
            O Home Insurance Bulding já não existe mais; e foi demolido em 1931 e deu lugar a outro edifício maior. A grande maioria dos arranha-céus construídos desde a fase inicial de sua concepção, porém, continua em pé, embora muitos já tenham ultrapassado sua vida útil considerada pelos técnicos em uma média de 80 anos, conforme tecnologia e qualidade empregadas. Essa vida útil não se refere à substância construtiva dos prédios, mas à sua adequação com os requisitos técnicos e de utilidade prática exigidos pelos modernos usos comercial e habitacional. Como tais fatores são objeto de constantes melhorias e inovações resulta como consequência um crescente número de prédios desocupados por simples obsolescência em recursos e conforto e a decorrente rejeição pelos donos ou locadores. O centro de São Paulo tem mais de 200 edificações nessa situação.
            Há duas opções como reposta: a simples demolição (que pode não ser tão simples assim) ou o chamado descaroçamento (demolição interna, preservando apenas as estruturas essenciais) e uma renovação total, cujo custo é praticamente o de um novo prédio, podendo até excedê-lo; assim a demolição fica retardada em mais alguma s décadas. A forma mais simples é a implosão, que, no entanto, nem sempre é possível, especialmente em centros urbanos na proximidade de outras edificações. Nesse caso, o custo de uma demolição organizada e estruturada pode ser bastante onerosa. Esta é certamente uma das razões para tantos edifícios abandonados nos nossos centros urbanos.
            São raros os casos em que edifícios técnica e economicamente obsoletos ganhem uma nova finalidade de ocupação, como garagens ou hortas verticais, pelo simples fato de sua estrutura construtiva não admitir esse tipo de redefinição de ocupação. Nesse momento estamos ainda no início de um novo ciclo na construção civil: a desconstrução civil. Na verdade, quase não existe ainda consciência dessa realidade, o que se confirma pela total ausência de qualquer preocupação com o desenvolvimento de tecnologias que facilitem uma futura demolição e especialmente a reciclagem dos materiais empregados na construção. Nem, sequer, existe planejamento para o descarte dos materiais de demolição, de preferência com algum objetivo de criação de alguma utilidade. Mas é preciso começar a pensar nesses aspectos antes de eles ganharem formas e magnitudes indesejadas.